{"id":11115,"date":"2016-05-20T15:16:32","date_gmt":"2016-05-20T18:16:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11115"},"modified":"2016-06-02T19:13:32","modified_gmt":"2016-06-02T22:13:32","slug":"ocupa-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11115","title":{"rendered":"Ocupa tudo!"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2016\/05\/blog-da-boitempo-mauro-iasi-ocupa.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>&#8220;N\u00e3o sei, s\u00f3 sei que foi assim. Todos os fatos aqui narrados s\u00e3o rigorosamente verdadeiros, apenas alguns deles n\u00e3o aconteceram&#8230; ainda.&#8221;<\/p>\n<p>Mauro Luis Iasi.<!--more--><\/p>\n<p>Foi assim. Come\u00e7ou mais ou menos quando os jovens ocuparam as escolas. Aprendiam e ensinavam, uns aos outros, sem di\u00e1rio de classe, sem avalia\u00e7\u00e3o e nota. Sentavam-se em roda e conversavam. Cantavam, liam, falavam alto, sorriam e se punham s\u00e9rios. Limpavam os banheiros, faziam comida, arrumavam as carteiras, pintavam paredes, dando um jeito nas lousas e janelas quebradas.<\/p>\n<p>Alguns levavam comida e cobertores, livros e m\u00fasicas, poemas e esperan\u00e7as\u2026 e eles foram, assim do nada, construindo uma nova escola. Pelo menos \u00e9 o que achavam \u00e0quela \u00e9poca. Mas, aos poucos, vindo das sombras onde se escondem entre as luzes da cidade, come\u00e7aram a brotar pessoas. N\u00e3o se sabia que ainda haviam pessoas. Os moradores de rua trouxeram p\u00e3o com manteiga e chocolate quente. Os ladr\u00f5es de comida ficaram pasmos: afinal, como \u00e9 que a comida chegava \u00e0s escolas e eles n\u00e3o ganhavam nada?<\/p>\n<p>Os camponeses, ent\u00e3o, resolveram que n\u00e3o poderia faltar comida para a mo\u00e7ada e decidiram imitar os estudantes (que os haviam imitado) e ocupar as terras. E l\u00e1 plantavam comida, uma coisa que muita gente tinha esquecido o que era, acostumados que estavam em produzir emula\u00e7\u00f5es de comida em caixas coloridas e vistosas cheias de qu\u00edmica, espessantes, acidulantes e sabores artificiais id\u00eanticos ao natural. Para plantar precisavam de instrumentos de trabalho, m\u00e1quinas e caminh\u00f5es\u2026 os estudantes precisariam de l\u00e1pis, cadernos, panelas, janelas e portas, fog\u00f5es e geladeiras, carteiras e tintas, tijolos e cimento\u2026<\/p>\n<p>Foi assim que eles apareceram. \u201cSei cozinhar\u201d, disse um senhor, \u201csei fazer tijolos\u201d, disse uma senhora. \u201cConserto panelas\u201d. Um sabia pintar paredes, outros levantar paredes, trabalhar a madeira, o ferro, o barro, o pano. Sabe-se l\u00e1 onde estavam este tempo todo, sofrendo de dura invisibilidade, presos pela magia das coisas, reificados em seus corpos de metal, sua pele de pl\u00e1stico, atr\u00e1s das embalagens nas g\u00f4ndolas do supermercado, em sua exist\u00eancia coisal, desempregados, demitidos, descartados, explorados\u2026 e os oper\u00e1rios ocuparam as f\u00e1bricas e decidiram que a partir daquele momento produziriam objetos \u00fateis e foram conversar com os estudantes, os camponeses, as pessoas e quanto mais produziam para satisfazer necessidades, menos coisas eram, as coisas e eles mesmos.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que n\u00e3o sabiam fazer de tudo e erravam muito. Era muito divertido ver aquelas coisas todas erradas, como casa de parede caiada que mostra a tinta que j\u00e1 foi sua, a pedra e barro de que \u00e9 feita, e tudo foi ficando muito bonito. Sem embalagem e sem propaganda, as vezes torta, as vezes feia, como a gente que fazia as coisas\u2026 bonitas.<\/p>\n<p>Foi neste momento que, meio assim envergonhadas, meio sem jeito, foram aparecendo pessoas que diziam que sabiam de algumas coisas que podiam ajudar\u2026 quem sabe\u2026 sa\u00edram de seus escaninhos, seus laborat\u00f3rios, suas salas, seus curr\u00edculos lattes. Sa\u00edram de seus esconderijos e dos livros, e foi assim que as universidades foram ocupadas e alguns professores descobriram, at\u00f4nitos, que tamb\u00e9m ali havia estudantes e funcion\u00e1rios, e que do lado de fora tamb\u00e9m havia pessoas com necessidades. Fizeram ent\u00e3o uma pergunta que h\u00e1 muito tempo tinham abdicado de formular: o que \u00e9 que voc\u00eas querem? Foi engra\u00e7ado porque justamente eles que viviam fazendo perguntas e respondendo suas pr\u00f3prias perguntas, e discordando entre eles de suas respostas, nem sempre sabiam responder \u00e0s perguntas daquela gente toda que ocupavas as escolas, as terras, as f\u00e1bricas\u2026 todos riram muito disso e depois ficaram s\u00e9rios buscando as respostas.<\/p>\n<p>E n\u00e3o faltaram mais professores, m\u00e9dicos, enfermeiras, engenheiros, assistentes sociais, agr\u00f4nomos, psic\u00f3logos, fil\u00f3sofos, soci\u00f3logos, pedagogos, dentistas, bi\u00f3logos, qu\u00edmicos, f\u00edsicos e de tudo um pouco. A diferen\u00e7a \u00e9 que agora eles vinham em todas as cores. Eram \u00edndios, eram negros e negras, eram gente que olhando assim, parecia gente, igual \u00e0quelas que viviam l\u00e1 fora. Um desavisado diria que eram pobres, pelo jeito simples de falar e de se vestir, porque andavam de \u00f4nibus, moravam perto e comiam do mesmo p\u00e3o.<\/p>\n<p>Porque comiam do mesmo p\u00e3o e respiravam do mesmo ar, porque ficou dif\u00edcil de diferenciar um do outro, come\u00e7aram a se apaixonar loucamente, de todos os jeitos poss\u00edveis. E foi tanta paix\u00e3o, tanto beijo, tanto tes\u00e3o, que ningu\u00e9m mais achou que precisava catalogar como homo, hetero, trans, bi e combinou chamar tudo de amor e foi assim que aconteceu. A fam\u00edlia foi ficando uma coisa t\u00e3o grande que n\u00e3o cabia mais, nem no estatuto, nem na lei, ent\u00e3o, foi assim que de t\u00e3o grande cabia o jeito de cada um.<\/p>\n<p>Como todo mundo estava ocupando tudo, os loucos ocuparam os manic\u00f4mios e decidiram em assembl\u00e9ia geral\u2026 fechar todos os manic\u00f4mios. Sa\u00edram pelas ruas e diziam para as pessoas\u2026 \u201cestou triste\u201d, \u201cd\u00f3i muito\u201d, \u201cenfim voc\u00eas entenderam\u2026 \u201cvoc\u00ea gosta de mim\u201d, \u201cme d\u00e1 um cigarro. Decidiu-se que n\u00e3o era crime ser triste, nem louco, para ser punido com rem\u00e9dio e conten\u00e7\u00e3o, mas mereciam e precisavam de tratamento e compreens\u00e3o, ent\u00e3o, os loucos foram assim se misturando com a vida e foi bom. Os loucos ficaram mais vivos e a vida mais louca\u2026 o que foi bom.<\/p>\n<p>E os cantores cantaram, os poetas poetaram, os pintores pintaram, os escultores esculpiram, os escritores escreveram. No come\u00e7o ningu\u00e9m se deu conta, mas tinha gente cantando em escola ocupada, no \u00f4nibus, nas escadas do Teatro Municipal, tinha gente recitando poesia em sala de aula, dando aula em teatro, uma bagun\u00e7a gloriosa.<\/p>\n<p>Num dia destes, de tamanha confus\u00e3o, um policial que foi prender uma mulher que havia roubado comida de um supermercado, resolveu perguntar por que ela tinha feito aquilo e diante da resposta que foi para dar comida para seus filhos que estavam com fome, foi l\u00e1 e fez uma compra e deu pra ela. Vejam s\u00f3!<\/p>\n<p>Quando quase tudo estava ocupado foi que ouviram gritos vindos do pal\u00e1cio do governo. O povo foi at\u00e9 l\u00e1 com cuidado. N\u00e3o foi passeata nem manifesta\u00e7\u00e3o, foram l\u00e1 por curiosidade. Na sala presidencial estavam Temer e Cunha, engalfinhados rolando pelo ch\u00e3o disputando aos tapas a faixa presidencial. \u201c\u00c9 minha\u2026 \u00e9 minha\u2026 eu peguei antes\u201d!!!!<\/p>\n<p>O pessoal que havia ocupado os CAPS disse que ia cuidar deles. Haviam outros que sofriam de comportamento t\u00e3o estranho e que nem tinham percebido que tudo j\u00e1 estava ocupado. Eram empres\u00e1rios que sentados no canto de suas casas em posi\u00e7\u00e3o fetal ficavam repetindo\u2026 \u201c\u00e9 meu, \u00e9 meu\u201d, banqueiros agarrados a malas de dinheiro com olhos vidrados e loucos dizendo \u201cposso comprar qualquer um que queira se vender, outros agarrados a espingardas gritavam eu mato, eu mato\u201d, parlamentares aos berros choravam \u201cse me der um cargo eu voto\u201d, homens altos e raivosos de terno com um saiote cor de rosa de bailarina que berravam \u201ceu n\u00e3o sou gay, n\u00e3o sou\u201d, gente sentado na frente da TV tentando, sem conseguir, achar a <i>Globo News<\/i> e at\u00e9 mesmo pessoas comuns com camisas da sele\u00e7\u00e3o brasileira que olhavam assustadas pelas janelas esperando que os militares as salvassem.<\/p>\n<p>Quando o \u00faltimo pedacinho do mundo foi ocupado\u2026 as pessoas se reuniram para decidir se j\u00e1 era hora de passar do reino da necessidade para o reino da liberdade \u00e9 que apareceu a \u00faltima surpresa. Um oper\u00e1rio pediu a palavra e falou: \u201creino \u00e9 o cacete\u2026 proponho que seja uma Rep\u00fablica\u201d!<\/p>\n<p>N\u00e3o sei, s\u00f3 sei que foi assim. Todos os fatos aqui narrados s\u00e3o rigorosamente verdadeiros, apenas alguns deles n\u00e3o aconteceram\u2026 ainda.<\/p>\n<hr \/>\n<p><b>Mauro Iasi <\/b>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <i><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\">O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/a><\/i> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <i><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\">Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/a><\/i> e <i><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\">Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/a><\/i> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <b>Blog da Boitempo <\/b>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/05\/19\/ocupa-tudo\/\">Ocupa tudo!<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;N\u00e3o sei, s\u00f3 sei que foi assim. Todos os fatos aqui narrados s\u00e3o rigorosamente verdadeiros, apenas alguns deles n\u00e3o aconteceram&#8230; ainda.&#8221; Mauro Luis \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11115\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-11115","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Th","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11115"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11115\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}