{"id":1131,"date":"2011-01-15T15:28:13","date_gmt":"2011-01-15T15:28:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1131"},"modified":"2011-01-15T15:28:13","modified_gmt":"2011-01-15T15:28:13","slug":"a-contra-revolucao-em-curso-e-a-exigencia-social-e-politica-da-reconstrucao-do-partido-comunista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1131","title":{"rendered":"A contra-revolu\u00e7\u00e3o em curso e a exig\u00eancia social e pol\u00edtica da reconstru\u00e7\u00e3o do Partido Comunista"},"content":{"rendered":"\n<p>No momento em que o capital prossegue a sua ofensiva de classe contra os trabalhadores, em It\u00e1lia os comunistas, os revolucion\u00e1rios encontram-se dispersos por organiza\u00e7\u00f5es diversas, \u00e0 volta de revistas e publica\u00e7\u00f5es. No entanto, como diz Dom\u00e9nico Losurdo nesta entrevista,<\/p>\n<p>\u201cO modelo do Partido comunista elaborado por Lenine parece-me manter-se v\u00e1lido; evidentemente, \u00e9 preciso ter em conta que o seu Que fazer? se referia \u00e0 R\u00fassia czarista e tamb\u00e9m, portanto, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de clandestinidade em que o partido era obrigado a funcionar. Em todo o caso, trata-se de construir um partido que n\u00e3o seja um partido de opini\u00e3o e que n\u00e3o se caracterize pelo culto da personalidade, como foi o caso durante tanto tempo da Rifondazione Comunista. \u00c9 preciso um partido capaz de construir um saber colectivo alternativo \u00e0s manipula\u00e7\u00f5es da ideologia dominante, um partido que deve saber estar presente nos locais do conflito e deve saber tamb\u00e9m, quotidianamente, construir uma alternativa tanto no plano ideol\u00f3gico como no da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.\u201d<\/p>\n<p>Estamos em Urbino, com o professor Domenico Losurdo, professor de hist\u00f3ria da filosofia na Universidade \u201cCarlo Bo\u201d, fil\u00f3sofo de renome internacional e presidente da Associa\u00e7\u00e3o Marx XXI. Recebe-nos num momento em que somos confrontados com um ataque do capital (contra todo o mundo do trabalho, contra a democracia, contra a Constitui\u00e7\u00e3o sa\u00edda da Resist\u00eancia) que \u00e9 um dos mais fortes e perigosos de toda a hist\u00f3ria da nossa rep\u00fablica. Perante este ataque estende-se um deserto, a aus\u00eancia de oposi\u00e7\u00e3o de classe e de massas que possa recha\u00e7ar a ofensiva da reac\u00e7\u00e3o e relan\u00e7ar uma contra-ofensiva.<\/p>\n<p><strong>Sara Milazzo (SM):<\/strong> Fazemos-lhe a seguinte pergunta: Como \u00e9 que cheg\u00e1mos aqui? O que \u00e9 que falta, como construir um dique, uma resist\u00eancia, um contra-ataque?<\/p>\n<p><strong>Domenico Losurdo (DL) :<\/strong> Podemos distinguir dois problemas que acompanham a hist\u00f3ria da Rep\u00fablica em toda a sua exist\u00eancia. O primeiro problema \u00e9 a despropor\u00e7\u00e3o entre o norte e o sul: j\u00e1 Togliatti tinha sublinhado que a \u201cquest\u00e3o meridional\u201d \u00e9 uma quest\u00e3o nacional e estamos hoje em vias de ver como o d\u00e9fice de solu\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento do sul corre o risco de p\u00f4r em perigo a unidade nacional.<\/p>\n<p>O outro problema \u00e9 a injusti\u00e7a social que se manifesta de forma particularmente gritante no fen\u00f3meno da evas\u00e3o fiscal. \u00c9 dizer pouco dizer que este flagelo n\u00e3o foi contido de nenhuma forma: pelo contr\u00e1rio, tornou-se mais escandaloso, mais expl\u00edcito, at\u00e9 ser mesmo encorajado pelo Presidente do Conselho: falou dele como duma coisa que pode ser tolerada no caso em que um indiv\u00edduo singular, mesmo que seja o rico capitalista, ache que foi demasiado apertado pela press\u00e3o fiscal.<\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que estes dois problemas acompanham a hist\u00f3ria da rep\u00fablica em toda a dura\u00e7\u00e3o da sua evolu\u00e7\u00e3o, n\u00f3s podemos acrescentar que hoje h\u00e1 problemas novos que fazem pensar numa verdadeira contra-revolu\u00e7\u00e3o. Porventura a viragem deu-se em 1991, o ano que assiste ao fim do Partido Comunista Italiano. Este fim tinha sido anunciado por declara\u00e7\u00f5es enf\u00e1ticas: os ex-comunistas declaravam que, acabando com um partido ligado ao desacreditado \u201csocialismo real\u201d, tudo se tornaria mais f\u00e1cil: libertavam-se do \u201cchumbo na asa\u201d, e a democracia e o Estado social iriam desenvolver-se; em resumo, tudo correria pelo melhor. \u00c9 dizer pouco dizer que, na realidade, estamos perante uma contra-revolu\u00e7\u00e3o que certamente n\u00e3o \u00e9 um exclusivo italiano, porque tem um car\u00e1cter internacional, mas que se manifesta de modo particularmente virulento no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Vejamos quais s\u00e3o os elementos dessa contra-revolu\u00e7\u00e3o: a Rep\u00fablica Italiana nascida da Resist\u00eancia, e marcada pela presen\u00e7a de um partido comunista forte na oposi\u00e7\u00e3o, nunca se comprometeu directamente em opera\u00e7\u00f5es guerreiras; actualmente, pelo contr\u00e1rio, a participa\u00e7\u00e3o em guerras de car\u00e1cter claramente colonialista \u00e9 considerada como uma coisa normal, ou mesmo um dever.<\/p>\n<p>Assiste-se, al\u00e9m disso, a um ataque contra o Estado social e ao seu desmantelamento: toda a gente percebe isso. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 menos evidente um facto para o qual gostaria de chamar a aten\u00e7\u00e3o: o ataque contra o Estado social n\u00e3o \u00e9 determinado em primeira-m\u00e3o pelas compatibilidades econ\u00f3micas, pela necessidade de economia, porque falta o dinheiro (entenda-se). Recordemos que um dos patriarcas do neo-liberalismo (que chegou a ser coroado com o pr\u00e9mio Nobel de economia), Friedrich August Von Hayek, declarava, por altura dos anos 70 do s\u00e9culo passado, que os direitos socioecon\u00f3micos (exactamente os que s\u00e3o protegidos pelo Estado social), eram uma inven\u00e7\u00e3o que ele considerava catastr\u00f3fica: eram resultado da influ\u00eancia exercida pela \u201crevolu\u00e7\u00e3o marxista russa\u201d. E apelava pois para a liberta\u00e7\u00e3o dessa heran\u00e7a mal\u00e9fica. Percebe-se assim que, ao desaparecimento do desafio que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e um campo socialista forte representavam, tenha correspondido e continue a corresponder cada vez mais o desmantelamento do Estado social.<\/p>\n<p>H\u00e1, por fim, um terceiro aspecto da contra-revolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o devemos perder de vista. \u00c9 o verdadeiro ataque \u00e0 democracia que assume formas particularmente gritantes na f\u00e1brica, A\u00ed a contra-revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 evidente ao ponto de ser praticamente declarada: o poder patronal deve poder exercer-se sem demasiados limites, a Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser causa de embara\u00e7o nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Mas h\u00e1 um aspecto que passa para al\u00e9m da f\u00e1brica e que diz respeito \u00e0 sociedade no seu conjunto: \u00e9 o avan\u00e7o de um \u201cbonapartismo suave\u201d (que defini no meu livro Democracia ou bonapartismo) incarnado no nosso pa\u00eds pelo Presidente do Conselho. A prop\u00f3sito da ascens\u00e3o deste personagem, queria chamar a aten\u00e7\u00e3o para um outro fen\u00f3meno n\u00e3o menos inquietante: hoje em dia a riqueza exerce um peso pol\u00edtico imediato. Enquanto existiu na It\u00e1lia o sistema proporcional, era mais f\u00e1cil a forma\u00e7\u00e3o de partidos pol\u00edticos de massas, e era poss\u00edvel conter dentro de certos limites o peso pol\u00edtico da riqueza que, actualmente e pelo contr\u00e1rio, se exprime de forma imediata, mesmo despudorada. Assistimos ao aparecimento e \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o dum l\u00edder pol\u00edtico que, a partir da concentra\u00e7\u00e3o dos meios de informa\u00e7\u00e3o e utilizando sem preconceitos a enorme riqueza \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, pretende exercer, e exerce de facto, um poder decisivo sobre as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e revela uma total capacidade de corrup\u00e7\u00e3o e de manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesta altura, podemos tra\u00e7ar um primeiro balan\u00e7o: a viragem de 1991, que assistiu \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o do PCI e que devia ter favorecido a renova\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e social da It\u00e1lia, foi na realidade o ponto de partida duma contra-revolu\u00e7\u00e3o que, certamente, \u00e9 de dimens\u00e3o internacional, mas que se revela de modo especialmente doloroso na It\u00e1lia, neste pa\u00eds que, gra\u00e7as \u00e0 Resist\u00eancia e \u00e0 presen\u00e7a duma esquerda forte e de um Partido comunista forte, permitiu conquistas democr\u00e1ticas e sociais muito importantes.<\/p>\n<p><strong>SM: <\/strong>A prop\u00f3sito disso, uma pergunta: como foi poss\u00edvel que, num pa\u00eds que devia ter precisamente uma mem\u00f3ria ainda fresca do que foi a Resist\u00eancia, se tenha chegado a uma anestesia das consci\u00eancias a ponto de o nosso Presidente do Conselho n\u00e3o s\u00f3 ser amado do ponto de vista pessoal, como ser mesmo invejado? Como explicar por um lado o fasc\u00ednio pelo \u201cself made man\u201d e por outros fen\u00f3menos como a anti-pol\u00edtica de Grillo [1]? E, se pensarmos no que se poder\u00e1 definir como o terceiro p\u00f3lo: como explicar o fasc\u00ednio que a esquerda sente por uma personalidade como a de Vendola [2] que, at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, fazia parte da Rifondazione Communista e que agora preenche o vazio que se abriu genericamente \u00e0 esquerda do Partito Democr\u00e1tico?<\/p>\n<p><strong>DL:<\/strong> Assistimos a uma contra-revolu\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 defini os elementos pol\u00edticos centrais; mas n\u00e3o podemos esquecer que essa contra-revolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se d\u00e1 ao n\u00edvel ideol\u00f3gico-cultural. Estamos em vias de reescrever de forma totalmente fantasista e vergonhosa a hist\u00f3ria n\u00e3o s\u00f3 do nosso pa\u00eds, como de todo o s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o os elementos fundamentais dessa hist\u00f3ria? A partir da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro come\u00e7aram tr\u00eas gigantescos processos de emancipa\u00e7\u00e3o. O primeiro foi o a independ\u00eancia dos povos coloniais: nas v\u00e9speras da viragem de 1917, os pa\u00edses independentes eram apenas em n\u00famero bastante restrito, quase todos situados no ocidente. A \u00cdndia era uma col\u00f3nia, a China um pa\u00eds semi-colonial; toda a Am\u00e9rica do sul estava submetida ao controlo da doutrina Monroe e dos EUA. A \u00c1frica tinha sido repartida entre as diversas pot\u00eancias colonialistas europeias. Na \u00c1sia, a Indon\u00e9sia, a Mal\u00e1sia, etc. eram col\u00f3nias. O gigantesco processo de descoloniza\u00e7\u00e3o e de emancipa\u00e7\u00e3o que p\u00f4s fim a essa situa\u00e7\u00e3o viu o seu primeiro impulso na Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p>O segundo processo foi o da emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres: \u00e9 importante recordar que o primeiro pa\u00eds em que as mulheres passaram a usufruir da totalidade dos direitos pol\u00edticos e eleitorais (activos e passivos) foi a R\u00fassia revolucion\u00e1ria, entre Fevereiro e Outubro de 1917. Foi apenas num segundo tempo que chegaram ao mesmo resultado a Alemanha da Rep\u00fablica de Weimar, sa\u00edda de uma outra revolu\u00e7\u00e3o, a de Novembro de 1918, depois os Estados Unidos. Em pa\u00edses como a It\u00e1lia e a Fran\u00e7a, as mulheres s\u00f3 conquistaram a sua emancipa\u00e7\u00e3o na onda da Resist\u00eancia anti-fascista.<\/p>\n<p>Finalmente, o terceiro processo foi a elimina\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o eleitoral que, em mat\u00e9ria de direitos pol\u00edticos, continuava a discriminar negativamente as massas populares: na It\u00e1lia liberal e dos Sab\u00f3ias, em vez de ser eleito pelas bases, o Senado era apan\u00e1gio da grande burguesia e da aristocracia. A discrimina\u00e7\u00e3o eleitoral tamb\u00e9m se fazia sentir em Inglaterra, e n\u00e3o somente pela presen\u00e7a da C\u00e2mara dos lordes; ainda em 1948, havia 500 000 pessoas que gozavam de voto plural e portanto da faculdade de votar v\u00e1rias vezes: eram consideradas como mais inteligentes (claro que se tratava de pessoas ricas do sexo masculino).<\/p>\n<p>Para acabar. No decurso do s\u00e9culo XX desenvolveu-se em tr\u00eas frentes um gigantesco processo de emancipa\u00e7\u00e3o que partiu da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e da luta contra a guerra e a carnificina do primeiro conflito mundial. Tudo isso \u00e9 actualmente esquecido e rejeitado a tal ponto que, na ideologia que \u00e9 hoje dominante, a hist\u00f3ria do comunismo se torna na hist\u00f3ria do horror.<\/p>\n<p>O paradoxo \u00e9 que nesta gigantesca manipula\u00e7\u00e3o n\u00e3o participou apenas a direita propriamente dita; Fausto Bertinotti [3] prestou uma grande contribui\u00e7\u00e3o, assim como Vendola que \u00e9 seu herdeiro e seu disc\u00edpulo. N\u00e3o h\u00e1 qualquer d\u00favida que tamb\u00e9m ele se dedicou \u00e0 tentativa de apagar da mem\u00f3ria hist\u00f3rica o gigantesco e m\u00faltiplo processo de emancipa\u00e7\u00e3o sa\u00eddo da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro: desse grande cap\u00edtulo da hist\u00f3ria, Bertinotti tra\u00e7ou um resumo que n\u00e3o \u00e9 muito diferente do que foi tra\u00e7ado pela ideologia e pela classe dominante.<\/p>\n<p>E assim acabou por se constituir uma cultura, ou mais exactamente uma \u201cincultura\u201d, que d\u00e1 muito jeito para a ordem existente. Tal como no plano propriamente pol\u00edtico, tamb\u00e9m no plano ideol\u00f3gico est\u00e1 em marcha o que defini (sempre em Democracia ou bonapartismo) o regime de \u201cmonopartismo competitivo\u201d. Assistimos ao funcionamento de um partido \u00fanico que, segundo modalidades diversas, remete para a mesma classe dominante, para a burguesia monopolista. Evidentemente, existe sempre o momento da competi\u00e7\u00e3o eleitoral, mas trata-se de uma competi\u00e7\u00e3o entre camadas pol\u00edticas em que cada uma delas tenta realizar ambi\u00e7\u00f5es a curto prazo, sem nunca p\u00f4r \u00e0 discuss\u00e3o o quadro estrat\u00e9gico, a orienta\u00e7\u00e3o cultural de fundo e a classe de refer\u00eancia, ou seja, a burguesia monopolista; sobre isso tudo, nem sequer se discute.<\/p>\n<p>Eis a situa\u00e7\u00e3o perante a qual nos encontramos: o Monopartismo Competitivo. O desaparecimento do sistema proporcional s\u00f3 favoreceu a sua consolida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E, ma aus\u00eancia de uma verdadeira alternativa, compreende-se os fen\u00f3menos da anti-pol\u00edtica, do \u201cgrillisno\u201d: apesar das suas declara\u00e7\u00f5es, acabam por fazer parte integrante do regime pol\u00edtico e do mesmo panorama desolador que tentei descrever resumidamente.<\/p>\n<p><strong>SM:<\/strong> Esses fen\u00f3menos s\u00e3o pois uma outra forma de anestesia, uma tentativa de refrear qualquer tipo de reac\u00e7\u00e3o que seja, mesmo as que prov\u00eaem das mesmas camadas sociais.<\/p>\n<p><strong>DL: <\/strong>\u00c9 um facto que falta hoje uma for\u00e7a pol\u00edtica organizada e estruturada que se oponha \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e historiogr\u00e1fica e ao monopartismo competitivo que reinam actualmente. Ficam assim sem contesta\u00e7\u00e3o o dom\u00ednio e a hegemonia da burguesia monopolista, assim como a contra-revolu\u00e7\u00e3o neo-liberalista e pr\u00f3-imperialista de que falei.<\/p>\n<p><strong>SM: <\/strong>Seria necess\u00e1rio um movimento comunista precisamente para as quest\u00f5es de fundo que invadem a It\u00e1lia e o mundo inteiro. Porque \u00e9 que no nosso pa\u00eds o movimento comunista vive uma crise t\u00e3o profunda?<\/p>\n<p><strong>DL:<\/strong> A partir de 1989 assistimos a uma vitalidade nova das for\u00e7as conservadoras e reaccion\u00e1rias e esse vitalidade tamb\u00e9m se manifestou na It\u00e1lia. Isso n\u00e3o nos deve espantar. \u00c9 uma outra coisa que deve suscitar as nossas inquieta\u00e7\u00f5es: porque \u00e9 que no nosso pa\u00eds essa ofensiva contra-revolucion\u00e1ria encontrou uma resist\u00eancia t\u00e3o fraca, uma total falta de resist\u00eancia mesmo e, em certos casos, como j\u00e1 disse, p\u00f4de mesmo beneficiar do encorajamento por parte dos que deviam constituir a esquerda?<\/p>\n<p>A partir de 1989, a esquerda tamb\u00e9m come\u00e7ou a dizer que o comunismo estava morto. A prop\u00f3sito dessa palavra de ordem, que continua a aparecer, queria tecer algumas considera\u00e7\u00f5es enquanto historiador e enquanto fil\u00f3sofo. Apresenta-se como uma coisa nova mas, na realidade, \u00e9 bastante velho: o comunismo foi sempre declarado morto, ao longo de toda a sua hist\u00f3ria; podemos mesmo dizer que o comunismo foi declarado morto antes mesmo do seu nascimento.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de um paradoxo nem de uma piada. Vejamos o que se passa em 1917: a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro ainda n\u00e3o tinha estalado, j\u00e1 grassava a carnificina da primeira guerra mundial. \u00c9 exactamente nesse ano que um fil\u00f3sofo italiano de estatura internacional, Benedetto Croce, publica um livro intitulado Materialismo hist\u00f3rico e economia marxista. O pref\u00e1cio apressa-se a declarar imediatamente que o marxismo e o socialismo est\u00e3o mortos. O racioc\u00ednio \u00e9 simples: Marx previra e invocara a luta de classes prolet\u00e1ria contra a burguesia e o capitalismo, mas onde estava nesse momento a luta de classes? Os prolet\u00e1rios andavam a cortar as cabe\u00e7as uns aos outros. Em vez da luta de classes, assistia-se \u00e0 luta entre os Estados, entre as na\u00e7\u00f5es que se confrontavam no campo da batalha. E, portanto, a morte do marxismo e do socialismo estavam \u00e0 vista de todo o mundo. Ou seja, antes mesmo de aparecer e de se desenvolver o movimento comunista propriamente dito, que ver\u00e1 o seu nascimento na Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e de seguida com a funda\u00e7\u00e3o da Internacional comunista, antes mesmo disso tudo, esse movimento j\u00e1 tinha sido declarado morto, sob os cuidados de Benedetto Croce. Sabemos hoje, tarde demais, que a disputa pela hegemonia e a guerra imperialista, consideradas por Croce como um facto imut\u00e1vel, constitu\u00edram o ponto de partida da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, que se imp\u00f4s precisamente na luta contra a carnificina provocada pelo sistema capitalista e imperialista. Foi assim que come\u00e7ou o movimento comunista. E as declara\u00e7\u00f5es de morte sucederam-se\u2026 Enquanto que na R\u00fassia sovi\u00e9tica era introduzida a NEP [Nova Economia Politica], uma s\u00e9rie de jornais europeus e americanos e intelectuais de primeiro plano e eminentes homens pol\u00edticos opinaram: vejam, acabou a colectiviza\u00e7\u00e3o total dos meios de produ\u00e7\u00e3o, que tinha sido proposta e solicitada por Karl Marx; at\u00e9 Lenine foi obrigado de reconhecer a necessidade da viragem; portanto o comunismo est\u00e1 morto. Basta ler qualquer livro de hist\u00f3ria um pouco mais profundo do que os manuais consensuais para perceber como \u00e9 recorrente esta palavra de ordem que estamos a analisar. Os que continuam a afirmar que o comunismo est\u00e1 morto, julgando que est\u00e3o a anunciar uma novidade, n\u00e3o se apercebem, por causa da sua ignor\u00e2ncia hist\u00f3rica ou da sua ades\u00e3o acr\u00edtica ou da sua submiss\u00e3o \u00e0 ideologia dominante, que est\u00e3o apenas a repetir um slogan recorrente na hist\u00f3ria da luta da burguesia e do imperialismo contra o movimento comunista.<\/p>\n<p>Quanto a este ponto quase poder\u00edamos concluir com uma piada: h\u00e1 um prov\u00e9rbio segundo o qual um indiv\u00edduo considerado morto e de que se faz o elogio f\u00fanebre embora ele esteja ainda vivo, est\u00e1 destinado a gozar de longevidade. Se esse prov\u00e9rbio tamb\u00e9m fosse v\u00e1lido para os movimentos pol\u00edticos, os que se reclamam do comunismo podem ter toda a confian\u00e7a no futuro.<\/p>\n<p><strong>SM: <\/strong>Partindo do pressuposto que haja uma necessidade social e hist\u00f3rica a favor de uma nova vaga revolucion\u00e1ria e que o renascimento de um Partido Comunista seja absolutamente necess\u00e1rio, quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas que ele dever\u00e1 ter, quais s\u00e3o os passos a dar e quem dever\u00e1 faz\u00ea-los e de que modo?<\/p>\n<p><strong>DL: <\/strong>\u00c9 preciso distinguir a dimens\u00e3o ideol\u00f3gico-pol\u00edtica da dimens\u00e3o organizativa. Vou concentrar-me na primeira. O que \u00e9 que significa ent\u00e3o falar da morte do comunismo quando nos encontramos frente a uma situa\u00e7\u00e3o em que a guerra reapareceu na ordem do dia, e quando se agrava todos os dias o perigo de um conflito em grande escala? Sim, at\u00e9 agora temos assistido e continuamos a assistir a guerras do tipo colonialista cl\u00e1ssico: ocorrem quando uma pot\u00eancia armada at\u00e9 aos dentes e com uma n\u00edtida superioridade tecnol\u00f3gica e guerreira se encarni\u00e7a contra um pa\u00eds, ou contra um povo, que n\u00e3o pode opor qualquer resist\u00eancia. S\u00e3o guerras coloniais, por exemplo, a que a NATO lan\u00e7ou contra a Jugosl\u00e1via em 1999, as diversas guerras do Golfo, a guerra contra o Afeganist\u00e3o. Sem falar da guerra intermin\u00e1vel, a mais vergonhosa de todas, que continua a desencadear-se contra o povo palestino.<\/p>\n<p>Mas actualmente os grandes \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o internacionais observam que existe o perigo concreto de guerra em grande escala: a que se seguiria \u00e0 agress\u00e3o desencadeada pelos Estados Unidos e Israel contra o Ir\u00e3o. N\u00e3o se sabe qual poder\u00e1 ser a evolu\u00e7\u00e3o e as complica\u00e7\u00f5es internacionais. E sobretudo, n\u00e3o devemos perder de vista a guerra (por agora fria) que os EUA come\u00e7am a travar contra a Rep\u00fablica Popular da China: \u00e9 preciso ser muito ing\u00e9nuo para n\u00e3o perceber isso. Estamos perante uma situa\u00e7\u00e3o que torna urgente o dever de lutar contra o imperialismo e a sua pol\u00edtica de agress\u00e3o e de guerra, e isso faz-nos voltar evidentemente \u00e0 hist\u00f3ria do movimento comunista.<\/p>\n<p>O outro elemento que devemos ter em conta \u00e9 a crise econ\u00f3mica. Quem se esqueceu dos discursos triunfais, segundo os quais o capitalismo j\u00e1 tinha ultrapassado as suas crises peri\u00f3dicas, crises essas de que Marx tinha falado? E at\u00e9 &#8211; garantiam-nos &#8211; n\u00e3o s\u00f3 se devia falar do fim da crise mas pura e simplesmente do fim da hist\u00f3ria. Actualmente, pelo contr\u00e1rio, a crise do capitalismo est\u00e1 debaixo dos nossos olhos e s\u00e3o muitos os que pensam que est\u00e1 para durar; n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil prever a sua evolu\u00e7\u00e3o, mas de certeza que n\u00e3o se trata de um fen\u00f3meno puramente contingente.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 clara a perman\u00eancia dos problemas, das quest\u00f5es centrais que est\u00e3o na origem do movimento pol\u00edtico comunista.<\/p>\n<p>Vejamos agora o segundo aspecto: o que \u00e9 que significa falar do fim do comunismo quando vemos um pa\u00eds como a China, que representa um quinto da popula\u00e7\u00e3o mundial, ser dirigido por um partido comunista? Podemos e devemos discutir as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dos grupos dirigentes, mas n\u00e3o podemos deixar de admirar a ascens\u00e3o prodigiosa de um pa\u00eds de dimens\u00e3o continental que liberta da fome centenas de milh\u00f5es de pessoas e que, ao mesmo tempo, altera profundamente (num sentido desfavor\u00e1vel ao imperialismo) a geografia pol\u00edtica do mundo.<\/p>\n<p>Neste ponto \u00e9 necess\u00e1rio fazer uma pergunta: qual foi o conte\u00fado pol\u00edtico central do s\u00e9culo XX? J\u00e1 falei dos tr\u00eas movimentos de emancipa\u00e7\u00e3o que caracterizam a hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX. Detenhamo-nos sobre quem teve o desenvolvimento planet\u00e1rio mais amplo: todo o s\u00e9culo XX foi atravessado por gigantescas lutas de emancipa\u00e7\u00e3o, travadas pelos povos coloniais ou amea\u00e7ados de serem submetidos ao colonialismo: pensemos na China, no Vietname, em Cuba, na pr\u00f3pria Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica que, na luta contra a tentativa hitleriana de criar um imp\u00e9rio colonial precisamente na Europa oriental, teve que travar a Grande guerra patri\u00f3tica. Esse processo gigantesco desapareceu no s\u00e9culo XXI, no s\u00e9culo em que vivemos? N\u00e3o, ele continua. Mas h\u00e1 outros. Para al\u00e9m dos casos tr\u00e1gicos, como o do povo palestino que \u00e9 obrigado a sofrer o colonialismo na sua forma cl\u00e1ssica e mais brutal, nos outros pa\u00edses a luta anti-colonialista passou da fase propriamente pol\u00edtico-militar para a fase pol\u00edtico-econ\u00f3mica. Esses pa\u00edses tentam garantir uma independ\u00eancia que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas pol\u00edtica mas tamb\u00e9m econ\u00f3mica; est\u00e3o portanto empenhados em romper com o monop\u00f3lio tecnol\u00f3gico que os Estados Unidos e o imperialismo julgavam ter conquistado duma vez por todas. Por outras palavras, estamos perante a continua\u00e7\u00e3o da luta contra o colonialismo e o imperialismo que constituiu o conte\u00fado principal do s\u00e9culo XX. E, tal como no s\u00e9culo que j\u00e1 passou, onde foram partidos comunistas que estimularam e dirigiram esse movimento, tamb\u00e9m agora vemos pa\u00edses como a China, o Vietname ou Cuba guiar no s\u00e9culo XXI essa nova fase do processo de emancipa\u00e7\u00e3o anti-colonialista. Por certo n\u00e3o \u00e9 por acaso que estes tr\u00eas pa\u00edses s\u00e3o dirigidos por partidos comunistas. Os que declaram morto o movimento comunista, e pensam estar a falar de uma coisa evidente, n\u00e3o se apercebem que est\u00e3o a repetir uma idiotice macrosc\u00f3pica.<\/p>\n<p><strong>SM:<\/strong> Portanto existem as condi\u00e7\u00f5es objectivas materiais para um relan\u00e7amento, mesmo na It\u00e1lia, de um Partido Comunista de quadros e com o apoio das massas?<\/p>\n<p><strong>DL:<\/strong> Sinceramente, creio que sim, estou mesmo convencido disso: n\u00e3o vemos porque \u00e9 que a It\u00e1lia tenha que ser uma anomalia em rela\u00e7\u00e3o ao quadro internacional. Se \u00e9 verdade que, na Europa oriental, entre 1989 e 1991, o movimento comunista sofreu uma severa derrota, que evidentemente \u00e9 preciso reconhecer e ter em conta, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a situa\u00e7\u00e3o mundial no seu conjunto apresenta um quadro bastante mais variado e decisivamente mais encorajador. Por exemplo, regressei duma viagem a Portugal, onde tive ocasi\u00e3o de apreciar a presen\u00e7a do Partido Comunista. \u00c9 sabido que em It\u00e1lia temos uma grande tradi\u00e7\u00e3o comunista por detr\u00e1s de n\u00f3s e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o para nos apropriarmos dela, claro de que modo cr\u00edtico. Creio que existem tamb\u00e9m os pressupostos n\u00e3o somente ideais mas tamb\u00e9m pol\u00edticos para p\u00f4r fim ao fraccionamento das for\u00e7as comunistas. Circulando pelo nosso pa\u00eds, mais em manifesta\u00e7\u00f5es culturais do que pol\u00edticas, observei que o potencial comunista \u00e9 real. Os comunistas est\u00e3o \u00e9 fragmentados em diversas organiza\u00e7\u00f5es, por vezes mesmo em pequenos c\u00edrculos: \u00e9 preciso arrega\u00e7ar as mangas e p\u00f4r-se ao trabalho pela unidade, apoiando-se primeiro que tudo nas for\u00e7as comunistas que j\u00e1 est\u00e3o presentes de modo mais ou menos organizado a n\u00edvel nacional. Estou a pensar em L\u2019Ernesto, que actua no quadro da Rifondazione Comunista, e no PdCI (Partito dei Comunisti italiani, N.T.): se se unissem, estas duas for\u00e7as ficariam em condi\u00e7\u00f5es de lan\u00e7ar um sinal aos c\u00edrculos comunistas difusos pelo territ\u00f3rio nacional, um convite para abandonarem a resigna\u00e7\u00e3o e o sectarismo para se porem ao trabalho a fim de concretizarem os ideais e um projecto comunista.<\/p>\n<p><strong>SM: <\/strong>Ent\u00e3o, o que impede a constru\u00e7\u00e3o de um Partido Comunista \u00fanico em It\u00e1lia, na sua opini\u00e3o, \u00e9 essa fragmenta\u00e7\u00e3o, esse cansa\u00e7o para enfrentar de novo lutas que uma s\u00e9rie de camaradas j\u00e1 travaram?<\/p>\n<p><strong>DL:<\/strong> A It\u00e1lia ressente-se do peso de uma situa\u00e7\u00e3o especial: a ac\u00e7\u00e3o negativa dum partido, o da Rifondazione comunista, conduzido durante muito tempo por dirigentes com uma vis\u00e3o substancialmente anti-comunista, dirigentes que se dedicaram activamente a liquidar a heran\u00e7a da tradi\u00e7\u00e3o comunista no mundo e na It\u00e1lia. \u00c9 evidente que devemos libertar-nos dessa fase tr\u00e1gica e grotesca da hist\u00f3ria que temos atr\u00e1s de n\u00f3s; desse ponto de vista a reconstru\u00e7\u00e3o do Partido n\u00e3o \u00e9 apenas um dever organizativo, mas \u00e9 um dever sobretudo te\u00f3rico e cultural. Creio que esses problemas podem ser enfrentados e resolvidos positivamente.<\/p>\n<p><strong>SM:<\/strong> Encontramo-nos actualmente numa situa\u00e7\u00e3o em que assistimos a uma mudan\u00e7a de perspectiva mesmo cultural. Enquanto que no s\u00e9culo XX, a hegemonia cultural era apan\u00e1gio do movimento comunista, hoje a palavra comunista \u00e9 vivida quase com embara\u00e7o, ou mesmo com uma vergonha manifesta, at\u00e9 ao ponto das declara\u00e7\u00f5es de Bertinotti sobre a impronunciabilidade da palavra comunista ou sobre a redu\u00e7\u00e3o do seu significado, na melhor das hip\u00f3teses, a qualquer coisa puramente cultural. Como \u00e9 que se chegou a este ponto e como nos podemos libertar de tudo isso?<\/p>\n<p><strong>DL:<\/strong> A palavra comunismo ser\u00e1 impronunci\u00e1vel? Enquanto historiador tenho que observar imediatamente que ent\u00e3o dev\u00edamos renunciar a palavras que servem de refer\u00eancia aos movimentos pol\u00edticos actuais em geral. Como \u00e9 que se chamava nos EUA o partido que defendeu at\u00e9 ao fim a institui\u00e7\u00e3o da escravatura dos negros? Chamava-se Partido Democrata. E como se chamava, tamb\u00e9m nos EUA, o partido que, mesmo depois da aboli\u00e7\u00e3o formal da escravatura, defendeu o regime da supremacia branca, da segrega\u00e7\u00e3o racial, do linchamento dos negros organizado como tortura lenta e intermin\u00e1vel e como espect\u00e1culo de massas? Chamava-se, mais uma vez, Partido Democrata. Sim, os campe\u00f5es da escravatura e do racismo mais vergonhoso fizeram profiss\u00e3o de f\u00e9 de democracia. Dever\u00edamos concluir que \u201cdemocracia\u201d \u00e9 impronunci\u00e1vel? Pensar que a palavra democracia tem uma hist\u00f3ria mais bela, mais limpa, mais imaculada, do que a palavra comunismo significa n\u00e3o conhecer nada da hist\u00f3ria. O que eu disse a prop\u00f3sito da palavra democracia podia ser repetido calmamente para outras palavras que fazem parte essencial do patrim\u00f3nio da esquerda. Como se chamava o partido de Hitler? Chamava-se Partido nacional-socialista: tamb\u00e9m devemos considerar a palavra socialista como um tabu? Para sermos exactos, o partido de Hitler chamava-se Partido nacional-socialista dos oper\u00e1rios alem\u00e3es. Ent\u00e3o seria inconveniente e inaceit\u00e1vel fazer refer\u00eancia aos oper\u00e1rios e \u00e0 classe oper\u00e1ria. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma palavra que possa exibir o estatuto da pureza. Hitler e Mussolini pretendiam ser os promotores e os protagonistas duma revolu\u00e7\u00e3o; eis outra palavra que, segundo a l\u00f3gica de Bertinotti, devia ser impronunci\u00e1vel.<\/p>\n<p>Na realidade, esta proposta sobre a impronunciabilidade da palavra \u201ccomunismo\u201d pressup\u00f5e n\u00e3o s\u00f3 uma total subservi\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideologia dominante mas tamb\u00e9m uma total incapacidade de julgamento hist\u00f3rico e pol\u00edtico. Para clarificar este \u00faltimo ponto, apoiar-me-ei numa compara\u00e7\u00e3o que ilustrei no meu livro Controstoria del liberalismo (Contra hist\u00f3ria da democracia, N.T.). Nos anos trinta do s\u00e9culo XIX, duas ilustres personalidades francesas visitam os EUA. Uma \u00e9 Alexis de Tocqueville, o grande te\u00f3rico liberal; a outra \u00e9 Victor Schoelcher, aquele que, depois da revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro de 1848, vai abolir definitivamente a escravatura nas col\u00f3nias francesas. Ambos visitam os EUA no mesmo per\u00edodo, mas independentemente um do outro. Constatam os mesmos fen\u00f3menos: o governo da lei e da democracia est\u00e3o em vigor na comunidade branca; mas os negros sofrem a escravatura e uma opress\u00e3o feroz, enquanto que os peles-vermelhas s\u00e3o progressiva e sistematicamente eliminados da superf\u00edcie da terra. Na altura das conclus\u00f5es, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo do seu livro (A democracia na Am\u00e9rica), Tocqueville fala dos EUA como de um pa\u00eds autenticamente democr\u00e1tico, e at\u00e9 mesmo como do pa\u00eds mais democr\u00e1tico do mundo; Schoelcher, pelo contr\u00e1rio, v\u00ea os EUA como o pa\u00eds onde reina o despotismo mais feroz. Qual dos dois tem raz\u00e3o?<\/p>\n<p>Imaginemos que no s\u00e9culo XX, Tocqueville e Schoelcher regressavam ambos de uma volta ao mundo. O primeiro acabaria por elogiar o governo da lei e da democracia em vigor nos EUA e no \u201cmundo livre\u201d e considerar como pouco importantes a opress\u00e3o e as pr\u00e1ticas genocidas impostas por Washington e pelo \u201cmundo livre\u201d nas col\u00f3nias e semi-col\u00f3nias (na Arg\u00e9lia, no Qu\u00e9nia, na Am\u00e9rica do Sul, etc.), o assass\u00ednio sistem\u00e1tico de centenas de milhares de comunistas organizado pela CIA num pa\u00eds como a Indon\u00e9sia, a discrimina\u00e7\u00e3o, a humilha\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o infligidas mesmo na metr\u00f3pole capitalista e \u201cdemocr\u00e1tica\u201d \u00e0 custa dos povos de origem colonial (os negros nos EUA, os argelinos em Fran\u00e7a, etc.). Schoelcher, pelo contr\u00e1rio, concentraria a sua aten\u00e7\u00e3o precisamente sobre tudo isso e concluiria que era o chamado \u201cmundo livre\u201d que exercia o pior despotismo. Compreende-se bem que a ideologia dominante se identifique sem reservas com o Tocqueville real e o Tocqueville imagin\u00e1rio. A sorte reservada aos povos coloniais e de origem colonial n\u00e3o conta!<\/p>\n<p>Contra esta perspectiva, repito o que j\u00e1 disse: os comunistas devem saber olhar de modo autocr\u00edtico a sua hist\u00f3ria mas n\u00e3o t\u00eam que ter vergonha e n\u00e3o devem entregar-se \u00e0 autofobia; foi o movimento comunista que p\u00f4s fim aos horrores que caracterizaram a tradi\u00e7\u00e3o colonialista (que descambou de seguida no horror do Terceiro Reich, no horror do regime que sofreu a sua primeira e decisiva derrota gra\u00e7as \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica).<\/p>\n<p><strong>SM: <\/strong>Podemos dizer portanto que a via para a reconstru\u00e7\u00e3o do Partido comunista passa inevitavelmente pela escolha de se reapropriar do que constituiu as suas pr\u00f3prias ra\u00edzes, do que foi o orgulho comunista e tamb\u00e9m da linguagem que faz parte dele?<\/p>\n<p><strong>DL: <\/strong>Sem d\u00favida alguma. Essa reapropria\u00e7\u00e3o deve ser totalmente cr\u00edtica, mas essa atitude tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma coisa nova. Quando Lenine lan\u00e7ou o movimento comunista, por um lado ligou-se \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o socialista precedente, mas por outro lado soube reinterpretar essa tradi\u00e7\u00e3o num sentido cr\u00edtico, mantendo presente a evolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da sua \u00e9poca. Nos nossos dias, n\u00e3o se trata de forma alguma de evitar um balan\u00e7o autocr\u00edtico, que se imp\u00f5e absolutamente. Mas isso n\u00e3o tem nada a ver com a aceita\u00e7\u00e3o do quadro manique\u00edsta proposto ou imposto pela ideologia dominante. Esse quadro n\u00e3o corresponde de forma alguma \u00e0 verdade hist\u00f3rica mas apenas \u00e0 necessidade pol\u00edtica e ideol\u00f3gica das classes dominantes e exploradoras de fazer calar toda a oposi\u00e7\u00e3o de peso.<\/p>\n<p><strong>SM:<\/strong> Ent\u00e3o, na pr\u00e1tica como \u00e9 que deveremos trabalhar para voltar a dar \u00e0 classe oper\u00e1ria um Partido Comunista que esteja \u00e0 altura dos temas e da confronta\u00e7\u00e3o de classe? Como podemos ter uma rela\u00e7\u00e3o fecunda com os cidad\u00e3os italianos?<\/p>\n<p><strong>DL:<\/strong> O modelo do Partido comunista elaborado por Lenine parece-me manter-se v\u00e1lido; evidentemente, \u00e9 preciso ter em conta que o seu Que fazer? se referia \u00e0 R\u00fassia czarista e tamb\u00e9m, portanto, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de clandestinidade em que o partido era obrigado a funcionar. Em todo o caso, trata-se de construir um partido que n\u00e3o seja um partido de opini\u00e3o e que n\u00e3o se caracterize pelo culto da personalidade, como foi o caso durante tanto tempo da Rifondazione Comunista. \u00c9 preciso um partido capaz de construir um saber colectivo alternativo \u00e0s manipula\u00e7\u00f5es da ideologia dominante, um partido que deve saber estar presente nos locais do conflito e deve saber tamb\u00e9m, quotidianamente, construir uma alternativa tanto no plano ideol\u00f3gico como no da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Queria concluir com duas observa\u00e7\u00f5es. A primeira: o exemplo da Lega (Liga do Norte, partido xen\u00f3fobo e secessionista de Umberto Bossi, N.T.) (um partido que tem caracter\u00edsticas reaccion\u00e1rias e que nos apresenta cen\u00e1rios muito inquietantes) demonstra que era terrivelmente err\u00f3nea a vis\u00e3o segundo a qual n\u00e3o havia espa\u00e7o para um partido enraizado no territ\u00f3rio e no local do conflito.<\/p>\n<p>A segunda observa\u00e7\u00e3o leva-me exactamente ao in\u00edcio da nossa conversa, em que eu recordei o ensinamento de Togliatti sobre a quest\u00e3o meridional como uma quest\u00e3o nacional. Actualmente imp\u00f5e-se uma constata\u00e7\u00e3o amarga: a falta de solu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o meridional est\u00e1 em vias de p\u00f4r em crise, ou corre o risco de p\u00f4r em crise, a unidade nacional do nosso pa\u00eds: num pa\u00eds caracterizado por grandes desequil\u00edbrios regionais, o desmantelamento definitivo do Estado social passa pela liquida\u00e7\u00e3o do Estado nacional e da unidade nacional. O partido comunista que somos chamados a reconstruir na It\u00e1lia far\u00e1 a demonstra\u00e7\u00e3o do seu internacionalismo concreto na medida, tamb\u00e9m, em que saiba enfrentar e resolver a quest\u00e3o nacional. Aderir aos movimentos secessionistas ou mesmo n\u00e3o os combater at\u00e9 ao fundo significar\u00e1 romper com a melhor tradi\u00e7\u00e3o comunista. \u00c9 preciso ter sempre presente a li\u00e7\u00e3o da Resist\u00eancia: o Partido comunista tornou-se um forte partido de massas na medida em que soube ligar a luta social e a luta nacional, interpretar as necessidades das classes populares e ao mesmo tempo assumir a direc\u00e7\u00e3o de um movimento que lutava para salvar a It\u00e1lia.<\/p>\n<p><em>Notas :<\/em><\/p>\n<p><em>[1] Beppe Grillo: actor c\u00f3mico muito conhecido em It\u00e1lia. Envolveu-se na \u00e9poca numa pol\u00e9mica com o PSI de Bettino Craxi que imp\u00f4s a sua exclus\u00e3o da televis\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 actualmente l\u00edder de um movimento (\u201c5 Stelle\u201d, 5 estrelas), de contornos qualunquistas (movimento p\u00f3s-guerra que tentou afastar os partidos pol\u00edticos do governo italiano &#8211; N.T.), que apela ao boicote dos partidos e das institui\u00e7\u00f5es e apela a uma forma pouco prov\u00e1vel de democracia directa atrav\u00e9s da Internet. Mas \u00e9 necess\u00e1rio sublinhar que o seu movimento tem uma grande audi\u00eancia, sobretudo entre os leitores que votavam antigamente nos partidos comunistas e na esquerda radical; estes eleitores viraram-se para Grillo, desiludidos com a fraca autonomia desses partidos e a sua infeliz participa\u00e7\u00e3o no governo Prodi (\u201cs\u00e3o todos iguais\u201d).<\/em><\/p>\n<p><em>[2] Nicola -Nichi- Vendola: nasceu e cresceu no PCI, est\u00e1 pr\u00f3ximo das posi\u00e7\u00f5es organizativas da esquerda de Pietro Ingrao, e foi um dos principais l\u00edderes do PRC. Partid\u00e1rio fervoroso do m\u00e9todo das prim\u00e1rias, foi eleito presidente da Regi\u00e3o Puglia onde exerce actualmente o seu segundo mandato. Derrotado na corrida para o secretariado do PRC, fundou um partido pessoal, Sinistra Ecologia e Liberta (Esquerda Ecologia e Liberdade). Sempre atrav\u00e9s do m\u00e9todo das prim\u00e1rias, visa actualmente a remodela\u00e7\u00e3o, numa perspectiva mais radical, da esquerda moderada italiana; para esse efeito lan\u00e7ou a sua pr\u00f3pria candidatura como presidente do Conselho, em concorr\u00eancia com os candidatos do Partito Democr\u00e1tico. Herdeiro de Fausto Bertinotti, \u00e9 tamb\u00e9m o te\u00f3rico de um populismo ret\u00f3rico de esquerda, de veia po\u00e9tico-liter\u00e1ria, por assim dizer.<\/em><\/p>\n<p><em>[3] Fausto Bertinotti: ligado na juventude \u00e0 esquerda socialista de Riccardo Lombardi, depois l\u00edder da ala esquerda da CGIL (mais ou menos equivalente \u00e0 CGT francesa, N.T.), foi \u201cinscrito\u201d como secret\u00e1rio do PRC (Partito della Rifondazione Comunista) pelo velho l\u00edder comunista Armando Cossutta. Dirigiu a Rifondazione durante mais de 10 anos, dando-lhe uma visibilidade medi\u00e1tica not\u00e1vel e for\u00e7a eleitoral. Mas foi tamb\u00e9m o principal fautor da sua descomunistiza\u00e7\u00e3o e muta\u00e7\u00e3o num partido de esquerda radical. Depois de ter ligado o destino do PRC ao movimento n\u00e3o-global e ao radicalismo mais avan\u00e7ado, imp\u00f4s uma viragem de 180 graus em 2005, levando o seu pr\u00f3prio partido para o governo Prodi e aceitando a presid\u00eancia da C\u00e2mara. Isso n\u00e3o foi aceite pelos eleitores que, nas elei\u00e7\u00f5es de 2008, rejeitaram clamorosamente a coliga\u00e7\u00e3o da esquerda radical. <\/em><\/p>\n<p><em>* Sara Milazzo \u00e9 colaboradora da revista comunista italiana L\u2019Ernesto.<\/em><\/p>\n<p><em>Dom\u00e9nico Losurdo, fil\u00f3sofo e Professor de Hist\u00f3ria da Filosofia na Universidade de Urbino, It\u00e1lia, \u00e9 amigo e colaborador de odiario.info. <\/em><\/p>\n<p><em>Esta entrevista a Domenico Losurdo, foi publicada na revista italiana <a href=\"http:\/\/www.lernesto.it\/index.aspx?m=77&amp;f=2&amp;IDArticolo=19905\" target=\"_blank\">http:\/\/www.lernesto.it\/index.aspx?m=77&amp;f=2&amp;IDArticolo=19905<\/a> <\/em><\/p>\n<p><em>Todas as notas de rodap\u00e9 foram escritas, para a vers\u00e3o francesa desta entrevista, por Stefano G. Azzar\u00e0 (s.azzara@uniurb.it), historiador de filosofia na Universidade de Urbino (It\u00e1lia) <a href=\"http:\/\/materialismostorico.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">http:\/\/materialismostorico.blogspot.com\/<\/a> . <\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Margarida Ferreira<\/em><\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.odiario.info\/?p=1933<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nEntrevista\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1131\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[80],"tags":[],"class_list":["post-1131","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c93-organizacoes"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-if","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1131","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1131"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1131\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}