{"id":11394,"date":"2016-06-24T18:26:43","date_gmt":"2016-06-24T21:26:43","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11394"},"modified":"2016-07-18T18:09:08","modified_gmt":"2016-07-18T21:09:08","slug":"colonialismo-neocolonialismo-e-balcanizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11394","title":{"rendered":"Colonialismo, Neocolonialismo e Balcaniza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/Sad_Bouamama.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><strong>As tr\u00eas idades de uma domina\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Said Bouamama*<\/p>\n<p>O autor defende que a lista de pa\u00edses destru\u00eddos pela interven\u00e7\u00e3o militar do imperialismo norte-americano acolitado pela UE aumenta sem cessar.<!--more--><\/p>\n<p>Defendendo que a uma \u00abprimeira idade\u00bb do capitalismo e ao neocolonialismo de uma \u00absegunda idade\u00bb est\u00e1 a suceder uma \u00abterceira idade\u00bb: a balcaniza\u00e7\u00e3o, uma generaliza\u00e7\u00e3o do caos.<\/p>\n<p>\u00abParalelamente, constata-se uma muta\u00e7\u00e3o das formas do racismo. Depois da Segunda Guerra Mundial o racismo culturalista sucedeu ao racismo biol\u00f3gico e desde h\u00e1 algumas d\u00e9cadas tende a apresentar-se a partir da religiosidade, sob a forma dominante da islamofobia. Na opini\u00e3o do autor estamos na presen\u00e7a de tr\u00eas historicidades estreitamente ligadas: a do sistema econ\u00f3mico, a das formas pol\u00edticas e a das ideologias de legitima\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Regresso a Crist\u00f3v\u00e3o Colombo<\/p>\n<p>A vis\u00e3o dominante do eurocentrismo explica a emerg\u00eancia e posterior extens\u00e3o do capitalismo a partir de factores internos das sociedades europeias. Dai se depreende a famosa tese de que algumas sociedades (algumas culturas, algumas religi\u00f5es, etc.) est\u00e3o dotadas de uma historicidade e outras carecem dela. Quando Nicolas Sarkozy afirma em 2007 que \u00abo drama de \u00c1frica \u00e9 que o homem africano n\u00e3o entrou suficientemente na hist\u00f3ria [1]\u00bb n\u00e3o faz mais do que retornar a um tema reiterativo das ideologias de justifica\u00e7\u00e3o da escravatura e da coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00abA \u201cdesistoriza\u00e7\u00e3o\u201d desempenha um papel decisivo na estrat\u00e9gia da coloniza\u00e7\u00e3o. A tradi\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias orais e posteriormente as \u00abci\u00eancias coloniais\u00bb impuseram um postulado sobre o qual se construiu a historiografia colonial: a Europa \u00e9 \u00abhist\u00f3rica\u00bb enquanto a \u00abhistoricidade\u00bb caracteriza as sociedades coloniais definidas como tradicionais e im\u00f3veis [\u2026] Movida pelos seus valores intelectuais e espirituais, a Europa desempenha atrav\u00e9s da miss\u00e3o colonial uma miss\u00e3o hist\u00f3rica fazendo entrar na Hist\u00f3ria uns povos que estavam dela privados ou que se tinham quedado paralisados num estado da evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica superado pelos europeus (estado de natureza, Idade M\u00e9dia, etc.) [2]\u00bb<\/p>\n<p>Tanto a Antiguidade desta leitura existencialista e eurocentrista da hist\u00f3ria do mundo como a sua recorr\u00eancia (para al\u00e9m das modifica\u00e7\u00f5es de formas e de apresenta\u00e7\u00e3o) colocam em relevo a sua fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, a nega\u00e7\u00e3o das interac\u00e7\u00f5es. Desde que Crist\u00f3v\u00e3o Colombo mandou os seus soldados desembarcarem a hist\u00f3ria mundial transformou-se numa hist\u00f3ria \u00fanica, global, relacionada, globalizada. A pobreza de uns j\u00e1 n\u00e3o se pode explicar sem nos interrogarmos sobre as rela\u00e7\u00f5es de causalidade com a riqueza dos demais. O desenvolvimento econ\u00f3mico de uns \u00e9 indissoci\u00e1vel do subdesenvolvimento de outros. O progresso dos direitos sociais s\u00f3 aqui \u00e9 poss\u00edvel por meio da negocia\u00e7\u00e3o dos direitos dali.<\/p>\n<p>A invisibilidade das interac\u00e7\u00f5es requer uma mobiliza\u00e7\u00e3o da inst\u00e2ncia ideol\u00f3gica para formalizar uns esquemas explicativos hierarquizadores. Esses esquemas constituem o \u00abracismo\u00bb tanto nas suas constantes como nas suas muta\u00e7\u00f5es. H\u00e1 invariabilidade porque todos os rostos do racismo, desde o biologismo \u00e0 islamofobia, t\u00eam uma comunidade de resultado: a hierarquiza\u00e7\u00e3o da humanidade. Tamb\u00e9m h\u00e1 muta\u00e7\u00e3o porque cada rosto do racismo corresponde a um estado do sistema econ\u00f3mico de deprecia\u00e7\u00e3o e a um estado de rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas. Ao capitalismo monopolista corresponder\u00e1 a escravatura e a coloniza\u00e7\u00e3o como forma de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o biologismo como forma do racismo. Ao capitalismo monopolista globalizado e senil corresponder\u00e1 a balcaniza\u00e7\u00e3o e o caos como forma de domina\u00e7\u00e3o, e a islamofobia (em espera de outras vers\u00f5es para outras religi\u00f5es do Sul em fun\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses que h\u00e1 que balcanizar) como forma de racismo.<\/p>\n<p>J\u00e1 h\u00e1 muito tempo que na sua an\u00e1lise da apari\u00e7\u00e3o do neocolonialismo como sucessor do colonialismo directo Mehdi Barka p\u00f4s em evidencia as rela\u00e7\u00f5es entre a evolu\u00e7\u00e3o da estrutura econ\u00f3mica do capitalismo e as formas de domina\u00e7\u00e3o. Ao analisar as \u00abindepend\u00eancias concedidas\u00bb, relaciona-as com as muta\u00e7\u00f5es da estrutura econ\u00f3mica dos pa\u00edses dominantes.<\/p>\n<p>\u00abEsta orienta\u00e7\u00e3o (neocolonial) n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o simples no dom\u00ednio da pol\u00edtica externa. \u00c9 a express\u00e3o de uma mudan\u00e7a profunda nas estruturas do capitalismo ocidental. Desde o momento em que ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial e gra\u00e7as \u00e0 ajuda [do Plano] Marshall e a uma interpenetra\u00e7\u00e3o cada vez maior na economia norte americana a Europa ocidental se afasta da estrutura do S\u00e9culo XIX para se adaptar ao capitalismo norte americano, seria normal que a Europa ocidental adoptasse tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos com o mundo. Numa palavra, que tivesse tamb\u00e9m a sua \u00abAm\u00e9rica Latina [3]\u00bb<\/p>\n<p>Para o l\u00edder revolucion\u00e1rio marroquino o que suscita a passagem do colonialismo ao neocolonialismo \u00e9, efectivamente a monopoliza\u00e7\u00e3o do capitalismo. Do mesmo modo, a precocidade da monopoliza\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos \u00e9 uma das causalidades da precocidade do neocolonialismo como forma de domina\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Frantz Fanon, por seu lado, p\u00f5e em evid\u00eancia as rela\u00e7\u00f5es entre a forma da domina\u00e7\u00e3o e as evolu\u00e7\u00f5es das formas de racismo. A resist\u00eancia que suscita uma forma de domina\u00e7\u00e3o (o colonialismo, por exemplo) obrigam esta a mudar. Mas, esta muta\u00e7\u00e3o requer a manuten\u00e7\u00e3o da hierarquiza\u00e7\u00e3o da humanidade e, consequentemente, apela a uma nova era da ideologia racista. \u00abEste racismo\u00bb, afirma Fanon, \u00abque se quer racional, individual, determinado, genotipico e fenotipico transforma-se em racismo cultural\u00bb. No que refere aos factores que levam \u00e0 muta\u00e7\u00e3o do racismo, Frantz Fanon menciona a resist\u00eancia dos colonizados, a experi\u00eancia do racismo, ou seja, \u00aba institui\u00e7\u00e3o de um regime colonial em plena terra da Europa\u00bb e \u00aba evolu\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas [4]\u00bb, ou seja, as transforma\u00e7\u00f5es da estrutura do capitalismo, como revelava Ben Barka.<\/p>\n<p>Por conseguinte, sem entrar num debate complexo de uma periodiza\u00e7\u00e3o do capitalismo datada com precis\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel relacionar as tr\u00eas ordens de factos que s\u00e3o as muta\u00e7\u00f5es da estrutura econ\u00f3mica, umas formas da domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e umas transforma\u00e7\u00f5es da ideologia racista. As tr\u00eas \u00abidades\u00bb do capitalismo pedem tr\u00eas \u00abidades\u00bb da domina\u00e7\u00e3o que suscitam tr\u00eas \u00abidades\u00bb do racismo.<\/p>\n<p>A inf\u00e2ncia do capitalismo<\/p>\n<p>O capitalismo como modo de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f3mico devido \u00e0 sua lei do benef\u00edcio requer uma extens\u00e3o permanente. Est\u00e1 de imediato em globaliza\u00e7\u00e3o, embora esta conhe\u00e7a os seus umbrais de desenvolvimento. Ou seja, trata-se do engano do discurso actual sobre a globaliza\u00e7\u00e3o, que a apresenta como um fen\u00f3meno completamente novo vinculado \u00e0s mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas. Como sublinha Samir Amin, o nascimento do capitalismo e a sua globaliza\u00e7\u00e3o correm paralelos.<\/p>\n<p>\u00abO sistema mundial n\u00e3o \u00e9 a forma relativamente recente do capitalismo, que vem s\u00f3 do \u00faltimo ter\u00e7o do S\u00e9culo XIX em que constitui o imperialismo\u00bb (no sentido que Lenine deu a este termo) e a reparti\u00e7\u00e3o colonial do mundo a ele associado. Pelo contr\u00e1rio, n\u00f3s afirmamos que esta dimens\u00e3o mundial encontra de imediato a sua express\u00e3o, desde a origem, e continua a ser uma constante do sistema atrav\u00e9s das etapas sucessivas do seu desenvolvimento. Admitindo que os elementos essenciais do capitalismo se cristalizam na Europa a partir do Renascimento (a data de 1492), in\u00edcio da conquista da Am\u00e9rica, seria a data de nascimento simult\u00e2neo do capitalismo e do sistema mundial), ambos fen\u00f3menos insepar\u00e1veis [5].\u00bb<\/p>\n<p>Por outras palavras, tanto o saque e a destrui\u00e7\u00e3o das civiliza\u00e7\u00f5es amer\u00edndias como a escravid\u00e3o foram as condi\u00e7\u00f5es para o que modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista pudesse ser dominante nas sociedades europeias. N\u00e3o houve nascimento do capitalismo e depois extens\u00e3o, mas sim um saque e uma viol\u00eancia total que reunia as condi\u00e7\u00f5es materiais e financeiras para que o capitalismo se instalasse. De resto destaquemos com Eric Williams que a destrui\u00e7\u00e3o das civiliza\u00e7\u00f5es amer\u00edndias vai acompanhada da sua escraviza\u00e7\u00e3o. Assim, a escravatura n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia do racismo, mas sim este \u00faltimo \u00e9 o resultado da escravatura dos \u00edndios. \u00abNo Caribe\u00bb, afirma esse autor, \u00abo termo escravid\u00e3o aplicou-se demasiado exclusivamente aos negros. [\u2026] O primeiro exemplo de com\u00e9rcio de escravos e de m\u00e3o-de-obra esclavagista no Novo Mundo n\u00e3o diz respeito ao negro, mas sim ao \u00edndio. Os \u00edndios sucumbiram rapidamente sob o excesso de trabalho e como a comida era insuficiente, morreram de doen\u00e7as importadas pelo branco [6].<\/p>\n<p>De resto, a coloniza\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas o processo de generaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es capitalistas com o resto do mundo. \u00c9 a forma de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que finalmente se encontrou para exporta\u00e7\u00e3o e a imposi\u00e7\u00e3o destas rela\u00e7\u00f5es sociais ao resto do mundo. Para isso, supostamente era necess\u00e1rio destruir as rela\u00e7\u00f5es sociais ind\u00edgenas e as formas de organiza\u00e7\u00e3o social e cultural que haviam engendrado. O economista argelino Youcef Djebari demonstrou a magnitude da resist\u00eancia das formas anteriores de organiza\u00e7\u00e3o social e a viol\u00eancia indispens\u00e1vel para as destruir. \u00abEm todas as suas tentativas de anexa\u00e7\u00e3o e de domina\u00e7\u00e3o na Arg\u00e9lia o capital franc\u00eas enfrentou uma forma\u00e7\u00e3o social e econ\u00f3mica hostil \u00e0 sua penetra\u00e7\u00e3o. Utilizou todo um arsenal de m\u00e9todos para acalmar e submeter as popula\u00e7\u00f5es aut\u00f3ctones [7]\u00bb<br \/>\nPor isso a viol\u00eancia total \u00e9 a inerente \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O racismo biol\u00f3gico aparece para legitimar esta viol\u00eancia e esta destrui\u00e7\u00e3o. Fanon d\u00e1 realce a que o racismo \u00abentra num conjunto caracterizado: o da explora\u00e7\u00e3o descarada de um grupo de homens por outro. [\u2026] Por isso a opress\u00e3o militar e econ\u00f3mica precede quase sempre o racismo, torna-o poss\u00edvel e legitima-o. H\u00e1 que abandonar a ideia de considerar que o racismo \u00e9 uma disposi\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito., uma tara psicol\u00f3gica [8].\u00bb<\/p>\n<p>Por conseguinte, o racismo como ideologia de hierarquiza\u00e7\u00e3o da humanidade que justifica a viol\u00eancia e a explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica da humanidade, mas sim uma produ\u00e7\u00e3o situada hist\u00f3rica e geograficamente: a Europa da emerg\u00eancia do capitalismo. O biologismo como primeiro rosto hist\u00f3rico do racismo conhece a sua idade de ouro no s\u00e9culo XIX ao mesmo tempo que a explos\u00e3o industrial por um lado e a febre colonial por outro. O m\u00e9dico e antrop\u00f3logo franc\u00eas Paul Broca classificou os cr\u00e2nios humanos com fins comparativos e concluiu que \u00abquanto *\u00e0 capacidade craniana, o negro de \u00c1frica ocupa uma situa\u00e7\u00e3o aproximadamente m\u00e9dia entre o europeu e o australiano [9]\u00bb. Assim, existe algo inferior ao negro, o abor\u00edgene, mas um superior indiscut\u00edvel, o europeu. E como todas as domina\u00e7\u00f5es pedem um processo de legitimiza\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o similar pelo menos convergente, alarga o seu m\u00e9todo \u00e0 diferen\u00e7a de sexos para concluir que a \u00abpequenez relativa do c\u00e9rebro da mulher depende da sua inferioridade f\u00edsica e da sua inferioridade intelectual [10]\u00bb.<\/p>\n<p>1. Monop\u00f3lios, neocolonialismo e culturalismo<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XX \u00e9 o da monopoliza\u00e7\u00e3o do capitalismo. Esse processo desenvolve-se em ritmos diferentes para cada uma das potencias. Os grandes grupos industriais dirigem cada vez mais a economia e o capital financeiro torna-se preponderante. A rela\u00e7\u00e3o f\u00edsica e subjectiva entre o propriet\u00e1rio e a propriedade desaparece em benef\u00edcio da rela\u00e7\u00e3o entre o cup\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o bolsista e o accionista. O grande colono propriet\u00e1rio de terras cede o primeiro lugar ao accionista de minas. Esta nova estrutura do capitalismo requer uma nova forma de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o neocolonialismo, que Kwame Nkrumah define da seguinte forma: \u00aba ess\u00eancia do neocolonialismo \u00e9 que o estado a ele submetido \u00e9 teoricamente independente, possui todas as ins\u00edgnias da soberania no plano internacional. Mas na realidade a sua economia e, consequentemente, a sua pol\u00edtica est\u00e3o manipuladas a partir do exterior [11]\u00bb<\/p>\n<p>Supostamente, a forma de consci\u00eancia nacionalista e o desenvolvimento das lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional aceleram a transi\u00e7\u00e3o de uma forma de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a outra. Mas como o objectivo \u00e9 manter a domina\u00e7\u00e3o, continua a ser necess\u00e1rio justificar uma hierarquiza\u00e7\u00e3o da humanidade. A nova domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica requer uma nova idade do racismo. O racismo culturalista emergir\u00e1 progressivamente como resposta a esta necessidade tornando-se dominante nas d\u00e9cadas que v\u00e3o de 1960 a 1980. Depois j\u00e1 n\u00e3o se trata de o hierarquizar biologicamente, mas sim culturalmente. O especialista e o consultor substituem o colono e o militar. J\u00e1 n\u00e3o se estuda \u00aba desigualdade dos cr\u00e2nios\u00bb mas sim os \u00abtrav\u00f5es culturais ao desenvolvimento\u00bb. Como j\u00e1 n\u00e3o se pode legitimar sobre a base biol\u00f3gica, a hierarquiza\u00e7\u00e3o do ser humano desloca-se na direc\u00e7\u00e3o da cultura atribuindo \u00e0s \u00abculturas\u00bb as mesmas caracter\u00edsticas que antes supostamente especificavam as ra\u00e7as biol\u00f3gicas\u00bb (firmeza, homogeneidade, etc.).<\/p>\n<p>No plano internacional o novo rosto do racismo permite justificar a perman\u00eancia de uma pobreza e de uma mis\u00e9ria populares apesar das independ\u00eancias e das esperan\u00e7as de emancipa\u00e7\u00e3o que ostentam. Como se iludem as novas formas de depend\u00eancia O funcionamento do mercado mundial, o papel da ajuda internacional, o franco CFA, etc.), s\u00f3 ficam como causas explicativas de uns rasgos culturais que supostamente caracterizam os povos das antigas col\u00f3nias: o etnismo, o tribalismo, o cianismo, o gosto pela pompa, gastos sumptuosos, etc. Surge assim toda uma corrente te\u00f3rica denominada \u00abafro-pessimista\u00bb. Stephan Smith considera que \u00aba \u00c1frica n\u00e3o funciona porque continua a estar \u00abbloqueada\u00bb por obst\u00e1culos socioculturais que sacraliza comos os seus gris-gris [amuletos] identit\u00e1rios\u00bb ou at\u00e9 que \u00aba mecanografa, agora com um computador j\u00e1 n\u00e3o tem a fronte manchada com a fita da maquina de escrever \u00e0 for\u00e7a de fazer a sesta em cima dela [12]\u00bb Como um eco, Bernard Lugan responde-lhe que a caridade, a compaix\u00e3o e a toler\u00e2ncia e os direitos humanos s\u00e3o alheios \u00e0s \u00abrela\u00e7\u00f5es africanas ancestrais [13]\u00bb.<\/p>\n<p>No pano nacional o racismo culturalista desempenha a mesma fun\u00e7\u00e3o, no que respeita \u00e0s popula\u00e7\u00f5es oriundas da imigra\u00e7\u00e3o. Explicar culturalmente factos que assinalam as desigualdades sist\u00e9micas de que s\u00e3o vitimas, permite deslegitimar as reivindica\u00e7\u00f5es e as revoltas que suscitam essas desigualdades. O fracasso escolar, a delinqu\u00eancia, a taxa de greves, as descrimina\u00e7\u00f5es, as revoltas dos bairros populares, etc\u2026 j\u00e1 n\u00e3o se explicam por meio de factores sociais e econ\u00f3micos, mas sim por meio de causalidades culturais ou identit\u00e1rias.<\/p>\n<p>2. Capitalismo senil, balcaniza\u00e7\u00e3o e islamofobia<\/p>\n<p>Desde a chamada \u00abglobaliza\u00e7\u00e3o\u00bb o capitalismo enfrenta novas dificuldade estruturais. O aumento constante da competi\u00e7\u00e3o entre as diversas potencias industriais torna imposs\u00edvel a menor estabiliza\u00e7\u00e3o. As crises sucedem-se umas \u00e0s outras sem interrup\u00e7\u00e3o. O soci\u00f3logo Immanuel Wallerstein considera que:<br \/>\n\u00abH\u00e1 trinta anos entramos na fase terminal do capitalismo. O que diferencia fundamentalmente esta fase da sucess\u00e3o ininterrupta de ciclos conjunturais anteriores \u00e9 que o capitalismo j\u00e1 n\u00e3o consegue \u00abfazer sistema\u00bb, no sentido que o f\u00edsico e qu\u00edmico Ilya Prigogine entende (1917-2003): quando um sistema biol\u00f3gico, qu\u00edmico ou social, se desvia demasiado e com demasiada frequ\u00eancia da sua situa\u00e7\u00e3o de estabilidade j\u00e1 n\u00e3o consegue recuperar o equil\u00edbrio e assiste-se ent\u00e3o a uma bifurca\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o torna-se ent\u00e3o ca\u00f3tica, incontrol\u00e1vel para as for\u00e7as que a dominavam at\u00e9 ent\u00e3o [14]\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata simplesmente de uma crise de sobreprodu\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, a recess\u00e3o n\u00e3o prepara nenhuma recupera\u00e7\u00e3o. As crises sucedem-se e encadeiam-se sem qualquer recupera\u00e7\u00e3o, as bolhas financeiras acumulam-se e explodem cada vez com mais regularidade. As flutua\u00e7\u00f5es s\u00e3o cada vez mais ca\u00f3ticas e portanto, imprevis\u00edveis. A consequ\u00eancia disso \u00e9 uma procura do m\u00e1ximo benef\u00edcio a qualquer pre\u00e7o. Nesta competi\u00e7\u00e3o exacerbada em situa\u00e7\u00e3o de instabilidade permanente o controle das fontes de mat\u00e9rias primas \u00e9 um desafio ainda mais importante que no passado. J\u00e1 n\u00e3o se trata apenas de ter acesso para um \u00e0s mat\u00e9rias primas mas sim de impedir que acedam a elas os competidores (e principalmente as economias emergentes: China, Brasil, etc.).<\/p>\n<p>Amea\u00e7ados na sua hegemonia os Estados Unidos respondem por meio da militariza\u00e7\u00e3o e as outras potencias seguem-lhe o exemplo para preservar tamb\u00e9m o juro das suas empresas. \u00abDesde 2001\u00bb afirma o economista Philip S. Golub, \u00abos Estados Unidos empreenderam uma fase de militariza\u00e7\u00e3o e de expans\u00e3o imperial que transformou profundamente a gram\u00e1tica da pol\u00edtica mundial [15]\u00bb. Da \u00c1sia Central ao Golfo P\u00e9rsico, do Afeganist\u00e3o \u00e0 S\u00edria passando pelo Iraque, da Som\u00e1lia ao Mali,0 as guerras seguem a senda dos lugares estrat\u00e9gicos do petr\u00f3leo, do g\u00e1s, dos min\u00e9rios estrat\u00e9gicos. J\u00e1 n\u00e3o se trata de dissuadir os competidores e ou os advers\u00e1rios mas sim levar a cabo \u00abguerras preventivas\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c0 muta\u00e7\u00e3o da base material do capitalismo corresponde uma muta\u00e7\u00e3o das formas da domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O principal objectivo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 instalar governos t\u00edteres que j\u00e1 n\u00e3o conseguem resistir de forma duradoura \u00e0 c\u00f3lera popular, mas sim balcanizar por meio da guerra para fazer com que esses pa\u00edses se tornem ingovern\u00e1veis. Do Afeganist\u00e3o \u00e0 Som\u00e1lia, do Iraque ao Sud\u00e3o o resultado das guerras \u00e9 igual por toda a parte: a destrui\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria base das na\u00e7\u00f5es. O desmoronamento de todas as infra-estruturas que permitem a governabilidade, a instala\u00e7\u00e3o do caos. A partir de agora trata-se de balcanizar as na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Semelhante domina\u00e7\u00e3o necessita de uma nova legitima\u00e7\u00e3o formulada na teoria do choque de civiliza\u00e7\u00f5es. Esta teoria tem a voca\u00e7\u00e3o de suscitar comportamentos de p\u00e2nico e de medo com o objectivo de suscitar uma procura de protec\u00e7\u00e3o e uma aprova\u00e7\u00e3o das guerras. Desde o discurso do terrorismo que requer umas guerras preventivas at\u00e9 \u00e0 teoria da grande substitui\u00e7\u00e3o passando pelas campanhas sobre a islamiza\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses ocidentais e sobre os refugiados vectores de terrorismo, o resultado esperado \u00e9 sempre o mesmo: medo, p\u00e2nico, procura de seguran\u00e7a, legitima\u00e7\u00e3o das guerras, constru\u00e7\u00e3o do mu\u00e7ulmano como o novo inimigo hist\u00f3rico. A islamofobia \u00e9 efectivamente uma verdadeira idade do racismo, que corresponde \u00e0s muta\u00e7\u00f5es de um capitalismo senil. Ou seja, que j\u00e1 nada pode trazer de positivo \u00e0 humanidade, a n\u00e3o ser a guerra, mis\u00e9ria, e a luta de todos contra todos. N\u00e3o existe um choque de civiliza\u00e7\u00f5es mas sim uma crise de civiliza\u00e7\u00e3o imperialista que exige uma verdadeira ruptura. O que tratam de evitar por todos meios n\u00e3o \u00e9 o fim do mundo, \u00e9 o fim do seu mundo.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] Nicolas Sarkozy, discurso de Dacar de 26 de Julho de 2007,<br \/>\nhttp:\/\/www.lemonde.fr\/afrique\/article\/2007\/11\/09\/le-discous-de-dakar 976786 3212 html.<br \/>\n[2] Pierre Singaravelou, Historiadores sem historia? A constru\u00e7\u00e3o da historiografia colonial em Fran\u00e7a sob a Terceira Rep\u00fablica. Actas da Pesquisa em Ci\u00eancias Sociais, n.o 185, 2010\/5, p. 40.<br \/>\n[3] Medhi Bem Barka, Op\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria em Marrocos. Escritos pol\u00edticos 1957-1965, Syllepse, Paris, 1999, pp. 229-230. [N.do Tradutor: Medhi Ben Barka foi um pol\u00edtico marroquino, lutador pela independ\u00eancia e mais tarde dissidente do regime de Hasan II, cofundador dos partidos pol\u00edticos Istiqial e Uni\u00e3o Nacional das For\u00e7as Populares, al\u00e9m de presidente e de secret\u00e1rio da Confer\u00eancia Tricontinental<br \/>\n[4] Frantz Fanonn, Racismo e Cultura\u00bb, Para a Revolu\u00e7\u00e3o Africana, Escritos pol\u00edticos, La Decouverte, Paris, 2001, p. 40.<br \/>\n[5] Samir Amin, \u00abOs sistemas regionais antigos\u00bb, A Historia global, uma perspectiva afro-asi\u00e1tica, edi\u00e7\u00f5es das Indes savantes, Paris, 2013, p. 20.<br \/>\n[6] Eric Williams, Capitalismo e escravatura, Presen\u00e7a Africana, 1968, p. 19.<br \/>\n[7] Youcef Djebari, A Fran\u00e7a na Arg\u00e9lia, a g\u00e9nese do capitalismo, de Estado colonial, Publica\u00e7\u00f5es Universit\u00e1rias, Argel, 1994, p. 25.<br \/>\n[8] Frantz Fanon, Racismo e Cultura, p. cit., p. 45.<br \/>\n[9] Paul Broca, Sobre o volume e a forma do c\u00e9rebro segundo os indiv\u00edduos e segundo as ra\u00e7as, op. cit., p. 15.<br \/>\n[10] Paul Broca, Sobre o volume e a forma do c\u00e9rebro segundo os indiv\u00edduos e segundo as ra\u00e7as, op. cit. P. 5<br \/>\n[11] Kwame Nkrumah, O neocolonialismo, \u00faltimo est\u00e1dio do imperialismo, Presen\u00e7a africana, Paris, 1973, p. 9.<br \/>\n[12) Stephen Smith, Negrologia: Porque morre a Africa, Fayard, Paris, 2012, p. 49 e58.<br \/>\n[13] Bernard Lugan, Deus Aben\u00e7oe a Am\u00e9rica. Contra a morte programada do continente negro, Carnot, Paris, 2003, pp. 141-142.<br \/>\n[14] Immanuel Wallerstein, \u00abO Capitalismo chega ao fim\u00bb, Le Monde, 16 de Dezembro de 2008:<br \/>\nhttp:\/\/www.lemonde.fr\/la-crise-financiere\/article\/2008\/12\/16\/le-capitakisme-touche-a-sa-fin 1105714 1101386.html.<br \/>\n[15] Philip S. Golub, Da mundializa\u00e7\u00e3o ao militarismo: a crise da hegemonia americana, A Contrario, 2004, n.o2, p. 9 traduzido do franc\u00eas por Beatriz Morales Bastos.<\/p>\n<p>Fonte: Investig\u2019Actiom. Mais em: http:\/\/www.investigaction.bet\/es\/colonialismo-neocolonialismo-y-balcanizacion-las-tres-edades-de-una-dominaciom#sthash.0mqA4o1Z.dpuf<\/p>\n<p>*Soci\u00f3logo argelino nascido em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Este texto foi publicado em: http:\/\/www.investigaction.bet\/es\/colinialismo-neocolonialismo-y-balcanizacion-las-tres-edades-de-una-dominacion\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Manuela Antunes<\/p>\n<blockquote data-secret=\"YmXbKLCf4U\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4026\">Pelos Direitos Humanos, pela Justi\u00e7a e pela Paz: levantemos nossa voz com dignidade!<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4026\/embed#?secret=YmXbKLCf4U\" data-secret=\"YmXbKLCf4U\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Pelos Direitos Humanos, pela Justi\u00e7a e pela Paz: levantemos nossa voz com dignidade!&#8221; &#8212; PCB - Partido Comunista Brasileiro\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"As tr\u00eas idades de uma domina\u00e7\u00e3o Said Bouamama* O autor defende que a lista de pa\u00edses destru\u00eddos pela interven\u00e7\u00e3o militar do imperialismo norte-americano \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11394\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-11394","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2XM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11394","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11394"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11394\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11394"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11394"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11394"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}