{"id":11117,"date":"2016-05-20T15:21:41","date_gmt":"2016-05-20T18:21:41","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11117"},"modified":"2016-06-02T19:13:39","modified_gmt":"2016-06-02T22:13:39","slug":"raposas-no-galinheiro-uma-analise-da-conjuntura-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11117","title":{"rendered":"Raposas no galinheiro: uma an\u00e1lise da conjuntura brasileira"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/-ez3PqShwWeY\/Vz9VTK1p-jI\/AAAAAAAAMBk\/ZOHPGw0rEXQrBOE49DG11O6IWpuUmyvzwCCo\/s396\/2016-05-20.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><em>Em festa de jacu, inhambu n\u00e3o entra.<\/em><\/p>\n<p>Podia comentar a iminente extin\u00e7\u00e3o do gorila de Grauer, o maior primata do planeta, cuja popula\u00e7\u00e3o diminuiu 77% em duas d\u00e9cadas. S\u00e3o ca\u00e7ados implacavelmente nas florestas do Congo e simbolizam a prepot\u00eancia da nossa esp\u00e9cie, que vai dizimando rapidamente a si e a Natureza ao redor. Tamb\u00e9m cabia falar sobre o grupo de m\u00e9dicos amazonenses, que, sem alternativas e no desespero, recorreu a uma vaquinha para manter, em Manaus, o \u00fanico centro de oncologia ocular da regi\u00e3o Norte. <!--more-->Retrato acabado da fal\u00eancia dos servi\u00e7os de sa\u00fade no Brasil. N\u00e3o seria impertinente repercutir o mais recente levantamento do Minist\u00e9rio da Fazenda sobre a concentra\u00e7\u00e3o de renda e patrim\u00f4nio no Brasil. Os dados s\u00e3o escandalosos: os 5% mais ricos da popula\u00e7\u00e3o brasileira concentram quase 30% da renda sujeita a tributa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o 0,1% mais rico da sociedade (27.500 pessoas) fica com 6% dos rendimentos do pa\u00eds. Quem pensa em poder pol\u00edtico, deve olhar para esse condom\u00ednio de alto luxo. As manchetes s\u00e3o apenas malhas opacas, que escondem, conv\u00e9m n\u00e3o se iludir, os verdadeiros burgomestres. Viajando no tempo, esbarraria no long\u00ednquo 18 de maio de 1721. Naquele dia vergonhoso, a Santa Inquisi\u00e7\u00e3o espanhola queimou na fogueira Maria Barbara Carillo, a mais idosa v\u00edtima dos terroristas eclesiais, torturadores de batina. Com 95 anos, ela foi condenada \u00e0 morte por praticar secretamente o juda\u00edsmo. Nada a comemorar nestes quase tr\u00eas s\u00e9culos de intoler\u00e2ncia religiosa. Subiu-se um degrau infame no rumo da bestialidade.<\/p>\n<p>Tudo isso poderia estar na pauta. No entanto, sou convocado, por um prov\u00e9rbio ib\u00e9rico, a olhar para outras plan\u00edcies. Diz o ad\u00e1gio: <em>L\u00e1 v\u00e3o leis para onde querem os reis<\/em>. Correndo s\u00e9rio risco de me repetir, e por isso j\u00e1 vou me desculpando, passeio pela conjuntura pol\u00edtica brasileira. Essa que, mesmo formalmente republicana, adora pequenos monarcas e grandes bobos da corte. Orwelliana p\u00e1tria, em que, mais do que nunca, vale a m\u00e1xima de que \u201ctodos os bichos s\u00e3o iguais, mas uns s\u00e3o mais iguais do que os outros\u201d.<\/p>\n<p>Come\u00e7o pelo que acaba de terminar. O governo Dilma. Seu desastre \u00e9, seguramente, o desastre do PT. Um partido que, nascido nas entranhas de um segmento da esquerda, do movimento sindical e de clero progressista, abandonou faz tempo qualquer veleidade socialista. A partir da\u00ed, e fascinado pelo poder artificial do Planalto, cometeu, pelo menos, tr\u00eas erros capitais. O primeiro, elegantemente apontado pelo senador Humberto Costa, est\u00e1 na ren\u00fancia \u00e0 pol\u00edtica. \u201cDilma \u00e9 uma pessoa que tem dificuldade de dialogar, de ouvir, \u00e9 o perfil dela\u201d. Estendendo para o corpo partid\u00e1rio, privilegiou-se o di\u00e1logo com as for\u00e7as pol\u00edticas mais atrasadas do pa\u00eds e o abandono da articula\u00e7\u00e3o com as fra\u00e7\u00f5es organizadas da sociedade, fora do parlamento. O s\u00edmbolo mais constrangedor disso foi a feijoada da c\u00fapula coroada petista, Lula \u00e0 frente, na casa do paladino da \u00e9tica, Paulo Maluf. Em nome de apoio numa elei\u00e7\u00e3o municipal. Trata-se de uma l\u00f3gica esdr\u00faxula: pactuar com o atraso levar\u00e1 ao progresso (sic). Deu no que deu.<\/p>\n<p>O segundo foi a concilia\u00e7\u00e3o de classes. No Brasil, em que as chamadas elites (categoria anal\u00edtica pouco rigorosa, mas que serve para essa s\u00edntese) sempre odiaram o povo, as crises quase sempre se resolvem com acordos de c\u00fapula. Conciliar \u00e9 um esporte nacional. O resultado \u00e9 que o pov\u00e3o fica a reboque dos grandes interesses dominantes, e caberia \u00e0 esquerda romper essa tradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi o que aconteceu nos governos petistas, que, nas palavras do soci\u00f3logo Ricardo Antunes, \u201cserviram muito bem \u00e0s classes dominantes\u201d. \u00c9 muito diferente incluir pelo consumo, via aumento de cr\u00e9dito banc\u00e1rio, do que inserir pela pol\u00edtica, pela organiza\u00e7\u00e3o e politiza\u00e7\u00e3o dos exclu\u00eddos. Hoje, se grita nas ruas \u201co povo n\u00e3o \u00e9 bobo, abaixo a rede Globo\u201d. Pois bem, quando Roberto Marinho morreu, Lula, ent\u00e3o presidente, compareceu ao vel\u00f3rio junto com cinco ministros. Referiu-se ao godfather das Organiza\u00e7\u00f5es Globo como \u201cgrande homem\u201d e \u201chomem de vanguarda\u201d. \u00c9 necess\u00e1rio maior exemplo de vassalagem ? No poder, o PT n\u00e3o deu um \u00fanico passo para massificar o debate sobre a democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Em nome, sempre ela, da \u201cgovernabilidade\u201d. Esse e outros temas na agenda da esquerda foram abandonados.<\/p>\n<p>A chave do terceiro est\u00e1 numa entrevista dada pelo ex-ministro Jaques Wagner \u00e0 Folha de S\u00e3o Paulo, no in\u00edcio deste ano. Referindo-se \u00e0s pr\u00e1ticas do partido no poder, disse que ele se \u201clambuzou\u201d. N\u00e3o esclareceu o que quis dizer com isso, mas d\u00e1 para imaginar. Fugindo das teorias conspirat\u00f3rias, \u00e9 evidente que, como bem lembrou Vladimir Safatle, \u201ca sequ\u00eancia de esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi uma inven\u00e7\u00e3o da imprensa, mas uma pr\u00e1tica normal de governo\u201d. N\u00e3o adianta repetir que \u201ctodos fazem isso\u201d. N\u00e3o \u00e9 consolo, pelo contr\u00e1rio. \u00c9 a primeira vez na hist\u00f3ria brasileira que a esquerda se envolve com corrup\u00e7\u00e3o pesada. As consequ\u00eancias s\u00e3o dram\u00e1ticas. N\u00e3o \u00e9 apenas o PT que est\u00e1 manchado, mas, no imagin\u00e1rio popular, estimulado pela m\u00eddia, toda a esquerda est\u00e1 no mesmo saco. Quantas d\u00e9cadas precisaremos para limpar as cavalari\u00e7as do rei Augias ?<\/p>\n<p>Isto posto, e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma alegria no esbo\u00e7o cr\u00edtico sobre o PT, o que acaba de acontecer com a presidente Dilma n\u00e3o passa de um conchavo para troca de guarda. As pedaladas fiscais n\u00e3o passaram de um pretexto oportunista para defenestrar a senhora Rousseff. Pretexto que, de resto, pouqu\u00edssima gente consegue entender. Coisa de juristas, cada um escolhe o seu. Restou um Fla x Flu agressivo e intolerante, cujo rid\u00edculo ficou exposto na sess\u00e3o da C\u00e2mara dos Deputados no dia 17 de abril. A discuss\u00e3o sobre o r\u00f3tulo \u2013 \u00e9 golpe ou n\u00e3o \u2013 \u00e9 um pormenor. O que importa \u00e9 reconhecer os atores por tr\u00e1s dos bastidores e seus objetivos. Isso ficou muito claro na forma\u00e7\u00e3o do governo interino. V\u00eam por a\u00ed as velhas propostas de reformas trabalhistas e na Previd\u00eancia, privatiza\u00e7\u00e3o generalizada, desvincula\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria para sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, desvincula\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo aos benef\u00edcios sociais e conservadorismo econ\u00f4mico. V\u00e3o passar ? Depender\u00e1 das ruas, das f\u00e1bricas, dos bairros, das escolas, dos campos. A repress\u00e3o, ora pois, est\u00e1 garantida. PMDB e PSDB t\u00eam p\u00f3s-doutorado na mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Neste per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, percebo v\u00e1rias desonestidades intelectuais. Fala-se do Congresso como sendo \u201ca casa do povo\u201d. Mistifica\u00e7\u00e3o. Composto por 80% de homens brancos, quase 50% de milion\u00e1rios e mais de 30% de ruralistas, n\u00e3o \u00e9 nem remotamente um espelho fiel da sociedade brasileira. Segundo Safatle, \u201co Congresso transformou-se numa partidocracia corrompida, que gerencia elei\u00e7\u00f5es eivadas de distor\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 presen\u00e7a do poder econ\u00f4mico, a casu\u00edsmos, ao limite brutal do tempo de campanha, \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de uma imprensa recheada de canais de comunica\u00e7\u00e3o de posse, direta ou indireta, dos pr\u00f3prios pol\u00edticos\u201d. H\u00e1 tamb\u00e9m os que dizem ser o impeachment uma \u201cvit\u00f3ria do povo\u201d. Cinismo ? Cafajestagem ? Ilusionismo ? Oportunismo \u00e0 cata de boquinhas ? O povo entra, aqui, com o pesco\u00e7o na frente da guilhotina. Quem est\u00e1 no comando s\u00e3o as velhas oligarquias, o patronato que criou patinhos amarelos e agora nada de bra\u00e7ada no novo minist\u00e9rio. O gerent\u00e3o da economia no primeiro governo Lula volta agora como o l\u00edder da \u201csalva\u00e7\u00e3o nacional\u201d. \u00c9 a banca em estado de gra\u00e7a. Um empres\u00e1rio do agroneg\u00f3cio \u00e9 o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, outro chefia a pasta da Agricultura. Cheiro de povo, sem d\u00favida alguma.<\/p>\n<p>Poderia ser pior ? Sim, se estiv\u00e9ssemos nas Filipinas. L\u00e1, um \u201cjusticeiro\u201d acaba de ser eleito presidente. Na campanha, disse o seguinte: \u201cEm Davao (cidade em que foi prefeito), bandidos n\u00e3o saem vivos. Eles podem sair da cidade, mas em um caix\u00e3o. \u00c9 isso que chamam de assassinatos extrajudiciais ? Ent\u00e3o levarei traficantes aos ju\u00edzes e os matarei l\u00e1 para que deixem de ser assassinatos extrajudiciais. Esque\u00e7am as leis de direitos humanos. Se chegar ao pal\u00e1cio presidencial, farei exatamente o que fiz quando era prefeito. Traficantes, bandidos e vagabundos devem partir do pa\u00eds, porque eu os matarei\u201d. N\u00e3o riam. Este fascismo tem similar verde-amarelo. Jair Bolsonaro acumula 20% das inten\u00e7\u00f5es de voto entre os eleitores com renda acima de dez sal\u00e1rios m\u00ednimos. Este \u00e9 o Brasil do jeitinho, da concilia\u00e7\u00e3o, do estupra mas n\u00e3o mata, do elogio aos torturadores.<\/p>\n<p>Mesmo que minh\u2019alma esteja coberta por merenc\u00f3ria pel\u00edcula, a esperan\u00e7a \u00e9 teimosa. N\u00e3o partiremos do vazio. A experi\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 cumulativa. Aos que se lambuzaram, chegou a hora de uma portentosa autocr\u00edtica. \u00c9 preciso avan\u00e7ar na dire\u00e7\u00e3o de uma Frente de Esquerda, que articule partidos, movimentos sociais, setores progressistas organizados, sempre com uma perspectiva de classe. \u00c9 preciso quebrar, de uma vez por todas, a espinha dorsal da concilia\u00e7\u00e3o. \u00c9 trabalho para mais de uma gera\u00e7\u00e3o, mas que n\u00e3o pode tardar. Na minha caminhada dominical de ontem, cruzei com uma pequena manifesta\u00e7\u00e3o. Eram alunos, professores e pais de alunos do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o, da UERJ. Denunciavam o sucateamento da rede p\u00fablica de ensino e justificavam as ocupa\u00e7\u00f5es de pr\u00e9dios escolares. Vi muitos rostos jovens, que talvez fossem calouros neste tipo de manifesta\u00e7\u00e3o. Felizes e, parece, orgulhosos. Gente que n\u00e3o se conforma, que est\u00e1 disposta a esquecer os fins de semana, a ajudar a construir, n\u00e3o apenas uma escola diferente, mas uma cidade mais humana e solid\u00e1ria. Um exemplo e um alento para os tempos dur\u00edssimos que estamos vivendo.<\/p>\n<p><em>Jacques Gruman\u200b<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em festa de jacu, inhambu n\u00e3o entra. 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