{"id":11346,"date":"2016-06-14T11:30:47","date_gmt":"2016-06-14T14:30:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11346"},"modified":"2016-06-30T16:04:44","modified_gmt":"2016-06-30T19:04:44","slug":"operacao-condor-condenada-historia-na-argentina-vergonha-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11346","title":{"rendered":"Opera\u00e7\u00e3o Condor condenada: Hist\u00f3ria na Argentina, vergonha no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s33.postimg.org\/tgeuatvy7\/Condor2.jpg?w=747\" alt=\"\" \/><strong>Enquanto a Argentina faz hist\u00f3ria na in\u00e9dita condena\u00e7\u00e3o dos criminosos da Condor, o Brasil marca passo e retrocede ainda mais no governo Temer. <\/strong><\/p>\n<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha*<!--more--><\/p>\n<p>Em sil\u00eancio, semblante cerrado, m\u00e3os cruzadas, com cabelos grisalhos disfar\u00e7ando seus 75 anos e um grosso sobretudo marrom para proteger do frio portenho de 13 graus, cercado de cadeiras vazias, Miguel \u00c1ngel Furci parecia ainda mais s\u00f3 e desamparado na pequena sala do Tribunal Oral Federal 1, no final da tarde de quinta-feira 26, em Buenos Aires.<\/p>\n<p>Furci continuou impass\u00edvel, mesmo quando ouviu o juiz que lia a senten\u00e7a, Oscar Ricardo Amirante, pronunciar seu nome e sua pena: 25 anos de pris\u00e3o como autor de 67 pris\u00f5es ilegais e 62 den\u00fancias de tortura, na condi\u00e7\u00e3o de agente civil da SIDE, a Secretaria de Intelig\u00eancia do Estado, o \u00f3rg\u00e3o da ditadura argentina (1976-1983) que controlava a repress\u00e3o. Foi a maior condena\u00e7\u00e3o do dia, que os outros 17 r\u00e9us, todos presos, ausentes do tribunal, preferiram n\u00e3o ouvir.<\/p>\n<p>Mas milhares viram e ouviram pela TV e pela Internet a senten\u00e7a hist\u00f3rica da Argentina, o \u00fanico pa\u00eds das Am\u00e9ricas que reconheceu e julgou a Opera\u00e7\u00e3o Condor, condenando pela primeira vez os militares e agentes de uma organiza\u00e7\u00e3o de terror de Estado sem precedentes no mundo. Um ju\u00edzo que, por tabela, escancara as culpas e o cinismo do Brasil. Na d\u00e9cada de 1970, as ditaduras de seis pa\u00edses do Cone Sul \u2014 Chile, Argentina, Uruguai, Bol\u00edvia, Paraguai e Brasil \u2014 se juntaram clandestinamente para perseguir, torturar, matar e desaparecer os que se opunham aos regimes militares.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m investigou esse crime transnacional com a obstina\u00e7\u00e3o e a agudeza da Justi\u00e7a argentina. A Causa Condor, que chegou ao seu final naquela quinta-feira, apurou durante tr\u00eas anos os crimes praticados na regi\u00e3o contra 109 pessoas \u2014 apenas 14 delas argentinas. As outras 91 eram do Uruguai, Chile, Paraguai e Bol\u00edvia. Nenhum brasileiro entre eles. Foram ouvidas 222 testemunhas, 133 delas do exterior \u2014 apenas uma era brasileira. S\u00f3 na Argentina, existem 457 casos de v\u00edtimas da Condor na Justi\u00e7a. No Brasil, nenhum.<\/p>\n<p>Mais de 600 militares argentinos j\u00e1 foram processados, condenados e agora cumprem pena pelos crimes da ditadura. No Brasil, apesar dos 21 anos de arb\u00edtrio, nenhum militar foi para a cadeia. Os cinco presidentes militares acantonados no Pal\u00e1cio do Planalto a partir de 1964 \u2014 Castelo Branco, Costa e Silva, M\u00e9dici, Geisel e Figueiredo \u2014 morreram impunes, embora todos tenham sido responsabilizados pelos crimes da ditadura no contundente relat\u00f3rio final de 2014 da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, indiciados como comandantes supremos dos 377 agentes do Estado apontados como autores de crimes de lesa-humanidade na ditadura brasileira.<\/p>\n<p><strong>Generais na cadeia<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, na Argentina, os presidentes militares sentaram nos bancos dos r\u00e9us. Jorge Rafael Videla, o general mais emblem\u00e1tico da ditadura, que liderou o golpe de 1976, morreu na cadeia em maio de 2013, aos 87 anos, onde cumpria duas penas de pris\u00e3o perp\u00e9tua, al\u00e9m de outra de 50 anos de deten\u00e7\u00e3o pelo desaparecimento de beb\u00eas de presas pol\u00edticas. Morreu do cora\u00e7\u00e3o numa sexta-feira, tr\u00eas dias ap\u00f3s recusar-se a depor na Causa Condor. Em 2011, na cadeia, falou durante 20 horas ao jornalista Ceferino Reato, que publicou no ano seguinte seu relato estarrecedor no livro <em>Disposi\u00f3n Final, <\/em>uma sutil refer\u00eancia \u00e0 genocida &#8216;solu\u00e7\u00e3o final&#8217; do III Reich hitlerista<em>. <\/em>Ali, o velho general admitiu o tamanho do seu assassinato em massa: &#8220;Digamos que eram umas sete ou oito mil as pessoas que deveriam morrer para ganhar a guerra contra a subvers\u00e3o&#8221;. Videla foi modesto. A Comiss\u00e3o S\u00e1bato que investigou a ditadura contabilizou cerca de 10 mil mortos, os familiares dos presos e desaparecidos insistem em contar 30 mil v\u00edtimas fatais.<\/p>\n<p>Assim como o primeiro, o \u00faltimo presidente argentino da ditadura tamb\u00e9m est\u00e1 preso \u2014 mas ainda vivo. O general de ex\u00e9rcito Reynaldo Bignone, 88 anos, que caiu com o regime em 1983, n\u00e3o teve a coragem do agente Furci e n\u00e3o quis ouvir pessoalmente na quinta-feira sua condena\u00e7\u00e3o a 20 anos de pris\u00e3o. N\u00e3o far\u00e1 muita diferen\u00e7a no pouco que lhe resta de vida: Bignone j\u00e1 tinha sido condenado a outros 25 anos de pris\u00e3o, em 2010, por 56 casos de pris\u00e3o ilegal, sequestro, roubo e torturas no complexo militar de Campo de Mayo, o maior quartel do pa\u00eds. Em 12 de mar\u00e7o de 2013, o general ganhou sua segunda pena de pris\u00e3o perp\u00e9tua. No dia seguinte, a mulher, Nilda, companheira de 60 anos, morreu fulminada por um ataque card\u00edaco.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o inconfi\u00e1vel dos torturadores e o tempo implac\u00e1vel do processo reduziram a bancada dos r\u00e9us. Quando o ju\u00edzo iniciou, tr\u00eas anos atr\u00e1s, os acusados eram 31. Restaram ainda vivos os 18 r\u00e9us condenados na semana passada. O mais idoso \u00e9 o general de divis\u00e3o Santiago Omar Riveros, com 92 anos, que recebeu a pena mais alta, como Furci: 25 anos de pris\u00e3o. J\u00e1 tinha duas penas perp\u00e9tuas: uma na Argentina e outra na It\u00e1lia, pelo desaparecimento de tr\u00eas cidad\u00e3os italianos em Buenos Aires. Riveros foi o primeiro general a reconhecer suas v\u00edtimas da ditadura: &#8220;N\u00e3o houve desaparecidos, apenas terroristas aniquilados no marco de uma guerra revolucion\u00e1ria e, por tanto, irregular&#8221;.<\/p>\n<p>Seu pior crime foi o comando de <em>El Campito,<\/em> o maior CCD (centro clandestino de deten\u00e7\u00e3o) entre os 380 campos montados no pa\u00eds pela repress\u00e3o, instalado dentro do principal quartel argentino, o de Campo de Mayo, em Buenos Aires.<br \/>\nAli passaram 5 mil presos, apenas 43 sobreviveram ao inferno de Riveros.<\/p>\n<p><strong>O leite que vaza<\/strong><\/p>\n<p>Ao hospital militar de <em>El Campito<\/em> eram levadas as presas gr\u00e1vidas, onde eram alojadas no pr\u00e9dio do Servi\u00e7o de Epidemiologia, sempre vigiadas por homens armados. Apesar da gravidez, as mulheres eram mantidas com algemas e capuz na cabe\u00e7a. Os partos, realizados por profissionais civis e militares no servi\u00e7o de Ginecologia e Obstetr\u00edcia, eram na sua maioria induzidos por cesarianas. Os nascidos eram logo separados e muitas m\u00e3es sequer sabiam o sexo de seus filhos. Os beb\u00eas permaneciam na \u00e1rea de Neonatologia at\u00e9 serem &#8216;presenteados&#8217; \u00e0s fam\u00edlias dos repressores e as m\u00e3es, de volta \u00e0 Epidemiologia, recebiam uma medica\u00e7\u00e3o para evitar a produ\u00e7\u00e3o de leite, j\u00e1 que n\u00e3o podiam amamentar seus filhos. As mulheres entravam no hospital como NN (<em>no nombradas<\/em>), onde eram atendidas por enfermeiras e monjas, e n\u00e3o deixavam registros, at\u00e9 retornar \u00e0 pris\u00e3o original, onde desapareciam para sempre. Um livro de nascimentos encontrado nos arquivos do hospital indica que, entre 1976 e 1978, no auge da &#8216;guerra suja&#8217; na Argentina, s\u00f3 em <em>El Campito <\/em>foram registrados 1.274 partos \u2014 352 deles sem qualquer hist\u00f3rico cl\u00ednico.<\/p>\n<p>Com a contribui\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica infernal de beb\u00eas roubados do general Riveros, a Argentina registra ainda hoje cerca de 500 beb\u00eas apropriados pela repress\u00e3o. Deles, at\u00e9 agora, apenas 199 foram identificados, recuperados e encaminhados aos av\u00f3s sobreviventes.<\/p>\n<p>Um dos casos mais simb\u00f3licos desse drama humano \u00e9 o do jovem uruguaio Sim\u00f3n Ant\u00f3nio Riquelo, desaparecido com a m\u00e3e, Sara M\u00e9ndez, na noite de 13 de julho de 1976, em Buenos Aires, onde a professora vivia exilada. Pelo padr\u00e3o paranoico da repress\u00e3o, o jovem era um perigoso comunista, apesar de seus tenros 22 dias de vida: Sim\u00f3n era um beb\u00ea, e foi arrebatado do peito da m\u00e3e pelo major de artilharia uruguaio Jos\u00e9 Nino Gavazzo, chefe de opera\u00e7\u00f5es do SID, o temido Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es de Defesa da ditadura de Montevid\u00e9u.<\/p>\n<p><em>\u2014 La guerra no es contra ni\u00f1os ! \u2014 <\/em>avisou o major a Sara, quando arrancou o beb\u00ea de seus bra\u00e7os. Gavazzo levou Sara para uma antiga oficina mec\u00e2nica no bairro portenho de Floresta, onde o SIDE do agente Furci, agora condenado, montou um centro binacional e clandestino de tortura que virou sin\u00f4nimo da Condor: a Automotores Orletti.<\/p>\n<p>Ali passaram mais de 300 presos, metade deles uruguaios. Poucos, como Sara, sobreviveram. Apartada do filho, Sara, encapuzada e algemada pelas costas, foi suspensa por um gancho como um peda\u00e7o de carne no a\u00e7ougue. Levou choques el\u00e9tricos, que ganhavam intensidade quando ela conseguia tocar o ch\u00e3o molhado com a ponta dos p\u00e9s. Em dado momento, um dos torturadores perguntou a Gavazzo porque o ch\u00e3o estava esbranqui\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Es leche! <\/em>\u2014 foi a resposta. Leite que vazava do seio de Sara, leite negado a Sim\u00f3n, expropriado por Gavazzo, usurpado pela Orletti, sequestrado pela Condor.<\/p>\n<p>Dez dias depois, Sara foi transferida clandestinamente a Montevid\u00e9u, junto com outros 23 uruguaios presos na capital argentina. O beb\u00ea desapareceu, embora aquela guerra n\u00e3o fosse contra ele. A for\u00e7ada m\u00e3e adotiva de Sim\u00f3n era prima-irm\u00e3 da mulher de um coronel uruguaio, Ant\u00f3nio Buratti, envolvido em sequestros e ex-chefe de Gavazzo. Sara perdeu o leite, mas n\u00e3o a esperan\u00e7a. Sobreviveu a cinco anos de pris\u00e3o e, em liberdade, procurou o filho roubado durante quase tr\u00eas d\u00e9cadas, at\u00e9 que o reencontrou em Buenos Aires em 2002.<\/p>\n<p>Sara j\u00e1 n\u00e3o vertia leite. Apenas l\u00e1grimas. De alegria.<\/p>\n<p><strong><img alt=\"http:\/\/s33.postimg.org\/wusfd81z3\/Condor3.jpg\" width=\"687\" height=\"344\" border=\"0\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>No rastro da Condor<\/strong><\/p>\n<p>O Sim\u00f3n de 26 anos foi localizado gra\u00e7as \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o de um jornalista e de um senador, ambos uruguaios.<\/p>\n<p>O jornalista Roger Rodr\u00edguez, 56 anos, \u00e9 o mais temido e destemido rep\u00f3rter do Uruguai, reconhecido e premiado internacionalmente pelo jornalismo contundente que faz sobre as ditaduras e crimes contra os direitos humanos no seu pa\u00eds e no Cone Sul. Detentor, entre outros, do pr\u00eamio Vladimir Herzog de 1984, concedido pelo Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo, e do pr\u00eamio Liberdade de Express\u00e3o Iberoamericana da Casa Am\u00e9rica Catalunha, de Barcelona, em 2011, Rodr\u00edguez \u00e9 uma figura singular do pa\u00eds: foi o \u00faltimo preso da longa ditadura (1973-1985) e o primeiro anistiado da democracia. No crep\u00fasculo do regime dos generais, foi processado pela Justi\u00e7a Militar por denunciar maus tratos \u00e0s presas pol\u00edticas da penitenci\u00e1ria de Punta de R\u00edeles e, condenado, passou 20 dias encarcerado pela ditadura moribunda, at\u00e9 ser anistiado pela democracia nascente.<\/p>\n<p>As mais not\u00e1veis reportagens sobre o regime militar no Uruguai levam a assinatura de Rodr\u00edguez, que em 2001 descobriu o <em>Segundo Vuelo<\/em>, o translado clandestino em avi\u00f5es da For\u00e7a A\u00e9rea de uruguaios presos e torturados pela Condor em Buenos Aires e desaparecidos em Montevid\u00e9u. Seu faro de sabujo e a obstina\u00e7\u00e3o de rep\u00f3rter puro-sangue permitiram que ele localizasse em 2002, na capital argentina, o jovem Sim\u00f3n Riquelo, devolvido 26 anos depois ao peito da m\u00e3e, Sara. Com a sabedoria que deve ser \u00fatil a todo rep\u00f3rter e essencial para os inertes ju\u00edzes brasileiros, Rodr\u00edgues ensina: &#8220;<em>Cuando se sabe la verdad, se exige la justicia. La verdad es, la historia puede ser<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>O senador que localizou Sim\u00f3n, Rafael Michelini, era igualmente uma vitima da Condor. Dois meses antes do sequestro de Sara e seu beb\u00ea, o tamb\u00e9m senador Zelmar Michelini, pai de Rafael e fundador da coaliz\u00e3o de esquerda Frente Ampla, foi sequestrado em maio de 1976 em Buenos Aires junto com H\u00e9ctor Guti\u00e9rrez Ruiz, ex-presidente da C\u00e2mara dos Deputados, ambos refugiados na capital argentina e odiados opositores da ditadura uruguaia. Foram os presos que inauguraram a cr\u00f4nica de horrores da Orletti. Os corpos dos dois foram encontrados tr\u00eas dias mais tarde, com marcas de tortura e tiros na cabe\u00e7a, no porta-malas de uma camionete, sob um viaduto a dez quil\u00f4metros da Casa Rosada, o pal\u00e1cio presidencial ocupado ent\u00e3o pela junta do general Videla, que dois meses antes derrubara Isabelita Per\u00f3n.<\/p>\n<p><strong>O poeta e a neta<\/strong><\/p>\n<p>Havia um \u00fanico estrangeiro entre os 18 condenados da Condor na semana passada. Era o coronel uruguaio Manuel Cordero Piacentini, 78 anos. Integrava a equipe de Gavazzo na central de torturas da Orletti e participou das opera\u00e7\u00f5es de sequestro e translado ilegais de uruguaios presos em Buenos Aires e levados para Montevid\u00e9u. Recebeu a maior pena, 25 anos de pris\u00e3o, como o agente Furci e o general Riveros.<\/p>\n<p>Cordero foi extraditado do Brasil para a Argentina em 2010, ap\u00f3s uma longa batalha judicial no Supremo Tribunal Federal, em Bras\u00edlia, enredado nas manhas da Lei da Anistia de 1979 que estende a impunidade aos torturadores. O relator do caso, ministro Marco Aur\u00e9lio, bradava que ningu\u00e9m podia ficar desaparecido por tanto tempo e, assim, os crimes imputados ao coronel estariam prescritos. O reaparecimento de Sim\u00f3n Riquelo desmontou a tese do ministro. O ministro C\u00e9sar Peluzo pediu vistas, reconheceu a tese do desaparecimento for\u00e7ado, o que justificava o crime continuado, e a extradi\u00e7\u00e3o acabou concedida por 6 votos a 2 em agosto de 2009. Assim, liberando Cordero para julgamento por crimes de lesa-humanidade na Condor, o STF adotou um ju\u00edzo curioso, que vale para a Argentina, mas n\u00e3o vale para o Brasil.<\/p>\n<p>Cordero n\u00e3o estava no tribunal para ouvir sua senten\u00e7a, por isso n\u00e3o cruzou com uma de suas v\u00edtimas, Macarena Gelman, 39 anos, que estava l\u00e1 como testemunha do caso. A m\u00e3e, Maria Cl\u00e1udia, e o pai, Marcelo, filho do renomado poeta argentino Juan Gelman (1930-2014), foram presos pela Condor e torturados na Orletti de Cordero. O casal foi transferido para Montevid\u00e9u e Maria Cl\u00e1udia, gr\u00e1vida, deu \u00e0 luz uma menina ainda na pris\u00e3o clandestina, em 1977. Os pais, mortos pela tortura, desapareceram na cova an\u00f4nima de um quartel uruguaio e o beb\u00ea foi criado por repressores. Com o sonho indom\u00e1vel de poeta, Juan Gelman buscou sem cessar sua neta e acabou encontrando Macarena s\u00f3 em 2000, quando ela tinha j\u00e1 23 anos, antecipando assim em dois anos o feliz reencontro de Sara e Sim\u00f3n.<\/p>\n<p><strong>Um her\u00f3i brasileiro<\/strong><\/p>\n<p>Cordero, o torturador uruguaio que levou \u00e0 morte os pais de Macarena, s\u00f3 estava sentado no banco dos r\u00e9us gra\u00e7as \u00e0 determina\u00e7\u00e3o de um brasileiro. Procurado pela justi\u00e7a uruguaia por crimes na ditadura, o coronel fugiu do pa\u00eds em julho de 2004. Passou por S\u00e3o Paulo, onde se submeteu a uma cirurgia, e desapareceu. Parecia esquecido por todos, menos por seu implac\u00e1vel perseguidor: o ativista brasileiro Jair Krischke, presidente do Movimento de Justi\u00e7a e Direitos Humanos (MJDH). Ainda forte e rijo aos 77 anos, dono de uma ondulada cabeleira branca imponente como sua voz grave, esse ga\u00facho de Porto Alegre tornou-se o mais respeitado especialista em Condor do pa\u00eds, gra\u00e7as \u00e0 sua incans\u00e1vel milit\u00e2ncia de mais de 40 anos.<\/p>\n<p>Krischke \u00e9 um improv\u00e1vel her\u00f3i brasileiro, mais conhecido e reconhecido fora do que dentro do Brasil por abra\u00e7ar uma causa que o Pa\u00eds ainda trata com desleixo e desd\u00e9m: os direitos humanos e os crimes de lesa-humanidade das ditaduras no Cone Sul, temas que o tornam presen\u00e7a indispens\u00e1vel em semin\u00e1rios e encontros de especialistas em Buenos Aires, Santiago, Montevid\u00e9u, e outras capitais angustiadas pelo drama da Opera\u00e7\u00e3o Condor. Sua ONG, instalada numa sala apertada do nono andar de um edif\u00edcio na avenida Borges de Medeiros, no cora\u00e7\u00e3o da capital ga\u00facha, sobrevive com a contribui\u00e7\u00e3o mensal de seus poucos militantes. Pelo estatuto, o MJDH n\u00e3o pode receber verbas p\u00fablicas. &#8220;Somos pobres, mas limpinhos&#8221;, brinca Krischke. Apesar disso, tem o mais relevante arquivo sobre a Condor no Brasil, aberto permanentemente a jornalistas e pesquisadores, em sua maioria do exterior.<\/p>\n<p>A autoridade moral de Krischke n\u00e3o depende dos documentos secretos que armazena, mas da hist\u00f3ria de coragem e luta que o caracteriza. Nos anos mais duros da repress\u00e3o nos anos 1970, refugiados de pa\u00edses vizinhos s\u00f3 tinham nele a m\u00e3o amiga para sobreviver. Fugiam de seus algozes no Uruguai, Argentina, Chile ou Paraguai para buscar a liberdade na Europa. A escala obrigat\u00f3ria era Porto Alegre. Krischke fazia os contatos, arranjos burocr\u00e1ticos e translados para o Rio de Janeiro, muitos escoltados pessoalmente por ele para o escrit\u00f3rio carioca do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) que providenciava o salvo-conduto para quem recebia asilo de na\u00e7\u00f5es europeias. Cerca de 2.000 pessoas escaparam da morte e ganharam a liberdade gra\u00e7as \u00e0s m\u00e3os solid\u00e1rias de Krischke.<\/p>\n<p>Em certo sentido, ele \u00e9 uma inusitada mescla brasileira de Schindler, o salvador, e Wiesenthal, o ca\u00e7ador.<\/p>\n<p>O industrial alem\u00e3o Oskar Schindler (1908-1974) foi espi\u00e3o da Abwehr, o servi\u00e7o secreto do Ex\u00e9rcito de Hitler, e membro do Partido Nazista. Essas conex\u00f5es permitiram que ele livrasse 1.200 judeus das c\u00e2maras de g\u00e1s ao empreg\u00e1-los em suas f\u00e1bricas de esmalte e muni\u00e7\u00e3o na Pol\u00f4nia e Rep\u00fablica Checa. A artimanha salvadora transformou-se em uma hist\u00f3ria de dignidade em meio ao horror da II Guerra Mundial popularizada no filme <em>A lista de Schindler<\/em>, de Steven Spielberg. Ganhou de Israel o t\u00edtulo de &#8216;Justo entre as Na\u00e7\u00f5es&#8217;, concedido a gentios que arriscaram suas vidas para salvar judeus do Holocausto. \u00c9 o \u00fanico membro do Partido Nazista honrado com uma sepultura em Jerusal\u00e9m, capital israelense.<\/p>\n<p>O arquiteto austr\u00edaco Simon Wiesenthal (1908-2005), embora nascido no mesmo ano de Schindler, estava do outro lado. Passou por cinco campos de concentra\u00e7\u00e3o, onde morreram 89 pessoas de sua fam\u00edlia, e tentou o suic\u00eddio cortando os pulsos para escapar do trabalho escravo. Era um dos 85 mil sobreviventes judeus do campo de Mauthausen, na \u00c1ustria, onde os nazistas mataram 300 mil pessoas por exaust\u00e3o. Dali, o \u00faltimo campo liberado pelos Aliados, em maio de 1945, Wiesenthal saiu aos 37 anos pesando apenas 41 kg para emergir no p\u00f3s-guerra como o mais importante ca\u00e7ador de nazistas do mundo. Recolheu seu caderno de anota\u00e7\u00f5es, com os nomes de oficiais e soldados que conheceu no cativeiro, e auxiliou o Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos a montar os processos do ju\u00edzo nazista em Nuremberg. Mais de 1.100 criminosos foram identificados, localizados e presos com a ajuda de suas informa\u00e7\u00f5es \u2014 incluindo Adolf Eichmann, o executor-chefe do III Reich, e Franz Stangl, comandante do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Treblinka, preso no Brasil em 1967.<\/p>\n<p><strong>A burocracia denuncia <\/strong><\/p>\n<p>O lado ca\u00e7ador de Krischke, ao melhor estilo Wiesenthal, aflorou na persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel e solit\u00e1ria que fez ao coronel uruguaio da Condor. Fugitivo da justi\u00e7a de Montevid\u00e9u, Cordero havia se escondido em Santana do Livramento, cidade ga\u00facha na fronteira, separada da uruguaia Rivera por uma \u00fanica avenida. Com faro de rep\u00f3rter e rigor espartano, Krischke procurou descobrir a fonte de renda que sustentava o coronel na clandestinidade brasileira. Soube que, para receber regularmente sua aposentadoria como militar retirado, Cordero precisava firmar mensalmente um documento chamado &#8216;certificado de vida&#8217;. Com este fio de meada, o Wiesenthal ga\u00facho chegou no in\u00edcio de 2005 ao endere\u00e7o de uma casa discreta no n\u00famero 1.007 da rua Uruguai, na cidade de Livramento, o esconderijo de Cordero no Brasil. Horas depois, em Porto Alegre, Krischke repassou oficialmente a informa\u00e7\u00e3o ao c\u00f4nsul da Argentina, onde o juiz Guillermo Montenegro comandava uma ca\u00e7ada internacional ao coronel denunciado na Causa Condor.<\/p>\n<p>Escorregadio, Cordero desapareceu outra vez e sumiu por dois anos. At\u00e9 que reapareceu, distra\u00eddo, no consulado uruguaio de Livramento, \u00e0s 12h40 de uma quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007. Estava l\u00e1 para firmar o &#8216;certificado de vida&#8217; que daria \u00e0 filha, em Montevid\u00e9u, o direito de receber sua aposentadoria. Duas horas depois, Krischke recebeu essa informa\u00e7\u00e3o crucial da pr\u00f3pria vice-chanceler do Uruguai, Belela Herrera, que telefonava da capital uruguaia pedindo sua ajuda. Na manh\u00e3 seguinte, sexta, Krischke acionou a Interpol em Bras\u00edlia. \u00c0 tarde, instru\u00eddo por ele, o c\u00f4nsul em Livramento despistou o advogado de Cordero, que cobrava o certificado, adiando mais algumas horas a entrega do documento. Na tarde de segunda-feira, 26, desavisado, o coronel foi \u00e0 delegacia fronteiri\u00e7a da Pol\u00edcia Federal para supostamente assinar o seu pedido formal de ref\u00fagio no Brasil, quando recebeu voz de pris\u00e3o, informado ali que o STF tinha aprovado, tr\u00eas dias antes, sua extradi\u00e7\u00e3o para a Argentina. O dia terminava, \u00e0s 20h30, quando a vice-chanceler Belela ligou emocionada, de Montevid\u00e9u, para agradecer ao Wiesenthal brasileiro. Ap\u00f3s muitos recursos junto ao STF, Cordero foi afinal extraditado para a Argentina, em janeiro de 2010, at\u00e9 acabar na in\u00e9dita bancada de r\u00e9us de Buenos Aires.<\/p>\n<p><strong>O vexame verde-amarelo<\/strong><\/p>\n<p>A gang de carrascos nazistas da Condor s\u00f3 caiu nas garras da justi\u00e7a gra\u00e7as a um portentoso esfor\u00e7o de investiga\u00e7\u00e3o, multinacional como a organiza\u00e7\u00e3o terrorista que estava julgando. Do Paraguai, vieram 4 milh\u00f5es de fotogramas do &#8216;Arquivo do Terror&#8217; descoberto ap\u00f3s a queda da ditadura de Stroessner. Dos Estados Unidos, vieram milhares de registros desclassificados do Departamento de Estado, mostrando o papel da CIA e do FBI na sustenta\u00e7\u00e3o das ditaduras de Pinochet e Videla. Do Chile, chegaram os informes da Vicaria de Solidariedade de Santiago. Do Brasil, vieram pap\u00e9is da Comiss\u00e3o da Verdade. Da pr\u00f3pria Argentina, brotaram 90 dossi\u00eas das For\u00e7as Armadas e 72 relat\u00f3rios de \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a interna da ditadura dos generais.<\/p>\n<p>O papel dos Estados Unidos na sustenta\u00e7\u00e3o e apoio \u00e0s ditaduras da regi\u00e3o ficou comprovado pela remessa de Washington \u00e0 Causa Condor de 48 mil documentos sobre a repress\u00e3o no Chile (1973-1990) e sobre a &#8216;guerra suja&#8217; na Argentina (1976-1983). \u00c9 uma humilhante compara\u00e7\u00e3o com os parcos arquivos cedidos pelo Governo americano ao brasileiro. O Itamaraty repassou \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade m\u00edseros 68 documentos do Departamento de Estado, produzidos no per\u00edodo entre 1967 e 1977, que abrange apenas tr\u00eas dos cinco generais da ditadura (Costa e Silva, M\u00e9dici e Geisel). Considerando que a ditadura brasileira durou tr\u00eas vezes mais (21 anos contra sete), o Brasil recebeu um arquivo quase 60 vezes menor do que a Argentina. A compara\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais deprimente com o Chile, uma ditadura de 17 anos, mais breve que a brasileira, que recebeu 44 mil documentos de Washington, uma quantidade 650 vezes maior do que remetida a Bras\u00edlia. Essa rela\u00e7\u00e3o desproporcional ficar\u00e1 ainda mais vergonhosa, para o Brasil, ap\u00f3s a solene declara\u00e7\u00e3o de Barack Obama, tr\u00eas meses atr\u00e1s, de que vai liberar a Buenos Aires mais documentos desclassificados dos arquivos militares e de intelig\u00eancia, como parte da &#8220;responsabilidade moral&#8221; que os Estados Unidos t\u00eam para com a Argentina.<\/p>\n<p>Obama fez a promessa em Buenos Aires, diante do presidente, Maur\u00edcio Macri, com quem se encontrou em 23 de mar\u00e7o passado, v\u00e9spera dos 40 anos do golpe de 1976 do general Videla. A coincid\u00eancia da data enfureceu as entidades ligadas \u00e0s fam\u00edlias das v\u00edtimas, mas a visita de Obama ao Parque de La Mem\u00f3ria teve um forte significado de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Ali, o presidente americano reconheceu as &#8220;verdades inc\u00f4modas&#8221; e a &#8220;d\u00edvida com o passado&#8221; pelo apoio dos Estados Unidos \u00e0 ditadura na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p><strong>A pressa assassina<\/strong><\/p>\n<p>Diante das quatro paredes de concreto com os nomes, por ordem alfab\u00e9tica, de 10.700 homens, mulheres e beb\u00eas mortos ou desaparecidos pelo terror de Estado, Obama declarou-se emocionado por estar no parque: &#8220;Este \u00e9 um tributo \u00e0 mem\u00f3ria, mas tamb\u00e9m uma homenagem \u00e0 valentia e \u00e0 perseveran\u00e7a dos que recordam e se recusam a abandonar seus esfor\u00e7os na busca da verdade e da justi\u00e7a. Que se cumpra a promessa de <em>Nunca M\u00e1s<\/em>&#8220;, disse ele, fazendo uma men\u00e7\u00e3o \u00e0s Av\u00f3s da Plaza de Mayo, que se fizeram ostensivamente ausentes do ato, como forma de protesto. Obama teve o cuidado de n\u00e3o mencionar a Opera\u00e7\u00e3o Condor.<\/p>\n<p>Nenhuma mesura de Obama \u00e0s v\u00edtimas poder\u00e1 apagar, na verdade, as digitais americanas na mortandade desatada pelos generais da Argentina com a indulg\u00eancia e o apoio dos Estados Unidos, sob os governos Nixon (1969-74) e Ford (1974-77), quando a pol\u00edtica externa de Washington tinha a inspira\u00e7\u00e3o sat\u00e2nica de um radical anticomunista, Henry Kissinger. Em 10 de junho de 1976, apenas dois meses e meio ap\u00f3s o golpe de Videla, o chanceler e almirante C\u00e9sar Guzzetti teve um encontro em Santiago do Chile com Kissinger, j\u00e1 secret\u00e1rio de Estado de Nixon.<\/p>\n<p>O almirante entrou de coturno na conversa: &#8220;Nosso principal problema na Argentina \u00e9 o terrorismo&#8221;, reclamou. O chanceler estadunidense sacou r\u00e1pido, dando sem muxoxo o sinal verde para o terror de Estado, disfar\u00e7ado numa frase de perf\u00eddia diplom\u00e1tica que, com a mesma efic\u00e1cia do biqu\u00edni, ocultava o essencial sem deixar de mostrar tudo: &#8220;Se existem coisas a fazer, devem faz\u00ea-las r\u00e1pido&#8221;, ensinou Kissinger, finalizando com um conselho digno de seu estilo c\u00ednico: &#8220;Mas, deveriam voltar logo que poss\u00edvel aos procedimentos normais&#8221;. Como se sabe, nem Videla e seus generais voltaram logo \u00e0 normalidade democr\u00e1tica, nem Kissinger reclamou da viol\u00eancia prolongada \u2014 nem mesmo quando a Condor criou asas e decolou sob a indulg\u00eancia plen\u00e1ria e os bons ventos soprados por Washington.<\/p>\n<p><strong>O garoto das \u00e1guas<\/strong><\/p>\n<p>Como \u00e9 praxe nas visitas presidenciais, Macri e Obama foram at\u00e9 a murada do parque para jogar flores nas \u00e1guas geladas e barrentas do rio da Prata, transformado pela ditadura em dep\u00f3sito clandestino de presos que ali eram jogados, muitos deles ainda vivos. Um dos mais jovens era uma crian\u00e7a de 14 anos, um jovem magro de cabelos morenos cobrindo as orelhas, chamado Pablo Miguez. Foi preso com a m\u00e3e, membro do grupo guerrilheiro ERP, por um grupo armado do Ex\u00e9rcito que invadiu sua casa no bairro de Avellaneda em 12 de maio de 1977. Foi torturado com choques el\u00e9tricos diante da m\u00e3e no centro clandestino <em>El Vesubio<\/em> e depois levado para a Escola de Mec\u00e2nica da Armada, a not\u00f3ria ESMA, centro de torturas onde sobreviveram apenas 100 dos 4 mil presos que passaram por l\u00e1 \u2014 entre eles n\u00e3o estava Pablo. A jornalista Lila Pastoriza, que saiu viva da ESMA, ficou um m\u00eas e meio ao lado de Pablo, que n\u00e3o era interrogado por ningu\u00e9m. &#8220;Veja a que nos dedicamos agora&#8221;, comentou um carcereiro da ESMA, zombando da pouca idade do preso. &#8220;Um dia, um dos guardas o pegou pela m\u00e3o e nunca mais soube dele&#8221;, contou a jornalista no tribunal.<\/p>\n<p>A imagem de Pablo ficou flutuando para sempre na consci\u00eancia nacional e nas \u00e1guas do Prata, onde ele parece caminhar na impactante est\u00e1tua em a\u00e7o polido da artista pl\u00e1stica Cl\u00e1udia Fontes, que esculpiu no Parque de La Mem\u00f3ria a figura de um garoto, com as m\u00e3os para tr\u00e1s, olhando o horizonte sem fim do grande rio onde se afogaram tantas vidas e esperan\u00e7as. A obra est\u00e1 colocada de costa para a praia, a uns 50 metros da murada que recebeu Obama e Macri, e produz um forte efeito emocional em quem a v\u00ea. A dois quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia est\u00e1 a ESMA, onde um dia Pablo viveu os \u00faltimos momentos de sua curta vida. Uma coisa r\u00e1pida, como pedia Kissinger aos generais.<\/p>\n<p>Pablo come\u00e7ou a morrer quando recebeu uma inje\u00e7\u00e3o anest\u00e9sica que o deixou grogue, sonolento. Homens da Marinha, sem uniforme, descaracterizados com t\u00eanis, jeans e camiseta, o levaram para o Aeroparque, aeroporto dom\u00e9stico a apenas 4 km da ESMA, e o embarcaram num Skyvan, um bimotor turbo\u00e9lice irland\u00eas conhecido como &#8216;caixa de sapatos voadora&#8217;. Transportava 19 passageiros, era curto, bojudo e muito apreciado pela rampa traseira que facilitava a descarga de mercadoria. A ditadura argentina achou uma boa finalidade nesse avi\u00e3o para descartar suas &#8216;mercadorias&#8217; humanas: decolava com sua carga de presos do Aeroparque at\u00e9 a altitude de 6 mil metros, a 300 km por hora, e de l\u00e1 jogava sua carga no Prata. Antes de virar est\u00e1tua, Pablo desapareceu assim, da mesma forma que outras 4.400 pessoas despejadas por ordem direta do almirante Em\u00edlio Massera, o nome mais sanguin\u00e1rio da junta militar.<\/p>\n<p><strong>A entrevista errada <\/strong><\/p>\n<p>V\u00e1rios corpos teimaram em reaparecer, a partir de maio de 1976, nas praias argentinas e uruguaias do Prata. Os restos com marcas de torturas localizados 300 km ao sul de Buenos Aires foram rapidamente sepultados como NN (<em>no nombrados)<\/em> no cemit\u00e9rio de General Lavalle, uma localidade rural \u00e0s margens do rio, com pouco mais de 3 mil habitantes. Aut\u00f3psias posteriores identificaram entre eles tr\u00eas fundadoras do grupo das M\u00e3es da Plaza de Mayo \u2014 Esther Ballestrino, Maria Eugenia Ponce de Blanco e Azuzena Villaflor.<\/p>\n<p>Os corpos que ressurgiam nas praias distante do cabo Pol\u00f4nio \u2014 j\u00e1 na costa uruguaia do Atl\u00e2ntico, 260 km acima de Montevid\u00e9u \u2014 de certa forma voltavam para casa. Eram uruguaios exilados na Argentina, sequestrados pela Condor, torturados na Automotores Orletti do agente Furci e do coronel Cordero e arrojados das alturas no Prata. Deveriam desaparecer, mas ressurgiam teimosamente nas manchetes dos jornais, todos censurados, que se limitavam a informar sobre os achados macabros, sem avan\u00e7ar nos motivos e identidade dos assassinos. Apesar disso, todos sabiam ou imaginavam do que se tratava. Os detalhes s\u00f3 foram conhecidos uma d\u00e9cada depois, em 1995, quando o capit\u00e3o de corveta Adolfo Scilingo, hoje com 69 anos, contou ao jornalista Hor\u00e1cio Verbitsky a verdade sobre os <em>vuelos de la muerte<\/em>, que ele coordenou como integrante da ESMA. O depoimento virou um livro, <em>El Vuelo, <\/em>e o sucesso garantiu ao capit\u00e3o um convite da TV estatal da Espanha para uma entrevista bomb\u00e1stica.<\/p>\n<p>Quando desembarcou em Madrid, em outubro de 1997, em vez do festejado apresentador da TVE Carlos Herrera, o capit\u00e3o da ESMA foi desviado do est\u00fadio para ser entrevistado num tribunal por outro espanhol: o juiz Baltazar Garz\u00f3n, que ganharia renome mundial um ano mais tarde ao determinar a pris\u00e3o do general Pinochet pelos crimes da Condor. Scilingo confirmou ao juiz os pormenores dos voos assassinos e nunca mais retornou \u00e0 Argentina. Pelos crimes de lesa humanidade, a morte de 30 pessoas e a deten\u00e7\u00e3o ilegal e torturas em outras 256, o capit\u00e3o foi condenado pela Suprema Corte espanhola a 1.084 anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia da Opera\u00e7\u00e3o Condor, enfim julgada e condenada em Buenos Aires, mostra que Argentina e Brasil, agora, mostram uma inesperada converg\u00eancia \u2014 para pior, no plano sens\u00edvel dos direitos humanos.<\/p>\n<p>O Brasil tem fracassado miseravelmente no seu acerto de contas com o passado. Enquanto os pa\u00edses mais importantes da regi\u00e3o instalavam suas Comiss\u00f5es da Verdade no mesmo ano em que ca\u00edam suas ditaduras (Argentina em 1983, Uruguai em 1985 e Chile em 1990), o Brasil da eterna concilia\u00e7\u00e3o viu o \u00faltimo general deixar o Pal\u00e1cio do Planalto em 1985 e ainda esperou longos, insuport\u00e1veis 27 anos para implantar sua comiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Cinco presidentes civis \u2014 Jos\u00e9 Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva \u2014 passaram omissos diante do tema, que s\u00f3 foi atacado em 2012 no governo de Dilma Rousseff, o \u00fanico governante entre eles que carregava a condi\u00e7\u00e3o de ex-guerrilheira, presa pol\u00edtica e torturada na ditadura. Dilma teve o m\u00e9rito de instalar a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), mas o dem\u00e9rito de n\u00e3o defend\u00ea-la contra a persistente sabotagem dos comandos militares, que ao longo de seu governo mostraram desd\u00e9m, desaten\u00e7\u00e3o e clara hostilidade aos trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os generais ignoraram ostensivamente os fatos, nomes e datas de centros de torturas e mortes comprovadas em um minucioso requerimento que a CNV apresentou aos comandantes do Ex\u00e9rcito, Marinha e Aeron\u00e1utica. Na resposta evasiva, desleixada, que deram ao requerimento, os generais chegaram ao requinte de ignorar at\u00e9 as torturas de 22 dias a que submeteram a guerrilheira Dilma Rousseff, em 1970, no mais afamado centro de viol\u00eancias do Ex\u00e9rcito, o DOI-CODI da rua Tutoia, administrada pelo II Ex\u00e9rcito (atual Comando Militar do Sudeste), em S\u00e3o Paulo. Apesar do deboche expl\u00edcito, nem o passivo ministro da Defesa, Celso Amorim, nem a torturada Dilma Rousseff \u2014 a comandante suprema das For\u00e7as Armadas \u2014 fizeram valer a sua autoridade. Engoliram a afronta em seco. A c\u00ednica ditadura brasileira fingiu, sempre, que n\u00e3o participou da funda\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Condor em Santiago do Chile, em novembro de 1975.<\/p>\n<p>O coronel chileno Manuel Contreras, chefe da temida DINA de Pinochet, queria um encontro da c\u00fapula da repress\u00e3o regional em seu pa\u00eds. Mandou o vice-chefe da DINA, o coronel da For\u00e7a A\u00e9rea M\u00e1rio Jahn, percorrer as capitais do Cone Sul para entregar o convite em m\u00e3os. Quase 30 anos depois, quando dep\u00f4s ao juiz Juan Guzm\u00e1n, o primeiro do Chile que ousou processar o intoc\u00e1vel Pinochet, o coronel Jahn n\u00e3o lembrava onde e a quem entregou os convites. S\u00f3 lembrou de um destinat\u00e1rio: &#8220;<em>Jo\u00e3o Batista Figueiredo, persona que conoc\u00eda de un viaje anterior que hice a Brasil<\/em>&#8220;. Figueiredo, ent\u00e3o chefe do SNI, s\u00f3 n\u00e3o decolou de Bras\u00edlia porque foi contido pelo presidente Ernesto Geisel, que n\u00e3o queria dar tanto prest\u00edgio a Pinochet. Ele ordenou que outros fossem no lugar de Figueiredo.<\/p>\n<p>Os 44 mil documentos do Departamento de Estado que poderiam esclarecer o assunto nunca informaram quais eram os brasileiros. Intrigado com essa lacuna, investiguei durante dois anos, nas entranhas da ditadura, para concluir meu livro sobre a Opera\u00e7\u00e3o Condor (*), lan\u00e7ado em 2008. Ent\u00e3o, revelei os nomes dos dois brasileiros autorizados por Geisel e indicados por Figueiredo para representar o Brasil no encontro: o coronel Fl\u00e1vio de Marco e o major Thaumaturgo Sotero Vaz, ambos do Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE) e veteranos do combate \u00e0 guerrilha do Araguaia. A dupla viajou com uma ordem estrita de Geisel: participar apenas como observadores, sem autoriza\u00e7\u00e3o para assinar a ata de funda\u00e7\u00e3o da Condor. Eles foram, viram, ouviram, falaram e participaram, fingindo que n\u00e3o estavam ali. O Brasil saiu \u00e0 francesa do evento hist\u00f3rico da Condor.<\/p>\n<p>O coronel De Marco morreu de infarto aos 52 anos, em 1984, quando exercia o cargo de diretor-administrativo do Pal\u00e1cio do Planalto no Governo Figueiredo. O major Thaumaturgo, hoje general da reserva, sobreviveu a tudo e trabalhava em 2012 como assessor parlamentar do Comando Militar da Amaz\u00f4nia (CMA). Conforme a p\u00e1gina 223 do Cap\u00edtulo 6 do relat\u00f3rio final da CNV, dedicado \u00e0s &#8216;Conex\u00f5es Internacionais: a alian\u00e7a repressiva no Cone Sul e a Opera\u00e7\u00e3o Condor&#8217;, o general Thaumatugo alegou raz\u00f5es de sa\u00fade e recusou duas convoca\u00e7\u00f5es da CNV para cumprir seu dever para com a P\u00e1tria e revelar o que sabe na condi\u00e7\u00e3o de testemunha ocular da hist\u00f3ria da Condor.<\/p>\n<p>Nem o comandante do Ex\u00e9rcito, nem o ministro da Defesa, nem a presidente Dilma mostraram qualquer contrariedade com a falta de colabora\u00e7\u00e3o do general que viu a serpente sair do ovo. E engoliram em seco o desaforo. A CNV fez a sua parte e a presidente guerrilheira, n\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira das 29 medidas propostas pela CNV em seu relat\u00f3rio final pede o reconhecimento, pelas For\u00e7as Armadas, de sua responsabilidade nas torturas e viol\u00eancias cometidas durante o regime de arb\u00edtrio \u2014 uma impossibilidade pr\u00e1tica enquanto prevalecer a in\u00e9rcia dos comandantes militares e a apatia dos presidentes civis. A segunda recomenda\u00e7\u00e3o da CNV, que se imp\u00f5e como dever hist\u00f3rico e exig\u00eancia de cortes internacionais, \u00e9 a revoga\u00e7\u00e3o da Lei de Anistia que a ditadura desenhou com esmero, em agosto de 1979, para beneficiar os seus torturadores com o privil\u00e9gio da impunidade.<\/p>\n<p>Ao Executivo inerte se somou a omiss\u00e3o cr\u00f4nica do Legislativo. Num Parlamento brasileiro com 513 deputados e 81 senadores, existem apenas duas propostas para revisar esta obscena &#8216;lei de autoanistia&#8217; que os militares fizeram aprovar por apenas cinco votos (206 a 201) num Congresso emasculado pelos atos institucionais \u2014 tudo para garantir \u00e0 for\u00e7a a hegemonia na C\u00e2mara dos Deputados do partido da ditadura, a ARENA (221 cadeiras), sobre a frente de oposi\u00e7\u00f5es abrigada no MDB (186). Um projeto da deputada Luiza Erundina (ent\u00e3o PSB-SP) e outro do senador Randolfe Rodrigues (hoje REDE-AP), ambos pedindo a revis\u00e3o da Anistia de 1979 para permitir a puni\u00e7\u00e3o aos torturadores, s\u00e3o as \u00fanicas manifesta\u00e7\u00f5es parlamentares que confirmam a omiss\u00e3o e o desinteresse de um Congresso conservador, desatento \u00e0 Hist\u00f3ria e aos seus compromissos \u00e9ticos para com a verdade.<\/p>\n<p>Nenhum avan\u00e7o pela puni\u00e7\u00e3o aconteceu no governo da ex-guerrilheira Dilma, nada certamente acontecer\u00e1 no retr\u00f3grado governo interino de seu sucessor. O regressista Michel Temer mostrou em apenas tr\u00eas semanas de poder trepidante um dos mais desastrados in\u00edcios de administra\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da Rep\u00fablica, gra\u00e7as a uma not\u00e1vel equipe de n\u00edtido conte\u00fado conservador, claras convic\u00e7\u00f5es de retrocesso, forte \u00edndole reacion\u00e1ria e controversa integridade na sens\u00edvel \u00e1rea da moralidade p\u00fablica. Temer n\u00e3o lembrou de nenhuma &#8216;representante do mundo feminino&#8221; para integrar seu minist\u00e9rio num pa\u00eds onde 103 milh\u00f5es (51,4%) da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o mulheres. Descobriu para a rebaixada Secretaria das Mulheres uma crente evang\u00e9lica que \u00e9 contra o aborto at\u00e9 mesmo em casos de estupro, contrariando o que diz a lei. Retirou o status de minist\u00e9rio da Secretaria de Direitos Humanos e, pior, ressuscitou o Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional (GSI), disfar\u00e7ado como Secretaria.<\/p>\n<p>O general quatro estrelas, S\u00e9rgio Etchegoyen, 64 anos, \u00e9 um militar de fortes liga\u00e7\u00f5es familiares com a linha dura de duas ditaduras. Foi assessor especial do ministro Nelson Jobim no Governo Lula e chefe do Estado Maior do Ex\u00e9rcito (EME) no Governo Dilma O av\u00f4 de Etchegoyen, Alcides, foi chefe de pol\u00edcia do Estado Novo (1937-45) do ditador Vargas, substituindo o not\u00f3rio Filinto Muller. O pai, L\u00e9o, era major e chefe da pol\u00edcia ga\u00facha em Porto Alegre, logo ap\u00f3s o golpe de 1964, quando recebeu com estilo o agente americano Dan Mitrione. Em junho, ele posou para fotos na escadaria do Pal\u00e1cio da Pol\u00edcia com o ilustre visitante, especialista em torturas que dava seu know-how \u00e0 repress\u00e3o no Rio, como respons\u00e1vel no Brasil do <em>Office Public Safety<\/em> (OPS), bra\u00e7o da CIA que atuava na Am\u00e9rica Latina sob a fachada da USAID. Mitrione foi transferido em 1969 para o Uruguai, para disseminar suas habilidades. L\u00e1 foi sequestrado pelos Tupamaros e executado na pris\u00e3o da guerrilha em 1970.<\/p>\n<p>Em 1979, j\u00e1 general em S\u00e3o Paulo, Leo Etchegoyen era chefe do Estado-Maior do II Ex\u00e9rcito e, como tal, respons\u00e1vel direto pelo DOI-CODI, o centro de supl\u00edcios onde atuou o coronel Brilhante Ustra, o torturador festejado pelo deputado Jair Bolsonaro no seu pol\u00eamico voto na sess\u00e3o da C\u00e2mara que admitiu o processo de impeachment que afastou Dilma Rousseff provisoriamente do Planalto. Um tio, Cyro Etchegoyen, foi apontado pelo coronel Paulo Malh\u00e3es em depoimento \u00e0 CNV como a autoridade respons\u00e1vel pela &#8216;Casa da Morte&#8217;, centro clandestino de tortura e morte montado pelo DOI-CODI do I Ex\u00e9rcito na cidade serrana de Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>O general S\u00e9rgio n\u00e3o falou do tio, mas se incomodou pelo pai, citado no relat\u00f3rio final da CNV de dezembro de 2014 como um dos 377 agentes do Estado brasileiro respons\u00e1veis por crimes na ditadura. Na condi\u00e7\u00e3o de \u00fanico general da ativa a confrontar publicamente a CNV, ele a acusou de &#8216;leviana&#8217; em nota oficial. &#8220;No seu pat\u00e9tico esfor\u00e7o para reescrever a hist\u00f3ria, a CNV apontou um culpado para um crime que n\u00e3o identifica&#8221;, protestou o general, em nome da m\u00e3e e quatro irm\u00e3os. Levou de volta no mesmo dia uma dura resposta da CNV, que lembrou fatos que o general Etchegoyen esquecia sobre o pai. Al\u00e9m da acolhida ao torturador Mitrione, que o general n\u00e3o lembrou, a CNV cita que L\u00e9o, em 28 de dezembro de 1979, &#8220;na qualidade de chefe do Estado-Maior e supervisor das atividades do DOI-CODI, fez calorosos elogios aos servi\u00e7os prestados pelo tenente-coronel Dalmo L\u00facio Muniz Cyrilo, chefe do DOI-CODI\/II Ex\u00e9rcito&#8221;. Para refrescar a mem\u00f3ria do Etchegoyen filho, a CNV lembrou que Cyrillo atuou &#8220;como chefe de equipes de interrogat\u00f3rio do DOI-CODI, tendo desempenhado a fun\u00e7\u00e3o de subcomandante nos per\u00edodos de Brilhante Ustra e Audir Santos Maciel&#8221; \u2014 os dois coron\u00e9is, por sinal, citados na lista dos 377 agentes da ditadura, ao lado do tio e do pai do general Etchegoyen.<\/p>\n<p>A CNV pisou mais fundo, relembrando na sua resposta: &#8220;Em 1980, quando L\u00e9o Etchegoyen era chefe do EM do II Ex\u00e9rcito, seu comando esteve vinculado ao planejamento da pris\u00e3o coletiva de sindicalistas e lideran\u00e7as dos metal\u00fargicos da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo conhecida como ABCD, bem como do sequestro de integrantes de organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos que prestavam solidariedade a esses trabalhadores, como os advogados Jos\u00e9 Carlos Dias \u2014 ent\u00e3o presidente da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz (CJP) da Arquidiocese de S\u00e3o Paulo \u2014 e Dalmo Dallari \u2014 ex-presidente da CJP\u2014, pris\u00f5es efetuadas com viol\u00eancia, sem mandado de pris\u00e3o e sem a devida comunica\u00e7\u00e3o \u00e0s suas fam\u00edlias&#8221;. O general n\u00e3o rebateu a nota da CNV.<\/p>\n<p>Apesar desses antecedentes, ou por causa deles, o general S\u00e9rgio Etchegoyen \u00e9 um dos not\u00e1veis do novo governo, indicado pelo presidente interino para assumir a Secretaria de Seguran\u00e7a Institucional.<\/p>\n<p>Assim, enquanto a Argentina faz hist\u00f3ria na in\u00e9dita condena\u00e7\u00e3o dos criminosos da Condor, o Brasil marca passo e retrocede. Depois de cinco generais-presidentes responsabilizados pela viol\u00eancia da ditadura, Bras\u00edlia abrigou, em sequ\u00eancia, seis presidentes civis omissos diante da impunidade dos torturadores. E chega ao fundo do po\u00e7o, agora, com o inesperado e exasperante Governo Temer.<\/p>\n<p>Que vergonha, Brasil!<\/p>\n<p>*Luiz Cl\u00e1udio Cunha, jornalista, \u00e9 autor de Opera\u00e7\u00e3o<br \/>\nCondor: o Sequestro dos Uruguaios (ed. LP&amp;M, 2008)<\/p>\n<p>http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/Operacao-Condor-condenada-Historia-na-Argentina-vergonha-no-Brasil\/4\/36266<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Enquanto a Argentina faz hist\u00f3ria na in\u00e9dita condena\u00e7\u00e3o dos criminosos da Condor, o Brasil marca passo e retrocede ainda mais no governo Temer. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11346\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-11346","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c68-argentina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2X0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11346\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}