{"id":10965,"date":"2016-05-04T21:27:04","date_gmt":"2016-05-05T00:27:04","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=10965"},"modified":"2016-05-20T20:53:06","modified_gmt":"2016-05-20T23:53:06","slug":"nos-nao-queremos-um-novo-pinheirinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/10965","title":{"rendered":"\u2018N\u00f3s n\u00e3o queremos um novo Pinheirinho\u2019"},"content":{"rendered":"<p><strong><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"347\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/vaidape.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/ExercitoSoma-600x347.jpeg?resize=600%2C347\" alt=\"\" \/>Em SP, uma das maiores ocupa\u00e7\u00f5es do pa\u00eds resiste sob a imin\u00eancia de uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Moradores temem uma reedi\u00e7\u00e3o do massacre promovido pela PM no Pinheirinho<\/strong><!--more--><\/p>\n<p>Por: Iuri Salles e Thiago Gabriel<br \/>\nFotos: Murilo Salazar<\/p>\n<p>Com 1 milh\u00e3o de m<sup>2<\/sup>\u00a0e pr\u00f3ximo ao centro da cidade, o terreno pertence \u00e0 massa falida da empresa Equipamentos Soma. A \u00e1rea ficou abandonada por quase 20 anos, at\u00e9 que, em 2012, centenas de fam\u00edlias organizaram a ocupa\u00e7\u00e3o, com o apoio do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).<\/p>\n<p>Hoje j\u00e1 s\u00e3o mais de 2.500 fam\u00edlias e aproximadamente 10 mil pessoas que vivem na ocupa\u00e7\u00e3o. Um verdadeiro bairro, que conta com com\u00e9rcios, casas de alvenaria, abastecimento improvisado de luz e \u00e1gua e, at\u00e9 mesmo, uma biblioteca. Uma das maiores ocupa\u00e7\u00f5es do pa\u00eds (foto acima).<\/p>\n<p>Os propriet\u00e1rios do terreno pedem a reintegra\u00e7\u00e3o de posse e alegam que os recursos obtidos com a venda do espa\u00e7o ser\u00e3o utilizados para pagar d\u00edvidas trabalhistas aos antigos funcion\u00e1rios da Equipamentos Soma. Os moradores argumentam que o terreno ficou inutilizado durante muitos<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o do Soma est\u00e1 amparada pelo MTST e conta com apoio jur\u00eddico e pol\u00edtico do movimento, que promete mobiliza\u00e7\u00f5es em \u00e2mbito nacional caso a reintegra\u00e7\u00e3o de posse se confirme.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu em janeiro deste ano, quando a comunidade recebeu a notifica\u00e7\u00e3o de que o terreno seria reintegrado. A solu\u00e7\u00e3o encontrada foi resistir e divulgar que as fam\u00edlias n\u00e3o sairiam do local. Os ocupantes chegaram at\u00e9 a organizar um grupo de combate, armado com escudos de tambores, capacetes, paus e pedras, com o intuito de resistir\u00a0a a\u00e7\u00e3o policial de despejo.<\/p>\n<p>O an\u00fancio dos moradores colocou a discuss\u00e3o sobre a reintegra\u00e7\u00e3o do Soma na m\u00eddia, e outras inst\u00e2ncias judiciais foram acionadas. Tr\u00eas dias antes do despejo, uma decis\u00e3o provis\u00f3ria concedida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, suspendeu a a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o. A suspens\u00e3o foi justificada por Lewandowski\u00a0sob a alega\u00e7\u00e3o de que a reintegra\u00e7\u00e3o \u201cpoder\u00e1 catalisar conflitos latentes, ensejando viola\u00e7\u00f5es aos diretos fundamentais daqueles que ser\u00e3o atingidos por ela\u201d, al\u00e9m da\u00a0falta de estrutura para a retirada dos ocupantes.<\/p>\n<p>Ainda assim, os moradores sabem que a felicidade que veio com a decis\u00e3o\u00a0est\u00e1 longe de ser o fim da guerra por moradia. A possibilidade de reintegra\u00e7\u00e3o atrapalha a vida das fam\u00edlias e o desenvolvimento de atividades na ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Rose \u00e9 cabeleireira e mora na Vila Soma desde 2012, quando a ocupa\u00e7\u00e3o se iniciou. \u201cA gente vive de esperan\u00e7a. Porque passamos\u00a0momentos dif\u00edceis, outros de al\u00edvio. Mas tem sempre aquela preocupa\u00e7\u00e3o, vai uma reintegra\u00e7\u00e3o, vem outra. S\u00f3 vamos ter paz quando resolver essa quest\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o fica mais complicada pela inexist\u00eancia de qualquer plano de remanejamento das fam\u00edlias. A Prefeitura de Sumar\u00e9 ofereceu um caminh\u00e3o para os moradores, por\u00e9m, a maioria n\u00e3o teria para onde ir com as suas coisas. \u201cQuando voc\u00ea tem pra onde ir voc\u00ea corre, n\u00e9? E quando voc\u00ea n\u00e3o tem?\u201d, indaga Rose.<\/p>\n<p><strong>ESPECULA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Uma das lideran\u00e7as da ocupa\u00e7\u00e3o, o professor Ricardo, explica que a prefeita da cidade, Cristina Carrara (PSDB), realiza uma campanha de criminaliza\u00e7\u00e3o do Soma e dificulta a viabilidade de outras solu\u00e7\u00f5es de moradia para as fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Ricardo conta que, desde o in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o, as lideran\u00e7as v\u00eam negociando junto ao poder p\u00fablico alternativas de moradia \u00e0s fam\u00edlias do Soma. Moradores j\u00e1 haviam se reunido com representantes da Prefeitura e dos governos do estado e federal, que designaram uma nova \u00e1rea para a realoca\u00e7\u00e3o dos ocupantes. O projeto conta com o apoio de duas entidades devidamente cadastradas na Caixa Econ\u00f4mica Federal e prev\u00ea a constru\u00e7\u00e3o de 1400 apartamentos, o que ainda \u00e9 insuficiente para atender todas as fam\u00edlias.\u00a0As moradias seriam\u00a0feitas pelo programa Minha Casa Minha Vida.<\/p>\n<p>Mesmo com o terreno escolhido e aprovado por t\u00e9cnicos e diferentes inst\u00e2ncias do poder p\u00fablico, \u00a0a prefeita de Sumar\u00e9 nega-se a assinar o documento que viabiliza a \u00e1rea para a constru\u00e7\u00e3o de moradias populares. \u201c\u00c9 dif\u00edcil saber o que passa na cabe\u00e7a dela, mas o que n\u00f3s moradores vemos e sentimos \u00e9 que ela tem um preconceito com as fam\u00edlias daqui. \u00c9 uma \u00e1rea pr\u00f3xima ao centro da cidade e com muita especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, ent\u00e3o a elite com certeza n\u00e3o quer nos ver aqui\u201d, lamenta Ricardo.<\/p>\n<p>Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Sumar\u00e9 n\u00e3o se posicionou sobre qual alternativa oferece as fam\u00edlias, nem sobre a constru\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00f5es populares. A equipe da Vaidap\u00e9 tamb\u00e9m\u00a0procurou a prefeita Cristina Carrara. Depois de diversos contatos com ela e a superintend\u00eancia de habita\u00e7\u00e3o da cidade, nenhuma resposta foi encaminhada.<\/p>\n<p><strong>PRECONCEITO<\/strong><\/p>\n<p>Se a luta por moradia j\u00e1 representa uma batalha a ser travada todos os dias com o poder p\u00fablico, os moradores tem de enfrentar ainda o preconceito de muitos moradores de Sumar\u00e9, refor\u00e7ado pelo discurso da prefeita. As fam\u00edlias relatam que vagas em creches e hospitais s\u00e3o mais dif\u00edceis para os moradores do Soma.<\/p>\n<p>A diferencia\u00e7\u00e3o ocorre tamb\u00e9m na hora de arrumar emprego na cidade, como aconteceu com Karine: \u201cA mulher me perguntou tudo, pegou meus dados tudo certinho, quando eu disse que morava no Soma, ela respondeu\u00a0que ia me ligar e nunca mais ligou\u201d, conta.<\/p>\n<p>A diretora de uma escola pr\u00f3xima \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o chegou a pedir\u00a0para as crian\u00e7as do Soma levarem dois cal\u00e7ados para o col\u00e9gio. A justificativa apresentada foi de que a escola n\u00e3o era obrigada a limpar o barro espalhado pelas crian\u00e7as da ocupa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o terreno \u00e9 de terra batida.<\/p>\n<p>Edinho, que tamb\u00e9m vive no terreno e ajudou a organizar a resist\u00eancia contra a reintegra\u00e7\u00e3o, indaga: \u201cAs crian\u00e7as aqui mal tem um sapato, vai pra escola de chinelo. Tem crian\u00e7a que parou de estudar porque os colegas escutam e ficam falando, xingando que \u00e9 do Soma, que \u00e9 p\u00e9 de barro. Umas dez crian\u00e7as acabaram desistindo do ano por causa disso\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m\u00a0do preconceito, os moradores enfrentam os\u00a0problemas cotidianos de uma ocupa\u00e7\u00e3o. Dentre as maiores dificuldades, Rose cita o abastecimento de \u00e1gua, feito atrav\u00e9s de caminh\u00f5es-pipa. \u201cNo meu caso, eu fiquei um m\u00eas sem trabalhar porque choveu muito e o caminh\u00e3o-pipa n\u00e3o tava subindo aqui.\u201d<\/p>\n<p>A chegada dos caminh\u00f5es j\u00e1 faz parte da rotina das fam\u00edlias, que tem de comprar a quantidade desejada e abastecer as caixas d\u2019\u00e1gua, presentes em quase todas as casas.<\/p>\n<p>A\u00a0possibilidade de reintegra\u00e7\u00e3o e a guerrilha formada pelos moradores, chamaram aten\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, sobretudo pela semelhan\u00e7a da situa\u00e7\u00e3o com o massacre promovido pela Pol\u00edcia Militar no Pinheirinho, em janeiro de 2012. A \u00e1rea, onde j\u00e1 se estabeleciam cerca de 8 mil pessoas, sete igrejas, espa\u00e7os comerciais\u00a0\u00a0e de lazer, sofreu uma violenta reintegra\u00e7\u00e3o de posse que pautou den\u00fancias de \u00f3rg\u00e3os como a\u00a0Secretaria de Direitos Humanos, Anistia Internacional,\u00a0Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal,\u00a0Defensoria P\u00fablica e at\u00e9 a ONU.<\/p>\n<p>Nas palavras de Ricardo, o \u2018professor\u2019, \u00e9 preciso \u201chumanizar o olhar\u201d para tratar a quest\u00e3o. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que todo mundo t\u00e1 vendo que vai acontecer uma trag\u00e9dia e a prefeita fecha os olhos, traz todo o problema s\u00f3 pra ela e esquece que o problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a reintegra\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 a vida dessas fam\u00edlias. Para onde essas fam\u00edlias iriam depois da reintegra\u00e7\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>http:\/\/vaidape.com.br\/blog\/2016\/03\/vila-soma\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em SP, uma das maiores ocupa\u00e7\u00f5es do pa\u00eds resiste sob a imin\u00eancia de uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse. 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