{"id":11351,"date":"2016-06-15T00:17:14","date_gmt":"2016-06-15T03:17:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11351"},"modified":"2016-06-30T16:04:35","modified_gmt":"2016-06-30T19:04:35","slug":"o-futuro-da-usurpacao-e-as-alternativas-impensaveis-o-trabalho-do-vento-e-a-necessidade-da-tempestade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11351","title":{"rendered":"O futuro da usurpa\u00e7\u00e3o e as alternativas impens\u00e1veis: o trabalho do vento e a necessidade da tempestade"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2016\/06\/futuro-da-usurpacao.jpg?w=747&#038;h=620&#038;fit=620%2C620\" alt=\"\" \/><strong>&#8220;A crise pol\u00edtica rasga o v\u00e9u da fantasia ideol\u00f3gica e mostra n\u00e3o algo que se desconhecia, mas aquilo que n\u00e3o se queria saber.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Mauro Luis Iasi.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cSento-me na praia e espero o vento\u201d<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Antes mesmo de completar um m\u00eas de usurpa\u00e7\u00e3o, o usurpador tem problemas. Sua ponte balan\u00e7a fortemente acossada pelos ventos de denuncias e o futuro, logo ali do outro lado do abismo, parece uma vis\u00e3o distante.<\/p>\n<p>Um ministro atr\u00e1s de outro vai caindo ou sendo envolvido em esc\u00e2ndalos, os que se mant\u00eam ostentam uma ficha corrida de fazer inveja a qualquer quadrilha e o pr\u00f3prio usurpador \u00e9 condenado, tornado-se ineleg\u00edvel por oito anos (dois dos quais espera passar no cargo maior de mandat\u00e1rio da Rep\u00fablica).<\/p>\n<p><strong>O futuro da usurpa\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>Na sanha de afastar a presidente eleita, os conspiradores prometeram o que n\u00e3o podem entregar: a estabilidade. Primeiro porque, ao contrario de suas pretens\u00f5es, a raiz da instabilidade \u00e9 a crise econ\u00f4mica e o rem\u00e9dio amargo dos \u201cajustes\u201d, que o governo anterior j\u00e1 aplicava e o usurpador imp\u00f5e com mais profundidade, n\u00e3o indicam uma recupera\u00e7\u00e3o milagrosa no curto prazo. As previs\u00f5es j\u00e1 afastam a recupera\u00e7\u00e3o em 2017 e projetam a volta de um crescimento p\u00edfio s\u00f3 para 2018. Em segundo lugar, o bloco usurpador est\u00e1 longe de ser homog\u00eaneo. A m\u00eddia que t\u00e3o convictamente apoiou com boa vontade a aventura usurpadora tenta se apresentar agora como surpresa com aquilo que sempre soube muito bem. O judici\u00e1rio divide-se, a opera\u00e7\u00e3o Lava Jato continua a oferecer denuncias, o Minist\u00e9rio P\u00fablico continua indiciando e o STF continua se fingindo de morto.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o da interrup\u00e7\u00e3o do mandato da presidente \u00e9 pago com um custo consider\u00e1vel. Libera\u00e7\u00e3o de recursos, nomea\u00e7\u00f5es, barganhas, acordo para livrar Cunha da cassa\u00e7\u00e3o, acenos ao obscurantismo de valores e o fundamentalismo dos preconceitos, fechamento de minist\u00e9rios para depois reabri-los sem recursos. Ministros vaiados em p\u00fablico e um prec\u00e1rio reconhecimento internacional que se dilui numa consistente percep\u00e7\u00e3o da ilegalidade do ato usurpador.<\/p>\n<p>Estamos diante de um governo provis\u00f3rio ileg\u00edtimo e inst\u00e1vel. Os ex-governistas querem a volta da presidente, os aliados do usurpador disputam entre si o protagonismo em uma nova fase de crescimento que vir\u00e1, os trabalhadores reagem, ainda desordenadamente, contra a brutalidade do \u201cajuste\u201d, e disso tudo resulta que a instabilidade \u00e9 a regra e nada indica que tal quadro se reverta no curto prazo.<\/p>\n<p>O ajuste, no entanto, n\u00e3o espera a estabilidade pol\u00edtica. Ao contrario do que se apregoava, ele vai se implantando no pr\u00f3prio curso da tempestade. Come\u00e7ou ainda no governo interrompido, seguiu por entre a crise do afastamento da presidente e seguiu no governo usurpador indiferente aos percal\u00e7os pol\u00edticos que o abalam. Enquanto a esfera pol\u00edtica decide quem governa, o capital exerce seu direito ao Estado e imp\u00f5e a dire\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>No entanto, isso tem consequ\u00eancias. \u00c9 essencial ao jogo pol\u00edtico burgu\u00eas que o governo de plant\u00e3o assuma o \u00f4nus de uma crise para que a oposi\u00e7\u00e3o no interior da ordem se apresente como alternativa. Assim alternam-se liberais e conservadores, democratas e republicanos, socialdemocratas e democratas crist\u00e3os, tucanos e petistas. A atual crise pol\u00edtica, por uma esp\u00e9cie de irresponsabilidade daquilo que Sofia Manzano denominou corretamente de \u201clumpem-parlamentares\u201d, acabou por queimar na fogueira dos interesses da pequena pol\u00edtica a pr\u00f3pria apar\u00eancia de respeitabilidade em que se sustentava a fr\u00e1gil fantasia ideol\u00f3gica sob a qual se legitima o jogo pol\u00edtico burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Quando um ataca o outro, o outro ataca o primeiro e todos se atacam torcendo os limites da legalidade ao sabor de conveni\u00eancias e oportunismos. E o povo aqui de fora olha e vai formando a inc\u00f4moda convic\u00e7\u00e3o que todos est\u00e3o certos ao se acusarem mutuamente de canalhas e ladr\u00f5es. A fantasia ideol\u00f3gica sup\u00f5e que as pessoas tecem uma forma que lhe serve de media\u00e7\u00e3o entre elas e a realidade objetiva, como afirma \u017di\u017eek, n\u00e3o como uma mera falsidade, mas como uma ilus\u00e3o necess\u00e1ria. Nas palavras do fil\u00f3sofo esloveno: \u201cn\u00e3o \u00e9 simplesmente uma mentira, mas uma mentira vivenciada como verdade, uma mentira que pretende ser levada a s\u00e9rio.\u201d (\u017di\u017eek, S. \u201cComo Marx inventou o sintoma?\u201d. Em:<em> Um mapa da ideologia<\/em>. Rio de Janeiro, Contraponto: 1996, p. 313-314).<\/p>\n<p>No limite, isto significa que as pessoas sabem de fato que a esfera da pol\u00edtica \u00e9 esse campo de disputas em torno de interesses mesquinhos, em que se usa e abusa dos meios e m\u00e9todos mais escusos, que h\u00e1 corrup\u00e7\u00e3o e ilegalidades, alian\u00e7as oportunistas e trai\u00e7\u00f5es v\u00e1rias\u2026 que os senhores deputados e senadores est\u00e3o ali porque lograram constituir m\u00e1quinas eleitorais, financiamentos vultosos que compensam com medidas legislativas e governamentais que respondem aos interesses de seus mecenas etc. No entanto, precisam acreditar que se trata de uma esfera do poder pol\u00edtico, uma esfera legislativa que tem fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e respeit\u00e1veis, exercida por pessoas que t\u00eam legitimidade e capacidade para tal fun\u00e7\u00e3o. A crise pol\u00edtica rasga o v\u00e9u da fantasia ideol\u00f3gica e mostra n\u00e3o algo que se desconhecia, mas aquilo que n\u00e3o se queria saber.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 tanto o que se revela (uma vez que a ideologia n\u00e3o opera aqyu no paradigma do velamento) mas as conclus\u00f5es que da\u00ed derivam. Se este \u00e9 o jogo da pol\u00edtica burguesa, qual seria ent\u00e3o a alternativa? \u00c9 neste ponto que as coisas ficam interessantes. Quando A\u00e9cio Neves, por exemplo, tenta capitalizar a crise em seu benef\u00edcio h\u00e1 uma imediata recusa. O usurpador Temer gostaria de acreditar que ele seria (at\u00e9 por falta de op\u00e7\u00f5es) a alternativa\u2026 mas n\u00e3o \u00e9. Uma senhora magra, vinda das fileiras do povo, tenta olimpicamente se manter distante de tudo e agradar a todos, para assim quem sabe ser escolhida como alternativa. Um dia se diz contra o impedimento, em outro flerta com o golpismo. Quer ser uma alternativa para a esquerda, mas elogia o falecido ministro da Ditadura. Ama a natureza, mas precisa do dinheiro dos monop\u00f3lios que a assolam. De tanto querer agradar a todos, corre o risco de n\u00e3o agradar a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>O governo interrompido podia ser uma alternativa. Um dia j\u00e1 foi. At\u00e9 pouco tempo ainda era. Mas como processar a limpeza necess\u00e1ria e restabelecer as costuras e remendos na fantasia ideol\u00f3gica para reapresent\u00e1-lo como a novidade que um dia foi, como art\u00edfice de uma democracia de coopta\u00e7\u00e3o, como ponto m\u00e9dio que torna poss\u00edvel o pacto? A \u201clumpem-burguesia-parlamentar\u201d pode ter prestado um grande desservi\u00e7o \u00e0 burguesia.<\/p>\n<p><strong>Elei\u00e7\u00f5es gerais?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que setores da m\u00eddia, como a <em>Folha de S. Paulo<\/em>, assim como banqueiros conhecidos, aventam a possibilidade de antecipa\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es gerais, curiosamente, se aproximando de uma posi\u00e7\u00e3o que aparece na parte mais \u00e0 esquerda do espectro pol\u00edtico. O sentido mais profundo \u00e9 que \u00e9 necess\u00e1rio buscar fora do atual campo pol\u00edtico e de sua constitui\u00e7\u00e3o aqueles que podem recompor a fantasia ideol\u00f3gica necess\u00e1ria ao bom funcionamento das coisas. Evidente que na esquerda o significado \u00e9 outro: trata-se de construir uma alternativa fora do campo burgu\u00eas, que partisse dos trabalhadores, mas \u00e9 a\u00ed que as coisas precisam ser diferenciadas.<\/p>\n<p>Antecipar as elei\u00e7\u00f5es, na l\u00f3gica do segmento da direita que defende esta alternativa, n\u00e3o implica mudar as regras e a forma das elei\u00e7\u00f5es que constituiu este mesmo circo que agora pega fogo, mas, simplesmente, mudar as pessoas. O mesmo jogo, com outros jogadores. A esquerda que defende esta alternativa tem que ter muito cuidado para n\u00e3o cair nesta armadilha. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que elei\u00e7\u00f5es gerais agora, al\u00e9m de legitimar o impedimento como \u00e1guas passadas, produziria uma representa\u00e7\u00e3o ainda mais conservadora. Mas, o pior \u00e9 que legitimaria um fundamento da fantasia ideol\u00f3gica, isto \u00e9, que esta \u00e9 uma esfera legitima de poder e tal legitimidade resulta de uma elei\u00e7\u00e3o onde a vontade popular \u00e9 a que prevalece.<\/p>\n<p>Nossa convic\u00e7\u00e3o \u00e9 que a atual forma das elei\u00e7\u00f5es \u2013 o peso do poder econ\u00f4mico, a condi\u00e7\u00f5es desiguais da disputa determinadas desde acesso ao tempo de televis\u00e3o, aos debates e aos recursos, o peso do controle das m\u00e1quinas governamentais e eleitorais, o tratamento manipulat\u00f3rio da grande m\u00eddia \u2013 deforma a express\u00e3o do que poderia ser uma vontade popular. As elei\u00e7\u00f5es burguesas n\u00e3o s\u00e3o uma forma de garantir a express\u00e3o de uma vontade coletiva, mas uma eficiente maneira de evitar que se forme uma verdadeira express\u00e3o pol\u00edtica daquilo que constitui a maioria da sociedade.<\/p>\n<p><strong>As alternativas impens\u00e1veis<\/strong><\/p>\n<p>Mas qual, ent\u00e3o, a alternativa? Em grande medida, a efic\u00e1cia da fantasia ideol\u00f3gica \u00e9 excluir do campo das possibilidades algumas alternativas. Vejam como em 1847, \u00e0s v\u00e9speras da entrada em cena da rebeli\u00e3o oper\u00e1ria de 1848, um pensador conservador colocava a quest\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA pobreza e o proletariado s\u00e3o as \u00falceras que supuram no organismo dos Estados modernos. Elas podem ser curadas? Os m\u00e9dicos comunistas prop\u00f5em a completa destrui\u00e7\u00e3o e aniquila\u00e7\u00e3o do organismo existente. [\u2026] Uma coisa \u00e9 certa, se estes homens receberem o poder para agir, haver\u00e1 n\u00e3o uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas social, uma guerra contra toda a propriedade, uma completa anarquia. Por sua vez, isto daria lugar a novos Estados Nacionais, e em que bases morais e sociais? Quem erguer\u00e1 o v\u00e9u do futuro?\u201d<\/p>\n<p>(Haxthausen, <em>Studen ueber\u2026 Russland<\/em> [1847]. Apud Hobsbawm, E. <em>A era das revolu\u00e7\u00f5es \u2013 1789-1848<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979: p. 321)<\/p><\/blockquote>\n<p>Notem, o proletariado \u00e9 a doen\u00e7a e a sociedade atual \u00e9 o organismo saud\u00e1vel, de forma que sua completa destrui\u00e7\u00e3o resultar\u00e1 em \u201ccompleta anarquia\u201d. Ora, ningu\u00e9m quer matar o doente para salvar a doen\u00e7a, logo tal possibilidade deve ser descartada. No entanto, como em todo discurso ideol\u00f3gico, para sua plena efici\u00eancia \u00e9 necess\u00e1rio incluir o real para deform\u00e1-lo. \u00c9 verdade que os comunistas querem destruir o \u201corganismo existente\u201d, assim como \u00e9 tamb\u00e9m verdade que se os comunistas tiverem condi\u00e7\u00f5es \u201cn\u00e3o haver\u00e1 uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas social\u201d que tem por alvo a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Mas isso, al\u00e9m de n\u00e3o poder ser feito, n\u00e3o pode sequer ser pensado. Se pergunta o angustiado conservador, \u201cem que bases morais e sociais\u201d se constituiria um novo estado de coisas? Certamente em outras bases econ\u00f4micas, sociais e morais. E n\u00e3o podemos pensar esta possibilidade porque\u2026? Bem\u2026 porque\u2026? Por que, mesmo?<\/p>\n<p>A ideologia opera de v\u00e1rias formas, mas na crise atual parece ter sido necess\u00e1rio conjurar um antigo fantasma. O conservadorismo e o fundamentalismo religioso n\u00e3o se movem apenas para estigmatizar o governo interrompido, mas, principalmente, para delimitar o campo do poss\u00edvel aberto ao futuro. Hobsbawm cita uma conhecida publica\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica para descrever a ideologia religiosa nos seguintes termos:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cDeem-me um povo em que as paix\u00f5es em ebuli\u00e7\u00e3o e a gan\u00e2ncia terrena sejam acalmados pela f\u00e9 [\u2026]; um povo que veja esta terra como peregrina\u00e7\u00e3o e a outra vida como sua verdadeira p\u00e1tria; um povo ensinado a admirar e a acatar no hero\u00edsmo crist\u00e3o sua pr\u00f3pria pobreza e seu pr\u00f3prio sofrimento [\u2026]. D\u00eaem-me, digo eu, um povo assim moldado, e o socialismo n\u00e3o ser\u00e1 somente derrotado com facilidade, mas ser\u00e1 imposs\u00edvel mesmo que se pense nele[\u2026].<\/p>\n<p>(<em>Cilvit\u00e0 Cattolica II, 122, [1950]<\/em>, apud Hobsbawm, op. cit., p. 239)<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio para a ordem excluir a alternativa revolucion\u00e1ria do campo do poss\u00edvel e do pens\u00e1vel. \u00c9 urgente conter a crise nos limites da crise pol\u00edtica para que ela n\u00e3o se torne uma crise do Estado. Mas, no entanto, \u00e9 este o caminho que a usurpa\u00e7\u00e3o abre e, por isso, \u00e9 fundamental que se oculte.<\/p>\n<p>O problema destes senhores conservadores \u00e9 que o fundamento desta possibilidade se inscreve em seu pr\u00f3prio campo te\u00f3rico. Um dos fundamentos do campo pol\u00edtico, como apresenta John Locke, \u00e9 que o Estado se legitima na medida que h\u00e1 o \u201cconsentimento\u201d dos governados. Um usurpador seria, nos termos deste autor cl\u00e1ssico da teoria pol\u00edtica burguesa, aquele que \u201centre em posse daquilo que um terceiro tem direito\u201d, por isso, conclui que \u201cn\u00e3o pode nunca ter o direito a seu favor\u201d (LOCKE, John. <em>Segundo Tratado sobre o Governo Civil<\/em>). Ocorre que isto acarreta segundo ainda Locke, a seguinte situa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuem quer que ingresse no exerc\u00edcio de qualquer parte do poder por meios diferentes dos que as leis da comunidade prescreveram n\u00e3o tem o direito a ser obedecido, embora a forma da comunidade ainda continue reservada, desde que n\u00e3o \u00e9 a pessoa que as leis indicaram e, em consequ\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 a pessoa a que o povo dera assentimento.\u201d (Idem).<\/p><\/blockquote>\n<p>Numa situa\u00e7\u00e3o como esta o povo estaria desobrigado de prestar obedi\u00eancia, mas pode chegar a muito mais que isso, pode levar a dissolu\u00e7\u00e3o do governo. O pensador liberal argumenta que h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre o usurpador e o tirano, sendo esta diferencia\u00e7\u00e3o localizada no fato do usurpador respeitar a lei existente ou refazer a lei sem que para isso tenha uma mandato que expresse o consentimento do povo, colocando nestes termos o assunto:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cSe um homem ou mais de um chamarem para si a elabora\u00e7\u00e3o de leis, sem autoridade, a que o povo, em conseq\u00fc\u00eancia , n\u00e3o est\u00e1 obrigado a obedecer; e, nessas condi\u00e7\u00f5es, o povo ficar\u00e1 novamente desobrigado a sujei\u00e7\u00e3o, <strong>podendo constituir novo legislativo conforme julgar melhor<\/strong>, tendo inteiramente liberdade de resistir \u00e0 for\u00e7a aos que, sem autoridade, quiserem impor-lhe seja l\u00e1 o que for.\u201d (Idem).<\/p><\/blockquote>\n<p>Vejam, o elemento da crise que n\u00e3o pode ficar vis\u00edvel como alternativa \u00e9 que as alternativas n\u00e3o restringem-se \u00e0 escolha entre as pe\u00e7as existentes e na forma pol\u00edtica que hoje prevalece. \u00c9 poss\u00edvel, e \u00e0s vezes necess\u00e1rio, constituir um novo poder na forma que julgarmos melhor. Locke \u00e9 um fil\u00f3sofo da fase revolucion\u00e1ria da burguesia e expressa em suas ideias o chamado \u201cdireito \u00e0 rebeli\u00e3o\u201d, pois \u00e9 isso que a burguesia fez na sua Inglaterra e far\u00e1 na Fran\u00e7a em 1789: ela destruiu o organismo social existente. Mas agora isso precisa ser descartado como possibilidade. Houve hist\u00f3ria, mas n\u00e3o h\u00e1 mais, j\u00e1 disse Marx.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de escolher entre as alternativas colocadas, n\u00e3o se trata de escolher outras pessoas pela mesma sistem\u00e1tica pol\u00edtica que constituiu esta forma pol\u00edtica que agora implode. A possibilidade que se abre \u00e9 questionar se esta \u00e9 a \u00fanica forma poss\u00edvel de express\u00e3o de vontades coletivas, se esta \u00e9 a \u00fanica forma da pol\u00edtica?<\/p>\n<p>Nenhuma solu\u00e7\u00e3o que mantenha a atual sistem\u00e1tica pol\u00edtica e o sistema eleitoral pode ser, de fato, uma alternativa, ainda que troquem todas as pessoas envolvidas nos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o por outras que ir\u00e3o se envolver nos pr\u00f3ximos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o. Nenhuma mudan\u00e7a pol\u00edtica ou engenharia de representa\u00e7\u00e3o eleitoral pode ser eficaz, no sentido de uma verdadeira mudan\u00e7a, se n\u00e3o tocar na base real da forma pol\u00edtica, a sociedade cindida em interesses antag\u00f4nicos e inconcili\u00e1veis de classe e a ordem capitalista fundada na propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e na transforma\u00e7\u00e3o dos bens necess\u00e1rios \u00e0 vida em mercadorias.<\/p>\n<p>A crise do poder burgu\u00eas abre a possibilidade dos trabalhadores se constitu\u00edrem em poder, legislarem sobre sua vida e desobedecerem ao poder governamental ileg\u00edtimo. Destruir o organismo social e reorganizar a sociedade em novas bases econ\u00f4micas, sociais e morais. O preocupado conservador de 1847 termina suas reflex\u00f5es angustiadas, agravadas pela dor que a \u00falcera prolet\u00e1ria lhe causava, perguntando quem poderia erguer o v\u00e9u do futuro, indagando que papel a R\u00fassia desempenharia nesta trama. Sabemos que papel ela desempenhou. Ele lembra ainda um velho ditado russo que diz: \u201csento-me na praia e espero o vento\u201d. Bem, acredito que j\u00e1 passou da hora de nos levantar e ajudar o trabalho da tempestade.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/06\/13\/o-futuro-da-usurpacao-e-as-alternativas-impensaveis-o-trabalho-do-vento-e-a-necessidade-da-tempestade\/\">O futuro da usurpa\u00e7\u00e3o e as alternativas impens\u00e1veis: o trabalho do vento e a necessidade da&nbsp;tempestade<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;A crise pol\u00edtica rasga o v\u00e9u da fantasia ideol\u00f3gica e mostra n\u00e3o algo que se desconhecia, mas aquilo que n\u00e3o se queria saber.&#8221; \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11351\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-11351","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2X5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11351","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11351"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11351\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}