{"id":11302,"date":"2016-06-06T15:26:19","date_gmt":"2016-06-06T18:26:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11302"},"modified":"2016-06-30T16:06:24","modified_gmt":"2016-06-30T19:06:24","slug":"a-falacia-da-escola-sem-partido-ou-do-pensamento-unico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11302","title":{"rendered":"A fal\u00e1cia da Escola Sem Partido (ou do pensamento \u00fanico)"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ocatequista.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/pensamento_unico.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>A doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica est\u00e1 presente nas escolas desde sempre com seus conte\u00fados, suas rela\u00e7\u00f5es. Educar \u00e9 um ato pol\u00edtico em si<\/p>\n<p><strong>PEDRO HENRIQUE OLIVEIRA GOMES \u2013 Carta capital<\/strong><\/p>\n<p><em>1 de junho de 2016<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Para o <a href=\"http:\/\/www.escolasempartido.org\/\">projeto Escola Sem Partido<\/a>, discutir <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/reportagens\/por-que-e-tao-dificil-falar-de-genero-nas-escolas\/\">feminismo<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/reportagens\/os-direitos-humanos-nas-escolas\/\">homofobia<\/a> \u00e9 doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e imposi\u00e7\u00e3o da <a href=\"http:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vida-e-cidadania\/o-que-e-ideologia-de-genero-0zo80gzpwbxg0qrmwp03wppl1\">ideologia de g\u00eanero<\/a> nas escolas. Como reflexo da sociedade, as escolas s\u00e3o espa\u00e7os marcados pela <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/reportagens\/eu-tinha-um-professor-que\/\">opress\u00e3o \u00e0s mulheres<\/a> e a discrimina\u00e7\u00e3o sexual. Na maioria dos casos, as a\u00e7\u00f5es e as rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o silenciadas e banalizadas. Ser\u00e1 que \u00e9 necess\u00e1rio ter a discuss\u00e3o nas escolas? Creio que os dados e as informa\u00e7\u00f5es a seguir nos mostrar\u00e3o a urg\u00eancia da discuss\u00e3o na sociedade.<\/p>\n<p>Segundo dados do <a href=\"http:\/\/www.mapadaviolencia.org.br\/pdf2015\/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf\">Mapa da Viol\u00eancia 2015<\/a>, de Julio Jacobo Waiselfisz, entre 2003 e 2013, o n\u00famero de v\u00edtimas do sexo feminino mortas passou de 3.937 para 4.762, incremento de 21% na d\u00e9cada. Essas 4.762 mortes em 2013 representam 13 homic\u00eddios femininos di\u00e1rios. Quando analisamos os casos de feminic\u00eddio, a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 v\u00edtima priorit\u00e1ria no Pa\u00eds. Sobre os tipos de viol\u00eancia contra a mulher, em 2014, foram atendidas pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade 23.630 casos de viol\u00eancia sexual, a maioria envolvendo crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>Segundo informa\u00e7\u00f5es presentes no estudo \u201c<a href=\"http:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/images\/stories\/PDFs\/130925_sum_estudo_feminicidio_leilagarcia.pdf\">Viol\u00eancia contra a mulher: feminic\u00eddios no Brasil<\/a>\u201d, de 2013, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA), a Lei Maria da Penha, que entrou em vigor em 2006 para combater a viol\u00eancia contra a mulher, n\u00e3o teve impacto no n\u00famero de mortes por esse tipo de agress\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o assunto \u00e9 escola, os dados sobre ass\u00e9dio ou viol\u00eancia contra estudantes femininas s\u00e3o escassos ou inexistentes nas secretarias de educa\u00e7\u00e3o pelo pa\u00eds. J\u00e1 sobre discrimina\u00e7\u00e3o contra homossexuais os dados s\u00e3o preocupantes. Em <a href=\"http:\/\/www.periodicoseletronicos.ufma.br\/index.php\/cadernosdepesquisa\/article\/download\/4189\/2224\">pesquisa realizada pela Universidade Federal de S\u00e3o Carlos<\/a> (UFSCar), no interior de S\u00e3o Paulo, 32% dos homossexuais entrevistados afirmaram sofrer preconceito dentro das salas de aula e tamb\u00e9m que os educadores ainda n\u00e3o sabem reagir apropriadamente diante das agress\u00f5es, que podem ser f\u00edsicas ou verbais, no ambiente escolar.<\/p>\n<p>Os dados, segundo os pesquisadores, convergem com aqueles apresentados em pesquisa do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o que ouviu 8.283 estudantes na faixa et\u00e1ria de 15 a 29 anos, no ano letivo de 2013, em todo o pa\u00eds, e constatou que 20% dos alunos n\u00e3o querem colega de classe homossexual ou transexual.<\/p>\n<p>Na m\u00eddia, al\u00e9m da reprodu\u00e7\u00e3o dos discursos e da est\u00e9tica da sociedade machista, alguns personagens com grande visibilidade provocam e se promovem a partir de atitudes machistas, como o humorista Danilo Gentili e o ator Alexandre Frota. Uma r\u00e1pida pesquisa no mundo virtual nos apresenta in\u00fameros casos envolvendo \u201cfamosos\u201d. Por sinal, em recente audi\u00eancia com o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Mendon\u00e7a Filho, Frota e um grupo associado ao movimento Escola Sem Partido levaram suas propostas para transformar a educa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Certamente, Alexandre Frota tem todo o direito de ser ouvido pelo Ministro da Educa\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, quais s\u00e3o os problemas envolvidos? Trata-se de um cara com passado marcado por machismos e atitudes bo\u00e7ais. Al\u00e9m disso, h\u00e1 desigualdade no di\u00e1logo. Todos deveriam ser ouvidos. Os estudantes das escolas ocupadas est\u00e3o sendo ouvidos? Muito pouco. Os professores em greve est\u00e3o sendo ouvidos? Um pouco mais, por\u00e9m, de forma, marginalizada. At\u00e9 o presente momento, reitores de universidades p\u00fablicas federais n\u00e3o conseguiram marcar encontros com o atual ministro. Enfim, \u00e9 preciso superar a seletividade do di\u00e1logo e analisar criticamente o projeto levado por Frota e sua trupe.<\/p>\n<p>Voltemos ao par\u00e1grafo inicial, qual \u00e9 o absurdo do projeto Escola Sem Partido? Ignora-se a realidade para dar continuidade ao projeto de educa\u00e7\u00e3o e sociedade em que vivemos faz tempo. O que esse movimento quer n\u00e3o \u00e9 transformar a educa\u00e7\u00e3o brasileira. Eles querem frear alguns avan\u00e7os pedag\u00f3gicos e sociais que tivemos nos \u00faltimos 15 anos, como as leis 10.639\/03 e a 11.645\/08.<\/p>\n<p>E por que apenas frear? Se analisarmos os conte\u00fados trabalhados e as atitudes desenvolvidas nas escolas, veremos poucas mudan\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o tradicional, conservadora e meritocr\u00e1tica. Nas salas de aula, falamos sobre (e muitos cultuam) a cultura euroc\u00eantrica, o consumismo moderno, o agroneg\u00f3cio, a urbaniza\u00e7\u00e3o do mundo, a atua\u00e7\u00e3o das empresas multinacionais e suas grandes marcas, a corrida desenvolvimentista, a f\u00e1bula da sustentabilidade, em pensadores brancos, homens e europeus, entre outros assuntos marcados pela hegemonia do saber.<\/p>\n<p>Nos espa\u00e7os da vida, mulheres s\u00e3o agredidas, <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/entrevistas\/cenario-de-guerra\/\">jovens negros s\u00e3o assassinados<\/a>, a cultura \u00e9 elitizada, os espa\u00e7os p\u00fablicos s\u00e3o murados e fortificados, o caminhar da vida \u00e9 vigiado, o sucesso \u00e9 baseado unicamente na ascens\u00e3o econ\u00f4mica, entre outros vendavais que nos levam ao mundo fabuloso da desigualdade e da perversidade das rela\u00e7\u00f5es. Nos espa\u00e7os de f\u00e9, os profetas e seus seguidores cultuam emocionalmente suas verdades, ignoram suas realidades e almejam criar bolhas de satisfa\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria. Tudo isso acirrando as disputas pelo existir e pelo mundo em que vivemos.<\/p>\n<p>Para subverter minimamente esse quadro, precisamos criar leis para discutir a nossa origem e<a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/especiais\/vale\/racismo-e-falta-de-formacao-dificultam-educacao-de-temas-etnicos-raciais-nas-escolas\/\">conhecer a hist\u00f3ria e a cultura africana e ind\u00edgena nas escolas<\/a>. Na pr\u00e1tica, para aqueles que reconhecem a necessidade de mudan\u00e7a, subverte-se sistemas para discutir a vida, a realidade e outros saberes necess\u00e1rios para transformar nossas ideias, nossas pr\u00e1ticas, nossos espa\u00e7os, nossas rela\u00e7\u00f5es, nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Neste contexto, Escola Sem Partido (ou Escola de Pensamento \u00danico) \u00e9 um projeto para silenciar vozes, buscar estabilidades e criar novos espa\u00e7os de conforto e conformismo social, cultural e intelectual. A instabilidade, o diferente, a emerg\u00eancia, a diversidade incomodam. Discutir as desigualdades sociais, o feminismo, a discrimina\u00e7\u00e3o sexual, entre outros assuntos, \u00e9 provocar instabilidades nesse sistema de hist\u00f3rias e pensamentos \u00fanicos. Doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica est\u00e1 presente nas escolas desde sempre com seus conte\u00fados, com seus discursos, com suas rela\u00e7\u00f5es. Educar \u00e9 um ato pol\u00edtico em si.<\/p>\n<p>O pensar cr\u00edtico \u00e9 outro papo. A atitude socialmente cr\u00edtica \u00e9 emancipa\u00e7\u00e3o. Ela combate e rompe com o desenvolver enciclop\u00e9dico e elitizante das escolas tradicionais. Educar \u00e9 analisar as realidades e a nossa sociedade, selecionando aquilo que \u00e9 urgente para ser conhecido, discutido, problematizado. Se analisar criticamente as realidades \u00e9 um problema, que possamos subverter a l\u00f3gica do pensamento \u00fanico. \u00c9 preciso continuar nessa luta para <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/artigo\/caminhar-no-fio-da-navalha\/\">garantir uma educa\u00e7\u00e3o para a liberdade e para a autonomia<\/a>.<\/p>\n<p>Por uma educa\u00e7\u00e3o que reconhe\u00e7a nossos povos tradicionais e seus saberes, garanta o bem estar das pessoas, valorize o fazer coletivo, pratique a democracia nas suas rela\u00e7\u00f5es, entre outras medidas que integram a agenda da educa\u00e7\u00e3o em direitos humanos, especialmente por um mundo socialmente justo e ambientalmente respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Contra qualquer tipo de silenciamento, lhes digo: \u00e9 preciso pensar, refletir, dialogar. Por\u00e9m, \u00e9 extremamente necess\u00e1rio fazer, agir. At\u00e9 por que, nosso <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/artigo\/a-importancia-de-paulo-freire\/\">grande Paulo Freire<\/a> j\u00e1 mandou o papo: \u201cSeria uma atitude ing\u00eanua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educa\u00e7\u00e3o que proporcionasse \u00e0s classes dominadas perceber as injusti\u00e7as sociais de maneira cr\u00edtica\u201d .<\/p>\n<p>Nas palavras do educador, \u00e9 necess\u00e1rio sermos homens e mulheres radicais nesse sistema atual. A radicalidade est\u00e1 na luta por <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/new-rss\/por-uma-escola-cidada\/\">uma educa\u00e7\u00e3o mais dial\u00f3gica, humana e ativa marcada pela autonomia do educando<\/a> e pela liberdade na constru\u00e7\u00e3o dos saberes e nos caminhos escolhidos para a vida.<\/p>\n<p><em>*Professor-pesquisador da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica e organizador do projeto Cine Debate Educa\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica est\u00e1 presente nas escolas desde sempre com seus conte\u00fados, suas rela\u00e7\u00f5es. 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