{"id":11370,"date":"2016-06-20T12:09:37","date_gmt":"2016-06-20T15:09:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11370"},"modified":"2016-07-18T18:08:27","modified_gmt":"2016-07-18T21:08:27","slug":"para-o-bloque-magdalena-mediofrente-cuarto-quando-a-luta-se-torna-na-nossa-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11370","title":{"rendered":"Para o Bloque Magdalena m\u00e9dio\/frente cuarto Quando a luta se torna na nossa casa"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/FARCMULHERESFARIANAS2.jpg?w=747\" alt=\"\" \/>Magdalena<\/p>\n<p>Pode ser que esta bel\u00edssima prosa po\u00e9tica surpreenda alguns leitores, mas \u00e9 ineg\u00e1vel que este belo texto \u00e9 uma fraterna reflex\u00e3o sobre a, cada vez mais necess\u00e1ria, luta pela solu\u00e7\u00e3o dos problemas <!--more--><\/p>\n<p>que condicionam a evolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria em movimento.<br \/>\nComo diz Magdalena, \u00abalgu\u00e9m com quem comparti a minha vida me relembrou, um destes dias, que h\u00e1 praticamente 15 anos, na porta do meu quarto, tinha uma imagem das mulheres farianas. N\u00e3o me lembrava da imagem. N\u00e3o me lembrava de que, sem voc\u00eas o saberem, voc\u00eas sempre me haviam acompanhado.\u00bb<\/p>\n<p>N\u00e3o vos posso dedicar uma m\u00fasica. N\u00e3o sei tocar. N\u00e3o vos posso abra\u00e7ar. N\u00e3o estou presente. N\u00e3o vos posso dizer o quanto vos quero. N\u00e3o vos posso falar. Restam-me as linhas escritas. Estas que agora vos envio.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m com quem comparti a minha vida me relembrou, um destes dias, que h\u00e1 praticamente 15 anos, na porta do meu quarto, tinha uma imagem das mulheres farianas. N\u00e3o me lembrava da imagem. N\u00e3o me lembrava de que, sem voc\u00eas o saberem, voc\u00eas sempre me haviam acompanhado.<\/p>\n<p>As FARC-EP entraram na minha vida, naturalmente, como mulher comunista. A presen\u00e7a fazia-se atrav\u00e9s das leituras, das discuss\u00f5es, de uma constante busca de informa\u00e7\u00f5es sobre esta luta nas montanhas que para n\u00f3s estava t\u00e3o esperan\u00e7osamente longe. Sent\u00e1vamo-nos \u00e0 volta de uma mesa, discut\u00edamos, apaixonava-me. Mas as montanhas colombianas pareciam-me t\u00e3o inexplicavelmente inacess\u00edveis.<\/p>\n<p>Quando, pela primeira vez, pisei terras colombianas, no paro agr\u00e1rio de 2013, soube que nunca mais deste vosso pa\u00eds me afastaria. N\u00e3o me canso de escrever o que foi presenciar o terrorismo de Estado nesta vossa terra. O medo que ent\u00e3o senti. As amizades que, desde ent\u00e3o, perduram. As amizades feitas na solidariedade da luta, no medo da repress\u00e3o, na certeza de que o mundo que queremos construir n\u00e3o tem fronteiras.<\/p>\n<p>Quando, de novo, em 2015, volto a pisar estas terras, para com um comandante falar, tive a confirma\u00e7\u00e3o da certeza que dois anos antes em mim se firmara: a luta embrenhara-se em mim, bem c\u00e1 dentro, bem no fundo, profunda.<\/p>\n<p>Corria o ano de 2006 quando, pela primeira vez, senti o solo latino-americano. Passaria, ent\u00e3o, tr\u00eas meses no M\u00e9xico num momento hist\u00f3rico da luta neste pa\u00eds. Atenco havia passado, mas decorriam as elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Lopez Obrador perderia, por um golpe eleitoral, a presid\u00eancia para Felipe Calderon. As ruas da cidade do M\u00e9xico seriam ocupadas por um povo que gritaria a plenos pulm\u00f5es,\u00a0<em>Voto por Voto, Casilla por Casilla<\/em>. Os meus ent\u00e3o 25 anos percorriam fascinados as ruas, as lutas, as conversas, aprendiam com Diego Rivera, Siqueiros, Orozco e Frida Khalo a luta de resist\u00eancia deste sofrido e resistente povo. Estive nas ruas ocupadas de Oaxaca, cantei O Povo Unido de punho erguido, apaixonava-me por este continente que se tornaria, anos mais tarde, a minha Casa.<\/p>\n<p>Voltaria em 2009, para tr\u00eas anos passar na Guiana Francesa, nesta \u00faltima col\u00f3nia europeia em continente americano. Aprendi a amar a Amaz\u00f4nia, a nela caminhar, a sentir os seus rios, a cheirar a sua floresta, a tocar as suas hist\u00f3rias de degredados e prisioneiros pol\u00edticos que tanto buscaram a Liberdade que lhes fora barbaramente negada. E desde ent\u00e3o fui criando as ra\u00edzes que agora aqui me prendem. E que ningu\u00e9m arrancar\u00e1.<\/p>\n<p>Em 2012 abdicaria de um percurso profissional na academia francesa para viver a luta dos Sem Terra, no Brasil. V\u00ednculos ideol\u00f3gicos, de vida, de camaradagem, de um quotidiano compartilhado, criaram a Casa que ser\u00e1 sempre tamb\u00e9m minha. Os Sem Terra abriram-me definitivamente as portas da Luta que hoje abra\u00e7o. A Am\u00e9rica latina aparecia-me sem segredos, as ocupa\u00e7\u00f5es aprenderam-me a solidariedade no dia-a-dia da repress\u00e3o, da persegui\u00e7\u00e3o, do medo transformado em For\u00e7a. E a Col\u00f4mbia que, tantos anos antes, me parecia t\u00e3o geograficamente distante, aqui estava, ao meu lado.<\/p>\n<p>Veio o paro agr\u00e1rio, as amizades feitas na solidariedade da luta, veio Carrisales, a conversa com o Comandante, veio a certeza desta casa latino-americana cujas ra\u00edzes se fixaram no corpo.<\/p>\n<p>Quando, neste ano de 2016, desembarco novamente no aeroporto de Bogot\u00e1, n\u00e3o pude deixar de sorrir \u00e0 cidade ent\u00e3o j\u00e1 conhecida. Mas n\u00e3o poderia imaginar o quanto essas vossas magn\u00edficas montanhas de luta me prenderiam, definitivamente, a este solo.<\/p>\n<p>Homens e mulheres de luta: somos um tronco. Nele, est\u00e3o marcadas as mem\u00f3rias, as lutas, o que de essencial nos constitui. Vamos crescendo, o tronco cresce, os ramos v\u00e3o-se acrescentando, uns caiem, outros ficam: s\u00e3o as viv\u00eancias e mem\u00f3rias que ora ficam, ora v\u00e3o. A Col\u00f4mbia acrescentou ao tronco o essencial que me vinha fazendo crescer. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um simples galho de mem\u00f3ria ao qual v\u00e1rios outros se sobrepor\u00e3o. N\u00e3o. A Col\u00f4mbia \u00e9 parte essencial do tronco, suportado nas ra\u00edzes que me fizeram Mulher: e Comunista. Agora, sei-o. Gra\u00e7as a voc\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso. Soube-o desde o momento em que Pedro, descendo da mota, me viria buscar a Mina Nueva. Soube-o desde o momento em que com Teo partilho uns caf\u00e9s e uns cigarros. Lembro-me da camiseta que logo me prendeu o olhar, Essa imagem \u00e9 da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. E seguiu-se a conversa (Lembras-te Teo?) sobre projetos e utopias. Ou sobre a utopia que se transforma em projeto.<\/p>\n<p>Soube-o desde o momento em que, com a dificuldade ofegante de uma iniciante, chego ao cimo da pequenina montanha, para mim enorme, que me apresentaria o acampamento onde tu, Teo, tu, Ruso, tu, Esteban, tu, Nena, tu, Martin, tu, Natalia, tu, Samuel, tu, Emily, tu, Didier, tu, Jhon, tu, Dario, tu, Caterine, tu, Daniela, tu, Pedro, onde todos voc\u00eas me abra\u00e7ariam nessa rara beleza humana que cada um de voc\u00eas comigo partilhou.<\/p>\n<p>Soube que a terra colombiana, a luta vossa, se tornaria parte integrante da Mulher que sou.<\/p>\n<p>Soube-o desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Seguiu-se o outro acampamento. E quando a\u00ed abracei Mona, Ginette, H\u00e2nia, o Comandante Alberto, Areles, Andr\u00e9s, Arnulfo, Veronica, Romira, Corn\u00e9lio, Alfredo, e todos voc\u00eas, todos, sem exce\u00e7\u00e3o, nesse momento adivinhei a dor que seria a partida, adivinhei as l\u00e1grimas que, dias mais tarde, escorreriam.<\/p>\n<p>Se antes adivinhava o hero\u00edsmo que cada um de voc\u00eas acrescenta aos her\u00f3icos 52 anos de vida das FARC-EP, a\u00ed pude toc\u00e1-lo, senti-lo, viv\u00ea-lo. E n\u00e3o tenho palavras para descrever o que a viv\u00eancia da solidariedade, do companheirismo, das vossas l\u00e1grimas, das vossas alegrias, das vossas tristezas, em mim deixou.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o cresce, pula, desorganiza-se, procura-Vos.<\/p>\n<p>A admira\u00e7\u00e3o foi crescente. A vossa resist\u00eancia, a vossa capacidade de dar a vida por uma outra Col\u00f4mbia, os terr\u00edveis e assustadores momentos de luta na guerra, as mortes e assassinatos por voc\u00eas assistidos, os companheiros e companheiras perdidos, as mem\u00f3rias de bombardeios, de medos, os terr\u00edveis gritos de pedidos de ajuda de quem j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1, as \u00faltimas palavras por voc\u00eas escutadas de quem nesta guerra perdia a vida, as feridas de guerra que voc\u00eas carregam, a capacidade de seguir adiante nesta luta maior que diariamente n\u00e3o abandonam, a esperan\u00e7a de uma Col\u00f4mbia em paz, fazem com que privilegiadamente saiba que, com cada um de voc\u00eas, comparti a Maior Beleza do ser humano: a de que a luta Continua, Continuar\u00e1, porque Somos e Seremos Sempre cada Vez Mais.<\/p>\n<p>Voltarei. Pela luta, pela solidariedade, por cada um de voc\u00eas, pela certeza de que nos unir\u00e1 Sempre a esperan\u00e7a e a certeza de um projeto de uma sociedade onde, sem medo, sem repress\u00e3o, sem viol\u00eancia, poderemos construir o Homem Novo.<\/p>\n<p>Quero-Vos muito. Tanto e tanto, que me faltam as palavras. Como me faltaram naquele \u00faltimo dia, naquela despedida, naquela montanha em que as palavras se atropelaram entre as l\u00e1grimas e a emo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o consegui conter.<\/p>\n<p>As FARC-EP nada seriam se cada um de voc\u00eas n\u00e3o transportasse convosco, montanhas adentro, nessa Grande Col\u00f4mbia que um dia ver\u00e1 a paz, a Grande Luta que nos une.<\/p>\n<p>Quero-Vos muito.<\/p>\n<p>Voltarei. Voltarei Sempre. Voltarei em breve.<\/p>\n<p>E abra\u00e7o-vos com toda a solidariedade, com toda a camaradagem, com todo o companheirismo, com toda a ternura com que voc\u00eas me presentearam,<\/p>\n<p>Magdalena<\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/index.php\/para-o-bloque-magdalena-mediofrente-cuartoquando\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Magdalena Pode ser que esta bel\u00edssima prosa po\u00e9tica surpreenda alguns leitores, mas \u00e9 ineg\u00e1vel que este belo texto \u00e9 uma fraterna reflex\u00e3o sobre \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11370\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-11370","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Xo","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11370","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11370"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11370\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11370"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11370"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11370"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}