{"id":1142,"date":"2011-01-21T00:17:57","date_gmt":"2011-01-21T00:17:57","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1142"},"modified":"2011-01-21T00:17:57","modified_gmt":"2011-01-21T00:17:57","slug":"os-povos-turcos-na-aventura-do-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1142","title":{"rendered":"OS POVOS TURCOS NA AVENTURA DO HOMEM"},"content":{"rendered":"\n<p>Conheci Istambul quando me iniciava no of\u00edcio de escrever. Voltei agora, transcorridas quase seis d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Foi um estranho reencontro.<\/p>\n<p>A cidade, quando a descobri, tinha um milh\u00e3o de habitantes; hoje tem mais de 15 milh\u00f5es e \u00e9 uma das maiores megalopolis do planeta. Em 1953 camelos pachorrentos ainda deambulavam por ruelas enlameadas; hoje o aeroporto da antiga Constantinopla \u00e9 um dos mais movimentados da Europa.<\/p>\n<p>Na juventude a Turquia aparecia-me como porta de um Oriente misterioso. Tinha lido os Sete Pilares da Sabedoria de T.E.Lawrence e muita coisa sobre as Cruzadas.<\/p>\n<p>Como a maioria dos jovens da minha gera\u00e7\u00e3o via na Turquia o pa\u00eds dos turcos, que se ocidentalizara no governo de Ataturk ap\u00f3s a desagrega\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Otomano.<\/p>\n<p>A n\u00e9voa da ignor\u00e2ncia tardou a dissipar- se. Foi somente a partir dos anos 70, em viagens pela \u00c1sia Sovi\u00e9tica, que, lentamente, principiei a tomar conhecimento da grande aventura dos povos turcos e da sua contribui\u00e7\u00e3o para o progresso da humanidade.<\/p>\n<p>UMA SAGA ESQUECIDA<\/p>\n<p>Em livros que ent\u00e3o me ofereceram aprendi que o ber\u00e7o das tribos turcas da antiguidade foi a taiga siberiana. Das montanhas da Transbaikalia, do Orkhon e das margens do Selenga, os primeiros turcos come\u00e7aram, muito antes do in\u00edcio da Nossa Era, a descer para o Sul. Nas suas lentas migra\u00e7\u00f5es, trocaram as florestas pelas estepes da actual Mong\u00f3lia, e a\u00ed essas tribos transformaram-se de sedent\u00e1rias em n\u00f3madas criadores de cavalos, bois, camelos e ovelhas.<\/p>\n<p>Mais tarde, entraram pela China e destru\u00edram e fundaram ali imp\u00e9rios. Muitos s\u00e9culos depois, correram para Ocidente e invadiram prov\u00edncias do Imp\u00e9rio Romano, semeando o terror por onde passavam.<\/p>\n<p>Com o passar dos s\u00e9culos, ao disseminarem-se pelo mundo, empurrados por grandes fomes ou ap\u00f3s guerras com vizinhos agressivos, os turcos diferenciaram-se muito e os idiomas das primitivas sociedades tribais evolu\u00edram, distanciando-se.<\/p>\n<p>Mas turc\u00f3fonos eram os Hunos de \u00c1tila; os Heftalitas que invadiram a China, a \u00cdndia e a P\u00e9rsia sass\u00e2nida; os \u00c1varos que chegaram at\u00e9 \u00e0 Hungria; os Uigures, professores dos Mong\u00f3is e criadores de um alfabeto; os primeiros B\u00falgaros; os Mamelucos Eg\u00edpcios.<\/p>\n<p>Turc\u00f3fonos eram os Seljucidas vindos da Sogdiana (actual Uzbequist\u00e3o) que reconquistaram Jerusal\u00e9m aos Cruzados e quase expulsaram Biz\u00e2ncio da \u00c1sia Menor; os Kazhar, os Kiptchak, os Ptechenegos que povoaram as estepes da Ucr\u00e2nia e do Sul da R\u00fassia, povos dos quais descendem dezenas de milh\u00f5es de russos. Os Polovtses, das cr\u00f3nicas medievais russas, eram tamb\u00e9m n\u00f3madas turcos.<\/p>\n<p>Turc\u00f3fonos s\u00e3o os actuais Kazaks, Uzbeques, Kirguizes, Turquemenos, Azeris.<\/p>\n<p>Turcof\u00f3nas eram as tribos Karluk, da Sogdiana, que, aliadas aos \u00e1rabes na cavalgada destes para Oriente, lutaram contra os chineses em Talas, uma batalha que no ano 751 travou definitivamente a avan\u00e7ada da China para o Ocidente.<\/p>\n<p>O finland\u00eas e o est\u00f3nio mergulham as ra\u00edzes nos dialectos turcos falados pelos seus antepassados, vindos da Alta \u00c1sia.<\/p>\n<p>A historiografia europeia desconhece, com poucas excep\u00e7\u00f5es, a grande aventura dos povos turcos ao longo de mais de dois mil\u00e9nios. A grande maioria dos chamados \u00abMong\u00f3is da conquista\u00bb era turca. Mas poucos historiadores, incluindo os \u00e1rabes e iranianos, assinalam nas suas obras que mais de dois ter\u00e7os dos ex\u00e9rcitos dos filhos e netos de Gengis Khan falavam n\u00e3o o mongol, mas l\u00ednguas turcas com ele aparentadas.<\/p>\n<p>A minha gera\u00e7\u00e3o \u00abaprendeu\u00bb no liceu que os turcos eram mu\u00e7ulmanos fan\u00e1ticos quando irromperam na Europa. Nos comp\u00eandios escolares do meu tempo n\u00e3o era minimamente clara a diferen\u00e7a entre \u00e1rabes e turcos. Alguns professores aludiam a choques entre os portugueses e os turcos nos mares da \u00cdndia, mas as referencias eram superficiais, vagas.<\/p>\n<p>Na Espanha, na It\u00e1lia e em Fran\u00e7a o panorama n\u00e3o era muito diferente. A derrota da armada otomana na batalha de Lepanto era celebrada como uma grande vit\u00f3ria da Cristandade contra a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Dos turcos foi durante s\u00e9culos projectada a imagem de gente selvagem e cruel, imagem que o cinema, j\u00e1 na nossa \u00e9poca, contribuiu para levar \u00e0s massas.<\/p>\n<p>Voltaire, entre outros grandes escritores, apresentou Tamerl\u00e3o como dem\u00f3nio com figura humana, um flagelo da humanidade. A personagem desse turco chagatai, o maior conquistador do s\u00e9culo XIV, \u00fanico vencedor dos turcos Otomanos, inspirou gera\u00e7\u00f5es de dramaturgos, poetas e historiadores que o amaldi\u00e7oaram. Foi satanizado em \u00f3peras famosas.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que Tamerl\u00e3o cometeu crimes compar\u00e1veis aos das hordas de Gengis Khan. Mas o autor das chacinas de Isfahan, Damasco e Delhi, entre outras, o turco que ao perseguir as Hordas Mong\u00f3is atrav\u00e9s da R\u00fassia arrasou tudo o que encontrou pela frente, o emir devoto que mandava construir pir\u00e2mides com as cabe\u00e7as dos vencidos, n\u00e3o deixou na historia somente um rasto de viol\u00eancia irracional. Tamerl\u00e3o atraiu a Samarcanda os maiores artistas e s\u00e1bios do Isl\u00e3o asi\u00e1tico e fez dela, na \u00e9poca, a mais bela cidade do mundo mu\u00e7ulmano. Alguns dos seus descendentes foram pr\u00edncipes cultos, que promoveram o chamado renascimento timurida que renovou a arquitectura, a poesia, a pintura, a musica nos pa\u00edses por eles governados. Babur, seu trineto, fundou o Imp\u00e9rio do Gr\u00e3o Mogol na \u00cdndia onde durante dois s\u00e9culos floresceu uma cultura que criou monumentos maravilhosos como o Tahj Mahal de Agra.<\/p>\n<p>Outro ef\u00e9mero imp\u00e9rio turco que os historiadores somente recordam como respons\u00e1vel por hecatombes inesquec\u00edveis teve o seu p\u00f3lo em Ghazni, uma cidade, hoje em ruinas, situada no actual Afeganist\u00e3o. Um sult\u00e3o, Mahmud, nas suas campanhas pelo Norte da \u00cdndia, actuou como um genocida. Mas esse grande b\u00e1rbaro foi uma personalidade contradit\u00f3ria. Ghazni, cujo nome est\u00e1 hoje esquecido, emergiu em poucas d\u00e9cadas como a mais prestigiada metr\u00f3pole cultural do Isl\u00e3o oriental. Admite-se que a sua popula\u00e7\u00e3o rondou o milh\u00e3o de habitantes. No s\u00e9culo XI, nos territ\u00f3rios governados pelos Ghaznividas nasceram, viveram e criaram ci\u00eancia, cultura e beleza alguns dos mais famosos s\u00e1bios e artistas do Isl\u00e3o, entre os quais Al Biruni, etn\u00f3logo, astronomo, matematico; Ferdauci, o autor do poema \u00e9pico X\u00e1 Naama (o livro dos reis), considerado o criador do persa moderno; Sanai, um sufista que foi um precursor de Dante; Ibn Sina, o Avicena, cujo tratado de Medicina foi referencia na Europa durante cinco s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Turco era o X\u00e1 Ismail, o primeiro dos Saf\u00e9vides, a dinastia de mecenas durante a qual a arquitectura e a pintura persas atingiram o apogeu, adquirindo prest\u00edgio mundial.<\/p>\n<p>DO \u00c1RCTICO AO MEDITERRANEO<\/p>\n<p>N\u00e3o esqueci o choque recebido em l974 ao visitar a Republica da Iakutia no grande Norte siberiano. Estava instalado num hotel confort\u00e1vel, mas f\u00f3ra o term\u00f3metro descera a 45 graus negativos. Os Iacutos, pelo aspecto f\u00edsico, traziam-me \u00e0 mem\u00f3ria os inuit da Groenl\u00e2ndia e falavam uma l\u00edngua muito diferente do russo. Alguns n\u00e3o o entendiam. Um jovem traduzia para o meu int\u00e9rprete que vertia para o portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Perguntei que idioma era aquele?<\/p>\n<p>Quando ouvi que se expressavam num dos muitos dialectos turcos da Sib\u00e9ria, a resposta lan\u00e7ou-me numa medita\u00e7\u00e3o inesperada sobre o longo caminho percorrido por antepassados daquela gente, empurrada para o Norte por outros povos turc\u00f3fonos.<\/p>\n<p>Perante o meu espanto, um professor russo que acompanhava a conversa esclareceu que das terras geladas do Estreito de Behring, frente ao Alasca, ao Adri\u00e1tico, numa faixa que atravessa a \u00c1sia e a Europa, continuam a viver comunidades turc\u00f3fonas.<\/p>\n<p>Uma das mais prodigiosas aventuras dos antigos turcos foi a das tribos Oghuz que, saindo no s\u00e9culo XII das margens orientais do C\u00e1spio, vieram em vagarosa caminhada fixar-se na \u00c1sia Menor como vassalas dos emires seljucidas que ent\u00e3o lutavam contra o Imp\u00e9rio Bizantino. Do nome do seu chefe, Othman, ficaram conhecidos como os Otomanos, fundadores de um Imp\u00e9rio gigantesco. Ao longo de duzentos anos foram a primeira pot\u00eancia militar do mundo.<\/p>\n<p>Durante s\u00e9culos, os primitivos turcos permaneceram fi\u00e9is \u00e0 religi\u00e3o animista que os acompanhou nas suas migra\u00e7\u00f5es, da taiga \u00e0s estepes, muito semelhante \u00e0 dos Mong\u00f3is. Acreditavam num deus supremo, Tengri, o c\u00e9u azul, criador do universo e veneravam e temiam for\u00e7as da Natureza.<\/p>\n<p>Era uma religi\u00e3o tolerante aberta \u00e0 compreens\u00e3o das praticadas pelos povos dos pa\u00edses conquistados ou vizinhos. A r\u00e1pida absor\u00e7\u00e3o de culturas muito mais elaboradas do que a das estepes levou os primitivos turcos a assumir grandes religi\u00f5es da antiguidade. Na China tornaram-se budistas na \u00e9poca em que o budismo por algum tempo ali penetrou. Nos o\u00e1sis do Tarim (actual Sinkiang Uigur) aderiram ao manique\u00edsmo. Uma pequena minoria adoptou o cristianismo nestoriano . Os Khazars da R\u00fassia converteram-se ao juda\u00edsmo. Mas foi no primeiro contacto com os \u00e1rabes, sobretudo na Sogdiana (actual Uzbequist\u00e3o), que a avalancha das tribos turcas na sua desloca\u00e7\u00e3o para ocidente fez a op\u00e7\u00e3o religiosa que viria a ter uma grande influ\u00eancia no rumo da Historia.<\/p>\n<p>Em meados do s\u00e9culo VIII, o Califado Ab\u00e1ssida exercia uma soberania nominal sobre uma \u00e1rea enorme, da China ao Egipto, do Indo \u00e0 Sic\u00edlia. A fase de expans\u00e3o findara, iniciava-se a defensiva. Os \u00e1rabes eram poucos, os territ\u00f3rios imensos. As turbulentas tribos turcas forneceram-lhe os soldados de que necessitava. Formid\u00e1veis guerreiros, os turcos tornaram-se a coluna vertebral dos ex\u00e9rcitos do Isl\u00e3o asi\u00e1tico. E aconteceu o inevit\u00e1vel. O poder militar conquistou rapidamente o poder politico. Primeiro na Sogdiana, depois no actual Afeganist\u00e3o, no Ir\u00e3o, no Iraque, no norte islamizado da \u00cdndia surgiram sultanatos turcos. Em Bagdad, o Califa, o chefe religioso, j\u00e1 era uma figura pouco mais do que decorativa, quando os Seljucidas enfrentaram a invas\u00e3o dos Cruzados no s\u00e9culo X.<\/p>\n<p>ERAM POUCOS E DIFERENTES<\/p>\n<p>Os turc\u00f3fonos n\u00e3o constituem uma comunidade de povos etnicamente homog\u00e9nea. Os antigos Kirguizes da Alta \u00c1sia eram louros e de pele clara; a maioria dos Petchenegos, segundo as cr\u00f3nicas russas medievais, tinham os olhos azuis e os cabelos claros; a fisionomia dos Kiptchak tamb\u00e9m n\u00e3o era oriental. O pr\u00edncipe Igor, heroi lend\u00e1rio da R\u00fassia antiga, era um Polovtse e a sua l\u00edngua materna o turco O denominador comum do mundo turco foi o idioma e n\u00e3o a ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Eram muitos os turcos da conquista? N\u00e3o, eram poucos, tal como os visigodos que se estabeleceram em Espanha e os Francos na G\u00e1lia Romana. O historiador Claude Cahen avalia em 300. 000 no m\u00e1ximo o total dos seljucidas que invadiram a \u00c1sia Menor, procedentes do Ir\u00e3o, e ali se fixaram. Muito menos numerosas eram as tribos otomanas que se instalaram no planalto com a concord\u00e2ncia dos Bizantinos.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIII, os turcos constitu\u00edam apenas 10% da popula\u00e7\u00e3o da Anat\u00f3lia, n\u00e3o obstante o poder militar dos sultanatos existentes.<\/p>\n<p>A mesti\u00e7agem foi um processo complexo. Os persas, com raras excep\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se fundiram com os turcos. Na Ge\u00f3rgia e na Arm\u00e9nia ocorreu o mesmo: as popula\u00e7\u00f5es locais n\u00e3o se misturaram com os invasores turcos.<\/p>\n<p>Foi nas regi\u00f5es helenizadas do Imp\u00e9rio Bizantino que a turquiza\u00e7ao das popula\u00e7\u00f5es avan\u00e7ou embora lentamente. Mas no s\u00e9culo XX, mais de um ter\u00e7o dos habitantes da \u00c1sia Menor eram gregos, kurdos, arm\u00e9nios. N\u00e3o exageram os historiadores que identificam na Turquia actual um Estado nac\u00e3o criado e viabilizado pela vontade de um homem.<\/p>\n<p>O FURAC\u00c3O OTOMANO<\/p>\n<p>Os otomanos, de pequena comunidade tribal estabelecida em terras bizantinas transformaram-se rapidamente num Sultanato que alastrou pela \u00c1sia Menor e, ganhando for\u00e7a e prest\u00edgio, constru\u00edram os alicerces de um grande Imp\u00e9rio. Em meados do s\u00e9culo XIV j\u00e1 estavam solidamente implantados no cora\u00e7\u00e3o da Pen\u00ednsula Balc\u00e2nica e infligiram sucessivas e esmagadoras derrotas aos pr\u00edncipes romenos, b\u00falgaros, s\u00e9rvios e h\u00fangaros.<\/p>\n<p>Quando em 1453 Mehmet II, o jovem sult\u00e3o otomano, se apresentou com um grande ex\u00e9rcito perante as muralhas de Constantinopla, a grande cidade era tudo o que restava do Imp\u00e9rio Romano do Oriente.<\/p>\n<p>As pot\u00eancias ocidentais n\u00e3o atenderam aos pungentes apelos de ajuda chegados de Biz\u00e2ncio. As querelas religiosas que tinham separado Roma do Patriarcado Ortodoxo haviam gerado uma seara de \u00f3dios.<\/p>\n<p>Durante mais de um mil\u00e9nio, a orgulhosa Biz\u00e2ncio, filha de Roma e da Gr\u00e9cia, resistira vitoriosamente \u00e0s investidas de godos, celtas, persas, \u00e1rabes, b\u00falgaros, russos. ;Mas os cavaleiros da IV Cruzada, financiados por Veneza, tomaram a cidade por dentro, saquearam os seus pal\u00e1cios igrejas e criaram um ef\u00e9mero imp\u00e9rio Latino.<\/p>\n<p>Restaurado em 1261,o Imp\u00e9rio Bizantino sobreviveu por quase dois s\u00e9culos. Dizia-se que as muralhas de Constantinopla eram inexpugn\u00e1veis. Mas cederam perante a avalancha otomana. No cerco, o sult\u00e3o, para abrir brechas nas muralhas, utilizou os maiores canh\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o fabricados.<\/p>\n<p>Para os historiadores do Ocidente, a queda de Constantinopla foi um acontecimento tr\u00e1gico que assinalou o fim da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Na perspectiva dos mu\u00e7ulmanos, a tomada da cidadela dos crist\u00e3os marcou o inicio da era de ouro do Imp\u00e9rio Otomano. Selim I derrotou os persas, conquistou a S\u00edria, a Palestina e o Egipto e somou o poder religioso ao pol\u00edtico, assumindo-se como herdeiro do Califado. Durante o longo reinado do filho, Solim\u00e3o I, o Magnifico, a expans\u00e3o prosseguiu num ritmo que alarmou as grandes monarquias crist\u00e3s. Os ex\u00e9rcitos otomanos ultrapassaram o Eufrates e o Tigre e as suas esquadras enfrentaram os portugueses nos mares da \u00cdndia. A bandeira do crescente foi hasteada em Tripoli, Tunis , Argel e Budapeste e o Mediterr\u00e2neo, at\u00e9 ao Adri\u00e1tico, tornou-se um lago turco.<\/p>\n<p>A bas\u00edlica de Santa Sofia, transformada em mesquita, foi uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o para os arquitectos otomanos. Istambul no final do s\u00e9culo XVI tinha recuperado o antigo esplendor de Constantinopla e era a maior e mais pr\u00f3spera capital da Europa com uma popula\u00e7\u00e3o que excedia 600 000 habitantes.<\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio tinha uma superf\u00edcie de oito milh\u00f5es de quil\u00f3metros quadrados ( 16 vezes o tamanho da Espanha) e uma popula\u00e7\u00e3o superior a 60 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>Uma nova cultura surgiu de um sincretismo nascido da fus\u00e3o dif\u00edcil da persa, da \u00e1rabe e da bizantina. Na arquitectura, na pintura, na cer\u00e2mica, na tape\u00e7aria, os otomanos inovaram durante dois s\u00e9culos. As grandes mesquitas imperiais, como a Suleimanieh e a Sultanahmet, s\u00e3o obras de arte maravilhosas, patrim\u00f3nio da humanidade.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XVII principiou a decad\u00eancia, lenta, mas irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>Ao terminar a primeira guerra mundial, o Imp\u00e9rio Otomano, derrotado, desapareceu. Os vencedores tomaram conta das Prov\u00edncias \u00c1rabes e a pr\u00f3pria Turquia \u2013 ber\u00e7o e n\u00facleo do Estado imperial multinacional \u2013 ocupada, retalhada e invadida, esteve prestes a desaparecer.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que surgiu um daqueles raros homens que, em situa\u00e7\u00f5es excepcionais, alteram o caminhar dos povos. Mustafa Kemal, o Ataturk, desafiou a l\u00f3gica da Hist\u00f3ria. Pela guerra e pela negocia\u00e7\u00e3o garantiu a continuidade da Turquia. Transformou em realidades concretas o imposs\u00edvel aparente. Expulsou as tropas estrangeiras em quatro anos de guerra, dep\u00f4s o ultimo sult\u00e3o, aboliu o Califado, proclamou a Rep\u00fablica laica, proibiu o vestu\u00e1rio tradicional, atribuiu \u00e0 mulher a igualdade de direitos, adoptou o calend\u00e1rio gregoriano e imp\u00f4s a substitui\u00e7\u00e3o do alfabeto \u00e1rabe pelo latino.<\/p>\n<p>Poucas revolu\u00e7\u00f5es mudaram t\u00e3o profundamente a vida de um povo num espa\u00e7o de tempo t\u00e3o breve. Uma cultura milen\u00e1ria, asi\u00e1tica, oriental, foi anatemizada e reprimida e incentivada a ades\u00e3o a uma cultura ocidental que durante s\u00e9culos aparecera aos turcos otomanos como hostil.<\/p>\n<p>A Turquia sobreviveu, mas a transi\u00e7\u00e3o, traum\u00e1tica, dolorosa, deixou sequelas cujos efeitos continuam a manifestar-se.<\/p>\n<p>Os turcos contempor\u00e2neos sabem que todas as civiliza\u00e7\u00f5es quando morrem n\u00e3o voltam. Mas as sementes ficam e a sua germina\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa e imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>Voltarei ao tema em texto de reflex\u00e3o sobre o meu reencontro com Istambul, uma cidade fascinante, implantada num dos mais belos cen\u00e1rios do mundo.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia, Janeiro de 2011<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Wikipedia\n\n\n\n\n\n\n\n\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1142\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1142","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-iq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1142","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1142"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1142\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1142"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1142"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1142"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}