{"id":11130,"date":"2016-05-26T08:24:38","date_gmt":"2016-05-26T11:24:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11130"},"modified":"2016-06-08T21:36:08","modified_gmt":"2016-06-09T00:36:08","slug":"a-crise-do-progressismo-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11130","title":{"rendered":"A crise do progressismo na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/-Hp4VrMmSZRs\/V0ELGY1TeNI\/AAAAAAAAMCM\/AgQgu8_OEZM46Lr5MX1YyhCo0K4gATV5gCCo\/s505\/crise-progressismo.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>A onda progressista que teve curso na Am\u00e9rica Latina na virada do s\u00e9culo XX para o XXI se apoiou no desgaste do neoliberalismo e na ascens\u00e3o de grandes movimentos de massas que, em alguns casos, como na Bol\u00edvia em 2005, na Argentina em 2001-2002, no Equador em 2006 e na Venezuela em 1998, for\u00e7aram a queda de governos de direita, mas n\u00e3o puderam impor revolu\u00e7\u00f5es sociais. Quando chegaram ao governo, <!--more-->os pre\u00e7os internacionais favor\u00e1veis das mat\u00e9rias primas, somados a pol\u00edticas de expans\u00e3o dos mercados internos, permitiram que as for\u00e7as identificadas com demandas populares garantissem a governabilidade, mas as transforma\u00e7\u00f5es operadas n\u00e3o foram capazes de se confrontar a fundo com as estruturas de domina\u00e7\u00e3o existentes.<\/p>\n<p>O conjunto dos movimentos surgidos em finais dos anos 1990, que tinham como principal ponto de reivindica\u00e7\u00e3o a luta contra as pol\u00edticas neoliberais, ao se transformarem em governo, em que pesem os importantes avan\u00e7os obtidos, n\u00e3o conseguiram superar a matriz econ\u00f4mica a eles legada. Tampouco foi poss\u00edvel promover mudan\u00e7as radicais no sistema de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, apesar de in\u00fameras iniciativas voltadas \u00e0 consulta da popula\u00e7\u00e3o para aprova\u00e7\u00e3o de determinadas medidas. Isso n\u00e3o s\u00f3 possibilitou a recomposi\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de direita, como tamb\u00e9m a manuten\u00e7\u00e3o, em n\u00edvel estatal, de pr\u00e1ticas inerentes \u00e0 forma burguesa de governar, como as a\u00e7\u00f5es politiqueiras e fisiol\u00f3gicas, o mandonismo e a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos casos da Bol\u00edvia e da Venezuela, os discursos revolucion\u00e1rios acompanharam pr\u00e1ticas reformistas repletas de contradi\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo em que se anunciavam grandes transforma\u00e7\u00f5es, as iniciativas se deparavam com realidades adversas e tamb\u00e9m expressavam o temor profundo de superar os obst\u00e1culos colocados pelo capitalismo. O caso venezuelano, por exemplo, permite-nos ver a alta depend\u00eancia do pa\u00eds com um modelo rentista de acumula\u00e7\u00e3o, baseado, sobretudo, na venda de commodities, em especial o petr\u00f3leo, o que, em momento de crise internacional do capitalismo, resulta dram\u00e1tico para a grande massa dos trabalhadores, que veem suas condi\u00e7\u00f5es de vida cada vez mais deterioradas.<\/p>\n<p>Na Bol\u00edvia, Evo Morales chegou ao governo na esteira das grandes manifesta\u00e7\u00f5es sociais que enfrentaram os interesses poderosos de grupos multinacionais e passaram a contestar o velho sistema racista colonial. Por\u00e9m, a mistura h\u00edbrida de reivindica\u00e7\u00f5es anti-imperialistas, p\u00f3s-capitalistas e indigenistas com a persist\u00eancia do modelo mineral-extrativista de deteriora\u00e7\u00e3o ambiental e de explora\u00e7\u00e3o das comunidades rurais terminou por diluir o discurso do \u201csocialismo comunit\u00e1rio\u201d. Ficou, assim, aberto o espa\u00e7o para a recomposi\u00e7\u00e3o das classes dominantes e do conservadorismo.<\/p>\n<p>No Brasil, os governos petistas nem de longe promoveram mudan\u00e7as pol\u00edticas e sociais semelhantes \u00e0s ocorridas nos pa\u00edses vizinhos. Pelo contr\u00e1rio, mantiveram intactas as premissas do projeto neoliberal que FHC acordou com o FMI no final dos anos 1990, bem como deu continuidade \u00e0s pol\u00edticas privatizantes, ao desmonte dos servi\u00e7os p\u00fablicos e ataques a direitos constitu\u00eddos da classe trabalhadora. Tudo com a roupagem do \u201cneodesenvolvimentismo\u201d, do \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d ou \u201cnovo projeto nacional de desenvolvimento\u201d. Hoje a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o sente na carne e no bolso que o projeto de \u201ccrescimento econ\u00f4mico com inclus\u00e3o social e distribui\u00e7\u00e3o de renda\u201d era uma ilus\u00e3o passageira. Se foi poss\u00edvel governar por alguns anos administrando o capitalismo na perspectiva da concilia\u00e7\u00e3o de classes, com o esgotamento das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas favor\u00e1veis, tudo o que era s\u00f3lido come\u00e7ou a se desmanchar no ar.<\/p>\n<p>Apesar de os governos petistas terem aplicado servilmente as exig\u00eancias da classe dominante, a gravidade da crise econ\u00f4mica \u2013 acoplada \u00e0 crise pol\u00edtica decorrente das den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o \u2013 passou a exigir, do ponto de vista dos interesses do capital, medidas mais profundas e r\u00e1pidas, diante do que a continuidade do governo petista se torna inc\u00f4moda e desnecess\u00e1ria para o \u201cmercado\u201d.<br \/>\nNa conjuntura atual, as direitas latino-americanas v\u00e3o ocupando posi\u00e7\u00f5es anteriormente perdidas e consolidam aquelas preservadas pela incapacidade de os governos progressistas promoverem mudan\u00e7as estruturais. Grupos financeiros, industriais e do agroneg\u00f3cio comandam a oposi\u00e7\u00e3o de direita aos governos ditos progressistas, contando com o apoio de uma m\u00eddia agressiva e mobiliza\u00e7\u00f5es de rua de car\u00e1ter reacion\u00e1rio, onde as camadas m\u00e9dias ocupam um lugar central. Os governos progressistas supunham que a bonan\u00e7a econ\u00f4mica facilitaria a captura pol\u00edtica desses setores sociais, mas enquanto ascendiam economicamente, estes grupos olhavam ainda com mais desprezo os trabalhadores e setores prolet\u00e1rios.<\/p>\n<p>A onda conservadora na Am\u00e9rica Latina acompanha um fen\u00f4meno mundial, em que a crise sist\u00eamica global do capitalismo faz recair sobre as costas da classe trabalhadora n\u00e3o s\u00f3 mais e profundos ataques aos direitos sociais, como tamb\u00e9m \u00e0s conquistas democr\u00e1ticas, com a crescente criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos populares, aumento da repress\u00e3o e da viol\u00eancia contra os trabalhadores. Juntamente \u00e0s constantes amea\u00e7as das pot\u00eancias imperialistas aos povos em todo o mundo, revelam-se tend\u00eancias neofascistas ascendentes no Ocidente, da Ucr\u00e2nia at\u00e9 os Estados Unidos, passando pela Alemanha, Fran\u00e7a, Hungria, etc., express\u00e3o cultural do neoliberalismo decadente e niilista, onde o racismo e os preconceitos de toda ordem aparecem como solu\u00e7\u00f5es para a crise, atrav\u00e9s de processos de exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>Parece aproximar-se do fim o modelo de governan\u00e7a baseado na ilus\u00e3o progressista de humaniza\u00e7\u00e3o do sistema capitalista e de realiza\u00e7\u00e3o de reformas cosm\u00e9ticas nos marcos institucionais existentes. Comprova-se, com certeza, mais explicitamente no caso brasileiro, que a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes leva a derrotas contundentes para a classe trabalhadora. \u00c9 necess\u00e1rio apontar que a sa\u00edda para os impasses pol\u00edticos colocados est\u00e1 no fortalecimento e na plena autonomia do movimento popular e oper\u00e1rio, que deve buscar criar espa\u00e7os de decis\u00e3o pol\u00edtica que extrapolem os limites da ordem institucional burguesa, em que os trabalhadores, a partir de seus locais de trabalho e moradia possam tomar em suas m\u00e3os o real poder e decidir sobre as quest\u00f5es de sua vida.<\/p>\n<p><strong>\u00cdntegra da 11<sup>a<\/sup> edi\u00e7\u00e3o de O Poder Popular: <a href=\"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11019\" target=\"_blank\">http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11019<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A onda progressista que teve curso na Am\u00e9rica Latina na virada do s\u00e9culo XX para o XXI se apoiou no desgaste do neoliberalismo \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11130\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[140],"tags":[],"class_list":["post-11130","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c140-jornal-o-poder-popular"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Tw","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11130","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11130"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11130\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11130"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11130"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11130"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}