{"id":1097,"date":"2011-01-02T16:18:07","date_gmt":"2011-01-02T16:18:07","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1097"},"modified":"2011-01-02T16:18:07","modified_gmt":"2011-01-02T16:18:07","slug":"brasil-de-lula-a-naturalizacao-da-desigualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1097","title":{"rendered":"Brasil de Lula: a naturaliza\u00e7\u00e3o da desigualdade"},"content":{"rendered":"\n<p>POR VAL\u00c9RIA NADER E GABRIEL BRITO (Correio da Cidadania)<\/p>\n<p>22-DEZ-2010<\/p>\n<p>Nesta entrevista especial, o Correio da Cidadania conversou com o economista Nildo Ouriques, tamb\u00e9m membro do Instituto de Estudos Latinos-Americanos da UFSC \u2013 Universidade Federal de Santa Catarina \u2013, para fazer um balan\u00e7o dos anos Lula e analisar as pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es, algumas j\u00e1 anunciadas, do governo Dilma. Para ele, a principal fun\u00e7\u00e3o exercida pelo governo foi a de \u201crefuncionalizar o neoliberalismo\u201d. Ao mesmo tempo, desqualifica a suposta ascens\u00e3o social do povo brasileiro, pois se baseia \u201cnos crit\u00e9rios inaceit\u00e1veis do Banco Mundial\u201d. Em sua opini\u00e3o, o maior \u2018legado\u2019 deixado pelo \u00faltimo governo \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar mudan\u00e7as profundas pelo atual modelo de democracia.<\/p>\n<p>Nildo n\u00e3o enxerga muitas possibilidades de o futuro Congresso e Executivo levarem adiante pautas mais progressistas, que garantam maior emancipa\u00e7\u00e3o popular. Longe disso, devem prosseguir as pol\u00edticas assistencialistas e a usurpa\u00e7\u00e3o do Estado em favor das grandes ind\u00fastrias agr\u00edcola e mineral. \u201cControle eleitoral e aliena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Apesar da falta de esperan\u00e7as no novo governo, o economista espera que Dilma reforce la\u00e7os com a esquerda latino-americana, abandonando os anseios sub-imperialistas que detecta em nossa pol\u00edtica externa. Assim, antes de discutir qual a caracter\u00edstica do capitalismo brasileiro, Nildo reclama pela reorganiza\u00e7\u00e3o de uma esquerda socialista e nacionalista, fazendo uma an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es de nosso pa\u00eds e pensando numa \u2018revolu\u00e7\u00e3o brasileira\u2019, que inevitavelmente se diferencia das condi\u00e7\u00f5es de outros processos tomados at\u00e9 hoje como refer\u00eancia.<\/p>\n<p>A entrevista completa pode ser conferida a seguir.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Qual o seu balan\u00e7o dos oito anos do governo Lula?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Uma refuncionaliza\u00e7\u00e3o do chamado neoliberalismo. Aplicou a consolida\u00e7\u00e3o do PT como partido de centro-direita, que detinha a legitimidade para falar sobre os pobres e, portanto, aplicar pol\u00edticas de sensibilidade social. Mas no sentido de colocar os pobres em pol\u00edticas caritativas, o que \u00e9 o Bolsa fam\u00edlia basicamente, apesar de sua import\u00e2ncia. Este \u00e9 o ponto fundamental. N\u00e3o emancipa amplos setores dos trabalhadores, atende \u00e0 quest\u00e3o social, diferenciando-se da direita cl\u00e1ssica, mas sem emancipar politicamente. Controle eleitoral e aliena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Eis o primeiro movimento.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, aceita o papel de pot\u00eancia regional dentro da pol\u00edtica externa estadunidense, o que implica maiores graus de autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diplomacia do FHC, impulsionando uma pol\u00edtica sub-imperialista do Brasil, que de fato tenta pratic\u00e1-la. Especialmente num per\u00edodo em que o mercado interno se mostra restrito para as necessidades de acumula\u00e7\u00e3o de capital das burguesias brasileiras. De maneira que se forma uma combina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E, claro, politicamente produz outro fato importante: dentro do atual sistema pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma alternativa eleitoral. A domestica\u00e7\u00e3o do PT significa a caducidade do sistema pol\u00edtico, que tinha sido caracterizado pela possibilidade de o PT, dentro das regras do jogo, impulsionar um governo democr\u00e1tico-popular, um mercado interno de massas e, portanto, iniciar o que Florestan Fernandes chamava de revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Dentro de todo esse contexto da pol\u00edtica, a caracter\u00edstica essencial do Lula neste governo foi a de jamais convocar o povo para uma luta importante. Jamais chamou o povo para enfrentar algum interesse majorit\u00e1rio da burguesia. Essa \u00e9 a caracter\u00edstica essencial.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: J\u00e1 h\u00e1 alguns anos, desde a chegada de Lula, nos deparamos com as estat\u00edsticas que apontam maiores \u00edndices de crescimento do PIB e do emprego, ao lado do maior valor dos rendimentos&#8230;<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Como diria \u00c1lvaro Vieira Pinto \u2013 e pode escrever isso \u2013, o que \u00e9 o PIB? Construir e destruir uma casa entra no c\u00e1lculo. O PIB diz muito pouco. Discutir se ele cresceu, baixou&#8230; J\u00e1 est\u00e1 na hora de superarmos isso. Taxas de crescimento, taxas de acumula\u00e7\u00e3o de capital que ultrapassem 5%, 6%, 7%, taxas chinesas, num pa\u00eds t\u00e3o desigual como o nosso n\u00e3o significam muita coisa.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: No entanto, esses fatores citados, aliados aos maiores reajustes concedidos ao m\u00ednimo e ao incremento das pol\u00edticas assistencialistas, como o Bolsa Fam\u00edlia, respaldam v\u00e1rias an\u00e1lises sobre a redu\u00e7\u00e3o da pobreza e da mis\u00e9ria e a ascens\u00e3o \u00e0 classe m\u00e9dia de uma parte da popula\u00e7\u00e3o. Qual \u00e9 o significado, ou o teor de verdade, dessas an\u00e1lises?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Bem, se continuarmos adotando como crit\u00e9rio de pobreza o crit\u00e9rio do Banco Mundial, de US$ 1,3 di\u00e1rio&#8230; Mas ningu\u00e9m a\u00ed no Correio da Cidadania aceitaria para si pr\u00f3prio esse padr\u00e3o. US$ 1,30 faz parte de uma metodologia do Banco Mundial. Ningu\u00e9m da imprensa, ningu\u00e9m que ler isso, toparia entrar na classe m\u00e9dia nesses termos.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que 76% da Popula\u00e7\u00e3o Economicamente Ativa ganha at\u00e9 3 m\u00ednimos, 1500 reais. Significa que o poder de compra do mercado interno \u00e9 limitado.<\/p>\n<p>E essa onda, mais intensa at\u00e9 setembro de 2008, j\u00e1 come\u00e7ou a desaparecer em v\u00e1rias partes do globo, nos EUA, Europa, \u00c1sia, Oriente M\u00e9dio e tamb\u00e9m na Am\u00e9rica Latina. No Brasil, vai se manifestar tardiamente, mas n\u00e3o tenha d\u00favida de que o emprego vai se reduzir e inclusive os sal\u00e1rios com carteira assinada de quem est\u00e1 sendo contratado agora est\u00e3o em n\u00edveis mais baixos que aqueles anteriores.<\/p>\n<p>De maneira que n\u00e3o podemos tomar esse momento absolutamente passageiro como uma tend\u00eancia do capitalismo brasileiro. O que se confirma \u00e9 o contr\u00e1rio: a super-explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Exatamente quando o per\u00edodo de acumula\u00e7\u00e3o foi mais intenso, com taxas de crescimento mais altas, a resist\u00eancia \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o da renda tamb\u00e9m foi muito intensa.<\/p>\n<p>Portanto, temos de sair desse imagin\u00e1rio cat\u00f3lico \u2013 da exclus\u00e3o, da pobreza \u2013 e do discurso tecnocr\u00e1tico que interessa tanto a Lula quanto a FHC, tanto a tucanos como a petistas, ou seja, ao cons\u00f3rcio petucano.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Ent\u00e3o, toda essa cadeia de fatores mencionados como positivos aos quatro ventos pode ser desqualificada, uma vez que passou longe de reduzir as abissais desigualdades do pa\u00eds?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: D\u00e1 pra desqualificar no sentido de que a pobreza est\u00e1 sendo reduzida, mas n\u00e3o est\u00e1 sendo enfrentada estruturalmente. Os programas de alcance e certa sensibilidade popular n\u00e3o reduzem a pobreza, ainda que tirem momentaneamente alguns da linha de pobreza e mis\u00e9ria \u2013 sob os crit\u00e9rios inaceit\u00e1veis do Banco Mundial.<\/p>\n<p>Assim, todo esse crescimento foi n\u00e3o apenas abaixo do que se propagandeia, como tamb\u00e9m foi abaixo do que o pa\u00eds precisava para se tornar protagonista mundial e fazer um ajuste de contas com sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Como voc\u00ea avalia o processo eleitoral que culminou na vit\u00f3ria de Dilma Rousseff?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Em primeiro lugar, a esquerda radical com a qual me alinho n\u00e3o existiu eleitoralmente. Em segundo lugar, precisamos de um amplo, que ser\u00e1 lento, processo de reconstru\u00e7\u00e3o de uma esquerda socialista, nacionalista e revolucion\u00e1ria no Brasil. \u00c9 um longo processo. Em terceiro, precisamos disputar tanto no meio social quanto no meio eleitoral. E em quarto, a hegemonia burguesa no processo eleitoral foi completa, porque, a rigor, as diferen\u00e7as entre Dilma e Serra eram aned\u00f3ticas, e n\u00e3o substanciais.<\/p>\n<p>Desse modo, o processo eleitoral se caracterizou por n\u00e3o passar o pa\u00eds a limpo. O que significa que hoje, concretamente, o processo eleitoral n\u00e3o \u00e9 um instrumento de mudan\u00e7a no Brasil, mas de manuten\u00e7\u00e3o da ordem.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: A atua\u00e7\u00e3o da esquerda socialista nesta elei\u00e7\u00e3o, representada essencialmente pelo PSOL, PCB, PSTU e PCO, n\u00e3o existiu, a seu ver?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Eleitoralmente n\u00e3o existimos, n\u00e3o h\u00e1 como ter ilus\u00f5es sobre isso. Mas acho que tamb\u00e9m se alimentou uma indiferen\u00e7a ao processo eleitoral. Nossa insignific\u00e2ncia eleitoral mostra que temos escassos v\u00ednculos sociais com o que h\u00e1 de organizado no povo. Essa \u00e9 a gravidade da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: A expressiva vota\u00e7\u00e3o obtida por Marina deve ser encarada como um capital para que a candidata se confirme como for\u00e7a pol\u00edtica de peso no pa\u00eds, carregando a bandeira da Terceira Via e do Ambientalismo, ou estamos diante de mais um fen\u00f4meno eleitoral que, como tantos, tende a, mais dia menos dia, se esgotar?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: A candidatura da Marina foi uma fraude completa. No sentido de que ela \u00e9 uma lulista, uma express\u00e3o do cinismo moderno na pol\u00edtica. Fica sete anos como ministra do Lula e aparece na \u00faltima hora se apresentando como alternativa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, aparece com o discurso da cordialidade brasileira, querendo eliminar as pequen\u00edssimas diverg\u00eancias do cons\u00f3rcio petucano.<\/p>\n<p>Em terceiro, uma representante do discurso ecologista absolutamente dentro da ordem. N\u00e3o tem anti-imperialismo e nem anti-capitalismo no discurso dela.<\/p>\n<p>E al\u00e9m do mais, h\u00e1 um outro preju\u00edzo not\u00e1vel: ela \u00e9 express\u00e3o de evangeliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, o fen\u00f4meno pol\u00edtico mais nocivo que ocorreu no Brasil nos \u00faltimos anos. A Rep\u00fablica \u00e9 laica, a pol\u00edtica \u00e9 laica, portanto: fora o discurso religioso, fora o crucifixo da sala de aula.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Ainda assim ela n\u00e3o pode se impulsionar no cen\u00e1rio pol\u00edtico, mediante a vota\u00e7\u00e3o que obteve esse ano e a clara falta de op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nas disputas?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Espero que n\u00e3o. N\u00e3o creio que ela v\u00e1 se alavancar assim. Acho que o futuro ser\u00e1 mais complicado para ela.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o da nova composi\u00e7\u00e3o ministerial, destacando-se as incisivas exig\u00eancias do PMDB para aumentar a sua cota de participa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Expressa a mesma composi\u00e7\u00e3o social, a mesma prioriza\u00e7\u00e3o do Congresso, a mesma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, o mesmo projeto. Continuidade completa. Os ministros hoje s\u00e3o absolutamente incapazes de assinalar algum rumo.<\/p>\n<p>O ministro da Fazenda? Funciona com base no consenso formulado pela FEBRABAN, FIESP, latif\u00fandio, Banco Mundial, FMI&#8230; Enfim, nenhum ministro se destaca em nada.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: E quanto \u00e0 troca de comando no Banco Central e a sa\u00edda de Celso Amorim do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, considerado como um dos ministros que se mantiveram entre a ala progressista na Esplanada lulista, a despeito de cr\u00edticas em contr\u00e1rio?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Acho que a passagem do Celso Amorim foi positiva no sentido de que come\u00e7ou a abandonar, ao menos em alguns casos, a cl\u00e1ssica subalternidade do Itamaraty \u00e0 embaixada de Washington. Mas estivemos longe de uma pol\u00edtica externa independente, muito longe.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Al\u00e9m de ter externado preocupa\u00e7\u00f5es com o alegado d\u00e9ficit da previd\u00eancia, justificando ser imposs\u00edvel aumento dos benef\u00edcios acima do m\u00ednimo, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, j\u00e1 apresentou uma proposta de pol\u00edtica fiscal para o pa\u00eds, cuja ess\u00eancia \u00e9 que as despesas correntes prim\u00e1rias cres\u00e7am menos que o Produto Interno Bruto (PIB). Sabendo-se que essas despesas incluem os sal\u00e1rios do funcionalismo, a previd\u00eancia e assist\u00eancia social, podemos esperar medidas duras de restri\u00e7\u00f5es aos gastos sociais?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: No primeiro ano, haver\u00e1 um programa de ajuste fiscal \u00f3bvio para preparar o segundo ano, com as elei\u00e7\u00f5es para prefeito e cria\u00e7\u00e3o dos futuros comit\u00eas municipais para as elei\u00e7\u00f5es de 2012. Em primeiro lugar, portanto, vem o calend\u00e1rio pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, existe uma necessidade de sair da ordem de acumula\u00e7\u00e3o de capital em escala mundial. Mas n\u00e3o haver\u00e1 um ajuste de magnitude, tal como o grego ou o irland\u00eas, pois o refor\u00e7o da condi\u00e7\u00e3o de nosso pa\u00eds como exportador de produtos agr\u00edcolas e minerais, o que gerou este ano uma renda de quase 45 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, criou um colch\u00e3o que consolida uma estrutura de pa\u00eds tipicamente subdesenvolvido.<\/p>\n<p>Portanto, o ajuste n\u00e3o precisa ser t\u00e3o intenso quanto em outras circunst\u00e2ncias seria. Se houver uma redu\u00e7\u00e3o global dos pre\u00e7os das mercadorias, da\u00ed o ajuste tende a ser permanente. N\u00e3o \u00e9, no entanto, o que est\u00e1 se desenhando.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: O que pensa sobre a maioria parlamentar obtida pelo governo no Congresso a partir dessas elei\u00e7\u00f5es, considerando-se a bancada formada por PT, PMDB e demais partidos aliados, ao lado da regress\u00e3o do PSDB e DEM? Ser\u00e1 azeitado o percurso rumo ao desmonte de direitos sociais, ou h\u00e1 uma remota chance de esta maioria governista trabalhar em favor de algumas pautas progressistas, como reforma agr\u00e1ria, direitos sociais e de minorias?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Absolutamente normal a forma\u00e7\u00e3o dessa maioria. Qual governo do Brasil n\u00e3o conseguiu uma maioria parlamentar? Os erros de campanha do PSDB e do DEM cobraram seu pre\u00e7o, mas n\u00e3o alteram em nada a Rep\u00fablica. O presidente sempre faz a maioria que quer.<\/p>\n<p>E n\u00e3o vejo nenhuma possibilidade, longe disso, de tais pautas progressistas serem levadas adiante. A bancada \u00e9 t\u00e3o fiel ao governo quanto disciplinada no programa predominante.<\/p>\n<p>O parlamento n\u00e3o tem capacidade de impor uma pauta ao Executivo nacional. E n\u00e3o o far\u00e1.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: O historiador M\u00e1rio Maestri relata que o atual momento eleitoral retrata \u2018Derrota Hist\u00f3rica do Mundo do Trabalho\u2019, algo que j\u00e1 estaria inscrito na primeira elei\u00e7\u00e3o de Lula \u00e0 presid\u00eancia, uma vez que a liquida\u00e7\u00e3o da autonomia pol\u00edtica dos movimentos sociais foi a condi\u00e7\u00e3o imposta pela burguesia para a entrega do governo a Lula. O que pensa disto?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Acho que h\u00e1 a\u00ed um pouco de uma leitura saudosista do que foi o Lula. Em segundo lugar, mundo do trabalho \u00e9 uma express\u00e3o muito cara a Jose Marti, que a usou em 1883, quando falava sobre a morte de Marx. Mas a chamada derrota dos trabalhadores teria de ser discutida mais longamente.<\/p>\n<p>O chamado novo sindicalismo nunca aceitou uma an\u00e1lise do subdesenvolvimento e da depend\u00eancia. Quero dizer que o novo sindicalismo sempre duvidou que o capitalismo no Brasil fosse incapaz de atender as maiorias. E o Lula, ainda que combativo naquelas \u00e9pocas, era mais express\u00e3o de uma revolta contra a super-explora\u00e7\u00e3o do trabalho, tal como formulou Rui Mauro Marini em Dial\u00e9tica da Depend\u00eancia, do que de um projeto socialista.<\/p>\n<p>Portanto, isso precisa ser melhor avaliado em termos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o da atual conjuntura internacional e nacional, no que se refere \u00e0 crise financeira que explodiu em 2008? A despeito do car\u00e1ter mais estrutural da crise, a conjuntura econ\u00f4mica estabilizou-se realmente, ainda que pa\u00edses europeus mais fragilizados, como Irlanda, pare\u00e7am ser a bola da vez?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: A atual conjuntura internacional \u00e9 favor\u00e1vel aos trabalhadores. Desde setembro de 2008 mudou a conjuntura mundial. O encanto do capitalismo foi quebrado por uma crise que causou a perda de 50 milh\u00f5es de empregos, colocando uma quantidade impressionante, mais de 40 milh\u00f5es, abaixo da linha de pobreza.<\/p>\n<p>A crise n\u00e3o terminou e nem vai terminar. Significa que esse cap\u00edtulo segue em aberto. Os trabalhadores est\u00e3o observando que v\u00eam pagando um pre\u00e7o violent\u00edssimo. Por isso haver\u00e1 resposta, como j\u00e1 est\u00e1 havendo na Europa, EUA, e mesmo na China, Jap\u00e3o e Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Ent\u00e3o o que ocorreu com a Irlanda \u00e9 uma tend\u00eancia que ainda ser\u00e1 seguida por outros em breve?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: \u00c9 claro. It\u00e1lia, Fran\u00e7a&#8230; A crise est\u00e1 abrindo um novo cap\u00edtulo da luta de classes europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Como o Brasil, nas m\u00e3os de Dilma, enfrentaria uma crise econ\u00f4mica, caso ela venha a bater em nossas portas, como ocorreu em 2008? A situa\u00e7\u00e3o ficaria mais dif\u00edcil de ser contornada sem Lula, vez que estamos diante de uma personalidade sem a mesma experi\u00eancia e predicados pol\u00edticos?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: N\u00e3o sei. \u00c9 dif\u00edcil fazer progn\u00f3stico. Na periferia capitalista, sempre \u00e9 dif\u00edcil contornar. E se for necess\u00e1rio apertar os trabalhadores, n\u00e3o deixar\u00e1 de faz\u00ea-lo, como j\u00e1 mostrou.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: O soci\u00f3logo Francisco de Oliveira, em entrevista ao Correio, declarou que o governo petista pode ser tomado como mais privatista que o governo FHC. N\u00e3o propriamente em fun\u00e7\u00e3o das privatiza\u00e7\u00f5es sorrateiras atrav\u00e9s das v\u00e1rias Parcerias P\u00fablico-Privadas efetivadas sob Lula, mas na medida em que ele consolidou o capitalismo monopolista de Estado. O que pensa disto e como deve caminhar o governo Dilma neste sentido?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: O que ele quer dizer com isso? N\u00e3o h\u00e1 nenhuma novidade. O capitalismo monopolista de Estado \u00e9 uma teoria que o Chico de Oliveira requenta. O fundamental n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds dependente e perif\u00e9rico, subdesenvolvido. E essa \u00e9 a quest\u00e3o. O Chico de Oliveira tem um problema em enfrentar o tema do desenvolvimento.<\/p>\n<p>Ele andou muito l\u00e1 no CEBRAP (Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento); portanto, ficou contaminado por isso, e nunca aceitou o tema do subdesenvolvimento. Passa longe do horizonte intelectual dele. N\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 em quest\u00e3o. O Brasil deixou de ser um capitalismo perif\u00e9rico, e agora \u00e9 capitalismo monopolista de Estado: qual a vantagem anal\u00edtica desse enfoque? N\u00e3o vejo.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: No caso, seria ressaltar a consolida\u00e7\u00e3o de parcerias entre o governo e os principais agentes privados em setores estrat\u00e9gicos e rent\u00e1veis, conformando nova modalidade de transfer\u00eancia de patrim\u00f4nio e riquezas p\u00fablicas e sociais para m\u00e3os particulares.<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Essa teoriza\u00e7\u00e3o toda \u00e9 uma bobagem. Qual a natureza do Estado aqui? Capitalista. Isso at\u00e9 a sociologia do Octavio Ianni j\u00e1 havia descoberto l\u00e1 atr\u00e1s: \u00e9 a ditadura do grande capital. Na periferia capitalista seria diferente por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Ainda assim, em linha direta de oposi\u00e7\u00e3o a esta constata\u00e7\u00e3o da linha privatista sob Lula, governo, apoiadores e at\u00e9 mesmo uma parte da grande m\u00eddia \u2013 mesmo que a partir de interesses divergentes \u2013 t\u00eam incisivo discurso sobre a \u2018retomada\u2019 do papel gerenciador e referenciador do Estado na economia, do que o PAC seria forte evid\u00eancia. O que pensa disto?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Bobagem. Capitalismo n\u00e3o existe sem Estado. Se ficarmos discutindo aqui que houve um per\u00edodo neoliberal a ser sucedido por outro desenvolvimentista, vamos aceitar que o grande antagonismo na sociedade brasileira \u00e9 entre tucanos e petistas.<\/p>\n<p>Os capitalistas sabem que quando era pra privatizar contaram com o FHC. Quando era pra controlar e repassar a poupan\u00e7a nacional do BNDES pra salvar os grandes lucros, contaram com o Lula. N\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a nenhuma. Se os tucanos estivessem no poder provavelmente teriam feito tudo igual, a negocia\u00e7\u00e3o do Antonio Erm\u00edrio, da sa\u00fade, da Votorantim, como fez o Lula. \u00c9 da natureza do Estado.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo a sociologia brasileira deixou de estudar o Estado. Est\u00e1 mais interessada em pol\u00edticas p\u00fablicas. \u00c9 um desastre anal\u00edtico. O resultado tem sido apenas uma tentativa do mundo universit\u00e1rio de buscar acomoda\u00e7\u00e3o nas verbas do governo, mas n\u00e3o tem oferecido mais lucidez anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Ora, o Estado vai continuar intervindo, privatizando, colocando essa imensa poupan\u00e7a nacional a servi\u00e7o do fortalecimento de grupos industriais de natureza agr\u00edcola e mineral. \u00c9 um desastre deixar de fazer tais an\u00e1lises!<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Como dever\u00e1 caminhar a diplomacia de Dilma no que se refere ao relacionamento pol\u00edtico e econ\u00f4mico com os demais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, especialmente aqueles que carregam as pautas mais progressistas, e pol\u00eamicas, como Venezuela e Bol\u00edvia? Haver\u00e1, em sua opini\u00e3o, mudan\u00e7as significativas relativamente \u00e0 gest\u00e3o Lula?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: N\u00e3o diria que s\u00e3o pol\u00eamicos as pautas dos pa\u00edses citados. A Venezuela tem um horizonte socialista. N\u00e3o podemos refor\u00e7ar esses estigmas. Espero que o governo tenha uma linha de atua\u00e7\u00e3o muito mais pr\u00f3xima aos pa\u00edses progressistas da Am\u00e9rica Latina, porque sem ela o Brasil fica muito mais fraco. O Brasil precisa ter alian\u00e7a com a esquerda latino-americana.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, \u00e9 preciso avan\u00e7ar para al\u00e9m das limita\u00e7\u00f5es que a nossa pol\u00edtica externa vem sofrendo. Abandonar a pol\u00edtica sub-imperialista, ter uma melhor id\u00e9ia de integra\u00e7\u00e3o, atuar numa linha mais claramente anti-Washington, sem a qual n\u00e3o h\u00e1 avan\u00e7o diplom\u00e1tico, econ\u00f4mico, pol\u00edtico e cultural.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Precisamos criar uma pol\u00edtica cultural que varra a ind\u00fastria cultural estadunidense de nossas vidas, desde a inf\u00e2ncia, de todos n\u00f3s. \u00c9 necess\u00e1ria uma mudan\u00e7a radical na pol\u00edtica cultural, que precisa ser claramente antiimperialista.<\/p>\n<p>N\u00e3o acredito que a presidente v\u00e1 fazer isso, mas gostaria.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: E tamb\u00e9m refor\u00e7ar mecanismos e institui\u00e7\u00f5es regionais&#8230;<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: Precisa ver se v\u00e3o se concretizar Unasul, Banco do Sul, Conselho de Defesa&#8230; De toda forma, a Avenida Paulista v\u00ea tudo isso com muita restri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: Quais s\u00e3o as perspectivas da Esquerda? Acredita que deva ser reconstitu\u00edda uma frente de esquerda?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: A esquerda no Brasil, em primeiro lugar, tem que pensar a revolu\u00e7\u00e3o brasileira, e o seu programa. Para isso, precisa ser uma esquerda nacional, o que at\u00e9 hoje ela se recusa a ser. Uma anomalia incr\u00edvel. A esquerda russa \u00e9 russa, a esquerda cubana \u00e9 cubana, a chinesa \u00e9 chinesa, portanto, a esquerda brasileira precisa ser brasileira. Tem de discutir a teoria do capitalismo aqui, discutir uma revolu\u00e7\u00e3o brasileira, que precisa ser nacional, al\u00e9m de socialista.<\/p>\n<p>Mas, se nossa esquerda continuar euroc\u00eantrica, prosseguir\u00e1 isolada do povo, n\u00e3o dar\u00e1 um passo \u00e0 frente. Mais do que crer e rediscutir os atuais partidos, \u00e9 preciso rever e aprofundar os v\u00ednculos org\u00e2nicos com o povo e repensar teoricamente o programa da revolu\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Correio da Cidadania: E quanto aos movimentos sociais, especialmente o MST, como devem seguir no governo Dilma a seu ver?<\/p>\n<p>Nildo Ouriques: O movimento social est\u00e1, digamos assim, de crista baixa. Espero que o MST mantenha-se combativo, coloque o tema da Reforma Agr\u00e1ria sempre em evid\u00eancia e que n\u00e3o sucumba ao governismo, entenda que o melhor que pode passar ao movimento, e a todos n\u00f3s, \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia. E, sobretudo, que compreenda que, se n\u00e3o mantiver essa autonomia, vai, necessariamente, recuar em termos de luta pol\u00edtica. E a direita avan\u00e7ar\u00e1.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria Nader, economista, \u00e9 editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito \u00e9 jornalista.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/content\/view\/5333\/9\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: IELA\n\n\n\n\n\n\n\n\nEntrevista com Nildo Ourique\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1097\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-1097","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-hH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1097","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1097"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1097\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1097"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1097"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1097"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}