{"id":11123,"date":"2016-05-21T18:54:37","date_gmt":"2016-05-21T21:54:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11123"},"modified":"2016-06-02T19:13:49","modified_gmt":"2016-06-02T22:13:49","slug":"temer-e-os-orgasmos-do-financismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11123","title":{"rendered":"Temer e os orgasmos do financismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/midia.gruposinos.com.br\/_midias\/jpg\/2016\/04\/27\/temer_meirelles-1450984.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><b>O pacote de malef\u00edcios, sem nenhuma legitimidade democr\u00e1tica, aponta para tempos dif\u00edceis. A \u00fanica certeza \u00e9 a de que os golpistas n\u00e3o ter\u00e3o vida f\u00e1cil.<\/b><\/p>\n<p><b>Paulo Kliass*<\/b><!--more--><\/p>\n<p>O an\u00fancio dos principais nomes a ocuparem postos estrat\u00e9gicos na \u00e1rea econ\u00f4mica do Presidente Interino Michel Temer foi saudado com muita festa e fogos de artif\u00edcio pelos mais l\u00edmpidos representantes do sistema financeiro em nosso Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na verdade, tal rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser encarada como uma grande surpresa. Muito pelo contr\u00e1rio, trata-se t\u00e3o somente da confirma\u00e7\u00e3o de um jogo de cena muito bem desenhado pelos dirigentes das institui\u00e7\u00f5es do setor em articula\u00e7\u00e3o com os principais respons\u00e1veis pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os articuladores do golpeachment tinham por objetivo \u00f3bvio a remo\u00e7\u00e3o de Dilma do Pal\u00e1cio do Planalto. Para eles n\u00e3o bastava a implementa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica do austeric\u00eddio colocada em pr\u00e1tica pelos dois ocupantes do Minist\u00e9rio da Fazenda desde o in\u00edcio do segundo mandato da Presidenta eleita. N\u00e3o era suficiente que ela tivesse abandonado o programa de governo para o qual havia sido vitoriosa no segundo turno do pleito de outubro de 2014.<\/p>\n<p><b>Levy, Barbosa e Meirelles: mais do mesmo.<\/b><br \/>\nTampouco ficaram eles satisfeitos com a guinada conservadora de Dilma, que foi buscar uma indica\u00e7\u00e3o na nata dos representares dos bancos para comandar a economia, incorporando um diretor do Bradesco &#8211; Joaquim Levy &#8211; para o posto. Na sequ\u00eancia, a nomea\u00e7\u00e3o de Nelson Barbosa para substitui-lo gerou enorme frustra\u00e7\u00e3o em tempo recorde para todos os que acreditavam na retomada de alguma tintura desenvolvimentista no projeto econ\u00f4mico do governo. Por\u00e9m, de nada adiantou que o sucessor do banqueiro mantivesse exatamente a agenda da ortodoxia, pois o imenso apetite dos golpistas n\u00e3o era jamais saciado.<\/p>\n<p>Uma vez consumado o putsch em sua etapa inicial no \u00e2mbito do Senado Federal, o afastamento tempor\u00e1rio de Dilma abriu o espa\u00e7o para a posse do interino. E com ele veio toda uma mudan\u00e7a na equipe de governo. Enfim, altera\u00e7\u00e3o mais na ret\u00f3rica do que nos nomes, pois boa parte do gabinete temer\u00e1rio \u00e9 composta de pessoas que haviam ocupado cargos estrat\u00e9gicos durante os governos dirigidos pelo PT.<\/p>\n<p>Como sempre, o essencial era a dire\u00e7\u00e3o da economia. A escolha de mais uma sugest\u00e3o oferecida pela banca recaiu sobre Henrique Meirelles, ex presidente internacional do Bank of Boston e todo poderoso Presidente do Banco Central durante os dois mandatos lulistas. A ironia da hist\u00f3ria \u00e9 que Lula havia pressionado Dilma para que escolhesse o pr\u00f3prio Meirelles para ocupar o cargo da Fazenda.<\/p>\n<p>As trapalhadas iniciais do governo, as declara\u00e7\u00f5es desastradas e desencontradas dos ministros ainda na primeira semana, a aus\u00eancia de mulheres e negros no primeiro escal\u00e3o, a elevada incid\u00eancia de investigados dentre os nomeados, quase nada disso ganhou muita relev\u00e2ncia ou destaque entre os editores dos \u00f3rg\u00e3os de imprensa. O importante era conceder um voto de confian\u00e7a e ressaltar a capacidade profissional e a compet\u00eancia t\u00e9cnica dos indicados para a \u00e1rea econ\u00f4mica. Ao governo provis\u00f3rio \u00e9 oferecida uma bela tr\u00e9gua.<\/p>\n<p><b>O financismo no poder, sem intermedi\u00e1rios.<\/b><\/p>\n<p>O tom exageradamente ufanista do \u201cagora, vai!\u201d dominou o tempero da comunica\u00e7\u00e3o. Afinal, o fundamental \u00e9 contribuir para a cria\u00e7\u00e3o de um clima positivo para a forma\u00e7\u00e3o das expectativas no interior dos espa\u00e7os dos tomadores de decis\u00e3o na economia. O financismo chegou ao orgasmo com o an\u00fancio do s\u00f3cio do banco Ita\u00fa, Ilan Goldfajn, para comandar a pol\u00edtica monet\u00e1ria e a regulamenta\u00e7\u00e3o do sistema financeiro. O ingresso de assessores expl\u00edcitos ou informais da candidatura de A\u00e9cio Neves e dos tucanos de forma geral foi comemorado com \u00eaxtase indisfar\u00e7\u00e1vel, como se realmente houvessem recebido um in\u00e9dito mandato das urnas para algo que lhes fora negado, de forma sistem\u00e1tica, pelo voto popular em 2002, em 2006, em 2010 e em 2014.<\/p>\n<p>Talvez a aristocracia do dinheiro tenha realmente ficado cansada de terceirizar por tanto tempo o comando da economia e do pa\u00eds para dirigentes pol\u00edticos estranhos ao seleto grupo da elite. Como se dissessem: \u201cChega! Agora \u00e9 a nossa vez!\u201d. Basta de governantes que tentem incorporar a narrativa e a pr\u00e1tica do bom mocismo e que busquem interpretar os mais profundos desejos da finan\u00e7a. N\u00e3o! Agora, o financismo pretende governar de forma direta, sem intermedi\u00e1rios, ainda que a ess\u00eancia da pol\u00edtica econ\u00f4mica n\u00e3o seja muito diferente do que havia sido praticada at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 que, a partir de agora, o tom e a intensidade ser\u00e3o muito diversos. N\u00e3o haver\u00e1 mais vergonha em falar de privatiza\u00e7\u00e3o, em desmantelamento do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), em reforma da previd\u00eancia social, em cortes dos gastos sociais, em mudan\u00e7a nas regras do sal\u00e1rio m\u00ednimo, em redu\u00e7\u00e3o de direitos sindicais e trabalhistas, entre tantas outras maldades. A \u00e1rea da cultura j\u00e1 recebeu o tratamento que era imaginado. O sistema de ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o foi reduzido a p\u00f3. A reforma agr\u00e1ria e a pol\u00edtica social foram esmagadas. Os direitos humanos tamb\u00e9m foram ofendidos.<\/p>\n<p><b>Dificuldades de Temer e a articula\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia.<\/b><\/p>\n<p>Temer sabe que tem pouco tempo para entregar o que prometeu e aquilo que as elites tanto esperam. Exatamente por isso \u00e9 que a tarefa da m\u00eddia \u00e9 exultar os orgasmos m\u00faltiplos. Pouco importa que estes sejam muito bem simulados, na tentativa de enganar um prazer que n\u00e3o foi t\u00e3o intenso assim. O que conta agora s\u00e3o os resultados esperados. As dificuldades iniciais para convencer a pr\u00f3pria base do golpismo no Congresso Nacional come\u00e7am a apresentar seus obst\u00e1culos. Os sindicalistas pelegos que estavam com Cunha e contra Dilma n\u00e3o parecem muito dispostos a engolir as maldades de uma reforma previdenci\u00e1ria. Os representantes dos empres\u00e1rios, embalados pelo clima do pato da FIESP, j\u00e1 avisam que n\u00e3o aceitar\u00e3o aumento de tributos sob a forma da CPMF.<\/p>\n<p>Mas mesmo assim, os jornal\u00f5es e as redes de r\u00e1dio e TV &#8211; que receberam todo o tipo de ajudas e benesses dos governos do bloco que ajudaram a derrubar &#8211; mant\u00eam o clima artificial de otimismo e tocam o bumbo para o bloco seguir em frente. Assim, os problemas seriam todos derivados da heran\u00e7a maldita deixada pelos governos anteriores. A compet\u00eancia t\u00e9cnica e a excel\u00eancia do curr\u00edculo dos novos indicados para economia s\u00e3o a boia de salva\u00e7\u00e3o para a travessia do rio turbulento. Afinal, a promessa de uma ponte para o futuro n\u00e3o passava de mera cria\u00e7\u00e3o fantasiosa.<\/p>\n<p>No entanto, o que aparentemente n\u00e3o havia entrado nos c\u00e1lculos dos estrategistas do \u201ccoup d\u00b4\u00b4Etat\u201d &#8211; denunciado pelo mundo afora, inclusive em Cannes, na Fran\u00e7a \u2013 \u00e9 a capacidade de resist\u00eancia pol\u00edtica de amplos setores em nossa sociedade. A ruptura casu\u00edstica da ordem institucional e a edi\u00e7\u00e3o de um pacote de malef\u00edcios, sem nenhuma legitimidade democr\u00e1tica ou popular, apontam para tempos dif\u00edceis no horizonte.<\/p>\n<p>A \u00fanica certeza \u00e9 a de que os golpistas n\u00e3o ter\u00e3o vida f\u00e1cil.<\/p>\n<p>*Paulo Kliass \u00e9 doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Pol\u00edticas P\u00fablicas e Gest\u00e3o Governamental, carreira do governo federal.<\/p>\n<p>http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Economia\/Temer-e-os-orgasmos-do-financismo\/7\/36126<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O pacote de malef\u00edcios, sem nenhuma legitimidade democr\u00e1tica, aponta para tempos dif\u00edceis. 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