{"id":11327,"date":"2016-06-09T14:08:44","date_gmt":"2016-06-09T17:08:44","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11327"},"modified":"2016-06-30T16:05:39","modified_gmt":"2016-06-30T19:05:39","slug":"franca-a-luta-social-pega-fogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11327","title":{"rendered":"Fran\u00e7a: a luta social pega fogo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"273\" width=\"485\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/160601-Fran%C3%A7a2-485x273.jpg?resize=485%2C273\" alt=\"imagem\" \/>Por Pepe Escobar<\/p>\n<p><em>\u00c0s v\u00e9speras da Copa Europeia, greves em defesa dos direitos trabalhistas paralisam pa\u00eds. Popula\u00e7\u00e3o apoia. Mas insanidade do governo \u201csocialista\u201d pode abrir espa\u00e7o para direita<\/em><\/p>\n<p>Por<strong> Pepe Escobar<\/strong> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>In\u00eas Castilho<\/strong><!--more--><\/p>\n<p>Paris est\u00e1 em chamas, enquanto o presidente Fran\u00e7ois Hollande trapaceia. Esta \u00e9 s\u00edntese dos protestos por toda a Fran\u00e7a contra a proposta da \u201creforma\u201d trabalhista, enquanto o presidente posa no G-7, no Jap\u00e3o, como se fosse um dos Senhores do Universo.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a est\u00e1 semiparalizada \u2013 dos trabalhadores nas docas do porto Le Havre (um hub-chave de com\u00e9rcio) a oper\u00e1rios das refinarias, dep\u00f3sitos de petr\u00f3leo, esta\u00e7\u00f5es de energia nuclear (que respondem por 75% do fornecimento nacional de energia), aeroportos, e o sistema de transportes sobre trilhos metropolitano de Paris. Isso converteu-se em p\u00e2nico numa mir\u00edade de postos de gasolina \u2013 com a paralisa\u00e7\u00e3o de grande parte do sistema de transportes franc\u00eas.<\/p>\n<p>Tudo isso porque o governo Hollande, supostamente \u201csocialista\u201d e catastroficamente impopular, introduziu um projeto de lei que modifica de forma dr\u00e1stica as leis trabalhistas francesas e adota o essencialmente neoliberal \u201ccontrata e demite\u201d (\u201chire and fire\u201d) anglo-sax\u00e3o, num pa\u00eds profundamente regulado e cheio de regras, onde a prote\u00e7\u00e3o e os direitos dos trabalhadores s\u00e3o levados extremamente a s\u00e9rio. Hollande e seu incrivelmente med\u00edocre primeiro ministro Manuel Valls defendem o projeto como a melhor maneira de combater o desemprego cr\u00f4nico.<\/p>\n<p><strong>Acabe com o projeto para desbloquear o pa\u00eds<\/strong><\/p>\n<p>O maio de 2016 na Fran\u00e7a certamente n\u00e3o \u00e9 um remix do maio de 1968. H\u00e1 um v\u00f3rtice de fatores complicadores, tais como a psicose \u201cterra terra terra\u201d (Paris vive num estado de s\u00edtio semidisfar\u00e7ado); o movimento Noites Despertas em curso na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica \u2013 a vers\u00e3o francesa do Occupy Wall Street; e a pol\u00edcia com os nervos \u00e0 flor da pele reclamando, e at\u00e9 mesmo fazendo manifesta\u00e7\u00f5es porque julgam n\u00e3o receber, da popula\u00e7\u00e3o, todo o amor de que necessitam\u2026<\/p>\n<p>Maio de 2016 surge essencialmente como uma batalha entre o governo socialista e os sindicatos franceses. Vai tornar-se mais quente. Dados da pol\u00edcia sugerem que havia 153 mil grevistas\/manifestantes na quinta-feira passada \u2013 um dia de enorme mobiliza\u00e7\u00e3o que atingiu os servi\u00e7os p\u00fablicos e transportes a\u00e9reos. Os sindicatos contaram quase 300 mil. O executivo est\u00e1 come\u00e7ando a usar a for\u00e7a para desbloquear refinarias chave. Postos de gasolina vazios e motoristas em p\u00e2nico est\u00e3o se tornando a norma.<\/p>\n<p>A dupla Hollande-Valls jogou pesado; o projeto de \u201creforma\u201d trabalhista precisa ser aprovado, do contr\u00e1rio ser\u00e1 o fim do governo. O sinal vermelho de Valls \u00e9: se o projeto de lei cair, ele tamb\u00e9m vai. No entanto, j\u00e1 foi (ligeiramente) for\u00e7ado a recuar; agora est\u00e1 permitindo \u201cmudan\u00e7as\u201d e \u201cmelhorias\u201d na proposta.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 essencialmente uma batalha da esquerda francesa \u2013 um ramo radical, da classe trabalhadora, contra outro no poder, denominado social-democrata, mas na verdade neoliberal. \u00c9 tamb\u00e9m um di\u00e1logo de surdos. O primeiro ministro n\u00e3o \u00e9 propriamente um participante do di\u00e1logo social. Para ele, as duas esquerdas s\u00e3o irreconcili\u00e1veis. N\u00e3o \u00e9 preciso ser um leitor de Barther ou Deleuze para inferir que a Fran\u00e7a est\u00e1 correndo o risco de chegar ao grau zero de democracia social.<\/p>\n<p>Depois do oitavo dia de manifesta\u00e7\u00f5es, Philippe Martinez, secret\u00e1rio geral da CGT, a poderosa confedera\u00e7\u00e3o sindical CGT, reivindica agora ser recebido pelo presidente e somente o presidente \u2013 na pr\u00e1tica, jogando Valls no lixo.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a dupla Hollande-Valls esteja t\u00e3o disconectada do pulso das ruas que n\u00e3o foi capaz de percer que seu projeto de lei seria encarado com tanta hostilidade. Deveriam ter pensado mais amplamente \u2013 e investido em muito di\u00e1logo pr\u00e9vio, para n\u00e3o dizer sutilezas sem\u00e2nticas, com os sindicatos.<\/p>\n<p>E o que os franceses pensam sobre essa trapalhada? Tr\u00eas quartos da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o contr\u00e1rios ao projeto. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel \u201cmodernizar\u201d a Fran\u00e7a sem os franceses. Nesse pa\u00eds, nuances sutis importam. Segundo uma das \u00faltimas pesquisas, 69% s\u00e3o favor\u00e1veis a mudan\u00e7as no projeto de lei, para impedir que a na\u00e7\u00e3o se mantenha paralisada. Outra pesquisa mostra que 62% consideram \u201cjustificadas\u201d as greves, a despeito da paralisa\u00e7\u00e3o de parte do pa\u00eds. Um cruzamento desses estudos revela que os movimentos sociais s\u00e3o leg\u00edtimos, mesmo que a maioria das pessoas n\u00e3o queira ver a na\u00e7\u00e3o paralisada.<\/p>\n<p>Num estilo mais leve, a conversa agora nos caf\u00e9s de Paris \u00e9 que seria melhor o Partido Socialista nem tentar disputar a nova campanha presidencial; os fatos provam que a classe trabalhadora tem hoje por ele um \u00f3dio visceral. O atual estado de emerg\u00eancia \u2013 vers\u00e3o francesa da Lei Patri\u00f3tica <em>(Patriot Act)<\/em> dos EUA \u2013 mais o vi\u00e9s neoliberal dado pelo Partido Socialista (PS) leva-o a perder o voto de artistas e intelectuais, assim como o dos \u201cbo-bos\u201d (bo\u00eamios burgueses), que costumavam ser o principal esteio de sua base eleitoral. E tudo isso enquanto os executivos-chefes, t\u00e3o cortejados pelo PS, continuar\u00e3o a votar com a direita.<\/p>\n<p><strong>Hora de ser um \u201cindignado\u201d com causa<\/strong><\/p>\n<p>E agora? Busca-se alguma forma de concilia\u00e7\u00e3o; o texto do projeto ser\u00e1 emendado pelo Senado no m\u00eas que vem, antes de voltar \u00e0 Assembleia. Isso significa que ela ser\u00e1 \u201cretocada\u201d \u2013 como at\u00e9 mesmo o governo est\u00e1 agora admite; e isso significar\u00e1 uma vit\u00f3ria dos movimentos sociais. Aconte\u00e7a o que acontecer, a guerra das esquerdas n\u00e3o ter\u00e1 terminada. E o resultado final pode at\u00e9 mesmo resultar numa forma de suic\u00eddio coletivo \u2013 em benef\u00edcio da direita.<\/p>\n<p>O crescimento econ\u00f4mico da Fran\u00e7a permanece muito fraco. A Copa Europeia de Sele\u00e7\u00f5es 2016 come\u00e7a em apenas duas semanas, em 10 de junho. A Fran\u00e7a espera receber 1,5 milh\u00e3o de turistas estrangeiros e lucrar algo em torno de 1,3 bilh\u00e3o de euros. A \u00e1rea de f\u00e3s que est\u00e1 sendo constru\u00edda em frente a Torre Eiffel atrai ao menos 100 mil pessoas diariamente.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o houver uma solu\u00e7\u00e3o nos pr\u00f3ximos dias, a dupla Hollande-Valls ter\u00e1 de recuar. O sistema de seguran\u00e7a franc\u00eas n\u00e3o ter\u00e1 capacidade de dar conta, simultaneamente, de um alerta m\u00e1ximo contra terrorismo e uma mir\u00edade de manifesta\u00e7\u00f5es (um enorme protesto j\u00e1 est\u00e1 marcado para 14 de junho). H\u00e1 muito em quest\u00e3o para o sucesso do campeonato de futebol, al\u00e9m dos lucros. O futebol, nesse caso, est\u00e1 longe de ser neutro politicamente; se o show for um grande sucesso, quem colher\u00e1 os benef\u00edcios ser\u00e1 Hollande.<\/p>\n<p>Os socialistas franceses, enquanto isso, poderiam fazer mais do que dar uma olhada na vizinha Espanha. Na Espanha de Franco, comunistas e socialistas estavam na vanguarda da resist\u00eancia democr\u00e1tica, incorporando em sua luta aqueles que criaram as Comiss\u00f5es de Trabalhadores e alguns dos melhores intelectuais de seu tempo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, veio deriva neoliberal dos partidos socialistas europeus \u2013 que os levou a perder sua hegemonia hist\u00f3rica. Eles n\u00e3o foram capazes, ao mesmo tempo, de defender sua base social \u2013 e o Estado de bem-estar social \u2013 e satisfazer os duros requisitos do cassino que \u00e9 o sistema financeiro e a pol\u00edtica econ\u00f4mica de \u201causteridade\u201d fiscal imposta pela Comiss\u00e3o Europeia, e exigida pela Alemenha.<\/p>\n<p>No per\u00edodo de Franco e durante a Guerra Fria, era comum usar \u201ccomunista\u201d e \u201csocialista\u201d como forma de desqualificar qualquer argumento pol\u00edtico. Reinava a pol\u00edtica do medo. A Fran\u00e7a, por sua parte, era muito mais sofisticada politicamente (e, ao contr\u00e1rio da Espanha n\u00e3o estava sob um regime fascista.)<\/p>\n<p>O que resta para a esquerda na Europa \u00e9 prestar muita aten\u00e7\u00e3o ao caminho emergente aberto pelos movimentos sociais, compreender a necessidade de reconstruir um Estado de bem-estar social e criar formas de emprego com valor; tudo isso tem sido negado pelo fundamentalismo de mercado e o modo de pensar da austeridade TINA (There Is No Alternative, N\u00e3o H\u00e1 Alternativa).<\/p>\n<p>Entre os \u201cindignados\u201d espanh\u00f3is encontram-se anarquistas, comunistas, socialistas \u2013 um microcosmo da hist\u00f3ria moderna da Espanha enraizada na indigna\u00e7\u00e3o contra a ditadura e a injusti\u00e7a social, todos tentando reinventar-se enquanto o neoliberalismo afunda. Quem dera os esquerdistas franceses pudessem ao menos lan\u00e7ar um olhar para l\u00e1.<\/p>\n<p>http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/franca-a-luta-social-pega-fogo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Pepe Escobar \u00c0s v\u00e9speras da Copa Europeia, greves em defesa dos direitos trabalhistas paralisam pa\u00eds. Popula\u00e7\u00e3o apoia. 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