{"id":1130,"date":"2011-01-15T15:19:21","date_gmt":"2011-01-15T15:19:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1130"},"modified":"2017-08-25T00:54:02","modified_gmt":"2017-08-25T03:54:02","slug":"bbb-11-a-etica-pelo-ralo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1130","title":{"rendered":"BBB-11: A \u00e9tica pelo ralo"},"content":{"rendered":"\n<p>No dia 11\/1\/2011 a TV Globo levou ao ar seu programa de maior audi\u00eancia no ver\u00e3o brasileiro: Big Brother Brasil 11. Sucesso de p\u00fablico, sucesso de marketing, sucesso financeiro, sempre na casa dos milh\u00f5es de reais. Fracasso \u00e9tico, fracasso de cidadania, fracasso de respeito aos direitos humanos fundamentais.<\/p>\n<p>O pr\u00eamio ser\u00e1 de R$ 1,5 milh\u00e3o para o vencedor. O segundo e terceiro lugares levam, respectivamente, R$ 150 mil e R$ 50 mil. As inscri\u00e7\u00f5es para a pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o do BBB j\u00e1 est\u00e3o encerradas. Ao todo, nas dez edi\u00e7\u00f5es, foram 140 participantes. E j\u00e1 foram entregues mais de R$ 8,5 milh\u00f5es em pr\u00eamios. Balan\u00e7o raqu\u00edtico, tanto num\u00e9rico quanto financeiro para seus participantes, para um programa que se especializou em degradar a condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Aos 11 anos de exist\u00eancia, roubando sempre 25% do ano (janeiro a mar\u00e7o) e agora entrando na puberdade como se humano fosse, o BBB come\u00e7a anunciando que passar\u00e1 por mudan\u00e7as na edi\u00e7\u00e3o 2011. Se voc\u00ea pensou que as mudan\u00e7as seriam para melhorar o que n\u00e3o tem como ser melhorado se enganou redondamente. O formato ser\u00e1 sempre o mesmo, consagrado pelo p\u00fablico e pelos anunciantes: invas\u00e3o de privacidade com a venda de corpos quase sempre sarados, bronzeados e bem torneados <strong>e com a exposi\u00e7\u00e3o de mentes vazias a abrigar ideias que trafegam entre a futilidade e a galeria de preconceitos contra negros, pobres, analfabetos funcionais.<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s dez anos seguidos, sabemos que a receita do reality show inclui em sua base de sustenta\u00e7\u00e3o as antivirtudes da mentira, da deslealdade, dos conluios e&#8230; da cafajestagem. Aos poucos, todos ir\u00e3o se despir de sua condi\u00e7\u00e3o humana t\u00e3o logo um deles diga que &#8220;isto aqui \u00e9 um jogo&#8221;. Outros ensaiar\u00e3o frases pretensamente fincadas na moral: &#8220;Mas nem tudo vou fazer para ganhar esse jogo.&#8221;<\/p>\n<p>Como miquinhos amestrados, os participantes estar\u00e3o ali para serem desrespeitados, n\u00e3o poucas vezes humilhados e muitas vezes objeto de esc\u00e1rnio e li\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas extra\u00eddas de diferentes placas de caminh\u00f5es e compartilhadas quase diariamente pelo jornalista Pedro Bial, ao que parece, senhor absoluto do reality show. N\u00e3o faltar\u00e3o &#8220;provas&#8221; grotescas, como colocar uma participante para botar ovo a cada trinta minutos; outra para latir ou miar a cada hora cheia; algum outro para passar 24 horas de sua vida fantasiado de bailarina ou para pular e coaxar como sapo sempre que for ativado determinado sinal ac\u00fastico. O domador, que ter\u00e1 como chicote sua l\u00e1bia de ocasi\u00e3o ou nalgumas vezes sua l\u00edngua afiada, continuar\u00e1 sendo Pedro Bial que, a meu ver, representa um claro sinal de como as engrenagens que movem a televis\u00e3o guardam estreita semelhan\u00e7a com aqueles velhos moedores de carne.<\/p>\n<p><strong>O \u00faltimo a sair da jaula<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que Bial \u00e9 talentoso. \u00c9 ineg\u00e1vel que passou parte de sua vida tendo p\u00e1ginas de livros ao alcance das m\u00e3os e dos olhos. \u00c9 ineg\u00e1vel tamb\u00e9m que parece inconsciente dos preju\u00edzos \u00e9ticos e morais que haver\u00e1 de carregar vida afora. Isto porque a cada nova edi\u00e7\u00e3o do reality mais se plasmam os nomes BBB e Pedro Bial. E ser\u00e1 dif\u00edcil ao ouvir um n\u00e3o lembrar imediatamente o outro. Porque lan\u00e7amos aqui nosso nome, que poder\u00e1 ter vida fugaz de cigarra ou ecoar\u00e1 pela eternidade. Imagino, daqui a uns 25 anos, em 2035, quando um descendente deste Pedro for reconhecido como bisneto daquele homem engra\u00e7ado que fazia o Big Brother no Brasil. E os milhares de v\u00eddeos armazenados virtualmente no YouTube dar\u00e3o conta de ilustrar as gera\u00e7\u00f5es do porvir.<\/p>\n<p>E, no entanto, essas quase duas dezenas de jovens estar\u00e3o ali para ganhar fama instant\u00e2nea, como se estivessem acondicionados naqueles pacotinhos de sopa da marca Miojo. Imagino cada um deles a envergar letreiro imagin\u00e1rio a nos dizer com a tristeza poss\u00edvel que &#8220;Coloco \u00e0 venda meu corpo sem alma, meu cora\u00e7\u00e3o quebrado e minha intelig\u00eancia esgotada; vendo tudo isso muito barato porque vejo que h\u00e1 muita oferta no mercado&#8221;. E teremos aquele intermin\u00e1vel desfile de senso comum. Afinal, ser\u00e3o 90 dias de vida desperdi\u00e7ada, ou melhor, de vida em que a principal atividade humana ser\u00e1 jogar conversa fora. O que d\u00e1 no mesmo. E n\u00e3o ser\u00e1 o senso comum exatamente aquele conjunto de preconceitos adquiridos antes de completarmos 15 anos de vida?<\/p>\n<p>Friederich Nietzsche (1844-1900) parecia ter o dom da premoni\u00e7\u00e3o. \u00c9 que o fil\u00f3sofo alem\u00e3o se antecipava muito quando se tratava de projetar ideias sobre a condi\u00e7\u00e3o humana. \u00c9 dele esta percep\u00e7\u00e3o: <strong>&#8220;O macaco \u00e9 um animal demasiado simp\u00e1tico para que o homem descenda dele&#8221;<\/strong>. Isto porque Nietzsche foi poupado de atra\u00e7\u00f5es quase s\u00e9rias e semi-circenses, como o BBB. No picadeiro, o macaco \u00e9 aplaudido por sua imita\u00e7\u00e3o do humano: se equilibra e passeia de triciclo e de bicicleta, se veste de gente, com casaca e gravata, sabe usar vaso sanit\u00e1rio, descasca alimentos. No picadeiro do BBB, os seres humanos s\u00e3o aplaudidos por se mostrarem intolerantes uns com os outros, se vestem de papagaios, ladram, miam, coaxam, zumbem \u2013 e tudo como se animais fossem. Chegam a botar ovo em momento predeterminado. Se vestem de esponja e se encharcam de detergente a limpar pratos descomunais noite afora.<\/p>\n<p>Em sua imita\u00e7\u00e3o de animal, o humano que se sobressai no BBB \u00e9 aquele que consegue ficar engaiolado \u2013 digo, literalmente engaiolado \u2013 junto com outros b\u00edpedes n\u00e3o emplumados \u2013 por grande quantidade de horas. E sem poder satisfazer as necessidades humanas b\u00e1sicas, muitas vezes tendo que ficar em uma mesma posi\u00e7\u00e3o, como seriemas destreinadas. E s\u00e3o os \u00fanicos animais que demonstram imensa felicidade em permanecer por mais tempo na gaiola. N\u00e3o lhes jogam bananas nem pipocas, mas quem for o \u00faltimo a sair da jaula semi-humana ganha uma prenda. Pode ser um passeio de helic\u00f3ptero, pode ser um carro, pode ser uma noite na Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed.<\/p>\n<p><strong>Heidegger reconheceria<\/strong><\/p>\n<p>O leitor atento deve ter percebido que em algum momento deste texto mencionei que o BBB 11 ter\u00e1 mudan\u00e7as. Nem vou me dar ao trabalho de editar. Eis o que copiei do site G1:<\/p>\n<p>&#8220;Boninho, diretor do BBB, falou em seu Twitter nesta quarta-feira, 24\/11, sobre a nova edi\u00e7\u00e3o do programa, a 11\u00aa, que estrear\u00e1 em janeiro de 2011. E ele adianta que, desta vez, as coisas v\u00e3o mudar. \u2018Esse ano tudo vai ser diferente&#8230; Nada \u00e9 proibido no BBB, pode fazer o que quiser\u2019, postou Boninho em seu microblog. Questionado sobre o que estaria liberado no confinamento que n\u00e3o estava em edi\u00e7\u00f5es anteriores, ele respondeu: \u2018Esse ano&#8230; liberado! Vai valer tudo, at\u00e9 porrada\u2019. Boninho tamb\u00e9m comentou sobre as bebidas no reality show: \u2018Acabou o ice no BBB&#8230; Vai ser power&#8230; chega de bebida de crian\u00e7a\u2019, escreveu.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o ter\u00e1 chegado a hora de o portentoso imp\u00e9rio Globo de comunica\u00e7\u00e3o negociar com o governo italiano a cess\u00e3o do Coliseu romano para parte das loca\u00e7\u00f5es, ao menos aquelas em que murros e safan\u00f5es, sob efeito de \u00e1lcool ou n\u00e3o, certamente ocorrer\u00e3o? E como nada compreendo de Heidegger, s\u00f3 me resta dizer que ao longo de toda sua vida madura Heidegger esteve obcecado pela possibilidade de haver um sentido b\u00e1sico do verbo &#8220;ser&#8221; que estaria por tr\u00e1s de sua variedade de usos. E s\u00e3o recorrentes suas concep\u00e7\u00f5es quanto ao que existe, o estudo do que \u00e9, do que existe: a quest\u00e3o do Ser (i.e. uma Ontologia) dependente dos fil\u00f3sofos antes de S\u00f3crates, da filosofia de Plat\u00e3o e de Arist\u00f3teles e dos Gn\u00f3sticos.<\/p>\n<p>Quem sabe tivesse assistido uma \u00fanica noite do BBB \u2013 caso o formato da Endemol estivesse em cena antes de 1976 \u2013, o fil\u00f3sofo, por muitos cultuado, n\u00e3o apenas teria uma confirma\u00e7\u00e3o segura de que n\u00e3o valia mesmo a pena publicar o segundo volume de sua obra principal, O Ser e o Tempo, como tamb\u00e9m haveria de reconhecer a inexist\u00eancia de algo anterior ao ser. Mas, com certeza, se fartaria com a mir\u00edade de usos dados ao verbo &#8220;ser&#8221;.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/sepenuceosaogoncalo4.ning.com\/forum\/topic\/show?id=3451330%3ATopic%3A12136&amp;xgs=1&amp;xg_source=msg_share_topic\" target=\"_blank\">LUTA PELA EDUCA\u00c7\u00c3O<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: LUTA PELA EDUCA\u00c7\u00c3O\n\n\n\n\n\n\n\n\nArtigo de Washington Ara\u00fajo, publicado no s\u00edtio Carta Maior:\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1130\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1130","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-ie","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1130","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1130"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1130\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1130"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1130"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1130"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}