{"id":11113,"date":"2016-05-20T15:07:17","date_gmt":"2016-05-20T18:07:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11113"},"modified":"2016-06-02T19:13:27","modified_gmt":"2016-06-02T22:13:27","slug":"origem-e-auge-das-lumpemburguesias-latino-americanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11113","title":{"rendered":"Origem e auge das lumpemburguesias latino-americanas"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.aporrea.org\/imagenes\/2012\/06\/jorge_beinstein_-_escuela_de_cuadros.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><strong>Elites econ\u00f4micas e decad\u00eancia sist\u00eamica[1]<\/strong><\/p>\n<p>Jorge Beinstein<\/p>\n<p>\u00c0 raiz da chegada de Mauricio Macri \u00e0 presid\u00eancia se desatou em alguns c\u00edrculos acad\u00eamicos argentinos a reflex\u00e3o em torno do \u201cmodelo econ\u00f4mico\u201d que a <!--more-->direita estava tentando impor. Tratou-se n\u00e3o somente de aprofundar nos curriculum vitae de ministros, secret\u00e1rios de estado e outros altos funcion\u00e1rios, mas, sobretudo, na avalanche de decretos que desde o primeiro dia de governo se precipitaram sobre o pa\u00eds. Buscar coer\u00eancia estrat\u00e9gica a esse conjunto foi uma tarefa \u00e1rdua que a cada passo se chocavam com contradi\u00e7\u00f5es que obrigavam a descartar hip\u00f3teses sem que se pudesse chegar a um esquema minimamente rigoroso. A maior delas foi provavelmente a flagrante contradi\u00e7\u00e3o entre medidas que destroem o mercado interno para favorecer uma suposta onda exportadora evidentemente invi\u00e1vel ante a retirada da economia global, outra que \u00e9 o aumento das taxas de juros que comprime o consumo e os investimentos \u00e0 espera de uma ilus\u00f3ria chegada de fundos provenientes de um sistema financeiro internacional em crise, que o \u00fanico que pode oferecer \u00e9 o armado de bicicletas especulativas.<\/p>\n<p>Alguns optaram por resolver a quest\u00e3o adotando defini\u00e7\u00f5es abstratas t\u00e3o gerais como pouco operativas (\u201cmodelo favor\u00e1vel ao grande capital\u201d, \u201crestaura\u00e7\u00e3o neoliberal\u201d, etc.), outros decidiram continuar o estudo, por\u00e9m cada vez que chegavam a uma conclus\u00e3o satisfat\u00f3ria aparecia um novo fato que lhes atirava abaixo do edif\u00edcio intelectual constru\u00eddo, e, finalmente, uns poucos entre os quais me encontro, chegaram \u00e0 conclus\u00e3o que buscar coer\u00eancia estrat\u00e9gica geral nessas decis\u00f5es n\u00e3o era uma tarefa f\u00e1cil, por\u00e9m tampouco dif\u00edcil, mas simplesmente imposs\u00edvel. A chegada da direita ao governo n\u00e3o significa a substitui\u00e7\u00e3o do modelo anterior (desenvolvimentista, neokeynesiano ou como se queira chamar) por um novo modelo (elitista) de desenvolvimento, mas simplesmente o in\u00edcio de um gigantesco saqueio onde cada grupo de saqueadores obt\u00e9m a pilhagem que pode obter no menor tempo poss\u00edvel e, depois de conseguido, luta por mais a custa das v\u00edtimas, mas tamb\u00e9m, se necess\u00e1rio, de seus competidores. A anunciada liberdade de mercado n\u00e3o significou a instala\u00e7\u00e3o de uma nova ordem, mas o desenvolvimento de for\u00e7as entr\u00f3picas. O pa\u00eds burgu\u00eas n\u00e3o realizou uma reconvers\u00e3o elitista-exportadora, mas se submergiu em um gigantesco processo destrutivo.<\/p>\n<p>Se estudarmos os objetivos econ\u00f4micos reais de outras direitas latino-americanas, como as da Venezuela, Equador ou Brasil, encontraremos similitudes com o caso argentino, incoer\u00eancias de todo tipo, autismos desenfreados que ignoram o contexto global, assim como as consequ\u00eancias desestabilizadoras de suas a\u00e7\u00f5es ou \u201cprojetos\u201d geradores de destrui\u00e7\u00f5es sociais desmesuradas e poss\u00edveis efeitos bumerangues contra a pr\u00f3pria direita.[2] \u00c9 evidente que o curto prazo e a satisfa\u00e7\u00e3o de apetites parciais dominam o cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, por\u00e9m, sobretudo, nos anos de 1990, o discurso neoliberal transbordava otimismo, o <i>\u201cfantasma comunista\u201d<\/i>tinha implodido e o planeta ficava a disposi\u00e7\u00e3o da \u00fanica superpot\u00eancia: os Estados Unidos. O livre mercado aparecia com sua imagem triunfalista prometendo prosperidade para todos. Como sabemos essa avalanche n\u00e3o era portadora de prosperidade, mas de especula\u00e7\u00e3o financeira. Enquanto as taxas de crescimento econ\u00f4mico real global continuavam descendendo tendencialmente desde os anos de 1970 (e at\u00e9 a atualidade), a massa financeira come\u00e7ou a expandir-se em progress\u00e3o geom\u00e9trica. Estavam-se produzindo mudan\u00e7as de fundo no sistema, muta\u00e7\u00f5es em seus principais protagonistas, que obrigavam a uma reconceitualiza\u00e7\u00e3o. No comando da nave capitalista global come\u00e7avam a ser removidos os burgueses titulares de empresas produtoras de objetos \u00fateis, in\u00fateis ou abertamente nocivos e o corte de engenheiros industriais, militares uniformizados e pol\u00edticos solenes. Come\u00e7ava a assomar especuladores financeiros, buf\u00f5es e mercen\u00e1rios implac\u00e1veis. A criminalidade anterior relativamente estruturada come\u00e7ava a ser substitu\u00edda por um sistema ca\u00f3tico muito mais letal. Retirava-se o produtivismo keynesiano (herdeiro do velho produtivismo liberal) e come\u00e7ava a instala\u00e7\u00e3o do parasitismo neoliberal.<\/p>\n<p><b>O conceito de lumpemburguesia<\/b><\/p>\n<p>Existem antecedentes desse conceito, por exemplo, em Marx, quando descrevia a monarquia orelanista da Fran\u00e7a (1830-1848) como um sistema sob a domina\u00e7\u00e3o da aristocracia financeira assinalando que <i>\u201cnas reuni\u00f5es da sociedade burguesa se propagou o desenfreio pela satisfa\u00e7\u00e3o dos apetites mais insanos e desordenados, que a cada passo chocavam com as pr\u00f3prias leis da burguesia, desenfreio no qual, pela lei natural, vai buscar sua satisfa\u00e7\u00e3o na riqueza procedente do jogo, desenfreio pelo qual o prazer se converte em deprava\u00e7\u00e3o e no que conflui o dinheiro, o lodo e o sangue. <\/i><i><b>A aristocracia financeira, o mesmo em seus m\u00e9todos de aquisi\u00e7\u00e3o, que em seus prazeres, n\u00e3o \u00e9 mais que o renascimento do lumpemproletariado nas reuni\u00f5es da sociedade burguesa<\/b><\/i><i>\u201d<\/i>.[3] A aristocracia financeira aparecia nesse enfoque claramente diferenciada da burguesia industrial, classe exploradora inserida no processo produtivo. Tratava-se, segundo Marx, de um setor instalado no topo da sociedade que conseguia enriquecer <i>\u201cn\u00e3o mediante a produ\u00e7\u00e3o, mas mediante o escamoteio da riqueza alheia j\u00e1 criada\u201d<\/i>.[4] Localizemos dita descri\u00e7\u00e3o no contexto do s\u00e9culo XIX europeu ocidental, marcado pela ascens\u00e3o do capitalismo industrial, onde essa aristocracia navegando entre a usura e o saqueio aparecia como uma irrup\u00e7\u00e3o historicamente an\u00f4mala destinada a ser deslocada cedo ou tarde pelo avan\u00e7o da modernidade. Marx assinalava que para o final do ciclo orleanista<i>\u201cA burguesia industrial via seus interesses em perigo, a pequena burguesia estava moralmente indignada, a imagina\u00e7\u00e3o popular se sublevava. <\/i><i>Paris estava inundada de panfletos. <\/i><i>\u201cA dinastia dos Rothschild\u201d, \u201cOs agiotas, reis da \u00e9poca\u201d, etc. no qual se denunciava e anatematizava, com mais ou menos engenho, a domina\u00e7\u00e3o da aristocracia financeira\u201d<\/i>.[5]<\/p>\n<p>Resulta not\u00e1vel ver aparecer os Rothschild como \u201cagiotas\u201d, imagem claramente pr\u00e9-capitalista, quando nas d\u00e9cadas que seguiram e at\u00e9 a Primeira Guerra Mundial simbolizaram o capitalismo mais sofisticado e moderno. Karl Polanyi os idealizava como pe\u00e7a chave da <i>Haute Finance<\/i> europeia, instrumento decisivo, segundo ele, no desenvolvimento equilibrado do capitalismo liberal, cumprindo uma fun\u00e7\u00e3o harmonizadora, pondo-se por cima dos nacionalismos, amarrando compromissos e neg\u00f3cios que atravessavam as fronteiras estatais, acalmando assim as disputas interimperialistas. Descrevendo a Europa das \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, Polanyi explicava que: <i>\u201cos Rothschild n\u00e3o estavam sujeitos a um governo; como uma fam\u00edlia, incorporavam o princ\u00edpio abstrato do internacionalismo; sua lealdade se entregava a uma assinatura, cujo cr\u00e9dito se converteu na \u00fanica conex\u00e3o supranacional entre o governo pol\u00edtico e o esfor\u00e7o industrial em uma economia mundial que crescia com rapidez\u201d<\/i>.[6]<\/p>\n<p>O que para Marx era uma anomalia, um resto degenerado do passado, para Polanyi era uma pe\u00e7a chave da <i>\u201cPax Europeia\u201d<\/i>, do progresso liberal do Ocidente quebrado em 1914. A perman\u00eancia dos Rothschild e de seus colegas banqueiros durante todo o longo ciclo do avan\u00e7o e consolida\u00e7\u00e3o industrial da Europa demonstrou que n\u00e3o se tratava de uma anomalia, mas de um componente parasit\u00e1rio indissoci\u00e1vel (ainda que n\u00e3o hegem\u00f4nico nesse ciclo) da reprodu\u00e7\u00e3o capitalista. Por outra lado, o estouro de 1914 e o que se seguiu, desmentiu a imagem de c\u00fapula harmonizadora, estabelecendo acordos, neg\u00f3cios que impunham equil\u00edbrios. Seus refinamentos e seu aspecto <i>\u201cpacificador\u201d<\/i> formavam parte de um jogo duplo perigoso, por\u00e9m muito rent\u00e1vel. Por um lado, alentavam de maneira discreta toda classe de aventuras coloniais e ambi\u00e7\u00f5es nacionalistas, como, por exemplo, as corridas armamentistas (e de imediato passavam a conta) e, por outro, as acalmavam quando amea\u00e7avam produzir desastres. Por\u00e9m, essa sucess\u00e3o de excita\u00e7\u00f5es e calmantes aplicadas a monstros que absorviam drogas cada vez mais fortes terminou como tinha que terminar: com um gigantesco estouro sob a forma de Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n<p>O conceito de <i><b>\u201clumpemburguesia\u201d<\/b><\/i> apareceu pela primeira vez em fins dos anos de 1950, atrav\u00e9s de alguns textos de \u201cErnest Germain\u201d, pseud\u00f4nimo empregado por Ernest Mandel, fazendo refer\u00eancia \u00e0 burguesia do Brasil que o autor considerava uma classe semicolonial, <i>\u201catrasada\u201d<\/i>, n\u00e3o completamente <i>\u201cburguesa\u201d <\/i>(no sentido moderno-ocidental do termo). Foi retomado mais adiante, nos anos de 1960-1970 por Andr\u00e9 Gunder Frank, generalizando-o \u00e0s burguesias latino-americanas.[7] Tanto Mandel como Gunder Frank estabeleciam a diferen\u00e7a entre as burguesias centrais: estruturadas, imperialistas, tecnologicamente sofisticadas e as burguesias perif\u00e9ricas, subdesenvolvidas, semicoloniais, ca\u00f3ticas, enfim: <i>lumpemburguesas<\/i> (burguesias degradadas).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, esse esquema come\u00e7ou a ser desmentido pela realidade desde os anos de 1970, com a declina\u00e7\u00e3o do keynesianismo produtivista e seus acompanhantes reguladores e integradores. Desatou-se o processo de transnacionaliza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o do capitalismo global que, desde come\u00e7os dos anos de 1990 (com a implos\u00e3o da URSS e a acelera\u00e7\u00e3o do ingresso da China na economia de mercado), adquiriu um ritmo desenfreado e uma extens\u00e3o planet\u00e1ria. Enquanto se desacelerava a economia produtiva e crescia exponencialmente a especula\u00e7\u00e3o financeira, um de seus componentes principais, os <i>produtos financeiros derivados<\/i>equivaliam umas duas vezes o Produto Mundial Bruto em 2000 e representavam em 2008 umas 12 vezes o Produto Mundial Bruto. Por sua parte, a massa financeira global (derivados e outros papeis) equivalia nesse momento a umas 20 vezes o Produto Mundial Bruto. A hegemonia financeira esmagadora que transformou completamente a natureza das elites econ\u00f4micas do planeta, a desregulamenta\u00e7\u00e3o (ou seja, a viola\u00e7\u00e3o crescente de todas as normas), vis\u00e3o de curto prazo, as din\u00e2micas depredadoras, foram os comportamentos dominantes produzindo velozes concentra\u00e7\u00f5es de rendas tanto nos pa\u00edses centrais como nos perif\u00e9ricos, marginaliza\u00e7\u00f5es sociais, deteriora\u00e7\u00f5es institucionais (inclu\u00eddas as crises de representatividade).<\/p>\n<p>Tudo isso se agravou desde a crise financeira de 2008, confirmando a exist\u00eancia de uma <i>lumpemburguesia global dominante<\/i> (resultado da decad\u00eancia sist\u00eamica geral) cujos h\u00e1bitos de especula\u00e7\u00e3o e saqueio se conectam com ascens\u00f5es militaristas que potencializam sua irracionalidade, os Estados Unidos se encontram no centro dessa perigosa fuga para adiante. A escalada militar no Leste da Europa, Oriente M\u00e9dio e Leste da \u00c1sia, acompanhada por sintomas claros de descontrole financeiro, onde, por exemplo, o Deustche Bank acumula atualmente uns 75 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em produtos financeiros derivados[8], papeis altamente vol\u00e1teis que representavam em 2015 umas 22 vezes o Produto Interno Bruto da Alemanha e umas 4,6 vezes o Produto Interno Bruto de toda a Uni\u00e3o Europeia, do outro lado do Atl\u00e2ntico s\u00f3 cinco grandes bancos norte-americanos (Citigroup, JP Morgan, Goldman Sachs, Bank of America e Morgan Stanley) acumulavam derivados por cerca de 250 bilh\u00f5es de d\u00f3lares[9], equivalentes a 3,4 vezes o Produto Mundial Bruto ou umas 14 vezes o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos. Imaginemos as consequ\u00eancias econ\u00f4micas globais do muito prov\u00e1vel colapso dessa massa de papeis, enquanto os grandes lobos de Wall Street jogam p\u00f4quer alegremente admirados como pequenas aves carniceiras da periferia desejosas de \u201cabrir-se ao mundo\u201d e participar da festa.<\/p>\n<p><b>Am\u00e9rica Latina<\/b><\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina n\u00e3o ficou fora dessa muta\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter global. Existe um consenso bastante amplo quanto \u00e0 configura\u00e7\u00e3o das elites econ\u00f4micas latino-americanas durante as duas primeiras etapas da \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d regional (ou seja, sua integra\u00e7\u00e3o plena ao capitalismo) entre fins do s\u00e9culo XX e meados do s\u00e9culo XX: a agrominera\u00e7\u00e3o exportadora com suas correspondentes \u201coligarquias\u201d seguida pelo chamado per\u00edodo (industrializante) de substitui\u00e7\u00e3o com a emerg\u00eancia de burguesias industriais locais. Especificidades nacionais de distinto tipo mostram casos que v\u00e3o desde a inexist\u00eancia da \u201csegunda etapa\u201d em pequenos pa\u00edses quase sem ind\u00fastrias at\u00e9 desenvolvimentos industriais significativos, como no Brasil, Argentina ou M\u00e9xico, com burguesias e empresas estatais poderosas. Desde prolongamentos industriais das velhas oligarquias at\u00e9 irrup\u00e7\u00f5es de novas classes, arrivistas n\u00e3o completamente admitidos pelas velhas elites at\u00e9 integra\u00e7\u00f5es de neg\u00f3cios onde os velhos sobrenomes se mesclavam com os dos rec\u00e9m-chegados.<\/p>\n<p>Em torno dos anos de 1960-1970, o processo de industrializa\u00e7\u00e3o foi sendo encurralado pela debilidade dos mercados internos e sua depend\u00eancia tecnol\u00f3gica e das divisas proporcionadas pelas exporta\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias tradicionais, dominado por um capitalismo global que imp\u00f4s ajustes e destruiu ou se apoderou de tecidos produtivos locais. A transnacionaliza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o globais se expressaram na regi\u00e3o como desenvolvimento do subdesenvolvimento, assinaturas ocidentais que passaram a dominar \u00e1reas industriais decisivas, enquanto bancos europeus e norte-americanos faziam o mesmo com o setor financeiro, ao mesmo tempo em que se aprofundava a exclus\u00e3o social urbana e rural. A chamada etapa de industrializa\u00e7\u00e3o por substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es significou o fortalecimento do Estado e em v\u00e1rios casos importantes a <i>\u201cnacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d<\/i> de uma por\u00e7\u00e3o significativa das elites dominantes com a emerg\u00eancia de burguesias industriais nacionais inst\u00e1veis, por\u00e9m isso come\u00e7ou a ser revertido desde os anos 1960-1970 e o processo de coloniza\u00e7\u00e3o se acelerou nos anos de 1990.<\/p>\n<p>O que agora constatamos s\u00e3o combina\u00e7\u00f5es entre assentamentos de empresas transnacionais dominantes no banco, no com\u00e9rcio, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, na ind\u00fastria, etc. rodeados por c\u00edrculos multiformes de burgueses locais completamente transnacionalizados em seus n\u00edveis mais altos rodeados, por sua vez, por setores intermedi\u00e1rios de diferentes pesos. Os grupos locais se caracterizam por uma din\u00e2mica de tipo <i>\u201cfinanceiro\u201d<\/i>, combinando a grande velocidade toda classe de neg\u00f3cios legais, semilegais ou abertamente ilegais, desde a ind\u00fastria ou do agrobusiness at\u00e9 o narcotr\u00e1fico, passando por opera\u00e7\u00f5es especulativas ou comerciais mais ou menos opacas. \u00c9 poss\u00edvel investigar uma grande empresa industrial mexicana, brasileira ou argentina e descobrir la\u00e7os com neg\u00f3cios duvidosos, contas em para\u00edsos fiscais, etc. ou uma importante produ\u00e7\u00e3o de cereais realizando investimentos imobili\u00e1rios em converg\u00eancia com branqueamento de fundos provenientes de uma rede narco, por sua vez associada a um grande grupo midi\u00e1tico. As elites econ\u00f4micas latino-americanas aparecem como uma parte integrante da lumpemburguesia global. S\u00e3o sua sombra perif\u00e9rica, nem mais nem menos degradada que seus paradigmas internacionais. Muito por debaixo de todo esse universo, sobrevivem pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios industriais, agr\u00edcolas ou pecuaristas, que n\u00e3o constituem as elites. Por\u00e9m, caso consigam ingressar na eleva\u00e7\u00e3o da prosperidade, inevitavelmente s\u00e3o capturados pela cultura dos neg\u00f3cios confusos. Caso n\u00e3o o fa\u00e7am, se estancam no melhor dos resultados ou empreendem o caminho do descenso.<\/p>\n<p>Ainda que quando estudamos essas elites rapidamente descobrimos que sua din\u00e2mica puramente \u201cecon\u00f4mica\u201d s\u00f3 existe em nossa imagina\u00e7\u00e3o, um neg\u00f3cio imobili\u00e1rio de grande envergadura certamente requer conex\u00f5es jur\u00eddicas, pol\u00edticas, midi\u00e1ticas etc. Por sua vez, para chegar aos n\u00edveis mais altos da m\u00e1fia judicial \u00e9 necess\u00e1rio dispor de boas conex\u00f5es com c\u00edrculos de neg\u00f3cios, pol\u00edticos, midi\u00e1ticos, etc. e ser exitoso na carreira pol\u00edtica requer fundos e coberturas midi\u00e1ticas e jur\u00eddicas. Em suma, trata-se, na pr\u00e1tica, de um complexo conjunto de articula\u00e7\u00f5es mafiosas, grupos de poder transversais vinculados a mais ou menos subordinadas (ou participando de) tramas extrarregionais atrav\u00e9s de canais de diversos tipos: o aparato de intelig\u00eancia dos Estados Unidos, um mega banco ocidental, una rede clandestina de neg\u00f3cios, alguma empresa industrial transnacional, etc.<\/p>\n<p>Em come\u00e7os do s\u00e9culo XX, as elites latino-americanas formavam parte de uma divis\u00e3o internacional do trabalho, onde a periferia agropecu\u00e1ria-mineradora exportadora se integrava de maneira colonial aos capitalismos centrais industrializados. Naqueles tempos, a Inglaterra era o polo dominante.[10] Depois, chegou o s\u00e9culo XX e seu percurso de crises, guerras, revolu\u00e7\u00f5es e contrarrevolu\u00e7\u00f5es, keynesianismos, fascismos, socialismos\u2026 Por\u00e9m, ao final desse s\u00e9culo, todo esse mundo ficava enterrado, triunfava o neoliberalismo e o capitalismo globalizado e quando este entrou em crise na Am\u00e9rica Latina, emergiram e se instalaram as experi\u00eancias progressistas que tentaram resolver as crises de governabilidade com pol\u00edticas de inclus\u00e3o social a sistemas que eram mais ou menos reformados, buscando faz\u00ea-los mais produtivos, menos submetidos aos Estados Unidos, mais igualit\u00e1rios e democr\u00e1ticos. As elites dominantes se colocaram hist\u00e9ricas. Ainda que n\u00e3o tenham sido seriamente deslocadas, perdiam posi\u00e7\u00f5es de poder, escapavam das m\u00e3os neg\u00f3cios suculentos e sua agressividade foi aumentando \u00e0 medida que a crise global dificultava suas opera\u00e7\u00f5es. Por sua parte, os Estados Unidos em retrocesso geopol\u00edtico global acentuaram suas press\u00f5es sobre a regi\u00e3o, tentando sua recoloniza\u00e7\u00e3o. Ao come\u00e7ar o ano de 2016, os progressismos foram encurralados, como no Brasil e Venezuela, ou derrotados, como no Paraguai ou Argentina. Obama esfregou as m\u00e3os e os abutres se lan\u00e7aram ao ataque, os capriles e os macris cantaram vit\u00f3ria, convencidos de que estamos retornando \u00e0 \u201cnormalidade\u201d (colonial), por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 assim. Na realidade, estamos ingressando em uma nova etapa hist\u00f3rica de dura\u00e7\u00e3o incerta, marcada por uma crise deflacion\u00e1ria global que vai se agravando acompanhada por sinais alarmantes de guerra.<\/p>\n<p>As elites dominantes locais n\u00e3o s\u00e3o o sujeito de uma nova governabilidade, mas o objeto de um processo de decad\u00eancia que as transborda. Pior ainda essas lumpemburguesias, que trazem crises \u00e0 crise para al\u00e9m de suas manipula\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas que tentam demonstrar o contr\u00e1rio, acreditam ter muito poder, mas n\u00e3o s\u00e3o mais que instrumento cegos de um futuro sombrio. Ainda que a declina\u00e7\u00e3o real do sistema abra a possibilidade de um renascimento popular, certamente dif\u00edcil, doloroso, n\u00e3o escrito em manuais, nem seguindo rotas bem pavimentadas e previs\u00edveis.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n<p>[1] Este texto foi publicado no n\u00famero 6 da revista Maiz, Faculdade de Jornalismo e Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 Universidad Nacional de La Plata, Argentina, Maio de 2016.<\/p>\n<p>[2] Jorge Beinstein, &#8220;Serra contra o Mercosul: o auge das direitas loucas na Am\u00e9rica Latina&#8221; <a href=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Serra-contra-o-Mercosul-o-auge-das-direitas-loucas-naAmerica-Latina%0D%0A\/6\/15507\" target=\"_blank\"><u>http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Serra-contra-o-Mercosul-o-auge-das-direitas-loucas-naAmerica-Latina%0D%0A\/6\/15507<\/u><\/a><\/p>\n<p>[3] Carlos Marx, \u201cLas luchas de clases en Francia de 1848 a 1850\u201d, en Carlos Marx-Federico Engels, Obras Escogidas, Tomo I, p\u00e1ginas 128-129, Editorial Progreso, Mosc\u00fa 1966. 5 Ibid.<\/p>\n<p>[4] Ibid.<\/p>\n<p>[5] Ibid.<\/p>\n<p>[6] Karl Polanyi, \u201cThe Great Transformation.The Political and Economic Origins of Our Time\u201d, Bacon Press, Boston, Massachusetts, 2001.<\/p>\n<p>[7] Andre Gunder Frank, \u201cLumpenburgues\u00eda: lumpendesarrollo\u201d, Colecci\u00f3n Cuadernos de Am\u00e9rica, Ediciones de la Banda Oriental, Montevideo, 1970.<\/p>\n<p>[8] Tyler Durden, &#8220;Is Deutsche Bank The Next Lehman?&#8221;, Zero Hedge,<a href=\"http:\/\/www.zerohedge.com\/news\/2015-06-12\/deutsche-bank-next-lehman\" target=\"_blank\"><u>http:\/\/www.zerohedge.com\/news\/2015-06-12\/deutsche-bank-next-lehman<\/u><\/a><\/p>\n<p>[9] Michael Snyder, &#8220;Financial Armageddon Approaches&#8221;, INFOWARS,<a href=\"http:\/\/www.infowars.com\/financialarmageddon-approaches-u-s-banks-have-247-trillion-dollars-of-exposure-to-derivatives\/\" target=\"_blank\"><u>http:\/\/www.infowars.com\/financialarmageddon-approaches-u-s-banks-have-247-trillion-dollars-of-exposure-to-derivatives\/<\/u><\/a><\/p>\n<p>[10] &#8220;O investimento das na\u00e7\u00f5es industriais, em especial da Inglaterra, fluiu para a Am\u00e9rica Latina. Entre 1870 e 1913, o valor dos investimentos brit\u00e2nicos aumentou de 85 milh\u00f5es de libras esterlinas para 757 milh\u00f5es, uma multiplica\u00e7\u00e3o quase por nove em quatro d\u00e9cadas. Para 1913, os investidores brit\u00e2nicos possuiam aproximadamente dois ter\u00e7os do total do investimento estrangeiro\u201d. Skidmore, Thomas E. y Smith, Peter H., &#8220;Historia contempor\u00e1nea de Am\u00e9rica Latina. Am\u00e9rica Latina en el siglo XX&#8221;, Ed. Grijalbo. 4a. edici\u00f3n, Espa\u00f1a, 1996.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Elites econ\u00f4micas e decad\u00eancia sist\u00eamica[1] Jorge Beinstein \u00c0 raiz da chegada de Mauricio Macri \u00e0 presid\u00eancia se desatou em alguns c\u00edrculos acad\u00eamicos argentinos \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11113\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-11113","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Tf","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11113","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11113"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11113\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11113"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11113"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11113"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}