{"id":1114,"date":"2011-01-09T19:05:36","date_gmt":"2011-01-09T19:05:36","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1114"},"modified":"2011-01-09T19:05:36","modified_gmt":"2011-01-09T19:05:36","slug":"italia-insulta-o-brasil-no-caso-battisti-diz-filosofo-italiano-toni-negri","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1114","title":{"rendered":"It\u00e1lia insulta o Brasil no caso Battisti, diz fil\u00f3sofo italiano Toni Negri"},"content":{"rendered":"\n<p>A It\u00e1lia adota uma postura &#8220;insultante&#8221; com o Brasil no conflito em torno do ex-ativista Cesare Battisti, porque n\u00e3o se trata de um pa\u00eds desenvolvido, e mente quando diz que vivia um Estado de Direito nos anos 70. A an\u00e1lise \u00e9 do fil\u00f3sofo italiano Antonio Negri, que passou mais de dez anos preso por seu envolvimento com a milit\u00e2ncia de esquerda na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Negri \u00e9 co-autor, com Michael Hardt, do livro &#8220;Imp\u00e9rio&#8221;, publicado no Brasil em 2001 e umas das obras mais importantes e pol\u00eamicas sobre o processo de globaliza\u00e7\u00e3o. Com Giuseppe Cocco, publicou &#8220;Global &#8211; Biopoder e Luta em uma Am\u00e9rica Latina Globalizada&#8221;, em 2005.<\/p>\n<p>Leia abaixo a entrevista completa, concedida por Negri via telefone desde Veneza.<\/p>\n<p><strong>Quem \u00e9 Toni Negri<\/strong><\/p>\n<p>Antonio Negri, 75, \u00e9 um fil\u00f3sofo italiano, professor da Universidade de P\u00e1dua (It\u00e1lia) e do Col\u00e9gio Internacional de Paris (Fran\u00e7a). Entre os anos 50 e 70, participou dos movimentos de esquerda na It\u00e1lia, condenando tanto a direita quanto o stalinismo. Esteve preso entre 1979 e 1983, depois se exilou na Fran\u00e7a por 14 anos. Condenado por subvers\u00e3o, o fil\u00f3sofo voltou para a It\u00e1lia em 1997 e cumpriu pena at\u00e9 2003. Atualmente, divide seu tempo entre Veneza e Paris, cidades onde desenvolve atividades acad\u00eamicas<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; Como o senhor v\u00ea a posi\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia no caso Battisti?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Antonio Negri &#8211;<\/strong> A posi\u00e7\u00e3o italiana \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o muito complexa. Como se sabe, o governo italiano \u00e9 um governo de direita e \u00e9 um governo que, depois de 30 anos, retomou a persegui\u00e7\u00e3o das pessoas que se refugiaram no exterior depois do final dos anos 70, depois do final dos anos nos quais na It\u00e1lia houve um forte movimento de transforma\u00e7\u00e3o, de rebeli\u00e3o. E, portanto, o governo italiano retoma hoje uma campanha pela repatria\u00e7\u00e3o destas pessoas. Em particular, tentou faz\u00ea-lo com a Fran\u00e7a, para conseguir a extradi\u00e7\u00e3o de Marina Petrella [condenada por subvers\u00e3o pela justi\u00e7a italiana] e n\u00e3o conseguiu porque o governo franc\u00eas, a presid\u00eancia francesa [Nicolas Sarkozy], impediu. Neste ponto, aparece em um momento exemplar o caso Battisti.<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; O que o senhor quer dizer com persegui\u00e7\u00e3o? \u00c9 perigoso neste momento para Battisti retornar \u00e0 It\u00e1lia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negri &#8211;<\/strong> Eu n\u00e3o sei se \u00e9 perigoso. Mas \u00e9 certo que ele foi condenado \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua e seria para ele uma situa\u00e7\u00e3o muito grave.<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; Um dos motivos que o Brasil cita para manter o ref\u00fagio pol\u00edtico \u00e9 a amea\u00e7a de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra Battisti&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negri &#8211;<\/strong> Mas seguramente ele seria alvo de uma persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e midi\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; Trata-se, portanto, de um temor com fundamento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negri &#8211;<\/strong> Veja bem, o governo italiano, depois de 30 anos, quer recuperar, para fazer um exemplo, as pessoas que se refugiaram no exterior. E que se refugiaram no exterior porque na It\u00e1lia havia uma condi\u00e7\u00e3o de Justi\u00e7a que era imposs\u00edvel de aguentar.<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; O que significa esse &#8220;exemplo&#8221;? A puni\u00e7\u00e3o de Battisti resolveria a quest\u00e3o da viol\u00eancia na It\u00e1lia nos anos 70?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negri &#8211;<\/strong> Precisamente. Resolveria em dois sentidos: por um lado, se resgata aquilo que eles chamam &#8216;um assassino&#8217;; e por outro se esquece aquele que foi um Estado de Exce\u00e7\u00e3o, que permitiu a deten\u00e7\u00e3o e a pris\u00e3o preventiva de milhares de pessoas durante estes anos. \u00c9 necess\u00e1rio recordar que nos anos 70 o limite jur\u00eddico da pris\u00e3o preventiva era fixado em 12 anos. \u00c9 necess\u00e1rio recordar o uso da tortura e de processos sum\u00e1rios inteiramente constru\u00eddos sob a palavra de presos aos quais era prometida a liberdade em troca de confiss\u00f5es. Este foi o clima dos anos 70. E n\u00e3o nos esque\u00e7amos que nos anos 70 houve 36 mil deten\u00e7\u00f5es, seis mil pessoas foram condenadas e milhares se refugiaram no exterior. E se h\u00e1 quem duvide desses n\u00fameros, e que quer continuar duvidando, basta que deem uma olhada nos relat\u00f3rios da Anistia Internacional naqueles anos. Portanto, essa \u00e9 uma quest\u00e3o muito s\u00e9ria. O caso Battisti \u00e9, na verdade, um pobre exemplo de uma estrutura, de um sistema no qual a persegui\u00e7\u00e3o, insisto na palavra &#8216;persegui\u00e7\u00e3o&#8217;, era acompanhada por enormes esc\u00e2ndalos na estrutura pol\u00edtica e militar italiana. Houve uma constru\u00e7\u00e3o, principalmente por meio de uma loja ma\u00e7\u00f4nica chamada P2, de uma s\u00e9rie de atentados dos quais ainda hoje ningu\u00e9m sabe quem foram os autores, atentados que deixaram milhares de mortos, por parte da direita. E o governo italiano nunca pediu, por exemplo, que o \u00fanico condenado por estes atentados seja extraditado do Jap\u00e3o, onde se refugiou. Existe uma desigualdade nas rela\u00e7\u00f5es que o governo italiano mant\u00e9m com todos os outros condenados e refugiados de direitas que \u00e9 maluca. O governo italiano \u00e9 um governo quase fascista.<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; Se houvesse um governo de esquerda na It\u00e1lia o caso seria o mesmo? [O l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o de centro-esquerda] Romano Prodi faria o mesmo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negri &#8211;<\/strong> Eu n\u00e3o acredito que Prodi faria o mesmo, mas parte da esquerda faria o mesmo, isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; Como o senhor v\u00ea hoje o PAC [Prolet\u00e1rios Armados pelo Comunismo, grupo do qual Battisti fazia parte]?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negri &#8211;<\/strong> O PAC era um grupo muito marginal, mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o estivesse dentro do grande movimento pela autonomia. Mas ou\u00e7a, o problema \u00e9 esse: eu acho que as coisas das quais foi acusado Battisti s\u00e3o coisas muito graves, mas &#8211; e isso me parece importante dizer &#8211; estas s\u00e3o responsabilidades compartilhadas por toda a esquerda verdadeira. N\u00e3o se trata de um caso espec\u00edfico. O Supremo Tribunal Federal do Brasil construiu uma jurisprud\u00eancia pela qual foram acolhidos outros italianos nas mesmas condi\u00e7\u00f5es que Battisti.<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; E como a It\u00e1lia deve solucionar esta d\u00edvida com o passado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negri &#8211;<\/strong> Isso deveria ser feito por uma anistia, mas o governo italiano nunca quis caminhar por este terreno. Talvez tudo isso tenha determinado tremendas conseq\u00fc\u00eancias no sistema pol\u00edtico italiano, porque foi retirada da hist\u00f3ria da It\u00e1lia uma gera\u00e7\u00e3o ou duas, que poderiam ter conseguido determinar uma retomada pol\u00edtica. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o muito dram\u00e1tica. E gostaria de acrescentar uma coisa: o a postura da It\u00e1lia no confronto com o Brasil a respeito deste tema \u00e9 uma postura muito insultante. Trata-se de uma press\u00e3o feita sobre o Brasil, enquanto um pa\u00eds fraco, depois que os franceses n\u00e3o extraditaram \u00e0 It\u00e1lia Marina Petrella. Psicologicamente, trata-se de uma opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e midi\u00e1tica muito pesada contra o Brasil, na tentativa de restituir a dignidade da It\u00e1lia, no \u00e2mbito da busca de restituir os exilados.<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; O senhor acha que as autoridades italianas se sentem especialmente ofendidas pelo fato de a decis\u00e3o em favor de Battisti vir de um pa\u00eds em desenvolvimento, antiga col\u00f4nia de um pa\u00eds europeu?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negri &#8211;<\/strong> Seguramente, porque se trata de pobres que reagem contra os r icos, contra os capitalistas.<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; O senhor tamb\u00e9m esteve preso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negri &#8211;<\/strong> Eu fui detido em 1979 e fiquei na cadeia at\u00e9 1983, em pris\u00e3o preventiva, sem processo. Em 1983, houve um elei\u00e7\u00e3o parlamentar e eu sa\u00ed da cadeia porque fui eleito deputado, porque n\u00e3o era ainda condenado. Fiquei preso quatro anos e meio &#8211; e poderia ter ficado at\u00e9 12. Ou seja, quando os italianos dizem que nos anos 70 foi mantido o Estado de Direito, eles mentem. E isso eu digo com absoluta precis\u00e3o, com base no meu pr\u00f3prio exemplo: fiquei quatro anos e meio em uma pris\u00e3o de alta seguran\u00e7a, pris\u00e3o especial, fui massacrado e torturado. Pude deixar a pris\u00e3o apenas porque fui eleito deputado &#8211; do contr\u00e1rio, eu poderia ter ficado na pris\u00e3o por 12 anos, sem processo. Durante os anos que fiquei na Fran\u00e7a, exilado, eu fui processado e condenado a 17 anos de pris\u00e3o, mas que foram reduzidos porque havia uma press\u00e3o p\u00fablica forte em meu fa vor. Quando voltei para a It\u00e1lia, fiquei outros seis anos presos e encerrei a quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; Quais eram as acusa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negri &#8211;<\/strong> Associa\u00e7\u00e3o criminosa, gerenciamento de manifesta\u00e7\u00f5es que eram violentas nos anos 70, em Mil\u00e3o, em Roma, em toda It\u00e1lia. Mas a primeira acusa\u00e7\u00e3o que sofri n\u00e3o era de agitador pol\u00edtico, por escrever jornais etc., mas de chefiar as Brigadas Vermelhas, o que n\u00e3o \u00e9 verdadeiro, e de ter assassinado [Aldo] Moro, acusa\u00e7\u00f5es das quais fui absolvido depois. Entende? Na It\u00e1lia se busca desesperadamente fazer valer uma mitologia dos anos 70, que \u00e9 falsa. E a direita no poder hoje busca a qualquer custo restaurar um clima de falsidade e de intimida\u00e7\u00e3o para n\u00e3o permitir que a hist\u00f3ria seja contada como foi.<\/p>\n<p><strong>UOL &#8211; Existem a\u00ed semelhan\u00e7as com o governo militar no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negri &#8211;<\/strong> Isso eu n\u00e3o sei, porque acho que os governos militares na Am\u00e9rica Latina foram particularmente violentos. Mas o problema \u00e9 outro: a quest\u00e3o \u00e9 que a liberdade, o Estado de Direito e as regras da democracia n\u00e3o podem ser infringidos ou falsificados em nenhuma situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>*Do UOL Not\u00edcias. Em S\u00e3o Paulo (SP)<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/2009\/02\/15\/ult5773u622.jhtm<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: uol.com.br\n\n\n\n\n\n\n\n\nThiago Scarelli*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1114\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1114","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-hY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1114","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1114"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1114\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}