{"id":1137,"date":"2011-01-17T19:17:57","date_gmt":"2011-01-17T19:17:57","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1137"},"modified":"2011-01-17T19:17:57","modified_gmt":"2011-01-17T19:17:57","slug":"o-colonialismo-frances-nas-antilhas-e-na-guiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1137","title":{"rendered":"O colonialismo franc\u00eas nas Antilhas e na Guiana"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>1. O Estado atual das col\u00f4nias antilhanas e guianesa<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Depois de 500 anos de coloniza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia nos cinco continentes, a coloniza\u00e7\u00e3o persiste sob a domina\u00e7\u00e3o colonial, ou sob a domina\u00e7\u00e3o neocolonial. Neste artigo nos referiremos ainda, n\u00e3o ao colonialismo moderno \u2013 pol\u00edtica imperialista que pretende a liquida\u00e7\u00e3o do colonialismo &#8211; nascido depois da independ\u00eancia das col\u00f4nias, primeiramente sob o dom\u00ednio pol\u00edtico europeu<\/p>\n<p>(hoje sob o dom\u00ednio econ\u00f4mico das antigas metr\u00f3poles e de outras pot\u00eancias mundiais), mas sim ao colonialismo pol\u00edtico e econ\u00f4mico de territ\u00f3rios que continuam sob a depend\u00eancia direta da metr\u00f3pole, segundo a l\u00f3gica de submiss\u00e3o imperialista na qual a \u201csubordina\u00e7\u00e3o mais lucrativa e c\u00f4moda para o capital financeiro \u00e9 uma domina\u00e7\u00e3o que implica a perda da independ\u00eancia pol\u00edtica dos pa\u00edses e dos povos submetidos\u201d <sup>i<\/sup><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Depois de um longo recorrido pol\u00edtico, a lei de 19 de mar\u00e7o de 1946 transforma as col\u00f4nias de Guiana, Guadalupe, Martinica e Reuni\u00e3o em departamentos franceses ultramarinos (DOM). O objetivo consistia em terminar com a domina\u00e7\u00e3o e imagem colonial e assim integrar com plenos direitos as col\u00f4nias \u00e0 metr\u00f3pole. Depois do per\u00edodo p\u00f3s-escravista (1849-1946), os habitantes assumiram, deste modo, as qualidades de cidad\u00e3os franceses, sendo regidos pelo mesmo quadro pol\u00edtico que os cidad\u00e3os da metr\u00f3pole. Procedia, paralelamente, uma transforma\u00e7\u00e3o social da mem\u00f3ria, colocando em uma situa\u00e7\u00e3o de inferioridade, atrav\u00e9s de uma pol\u00edtica cultural de integra\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o, assim como a viol\u00eancia hist\u00f3rica penitenci\u00e1ria francesa (Guiana).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Atualmente (desde a assinatura do Tratado de Roma, em 1957), Guadalupe, Guiana, Martinica e Reuni\u00e3o constituem as RUP \u2013 Regi\u00f5es Ultraperif\u00e9ricas Europ\u00e9ias.<sup><sup>ii<\/sup><\/sup> \u201cAs RUP se caracterizam por uma d\u00e9bil densidade populacional e por estar a uma grande dist\u00e2ncia do continente europeu. Devido a sua situa\u00e7\u00e3o especial constituem uma ponta de lan\u00e7a da Europa para o desenvolvimento de rela\u00e7\u00f5es comercias com os vizinhos terceiros, pa\u00edses geralmente menos desenvolvidos.\u201d<sup><sup>iii<\/sup><\/sup><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u00c9 precisamente gra\u00e7as a esse conjunto de regi\u00f5es perif\u00e9ricas que a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia disp\u00f5e do primeiro territ\u00f3rio mar\u00edtimo mundial, com 25 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados de zona exclusiva (ZEE). Assim, o interesse em Guadalupe, Guiana, Martinica e Reuni\u00e3o se estende, para al\u00e9m dos interesses franceses, servindo tamb\u00e9m para os interesses geoestrat\u00e9gicos das pot\u00eancias europ\u00e9ias.<sup>iv<\/sup><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Em 2002, a moeda \u00fanica europ\u00e9ia foi aplicada \u00e0s RUP, a qual, conjuntamente aos problemas estruturais ligados \u00e0 depend\u00eancia econ\u00f4mica e pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 metr\u00f3pole, provocou uma queda do poder de compra e desequilibrou economias j\u00e1 fragilizadas. Nesse contexto, o constante aumento do desemprego nos anos que precederam a atual crise do capitalismo foi particularmente sentido nas col\u00f4nias ultramarinas. Segundo os dados da Euroestat, de fevereiro de 2009, foram os quatro territ\u00f3rios franceses ultramarinos que alcan\u00e7aram as mais altas taxas de desemprego de toda Europa, em 2007: 25,2% em Reuni\u00e3o, 25% em Guadalupe, 22% em Martinica, 21% na Guiana.<sup>v<\/sup><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>2. O desenvolvimento do imperialismo e a depend\u00eancia crescente das col\u00f4nias<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>a) A Guiana Francesa<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A Guiana francesa \u00e9 a \u00fanica col\u00f4nia francesa continental, estando constitu\u00edda por um territ\u00f3rio de 90 mil quil\u00f4metros quadrados (superf\u00edcie equivalente a Portugal), em sua maioria coberto por um bosque tropical. A maioria da popula\u00e7\u00e3o (aproximadamente 200 mil habitantes) se concentra na capital, Caiena, e no litoral &#8211; os territ\u00f3rios do interior est\u00e3o praticamente desabitados. A maioria da popula\u00e7\u00e3o tem menos de 25 anos, sendo o territ\u00f3rio franc\u00eas com a maior taxa de natalidade. Apesar disso, o desemprego \u2013 que segundo dados oficiais alcan\u00e7a 21% da popula\u00e7\u00e3o &#8211; afeta, sobretudo, aos setores sociais mais jovens.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Economicamente, Guiana se mant\u00e9m vinculada aos interesses do capital financeiro, dependente da metr\u00f3pole e da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. Dessa maneira, o d\u00e9ficit da sua balan\u00e7a comercial \u00e9 extremadamente elevado: o total de importa\u00e7\u00f5es nos primeiros meses de 2010 foi de 500 milh\u00f5es de euros, enquanto que no mesmo per\u00edodo, o total de exporta\u00e7\u00f5es foi de apenas 80 milh\u00f5es de euros. Os principais produtos exportados s\u00e3o reexporta\u00e7\u00f5es de mat\u00e9rias primas e equipamentos importados para o setor espacial. Efetivamente, a economia Guianesa repousa, sobretudo, na atividade do Centro Espacial Guian\u00eas (que representa cerca de 30% do PIB guian\u00eas e gera emprego a 1\/3 dos trabalhadores guianeses (trabalho direto, indireto e induzido).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Neste sentido, paralelamente aos interesses geoestrat\u00e9gicos e militares a Guiana (especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica na Am\u00e9rica do Sul), o Centro Espacial Guian\u00eas tem um interesse fundamental para a Fran\u00e7a e para a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. Criado em 1964, a decis\u00e3o de ser implantado na Guiana teve que ver com o fato de encontrar-se em uma posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica favor\u00e1vel (pr\u00f3xima \u00e0 linha do equador) e de ser meteorologicamente est\u00e1vel (n\u00e3o h\u00e1, por exemplo, tuf\u00f5es). O r\u00e1pido desenvolvimento do Centro Espacial permitiu \u00e0 Fran\u00e7a e \u00e0 Europa alcan\u00e7ar uma autonomia em mat\u00e9ria espacial.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A sociedade an\u00f4nima Arianespace (com um capital de 41,2 milh\u00f5es de euros), monop\u00f3lio que assegura a explora\u00e7\u00e3o comercial do foguete Ariane \u2013 possui atualmente 60% do mercado mundial de lan\u00e7amento de foguetes. Criada em 1980 pelo Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES) \u2013 estabelecimento p\u00fablico franc\u00eas de car\u00e1ter industrial e comercial criado em 1960 por 43 industriais europeus e 12 bancos -, a Arianespace foi a primeira sociedade comercial de transporte espacial.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Pois bem, o monop\u00f3lio do setor espacial se desenvolve e a floresta \u00e9 devastada para a explora\u00e7\u00e3o clandestina de ouro e subsistem graves car\u00eancias na agricultura. Apesar de que mais de 80% das terras perten\u00e7am, hoje em dia, ao estado (fazendo parte de seu dom\u00ednio privado), o incremento de uma agricultura sustent\u00e1vel n\u00e3o est\u00e1 na ordem do dia dos objetivos franceses: o n\u00famero de trabalhadores agr\u00edcolas e pesqueiros n\u00e3o p\u00e1ra de diminuir; em 2008, foram cessadas as atividades de 339 trabalhadores. A falta de investimento colonial afeta igualmente as redes rodovi\u00e1rias e de transporte. Apenas existe, por conseguinte, uma \u00fanica rodovia, a qual liga todo o litoral. As comunas do interior s\u00e3o servidas apenas por transportes mar\u00edtimos (piraguas) ou em raros casos, a\u00e9reos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O prec\u00e1rio desenvolvimento agroindustrial e o conseq\u00fcente desemprego t\u00eam um impacto negativo na qualidade de vida da maioria da popula\u00e7\u00e3o guianesa.<sup><sup>vi<\/sup><\/sup> Os pre\u00e7os na Guiana s\u00e3o, em conseq\u00fc\u00eancia, 13% superiores aos pre\u00e7os da metr\u00f3pole. Tendo em conta o consumo m\u00e9dio das fam\u00edlias em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto de produtos similares, uma fam\u00edlia guianesa paga um plus de 19,6% com respeito a uma fam\u00edlia metropolitana, uma fam\u00edlia da Martinica uns 16,9% mais e uma fam\u00edlia de Guadalupe uns 14,8% mais. O custo dos produtos aliment\u00edcios \u2013 que representam, depois dos servi\u00e7os, o segundo grupo dos gastos das fam\u00edlias guianesas &#8211; \u00e9 superior a 49% em rela\u00e7\u00e3o ao seu custo na metr\u00f3pole.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>b) Guadalupe<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ao contr\u00e1rio da Guiana Francesa, Guadalupe (com aproximadamente 405 mil habitantes para uma extens\u00e3o de 1.704 quil\u00f4metros quadrados<sup><sup>vii<\/sup><\/sup>) e Martinica (com aproximadamente 400 mil habitantes para uma extens\u00e3o de 1.100 quil\u00f4metros quadrados<sup><sup>viii<\/sup><\/sup>) s\u00e3o ilhas densamente povoadas.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Guadalupe \u00e9 um pequeno arquip\u00e9lago situado no cora\u00e7\u00e3o das Antilhas, possuindo, como a Guiana, uma popula\u00e7\u00e3o extremadamente jovem (segundo uma estimativa do INSEE realizada em 2009, cerca de 30,4% da popula\u00e7\u00e3o tinha menos de 20 anos). A taxa de desemprego \u00e9 ainda superior \u00e0 verificada na metr\u00f3pole: em 2009 foi de 23,5% estimando-se seu aumento em 1,8% por ano. Assim, apesar de que 80% da popula\u00e7\u00e3o tenha menos de 59 anos, 60% dos jovens est\u00e3o desempregados e mais da metade dos desempregados em Guadalupe o s\u00e3o h\u00e1 pelo menos tr\u00eas anos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A base econ\u00f4mica mais importante est\u00e1 relacionada com a agricultura e o turismo. No entanto, a depend\u00eancia da metr\u00f3pole e a falta de investimento no setor produtivo regional fazem com que o d\u00e9ficit comercial se eleve, em 2009, a 1,6 bilh\u00f5es de euros. O principal cliente \u00e9 a Fran\u00e7a, que exporta mais de 1 bilh\u00e3o de euros de seus produtos para a col\u00f4nia antilhana, seguida dos EUA (cujas exporta\u00e7\u00f5es ficaram para al\u00e9m dos 200 milh\u00f5es de euros). Fran\u00e7a \u00e9 igualmente o principal cliente da ilha, tendo importado aproximadamente 70 milh\u00f5es de euros.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Tal como na Guiana, em Guadalupe os pre\u00e7os s\u00e3o superiores aos da Fran\u00e7a metropolitana (cerca de 8,3% maiores). Os produtos aliment\u00edcios (essencialmente os provenientes da importa\u00e7\u00e3o) s\u00e3o os produtos mais caros em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 metr\u00f3pole (cerca de 21,3% maiores), seguidos por outros bens e servi\u00e7os (20,9% maiores), e pela sa\u00fade (15,3% maiores).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A falta de desenvolvimento do setor produtivo regional agrava esta situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia econ\u00f4mica. Deste modo, 84% dos empregos assalariados se referem ao setor terci\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Quanto \u00e0 produ\u00e7\u00e3o realizada na ilha, entre 2008 e 2009, apenas a produ\u00e7\u00e3o de banana sofreu um aumento de 7,6%, enquanto que a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar diminuiu 12,4%, a de carne bovina cerca de 5,5%, a de carne porcina 3,9%, a de ve\u00edculos de turismo 1,5% e a de ve\u00edculos utilit\u00e1rios 15,7%. Dentro deste panorama econ\u00f4mico, o PIB por habitante de Guadalupe \u00e9 39% inferior ao metropolitano (em 2009 o PIB por habitante de Guadalupe era de 18.170 euros e o da Fran\u00e7a 29.571 euros).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>c) Martinica<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Dos tr\u00eas territ\u00f3rios coloniais americano-caribenhos, Martinica \u00e9 o menor (sua superf\u00edcie \u00e9 equivalente \u00e0 do Centro Espacial Guian\u00eas). Em termos de popula\u00e7\u00e3o, o n\u00famero de jovens na Martinica com menos de 25 anos \u00e9 inferior que os em Guadalupe e Guiana Francesa (em 2009 apenas 7,3% da popula\u00e7\u00e3o tinha menos que a referida idade). No entanto, tamb\u00e9m nesta ilha a taxa de desemprego ultrapassa 20%: entre os jovens ativos com menos de 25 anos, 61,2% est\u00e3o desempregados. Como em Guadalupe e Guiana, a maioria do trabalho assalariado (74,4%) se refere ao setor terci\u00e1rio (em 2009, apenas 5,2% dos trabalhadores assalariados trabalharam no setor agr\u00edcola ou pesqueiro). Em termos de rendimentos anuais, 60% das declara\u00e7\u00f5es de renda declaram menos de 13.150 euros por ano (ou seja, o equivalente a um sal\u00e1rio mensal inferior a 1.028 euros), enquanto que na metr\u00f3pole apenas 38,5% das declara\u00e7\u00f5es da renda declaram um rendimento inferior ao referido valor. Dos declarantes com renda inferior a 13.150 euros anuais, 49,7% declaram rendimentos inferiores a 9.400 euros.<sup><sup>ix<\/sup><\/sup> A importa\u00e7\u00e3o de bens de consumo se encontra, dentro desse contexto, em um aumento de 11,4% anual.<sup><sup>x<\/sup><\/sup><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O principal s\u00f3cio econ\u00f4mico \u00e9 a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia (2\/3 das importa\u00e7\u00f5es), especialmente Fran\u00e7a (58,1% do valor das importa\u00e7\u00f5es da ilha), seguida por Am\u00e9rica do Norte (9,9% das importa\u00e7\u00f5es).<sup><sup>xi<\/sup><\/sup> Guadalupe, Guiana, S\u00e3o Marino e S\u00e3o Bartolomeu \u2013 Departamentos Franceses Americanos (DFA), s\u00e3o, por outro lado, os principais destinat\u00e1rios das exporta\u00e7\u00f5es (61% das exporta\u00e7\u00f5es de Martinica s\u00e3o para os DFA, onde 82% das referidas exporta\u00e7\u00f5es s\u00e3o de combust\u00edveis e carburantes), seguidos pela Fran\u00e7a (32%).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Apesar de uma evolu\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel da produ\u00e7\u00e3o de banana \u2013 cujas exporta\u00e7\u00f5es para a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia encontram-se em crescimento, em cerca de 19,6% anual, as atividades restantes do setor prim\u00e1rio, \u00e0 imagem do que ocorre na guiana e em Guadalupe, s\u00e3o marginais e se encontram diminuindo. Nesse contexto, os pre\u00e7os da Martinica s\u00e3o superiores aos pre\u00e7os da metr\u00f3pole (9,7% maiores).<sup><sup>xii<\/sup><\/sup> Como na ilha vizinha e na Guiana, a maior diferen\u00e7a se refere ao pre\u00e7o dos produtos aliment\u00edcios (29,5% maiores) e aos pre\u00e7os de bens e servi\u00e7os (28% maiores).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Pois bem, o fato de que o principal produto de exporta\u00e7\u00e3o seja a energia, se deve ao fato de que a \u00fanica empresa que distribui hidrocarbonetos para Guadalupe e para Guiana Francesa se localize em Martinica. La <em>Soci\u00e9t\u00e9 Anonyme de la Raffinerie des Antilles<\/em> (SARA) \u00e9 uma refinaria implantada desde 1969 em Martinica, com o aval e o impulso dos poderes p\u00fablicos. A SARA (50% de suas a\u00e7\u00f5es pertencem ao grupo petroleiro franc\u00eas Total, 23% ao grupo Shell-Vito, 14,5% ao grupo Esso e 11,5% a Texaco) \u00e9, igualmente, a \u00fanica sociedade que explora os dep\u00f3sitos de hidrocarbonetos em Martinica, Guadalupe e Guiana, exportando petr\u00f3leo bruto, sobretudo para Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e Am\u00e9rica do Norte, para depois exportar uma parte de sua produ\u00e7\u00e3o de hidrocarbonatos refinados para as possess\u00f5es francesas.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Por outro lado, apesar de situar-se geograficamente longe do territ\u00f3rio europeu (e, portanto dos locais de produ\u00e7\u00e3o), Guiana, Martinica e Guadalupe obedecem \u00e0s especifica\u00e7\u00f5es dos carburantes estabelecidas pelas diretivas europ\u00e9ias. O fato de que as tr\u00eas possess\u00f5es europ\u00e9ias se encontrem longe da produ\u00e7\u00e3o petroleira europ\u00e9ia (o que aumenta consideravelmente os seus custos), assim como as constantes eleva\u00e7\u00f5es da margem de lucro da SARA, provocou recentemente grandes manifesta\u00e7\u00f5es das massas guian\u00eas-antilhanas. Foi assim, colocada \u00e0 luz do dia a opacidade da pol\u00edtica de pre\u00e7os da SARA, os custos desmesurados no transporte de petr\u00f3leo e a sobrevaloriza\u00e7\u00e3o das margens de lucros dos majorit\u00e1rios. Num contexto de concentra\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de capital, \u00e9 em definitivo, um monop\u00f3lio \u2013 como a sociedade Arianaspace na Guiana \u2013 que lucra com a pol\u00edtica imperialista colonial enquanto os setores produtivos agr\u00edcolas regionais encontram-se subdesenvolvidos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>3. Semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as na luta de classes nas Antilhas e na Guiana.<\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Quando, em 1946, Fran\u00e7a procede ao assimilacionismo jur\u00eddico e conseq\u00fcentemente social das quatro velhas col\u00f4nias, a luta de classes se agudiza. O proletariado das col\u00f4nias exige, ent\u00e3o, a aplica\u00e7\u00e3o aos DOM dos mesmos direitos os quais se beneficiavam os metropolitanos. \u00c9, dessa maneira, sob a press\u00e3o dos trabalhadores, que o regime de Previd\u00eancia Social se estende \u00e0s col\u00f4nias (1948), quando foi instaurado um sal\u00e1rio m\u00ednimo (inicialmente inferior ao metropolitano) e que o aumento salarial (de 40% em Guadalupe, Martinica e Guiana e de 53% em Reuni\u00e3o) atribu\u00eddo a todos os trabalhadores e funcion\u00e1rios do setor que vivessem na metr\u00f3pole e que se instalassem nos DOM (lei de 3 de abril de 1950) e estendido aos funcion\u00e1rios p\u00fablicos aut\u00f3ctones (em 1953).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Apesar de este incremento ter introduzido uma grande disparidade de tratamentos salariais entre os setores p\u00fablicos e privados, o desenvolvimento da luta de classes obrigou ao setor privado a equiparar seus sal\u00e1rios seja com a fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica local, seja com os sal\u00e1rios metropolitanos e a ter em conta o sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Mais recentemente, entre janeiro e mar\u00e7o de 2009, uma nova luta de massas alcan\u00e7ou Guiana, Martinica, Reuni\u00e3o e Guadalupe. Sua origem remonta a dezembro de 2008, em Guadalupe, quando um movimento se inicia contra os elevados pre\u00e7os praticados pela SARA.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O movimento de Guadalupe, liderado pelo coletivo LKP (que agrupa mais de 40 organiza\u00e7\u00f5es sindicais, culturais e pol\u00edticas), foi ganhando import\u00e2ncia social crescente, conseguindo, depois de uma greve de 45 dias, que um acordo fosse firmado entre os sindicatos, o patronato da ilha, o Estado e as coletividades locais, estabelecendo um aumento salarial de 200 euros para os sal\u00e1rios mais baixos, e uma diminui\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos produtos de primeira necessidade, a proibi\u00e7\u00e3o de aumento das rendas durante um ano, diminui\u00e7\u00e3o dos custos de telefonia e Internet, cr\u00e9ditos para a constitui\u00e7\u00e3o de \u201cCentro de Estudos Obreiros\u201d, diminui\u00e7\u00e3o dos impostos locais, entre outras reivindica\u00e7\u00f5es reclamadas. Os 165 pontos que constavam neste acordo de mar\u00e7o de 2009 n\u00e3o foram, no entanto, respeitados. Nesse sentido a luta continua, esta vez para exigir o respeito aos referidos acordos.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Sofrendo os mesmos problemas estruturais que Guadalupe, tamb\u00e9m na Martinica a luta de classes se agudiza. Na Guiana Francesa, apesar de que no in\u00edcio de 2009 tenha surgido um movimento que se encaminhava pela mesma dire\u00e7\u00e3o da luta que se desenvolvia nas outras duas col\u00f4nias, a luta social n\u00e3o alcan\u00e7ou a profundidade lograda em Guadalupe ou na Martinica.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Tal fato se pode compreender melhor se analisamos a composi\u00e7\u00e3o social pr\u00f3pria da Guiana, inexistente em qualquer outro dos departamentos ultramarinos franceses. Em efeito, tr\u00eas povos principais compartem o espa\u00e7o territorial guian\u00eas \u2013 os amer\u00edndios aut\u00f3ctones, os criolos e os <em>bushinengue<\/em> (descendentes dos escravos livres), aos quais veio juntar-se a popula\u00e7\u00e3o brasileira (resultado de uma imigra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica origin\u00e1ria, sobretudo, das regi\u00f5es de Macap\u00e1 e Par\u00e1, no Brasil), a popula\u00e7\u00e3o <em>hmong <\/em>(de origem asi\u00e1tica, no caso guian\u00eas, de origem laosiana, que se instalou na Guiana durante os anos 1970, gra\u00e7as ao apoio impulsionado pelos poderes p\u00fablicos franceses<sup><sup>xiii<\/sup><\/sup>, e uma crescente popula\u00e7\u00e3o chinesa.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Todas essas popula\u00e7\u00f5es \u2013 com suas l\u00ednguas e culturas pr\u00f3prias \u2013 encontram-se repartidas no territ\u00f3rio guian\u00eas e evolucionam cultural e linguisticamente de forma aut\u00f4noma. O sistema colonial conseguiu, desse modo, \u201cdividir para reinar\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Apesar de objetivamente estarem reunidas as condi\u00e7\u00f5es para a consolida\u00e7\u00e3o e a agudiza\u00e7\u00e3o da luta social na Guiana, a dispers\u00e3o \u00e9tnica dificulta a conjuga\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os a favor de uma luta comum. Tendo ainda em considera\u00e7\u00e3o que as condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o guianesas s\u00e3o id\u00eanticas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de Guadalupe ou da Martinica, pensamos que em um prazo mais ou menos largo, as for\u00e7as progressistas da sociedade guianesa (independentemente de sua origem \u00e9tnica ou ling\u00fc\u00edstica) assumir\u00e3o a luta por uma maior autonomia e independ\u00eancia da metr\u00f3pole que as domina.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A Guiana poder\u00e1 ent\u00e3o juntar \u00e0s suas reivindica\u00e7\u00f5es as vozes cada vez mais fortes provenientes das Antilhas a favor de uma melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho, a favor de um efetivo desenvolvimento agr\u00edcola e industrial que tenha em conta as especificidades dos referidos territ\u00f3rios, a favor do fim da depend\u00eancia econ\u00f4mica crescente (da Fran\u00e7a e da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia), que asfixia as economias locais, por uma pol\u00edtica que permita aos povos que vivem nos referidos territ\u00f3rios ser sujeitos da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, contra o colonialismo que os oprime e cuja natureza faz justi\u00e7a \u00e0 seguinte frase de Marx: \u201ca hipocrisia profunda e a barb\u00e1rie inerente \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o burguesa se difundem sem pudores diante dos nossos olhos, passando de seu formato original \u00e0s col\u00f4nias, onde assume sua forma mais despudorada.\u201d <sup><sup>xiv<\/sup><\/sup><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Traduzido do Espanhol por Coletivo Paulo Petry, n\u00facleo do PCB\/UJC em Cuba.<\/p>\n<p>i V.I. LENINE, El<em> imperialismo fase superior del capitalismo (1917), <\/em>&#8221; El reparto del mundo entre las grandes potencias&#8221; (cap.VI, Obras escogidas en seis tomos, t.II, Lisboa. \u00a1Avante! (Ed. Progreso, Mosc\u00fa, 1984).Disponible en <a href=\"http:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenine\/1916\/imperialismo\" target=\"_blank\">http:\/\/www.marxists.org\/portugues\/lenine\/1916\/imperialismo<\/a>.<\/p>\n<p>ii Forman parte igualmente das RUP, as Ilhas Can\u00e1rias (Espanha) e as Ilhas A\u00e7ores e Madeira (Portugal).<\/p>\n<p>iii Gloss\u00e1rio da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, em: <a href=\"http:\/\/europa.eu\/scadplus\/glossary\/outermost_regions_pt.htm\" target=\"_blank\">http:\/\/europa.eu\/scadplus\/glossary\/outermost_regions_pt.htm<\/a>.<\/p>\n<p>iv Por outro lado, outras col\u00f4nias e territ\u00f3rios ultramarinos brit\u00e2nicos, franceses, holandeses ou dinamarqueses, formam os \u201cpa\u00edses y territ\u00f3rios ultramarinos&#8221; (PTOM).<\/p>\n<p>v A taxa de desemprego nesses territ\u00f3rio foi superior \u00e0quela que se verificou nos territ\u00f3rios espanh\u00f3is de Ceuta (20,3%) e de Melilla (18,2%).<\/p>\n<p>vi Consultar \u00ab Comparaison des prix entre les DOM et la metropole en 2010 \u00bb, INSEE Premiere n\u00b01304 -Julio 2010.<\/p>\n<p>vii Censo de 2006.<\/p>\n<p>viii Censo de 2007.<\/p>\n<p>ix Na Fran\u00e7a, o limite de pobreza tem como referencia um rendimento mensal de 948 euros.<\/p>\n<p>x Dados de 2009.<\/p>\n<p>xi Importa\u00e7\u00e3o de produtos derivados do petr\u00f3leo e de produtos qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>xii Na ilha de Reuni\u00e3o os pre\u00e7os s\u00e3o, em m\u00e9dia, um 6,2% superiores aos metropolitanos.<\/p>\n<p>xiii Durante as duas guerras Indochinesas, as popula\u00e7\u00f5es <em>hmong<\/em> apoiaram militarmente, primeiro, ao colono franc\u00eas, e depois ao colono americano.<\/p>\n<p>xiv K. Marx, &#8220;Los resultados eventuales de La dominaci\u00f3n brit\u00e1nica en la India&#8221; (1853). Consultado en :<a href=\"http:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1853\/07\/22.htm\" target=\"_blank\">http:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1853\/07\/22.htm<\/a><\/p>\n<p>O texto original encontra-se em: <a href=\"http:\/\/www.avante.pt\/pt\/1931\/temas\/111530\/ \" target=\"_blank\">Avante<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 1.bp.blogspot.com\n\n\n\n\n\n\n\n\nAna Maria Saldanha\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1137\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1137","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-il","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1137","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1137"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1137\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1137"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1137"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1137"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}