{"id":11479,"date":"2016-07-03T01:13:39","date_gmt":"2016-07-03T04:13:39","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11479"},"modified":"2016-07-18T18:11:02","modified_gmt":"2016-07-18T21:11:02","slug":"nao-houve-primaveras-nem-foram-arabes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11479","title":{"rendered":"N\u00e3o houve primaveras nem foram \u00e1rabes"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/AUTORESAHMEDBENSAADA.png?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Nordine Azzouz* Entrevista com Ahmed Bensaada<\/p>\n<p>Esta importante entrevista com Ahmed Bensaada, acad\u00e9mico argelino radicado no Canad\u00e1, conhecedor profundo da realidade, desmascara o car\u00e1ter democr\u00e1tico das chamadas \u00abPrimaveras \u00c1rabes\u00bb, a sua origem e verdadeiros objetivos. E pergunta: por que raz\u00e3o as chamadas Primaveras \u00e1rabes deixaram intocadas as antidemocr\u00e1ticas monarquias \u00e1rabes?<!--more--><br \/>\nAutor de dois livros sobre este tema, \u00abArabesco americano\u00bb, em 2011, e Arabesco$, em 2015, Ahmed Bensaada defende e prova que as chamadas \u00abPrimaveras \u00e1rabes\u00bb, nada tiveram de primaveril e muito menos de \u00e1rabe\u2026<\/p>\n<p>Ahmed Bensaada**, universit\u00e1rio argelino vivendo no Canad\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios anos, segue atentamente as mudan\u00e7as e perturba\u00e7\u00f5es no Magrebe e no M\u00e9dio Oriente, \u00e0s quais consagrou v\u00e1rios artigos, col\u00f3quios e confer\u00eancias. Sobre as \u201cprimaveras\u201d \u00e1rabes assumiu desde o in\u00edcio um olhar muito cr\u00edtico, tendo mesmo escrito um livro, Arabesco americano, a que se seguiu h\u00e1 pouco Arabesco$, uma nova edi\u00e7\u00e3o, corrigida e enriquecida, de uma actualidade gritante. Cinco anos depois das \u201cprimaveras \u00e1rabes!<\/p>\n<p>\u2013 <b>Cinco anos s\u00e3o passados desde as chamadas \u201cprimaveras \u00e1rabes\u201d. O balan\u00e7o \u00e9 n\u00e3o muito satisfat\u00f3rio, em muitos dos pa\u00edses envolvidos \u00e9 mesmo catastr\u00f3fico. Porqu\u00ea, em sua opini\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>\u2013 \u201cN\u00e3o muito satisfat\u00f3rio\u201d, diz? Estas perturba\u00e7\u00f5es maiores que o pensamento ocidental precipitada e falaciosamente baptizou como \u201cprimaveras\u201d n\u00e3o geraram sen\u00e3o o caos, a morte, a raiva, o ex\u00edlio e a desola\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios pa\u00edses \u00e1rabes. Seria necess\u00e1rio talvez perguntar aos cidad\u00e3os dos pa\u00edses \u00e1rabes \u201cprimaverados\u201d se a situa\u00e7\u00e3o desastrosa em que eles hoje vivem pode ser qualificada de primaveril.<\/p>\n<p>Os dados s\u00e3o eloquentes. Um estudo recente mostrou que esta funesta esta\u00e7\u00e3o causou, em cinco anos, mais de 1 milh\u00e3o e 400 mil v\u00edtimas (mortos e feridos), \u00e0s quais \u00e9 preciso ajuntar mais de 14 milh\u00f5es de refugiados. Esta \u201cprimavera\u201d custou aos pa\u00edses \u00e1rabes mais de 833 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, dos quais 461 mil milh\u00f5es em infra-estruturas destru\u00eddas e em locais hist\u00f3ricos devastados. Por outro lado, a regi\u00e3o MENA (Middle East and North Africa) perdeu mais de 103 milh\u00f5es de turistas, uma verdadeira calamidade para a sua economia.<\/p>\n<p>Na primeira vers\u00e3o do meu livro, \u201cArabesco americano\u201d (Abril de 2011), pus em evid\u00eancia a inger\u00eancia estrangeira nestas revoltas que tocaram a rua \u00e1rabe, assim como a falta de espontaneidade desses movimentos. Antes destes acontecimentos os pa\u00edses \u00e1rabes estavam num estado efectiva de decrepitude: aus\u00eancia de alternativa pol\u00edtica, desemprego elevado, democracia embrion\u00e1ria, uma vida m\u00e1, direitos fundamentais n\u00e3o respeitados, falta de liberdade de express\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o a todos os n\u00edveis, nepotismo, fuga de c\u00e9rebros, etc.. Tudo \u201cterreno f\u00e9rtil\u201d para a desestabiliza\u00e7\u00e3o. Mas embora as reivindica\u00e7\u00f5es da rua \u00e1rabe sejam reais, as pesquisas realizadas mostraram que os jovens manifestantes e ciberactivistas \u00e1rabes eram formados e financiados por organismos americanos especializados na \u201cexporta\u00e7\u00e3o\u201d da democracia, tais como a USAID, a NED, a Freedom House ou a Open Society do multimilion\u00e1rio George Soros. E tudo isso antes da imola\u00e7\u00e3o pelo fogo de Mohamed Bouazizi.<\/p>\n<p>Esses manifestantes, que paralisaram as cidades \u00e1rabes e que expulsaram os velhos autocratas \u00e1rabes instalados no poder h\u00e1 dec\u00e9nios, representavam uma juventude cheia de arrebatamento e de promessas.<\/p>\n<p>Uma juventude instru\u00edda, manejando com brio as t\u00e9cnicas da resist\u00eancia n\u00e3o-violenta e com slogans incisivos. Essas mesmas t\u00e9cnicas que foram teorizadas pelo fil\u00f3sofo americano Gene Sharp e postas em pr\u00e1tica pelos activistas s\u00e9rvios do Otpor nas revolu\u00e7\u00f5es coloridas do Leste da Europa. T\u00e9cnicas ensinadas aos jovens manifestantes \u00e1rabes pelos fundadores do Otpor, no seu centro CANVAS (Center for Applied Non Violent Action and Strategies), especialmente concebido para forma\u00e7\u00e3o de dissidentes.<\/p>\n<p>Uma juventude viciada em novas tecnologias, cujos l\u00edderes foram seleccionados, formados, organizados em rede, e apoiados pelos gigantes americanos da Net por interm\u00e9dio de organismos americanos como a AYM (Alliance of Youth Movements).<\/p>\n<p>Mas, tal como os activistas das \u201crevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u201d [1], os ciberdissidentes \u00e1rabes foram treinados apenas para decapitar os regimes. Eles s\u00e3o \u201ccomandados\u201d \u2013 provavelmente sem o saberem \u2013 para levar a cabo a queda do topo da pir\u00e2mide do poder. Mas n\u00e3o t\u00eam nenhuma interfer\u00eancia na marcha dos acontecimentos que se seguem depois de os autocratas serem expulsos e provocarem o vazio no poder. N\u00e3o t\u00eam nenhuma aptid\u00e3o pol\u00edtica para concretizar a transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica que deveria seguir-se a essa mudan\u00e7a maior.<\/p>\n<p>Num artigo sobre as \u201crevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u201d, escrito em 2007 pelo jornalista Hernando Calvo Ospina nas colunas do Le Monde Diplomatique, pode ler-se: \u201cA dist\u00e2ncia entre governantes e governados facilita a tarefa da NED [2] e da sua rede de organiza\u00e7\u00f5es, que fabricam milhares de \u2018dissidentes\u2019 gra\u00e7as aos d\u00f3lares e \u00e0 propaganda. Uma vez alcan\u00e7ada a mudan\u00e7a, a maior parte desses \u2018dissidentes\u2019 e das suas organiza\u00e7\u00f5es de todo o g\u00e9nero, desaparecem da circula\u00e7\u00e3o, sem honra nem gl\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Assim, quando o papel atribu\u00eddo aos ciberactivistas termina, s\u00e3o as for\u00e7as pol\u00edticas locais, contr\u00e1rias a qualquer mudan\u00e7a profunda, que ocupam o vazio criado pelo desaparecimento do antigo poder. No caso da Tun\u00edsia e do Egipto, foram os movimentos islamistas que, num primeiro momento, aproveitaram a situa\u00e7\u00e3o, evidentemente ajudados pelos seus aliados, como os Estados Unidos, certos pa\u00edses ocidentais e \u00e1rabes e a Turquia, que devia servir de modelo.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que esta \u201cprimavera\u201d n\u00e3o tem nada a ver com os slogans corajosamente entoados pelos jovens ciberactivistas nas ruas \u00e1rabes e o abuso da palavra democracia n\u00e3o passa de uma armadilha. De facto, como n\u00e3o colocar s\u00e9rias interroga\u00e7\u00f5es sobre esta \u201cprimavera\u201d quando se sabe que os \u00fanicos pa\u00edses que sofreram esta esta\u00e7\u00e3o foram rep\u00fablicas? Ser\u00e1 por mero acaso que nenhuma monarquia \u00e1rabe tenha sido atingida por este tsunami \u201cprimaveril\u201d, como se esses pa\u00edses fossem santu\u00e1rios da democracia, da liberdade e dos direitos humanos?<\/p>\n<p>A \u00fanica tentativa de subleva\u00e7\u00e3o anti-mon\u00e1rquica, a do Bahrein, foi violentamente sufocada pela colabora\u00e7\u00e3o militar do Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Golfo (CCG), o sil\u00eancio c\u00famplice dos media dominantes e a coniv\u00eancia de certos pol\u00edticos, sempre t\u00e3o loquazes quando acontecimentos an\u00e1logos tocaram certas rep\u00fablicas \u00e1rabes.<\/p>\n<p>Estas \u201cprimaveras\u201d visam desestabilizar pa\u00edses \u00e1rabes bem identificados num quadro geopol\u00edtico muito mais vasto, certamente o \u201cGrande M\u00e9dio Oriente\u201d. Esta doutrina preconiza a reformula\u00e7\u00e3o das fronteiras de uma regi\u00e3o geogr\u00e1fica reagrupando os pa\u00edses \u00e1rabes e certos pa\u00edses da vizinhan\u00e7a, pondo assim fim \u00e0s fronteiras herdadas dos acordos Sykes-Picot. Embora lan\u00e7ado sob a lideran\u00e7a do presidente G. W. Bush e dos seus falc\u00f5es neoconservadores, este projecto inspira-se numa ideia teorizada em 1982 por Oded Yinon, um alto funcion\u00e1rio do minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros israelita. O \u201cPlano Yinon\u201d, como \u00e9 originalmente chamado, tinha o objectivo de \u201cdesfazer todos os estados \u00e1rabes existentes e reorganizar o conjunto da regi\u00e3o em pequenas entidades fr\u00e1geis, male\u00e1veis e incapazes de enfrentar os israelitas\u201d.<\/p>\n<p>E essa divis\u00e3o est\u00e1 infelizmente em curso\u2026<\/p>\n<p>\u2013 <b>Neste quadro, ainda assim a Tun\u00edsia \u00e9 uma excep\u00e7\u00e3o. Como explica isso?<\/b><\/p>\n<p>\u2013 Comparativamente com a L\u00edbia, a S\u00edria ou o I\u00e9men, a situa\u00e7\u00e3o na Tun\u00edsia pode parecer interessante. Mas de facto a Tun\u00edsia n\u00e3o representa um modelo conseguido como nos querem fazer crer os media dominantes. E n\u00e3o \u00e9 o Pr\u00e9mio Nobel da Paz recentemente outorgado \u00e0 Tun\u00edsia que muda o que quer que seja. Quando se v\u00ea a quem foi atribu\u00eddo nestes \u00faltimos anos, pergunta-se para que serve este pr\u00e9mio. E os tunisinos, que vivem h\u00e1 cinco anos a \u201cprimaveriza\u00e7\u00e3o\u201d do seu pa\u00eds, conhecem bem este assunto. Comentando este quinto anivers\u00e1rio, alguns bloggers n\u00e3o estiveram com meias medidas. \u201c\u00danico pa\u00eds democr\u00e1tico do Magrebe+Pr\u00e9mio Nobel, tudo o resto \u00e9 pior do que o per\u00edodo ZABA (Zine el-Abidine Ben Ali)\u201d. Ou ent\u00e3o, com uma ponta de humor: \u201cInjusti\u00e7a social, tortura, impunidade, estamos nas tintas, temos o Pr\u00e9mio Nobel\u201d.<\/p>\n<p>Numa recente entrevista ao Figaro, um meu amigo tunisino, o fil\u00f3sofo Mezri Haddad, declarou: \u201cEm toda a parte \u2013 incluindo na Tun\u00edsia, que se apresenta como o paradigma revolucion\u00e1rio bom, e o pa\u00eds a que se atribuiu o Pr\u00e9mio Nobel da Paz em vez de perdoar a d\u00edvida externa que se tornou vertiginosa em menos de cinco anos e apoiar a sua economia hoje agonizante \u2013 a \u2018Primavera \u00e1rabe\u2019 destruiu mais do que construiu\u201d. Antes de acrescentar: \u201cDepois de 2011, a Tun\u00edsia tornou-se o primeiro pa\u00eds exportador de m\u00e3o-de-obra isl\u00e2mica-terrorista tanto para a L\u00edbia como para a S\u00edria. Os relat\u00f3rios das Na\u00e7\u00f5es Unidas s\u00e3o esmagadores para o tunisino que sou. O autor do \u00faltimo atentado suicida em Zliten, na L\u00edbia, \u00e9 um tunisino, como o que atacou a mesquita de Val\u00eancia ou o que acaba de ser abatido diante do comissariado de pol\u00edcia do 18.\u00ba distrito de Paris\u201d.<\/p>\n<p>Com efeito, a Tun\u00edsia ainda \u00e9, de longe, o maior fornecedor de jihadistas do Estado Isl\u00e2mico na S\u00edria. Triste recorde para um pa\u00eds que quer passar pela excep\u00e7\u00e3o que justifica a terminologia primaveril. E tudo isso sem contar os assass\u00ednios pol\u00edticos, os atentados terroristas cegos que enlutaram o pa\u00eds e as s\u00f3rdidas hist\u00f3rias de \u201cjihad al-nikah\u201d, popularizada pelos jovens tunisinos radicalizados.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 a mudan\u00e7a da fam\u00edlia do Goncourt para o Museu do Bardo, ainda marcado pelos estigmas do atentado de 18 de Mar\u00e7o de 2015, que dar\u00e1 \u00e0 Tun\u00edsia o r\u00f3tulo de um pa\u00eds que conseguiu a sua transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Este \u201cempurr\u00e3o\u201d franc\u00eas n\u00e3o apagar\u00e1 de maneira nenhuma o lapso da ministra francesa Mich\u00e8le Alliot-Marie que ofereceu o saber-fazer franc\u00eas \u00e0 pol\u00edcia de Ben Ali para \u201cresolver situa\u00e7\u00f5es securit\u00e1rias\u201d e p\u00f4r fim \u00e0 impertin\u00eancia dos manifestantes que tinham invadido a Avenida Bourguiba.<\/p>\n<p>Estes manifestantes que arvoravam a sua juventude como bandeira de um futuro radioso, o que pensam da idade dos \u201cdinossauros pol\u00edticos\u201d actuais depois de terem afastado o presidente Ben Ali? Vejam s\u00f3: Moncef Marzouki (71 anos), Rached Ghannouchi (75 anos) e, sobretudo, o presidente actual, B\u00e9ji Caid Essebsi (90 anos).<\/p>\n<p>Podem aqueles manifestantes acreditar realmente que uma revolta fundamentalmente jovem, qualificada de \u201cfacebookiana\u201d, possa ser representada por gerontocratas, velhos caciques de regimes odiados, islamistas belicosos ou pelos que confundem o interesse do pa\u00eds com o interesse supranacional, da sua confraria?<\/p>\n<p>Pensavam eles que um dia uma lei eleitoral seria aprovada para reabilitar os antigos apoiantes de Ben Ali, contra quem combateram com determina\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Teriam eles imaginado que, cinco anos depois da partida de Ben Ali, um jovem diplomado tunisino, Ridha Yahyaoui, se mataria em Kasserine para protestar contra o favoritismo na admiss\u00e3o para um emprego, flagelo que eles tinham denunciado e contra o qual se tinham batido? E que os dist\u00farbios que se seguiram a este drama seriam t\u00e3o duramente reprimidos?<\/p>\n<p>O que houve de t\u00e3o positivo nesta \u201cPrimavera\u201d tunisina se, cinco anos passados, Yahyaoui pelas mesmas raz\u00f5es imita Bouazizi?<\/p>\n<p>\u2013 <b>Na sua opini\u00e3o que diferen\u00e7as h\u00e1 nas realidades actuais de pa\u00edses como a S\u00edria ou a L\u00edbia, se tivermos em conta que este \u00faltimo pa\u00eds tanto diz \u00e0 Tun\u00edsia, dada a sua proximidade?<\/b><\/p>\n<p>\u2013 A guerra civil que devasta actualmente a S\u00edria tem curiosas similitudes com a que prevaleceu na L\u00edbia: a) o epicentro inicial da revolta s\u00edria n\u00e3o se encontrava na capital mas numa regi\u00e3o fronteiri\u00e7a (contrariamente ao que aconteceu na Tun\u00edsia e no Egipto); b) uma \u201cnova antiga\u201d bandeira apareceu com estandarte dos insurrectos; c) a fase n\u00e3o-violenta da revolta foi muito curta; d) a implica\u00e7\u00e3o militar estrangeira (directa ou indirecta) rapidamente transformou os tumultos n\u00e3o-violentos numa sangrenta guerra civil. Com efeito, quando a teoria de Gene Sharp [3] n\u00e3o funciona e os ensinamentos da CANVAS n\u00e3o d\u00e3o frutos, como nos casos da L\u00edbia e da S\u00edria, as manifesta\u00e7\u00f5es transformam-se muito rapidamente numa guerra civil. Esta metamorfose ocorre gra\u00e7as a uma ostensiva inger\u00eancia estrangeira dos pa\u00edses antes referidos, atrav\u00e9s da NATO no caso da L\u00edbia, ou de coliga\u00e7\u00f5es heter\u00f3clitas como sucedeu na S\u00edria).<\/p>\n<p>Assim, ajudados pelos seus aliados \u00e1rabes e regionais, os pa\u00edses ocidentais podem passar, sem quaisquer problemas de consci\u00eancia, duma abordagem n\u00e3o-violenta \u00e0 Gene Sharp a uma guerra mort\u00edfera e sangrenta onde correm rios de sangue \u00e1rabe.<\/p>\n<p>A ef\u00e9mera fase sharpiana de manifesta\u00e7\u00f5es populares foi mesmo utilizada para justificar a interven\u00e7\u00e3o militar da NATO na L\u00edbia ou da coliga\u00e7\u00e3o anti-Bachar na S\u00edria. A resolu\u00e7\u00e3o 1973 da ONU que permitiu a destrui\u00e7\u00e3o da L\u00edbia foi justificada pela falsa acusa\u00e7\u00e3o que as for\u00e7as leais a Kadhafi tinham feito entre a popula\u00e7\u00e3o civil, pelo menos 6.000 mortos. Na verdade, numerosos pa\u00edses entenderam que os Estados Unidos, a Fran\u00e7a, a Gr\u00e3-Bretanha e seus aliados deturparam e abusaram desta resolu\u00e7\u00e3o permitindo \u00e0 NATO violar o mandato do Conselho de Seguran\u00e7a. Tendo em conta \u00aba li\u00e7\u00e3o da Resolu\u00e7\u00e3o 1973\u00bb pa\u00edses como a R\u00fassia e a China op\u00f5em-se hoje a uma resolu\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas de condena\u00e7\u00e3o da S\u00edria ou do seu presidente, Bachar al-Assad. Se n\u00e3o fosse isso, os media de dominantes de todo o mundo ter-nos-iam mostrado imagens do presidente Bachar com o cora\u00e7\u00e3o ou a cabe\u00e7a arrancados pelos especialistas jihadistas no assunto que pululam na S\u00edria gra\u00e7as \u00e0 activa colabora\u00e7\u00e3o dos ocidentais e dos seus aliados.<\/p>\n<p>Acrescente-se que o estudo dos e-mails da senhora Hillary Clinton mostrou que as motiva\u00e7\u00f5es para eliminar Kadhafi nada tinham a ver com qualquer democratiza\u00e7\u00e3o da L\u00edbia, mas sim com interesses estrat\u00e9gicos, econ\u00f3micos, pol\u00edticos, e do ouro de um tesouro famoso. O mesmo se pode dizer em rela\u00e7\u00e3o ao presidente s\u00edrio.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m interessante notar que investiga\u00e7\u00f5es muito s\u00e9rias realizadas por especialistas americanos mostraram que a guerra na L\u00edbia n\u00e3o era necess\u00e1ria, que ela podia ter sido evitada se essa fosse a vontade dos Estados Unidos. Mostraram tamb\u00e9m que a administra\u00e7\u00e3o americana possibilitou o fornecimento de armas e apoio militar a grupos ligados \u00e0 Al-Qaida.<\/p>\n<p>Por outro lado, o contra-almirante americano Charles R. Kubic, na reforma, revelou que Kadhafi estava disposto a abandonar a L\u00edbia e permitir o estabelecimento de um governo de transi\u00e7\u00e3o, sob duas condi\u00e7\u00f5es: assegurar que ap\u00f3s a sua sa\u00edda permanecesse uma for\u00e7a militar para expulsar a Al-Qaida; e a concess\u00e3o de um livre-tr\u00e2nsito e o levantamento das san\u00e7\u00f5es contra ele, a sua fam\u00edlia e os seus colaboradores mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Por seu turno, o antigo presidente da Finl\u00e2ndia (1994-2000) e Pr\u00e9mio Nobel da Paz (2008), Martti Ahtisaari, disse ter sido mandatado pela administra\u00e7\u00e3o russa, no come\u00e7o do ano de 2012, para encontrar uma solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica para o conflito s\u00edrio.<\/p>\n<p>O plano da resolu\u00e7\u00e3o do conflito s\u00edrio proposto aos representantes dos cinco pa\u00edses membros permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas compreendia tr\u00eas pontos:<br \/>\n1) n\u00e3o armar a oposi\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>2) organizar o di\u00e1logo entre a oposi\u00e7\u00e3o e Bachar al-Assad;<\/p>\n<p>3) permitir uma retirada digna de Bachar al-Assad.<\/p>\n<p>Segundo Marti Ahtisaari, nada foi feito ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o desta proposta aos representantes americano, brit\u00e2nico e franc\u00eas.<\/p>\n<p>Parece claro que o objectivo desta \u201cPrimavera\u201d n\u00e3o tem nada a ver com a democracia e os direitos humanos na L\u00edbia e na S\u00edria ou M\u00e9dio Oriente e Norte de \u00c1frica, mas sim com a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos presidentes Kadhafi e Bachar al-Assad, que permite destruir estes dois pa\u00edses, liquidar milhares de \u00e1rabes, e financiar jihadistas comedores de cora\u00e7\u00f5es e degoladores.<\/p>\n<p>Nos casos l\u00edbio e s\u00edrio, o que chamam \u201cprimaveras\u201d s\u00e3o exemplos pedag\u00f3gicos de guerras civis fomentadas a partir do estrangeiro sob a capa de direitos humanos e humanismo.<\/p>\n<p>Actualmente, estes dois pa\u00edses s\u00e3o terras de instabilidade geopol\u00edtica, covis de jihadistas daechianos abertamente financiados por pa\u00edses ocidentais, pa\u00edses \u00e1rabes e pot\u00eancias regionais [3].<\/p>\n<p>No quadro desta forte turbul\u00eancia pol\u00edtica e de agressiva inger\u00eancia estrangeira, a Arg\u00e9lia foi e continua a ser um dos principais alvos. Lembremos que jovens argelinos tamb\u00e9m participaram em forma\u00e7\u00f5es de s\u00e9rvios da CANVAS e que numerosos pa\u00edses apostaram na \u201cprimaveriza\u00e7\u00e3o\u201d (violenta ou n\u00e3o) da Arg\u00e9lia. As m\u00e1s recorda\u00e7\u00f5es do dec\u00e9nio negro e a efemeridade da CNCD (Coordena\u00e7\u00e3o Nacional para a Mudan\u00e7a e a Democracia) for\u00e7aram uma decis\u00e3o diferente.<\/p>\n<p>Hoje, a situa\u00e7\u00e3o l\u00edbia \u00e9 evidentemente muito preocupante para a seguran\u00e7a e estabilidade da Arg\u00e9lia. Alguns observadores calculam que haja 300 grupos de mil\u00edcias armadas na L\u00edbia e notam que elas est\u00e3o fortemente ligadas \u00e0s suas cong\u00e9neres tunisinas. De facto, segundo um relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o de Neg\u00f3cios Estrangeiros da Assembleia Nacional Francesa, datado de Novembro de 2015, \u201co conjunto de atentados recentes na Tun\u00edsia foram organizados e planificados a partir da L\u00edbia\u201d.<\/p>\n<p>Contrariamente \u00e0s declara\u00e7\u00f5es belicosas e mal-intencionadas de Nicolas Sarkozy \u2013 um dos maiores respons\u00e1veis pela destrui\u00e7\u00e3o da L\u00edbia \u2013, deveria ser a Arg\u00e9lia a lamentar-se da sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica fronteiri\u00e7a com a Tun\u00edsia e a L\u00edbia. Isso \u00e9 tanto mais verdade quanto \u00e9 certo que a colabora\u00e7\u00e3o entre o Daech na L\u00edbia e os movimentos terroristas do Sahel \u00e9 cada vez mais evidente, o que d\u00e1 ainda mais raz\u00f5es \u00e0 Arg\u00e9lia para tornar seguro o sul do pa\u00eds.<\/p>\n<p>V\u00ea-se bemque mesmo que a Arg\u00e9lia n\u00e3o tenha sido tocada directamente por esta l\u00fagubre esta\u00e7\u00e3o, a \u201cprimaveriza\u00e7\u00e3o\u201d a que foram sujeitos os seus vizinhos coloca-lhe enormes desafios.<\/p>\n<p>\u2013 <b>No seu livro Arabesque$, de que acaba de aparecer uma nova edi\u00e7\u00e3o revista e enriquecida, a tese que defende \u00e9 a de uma grande implica\u00e7\u00e3o e de uma grande responsabilidade dos Estados Unidos nas \u201cprimaveras \u00e1rabes\u201d, um envolvimento norte-americano que classifica, nada mais, nada menos, como opera\u00e7\u00f5es de desestabiliza\u00e7\u00e3o de Estados e de regimes instalados no mundo \u00e1rabe. At\u00e9 que ponto continua a defender esta an\u00e1lise?<\/b><\/p>\n<p>\u2013 Quando a primeira vers\u00e3o do meu livro intitulado Arabesco americano, foi publicada, em Abril de 2011, ela foi acolhida com muito cepticismo porque a tese que ali era desenvolvida opunha-se \u00e0 euforia \u201cprimaveril\u201d dominante e introduzia uma nota discordante no unanimismo inebriante. Esta benevol\u00eancia face a uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d \u00e1rabe imaculada, orquestrada por uma bela juventude instru\u00edda e impetuosa, n\u00e3o devia em nenhuma circunst\u00e2ncia ser manchada por acusa\u00e7\u00f5es que, de toda a maneira, n\u00e3o podiam ser sen\u00e3o caluniosas. Este discurso foi repetido pelos media dominantes e por numerosos especialistas \u201ccat\u00f3dicos\u201d, dos quais subsistem ainda alguns esp\u00e9cimes recalcitrantes.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer que opor-se ao romantismo revolucion\u00e1rio no seu auge, algumas semanas apenas depois da queda de Ben Ali e de Moubarak, relevava certamente de uma inconsci\u00eancia temer\u00e1ria.<\/p>\n<p>Contudo, a tese apresentada neste livro \u2013 que inclui mais de 260 refer\u00eancias facilmente comprov\u00e1veis \u2013 foi meticulosamente elaborada gra\u00e7as \u00e0 an\u00e1lise de numerosos livros, documentos oficiais, relat\u00f3rios de actividades, telegramas Wikileaks, etc..<\/p>\n<p>\u00c9 claro que n\u00e3o foram os Estados Unidos que provocaram a \u201cPrimavera\u201d \u00e1rabe. Como foi explicado antes, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e s\u00f3cio-econ\u00f3mica dos pa\u00edses \u00e1rabes \u00e9 um terreno f\u00e9rtil para a dissid\u00eancia e a revolta. Contudo, a implica\u00e7\u00e3o americana no processo n\u00e3o \u00e9 in\u00f3cua, longe disso. Confirmam-no o papel primordial dos organismos especializados na \u201cexporta\u00e7\u00e3o\u201d da democracia e maioritariamente subvencionados pelo governo americano, as forma\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas sobre a resist\u00eancia n\u00e3o-violenta dadas pela CANVAS, a constitui\u00e7\u00e3o de uma \u201cliga \u00e1rabe da Net\u201d dominando as novas tecnologias, a elabora\u00e7\u00e3o de ferramentas de navega\u00e7\u00e3o an\u00f3nima distribu\u00eddas gratuitamente aos ciberactivistas, a estreita colabora\u00e7\u00e3o entre os ciberdissidentes e as embaixadas norte-americanas nos pa\u00edses \u00e1rabes, as enormes somas investidas, o envolvimento militar e as manobras diplom\u00e1ticas a alto n\u00edvel. E como a pol\u00edtica externa dos Estados Unidos nunca foi um modelo de filantropia, \u00e9 preciso reconhecer a evid\u00eancia de que os americanos influenciaram fortemente o curso dos acontecimentos. N\u00e3o se pode esquecer que todas estas ac\u00e7\u00f5es foram empreendidas durante anos, antes do come\u00e7o da \u201cPrimavera\u201d \u00e1rabe.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o tempo avan\u00e7ava, a natureza p\u00e9rfida destas \u201crevolu\u00e7\u00f5es\u201d foi revelada, as l\u00ednguas soltaram-se e novos documentos apareceram. Nada do a partir de ent\u00e3o apareceu desmente a minha tese, pelo contr\u00e1rio ela foi amplamente confirmada. Foi isso que justificou a redac\u00e7\u00e3o de uma nova vers\u00e3o do livro, intitulada Arabesco$ \u2013 Inqu\u00e9rito sobre o papel dos Estados Unidos nas revoltas \u00e1rabes, editada em Setembro de 2015. Em compara\u00e7\u00e3o com a obra anterior, o novo livro inclui mais de 600 documentos e o n\u00famero de p\u00e1ginas quase triplicou. Entre outros documentos expl\u00edcitos, citemos, por exemplo, o estudo realizado em 2008 pela corpora\u00e7\u00e3o RAND (gabinete de estudos do Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos), que serviu de fundamento \u00e0 pol\u00edtica americana de \u201cexporta\u00e7\u00e3o\u201d da democracia para os pa\u00edses \u00e1rabes, baseada na forma\u00e7\u00e3o, apoio e organiza\u00e7\u00e3o em rede de activistas provenientes desses pa\u00edses.<\/p>\n<p>Um outro documento merece tamb\u00e9m ser mencionado. Trata-se de um relat\u00f3rio sa\u00eddo do Departamento de Estado americano, redigido em 2010 e obtido em 2014 gra\u00e7as \u00e0 lei para a liberdade de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse relat\u00f3rio explica claramente \u201ca estrutura elaborada de programas do Departamento de Estado visando criar organiza\u00e7\u00f5es da \u2018sociedade civil\u2019, em particular as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais (ONG), para modificar a pol\u00edtica interna dos pa\u00edses seleccionados a favor da pol\u00edtica estrangeira dos Estados Unidos e dos seus objectivos de seguran\u00e7a nacional\u201d. Utilizando uma linguagem diplom\u00e1tica, o documento precisa que o objectivo \u00e9 \u201ca promo\u00e7\u00e3o e a monitoriza\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as pol\u00edticas nos pa\u00edses alvos\u201d.<\/p>\n<p>A implica\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos na \u201cPrimavera\u201d \u00e1rabe n\u00e3o \u00e9 uma especula\u00e7\u00e3o intelectual. A sua exist\u00eancia \u00e9 abertamente reconhecida pela pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o americana. \u00c9 o que explico pormenorizadamente no livro Arabesco$.<br \/>\n<b><br \/>\n\u2013 Partilha a ideia de que as \u201cprimaveras \u00e1rabes\u201d acabaram? Que cen\u00e1rios poss\u00edveis prev\u00ea, sobretudo para a L\u00edbia, pa\u00eds em que os actores n\u00e3o conseguem entender-se sobre uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica promovida por uma j\u00e1 prevista interven\u00e7\u00e3o militar europeia?<\/b><\/p>\n<p>\u2013 Que se diga: a \u201cPrimavera\u201d \u00e1rabe nunca foi uma Primavera, se tivermos em conta as consequ\u00eancias desastrosas para as popula\u00e7\u00f5es, nem intrinsecamente \u00e1rabe, porque os movimentos de contesta\u00e7\u00e3o foram infiltrados decisivamente por organismos estrangeiros, nomeadamente estadounidenses.<\/p>\n<p>O processo de \u201cprimaveriza\u00e7\u00e3o\u201d do mundo \u00e1rabe chega ao fim? Certamente.<\/p>\n<p>Os povos \u00e1rabes n\u00e3o s\u00e3o cegos. Os exemplos da selvagem destrui\u00e7\u00e3o da L\u00edbia, da S\u00edria e do I\u00e9men s\u00e3o suficientes para convencer mesmo os mais renitentes.<\/p>\n<p>O mundo \u00e1rabe tem imperativamente necessidade de fazer enormes transforma\u00e7\u00f5es em diferentes dom\u00ednios da sociedade; pol\u00edtico, s\u00f3cio-econ\u00f3mico, cultural, de liberdade de express\u00e3o, dos direitos humanos, etc.. Mas para realizar estas mudan\u00e7as \u00e9 preciso destrui os pa\u00edses e fomentar o ressurgimento de pr\u00e1ticas medievais, de semear a morte, o \u00f3dio e a desola\u00e7\u00e3o? \u00c9 evidente que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, estas mudan\u00e7as de forma alguma devem obedecer ou beneficiar agendas estrangeiras; os pa\u00edses \u00e1rabes n\u00e3o devem agir de modo que as suas terras se tornem o campo de jogo das pot\u00eancias, no qual se travem guerras \u201clow cost\u201d, onde s\u00f3 sangue \u00e9 derramado.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da S\u00edria, na medida em que este pa\u00eds \u00e9 actualmente o cen\u00e1rio de confrontos (directos e indirectos) de numerosos beligerantes, cada um tendo as suas pr\u00f3prias agendas e ambi\u00e7\u00f5es, distantes das dos s\u00edrios.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 L\u00edbia, qualquer nova interven\u00e7\u00e3o militar ocidental neste pa\u00eds corre o risco de provocar consequ\u00eancias indesej\u00e1veis no territ\u00f3rio argelino. \u00c9 por esta raz\u00e3o que a Arg\u00e9lia se op\u00f5e firmemente a tal eventualidade e n\u00e3o exclui nenhum esfor\u00e7o para encontrar uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para o conflito e fazer sentar-se \u00e0 volta da mesma mesa as diferentes fac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Apenas permitindo aos cidad\u00e3os de um pa\u00eds discutir em conjunto, de boa-f\u00e9, tendo em conta os seus interesses nacionais e n\u00e3o os de outros pa\u00edses, o mundo \u00e1rabe conseguir\u00e1 sair da situa\u00e7\u00e3o de decad\u00eancia para onde foi empurrado.<\/p>\n<p><i>Notas do tradutor:<br \/>\n[1] Movimentos ocorridos a partir de 2000 em alguns pa\u00edses sa\u00eddos do desmembramento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e que em geral substitu\u00edram os regimes pr\u00f3-russos por governos pr\u00f3-ocidentais. Como por exemplo a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Rosa\u201d, na Ge\u00f3rgia (2003), a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Laranja\u201d, na Ucr\u00e2nia (2004) ou a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o das Tulipas\u201d, no Quirguist\u00e3o (2005). Esses e outros golpes de estado, mais contra-revolu\u00e7\u00f5es do que revolu\u00e7\u00f5es, quer tenham tido \u00eaxito ou n\u00e3o, foram apoiados pelos Estados Unidos e seus aliados locais.<br \/>\n[2] NED \u2013 National Endowment for Democracy, organiza\u00e7\u00e3o privada norte-americana, criada em 1983 (entre outros, pelo presidente Ronald Reagan), com o apoio financeiro do Congresso dos EUA e de ag\u00eancias governamentais como a USAID, com o objectivo de \u201cfortalecer as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas em todo o mundo\u201d. A NED \u00e9 suspeita de ser um instrumento da CIA, n\u00e3o de promo\u00e7\u00e3o mas de subvers\u00e3o da democracia, e para tal financia organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais (ONG) e grupos \u201cpr\u00f3-democracia\u201d em mais de 90 pa\u00edses.<br \/>\n[3] Sharp, importa recordar, \u00e9 um acad\u00e9mico norte-americano, acusado de estar ligado \u00e0 CIA, autor de um muito difundido livro (Da ditadura \u00e0 democracia) sobre as t\u00e9cnicas e os meios \u201cpac\u00edficos\u201d de se chegar \u00e0 \u201cdemocracia\u201d, um aut\u00eantico manual de golpes de estado suaves, cujas recomenda\u00e7\u00f5es foram seguidas, com \u00eaxito, em v\u00e1rias \u201crevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u201d, e com menos sucesso noutros casos, como, recentemente, em Hong Kong ou em Angola\u2026<br \/>\n[4] Quando insiste nas \u201cpot\u00eancias regionais\u201d, o autor refere-se provavelmente a Israel, que ocupa territ\u00f3rio s\u00edrio desde 1967 e \u00e9 o grande aliado dos Estados Unidos no M\u00e9dio Oriente, e ao Ir\u00e3o, pa\u00eds que, n\u00e3o sendo \u00e1rabe, \u00e9 de maioria mu\u00e7ulmana xiita e que apoia pol\u00edtica e militarmente o regime s\u00edrio.<\/i><\/p>\n<p><i>*Nordine Azzouz \u00e9 director do di\u00e1rio argelino Reporters<\/i><\/p>\n<p><i>**<\/i><a href=\"http:\/\/odiario.info\/\"><i><u>odiario.info<\/u><\/i><\/a><i> publicou j\u00e1 um texto de Ahmed Bensaada em:<br \/>\n<\/i><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/index.php?autman=Ahmed+Bensaada\"><i>http:\/\/www.odiario.info\/index.php?autman=Ahmed+Bensaada<\/i><\/a><\/p>\n<p><i>Este texto foi publicado em: <a href=\"http:\/\/www.afrique-asie.fr\/component\/content\/article\/75-a-la-une\/9837-ahmed-bensaada-les-printemps-n-ont-genere-que-le-chaos-la-mort-la-haine-l-exil-et-la-desolation-dans-plusieurs-pays-arabes\">http:\/\/www.afrique-asie.fr\/component\/content\/article\/75-a-la-une\/9837-ahmed-bensaada-les-printemps-n-ont-genere-que-le-chaos-la-mort-la-haine-l-exil-et-la-desolation-dans-plusieurs-pays-arabes<\/a><\/i><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/nao-houve-primaveras-nem-foram-arabes\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nordine Azzouz* Entrevista com Ahmed Bensaada Esta importante entrevista com Ahmed Bensaada, acad\u00e9mico argelino radicado no Canad\u00e1, conhecedor profundo da realidade, desmascara o \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11479\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-11479","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Z9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11479","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11479"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11479\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11479"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11479"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11479"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}