{"id":1148,"date":"2011-01-22T15:05:35","date_gmt":"2011-01-22T15:05:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1148"},"modified":"2017-08-25T00:54:02","modified_gmt":"2017-08-25T03:54:02","slug":"a-tragedia-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1148","title":{"rendered":"A TRAG\u00c9DIA DO RIO DE JANEIRO"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o existe estado em qualquer lugar do mundo que possa sobreviver, ao longo dos anos, a governadores como Chagas Freitas (dois mandatos), Moreira Franco, Marcelo Alencar, Anthony e Rosinha Garotinho e agora S\u00e9rgio Cabral.<\/p>\n<p>Se tomarmos como refer\u00eancia o ano de 1960, transfer\u00eancia da capital federal para Bras\u00edlia e depois o de 1975, fus\u00e3o com o antigo estado do Rio de Janeiro, preservando este nome, h\u00e1 uma longa hist\u00f3ria que hoje culmina numa trag\u00e9dia de dimens\u00f5es dram\u00e1ticas, esta de 2011, trinta e seis anos ap\u00f3s a fus\u00e3o imposta arbitrariamente pela ditadura militar.<\/p>\n<p>Uma das primeiras tentativas de planejamento urbano no Pa\u00eds, exceto cidades como Goi\u00e2nia, Belo Horizonte e Bras\u00edlia, foi feita pelo ex-prefeito da antiga capital federal, Francisco Negr\u00e3o de Lima, mineiro de Nepomuceno (n\u00e3o confundir com S\u00e3o Jo\u00e3o Nepomuceno) e que havia sido ministro de Vargas, de JK e foi prefeito designado pelo pr\u00f3prio JK.<\/p>\n<p>Diplomata de carreira, Francisco Negr\u00e3o de Lima criou a SURSAN (Superintend\u00eancia de Urbanismo e Saneamento), voltada para projetos de m\u00e9dio e longo prazos, j\u00e1 na preocupa\u00e7\u00e3o de pensar a cidade do Rio de Janeiro como cidade\/.estado (1956\/1958).<\/p>\n<p>Um \u201cnovo Rio\u201d foi pensado pela SURSAN e boa parte come\u00e7ou a ser executada no governo de Carlos Lacerda, primeiro governador eleito da nova unidade da Federa\u00e7\u00e3o (foi eleito em 1960, com mandato de cinco anos). A express\u00e3o NOVO RIO, inclusive, foi usada por Lacerda para caracterizar as obras que realizou. \u00c0 sua caracter\u00edstica de extrema-direita e golpista, juntou a de engenheiro de obras prontas, ou planos prontos.<\/p>\n<p>O antigo estado do Rio de Janeiro, feudo da fam\u00edlia Amaral Peixoto, desde a morte de Roberto da Silveira, em 1961, foi v\u00edtima de governadores indiretos (nomeados pela ditadura) at\u00e9 a designa\u00e7\u00e3o do almirante Floriano Peixoto Faria Lima (1975\/1979) para implantar e consolidar a fus\u00e3o com a antiga capital federal, a cidade\/estado da Guanabara.<\/p>\n<p>O primeiro governador eleito (indiretamente) desse novo estado, o que resulta da fus\u00e3o RIO\/GUANABARA foi Chagas Freitas, um pol\u00edtico oriundo do ademarismo (uma das primeiras escolas do malufismo no Brasil), ligado ao ex-governador paulista Ademar de Barros e ao seu partido PSP \u2013 Partido Social Progressista.<\/p>\n<p>Chagas Freitas foi um exemplo do fisiologismo pol\u00edtico discreto, mas pleno e absoluto, e o \u00fanico governador do antigo MDB em meio a governadores indiretos (eleitos pelas assembl\u00e9ias depois de indicados pela ditadura), j\u00e1 que a antiga Guanabara rejeitou, desde os primeiros momentos do golpe, a ordem fascista dos militares que se seguiram \u00e0 deposi\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart \u2013 Jango.<\/p>\n<p>Um per\u00edodo sombrio e de barb\u00e1rie na hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>Quando governador eleito da Guanabara, em 1965, contra Carlos Lacerda e a ditadura militar (nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es diretas at\u00e9 1982 por obra e gra\u00e7a da ditadura), Negr\u00e3o de Lima enfrentou trag\u00e9dia de dimens\u00f5es menores, mas proporcionalmente iguais \u00e0s de hoje na cidade do Rio de Janeiro. O primeiro m\u00eas de mandato, o primeiro ano de governo.<\/p>\n<p>Botou a m\u00e3o na massa, retomou os projetos da antiga SURSAN \u2013 Lacerda havia tido um del\u00edrio com um \u201cneg\u00f3cio\u201d chamado DIOXIADIS \u2013 e de l\u00e1 at\u00e9 o governo de Leonel Brizola, j\u00e1 no novo estado, nenhuma obra mais \u2013 a exce\u00e7\u00e3o das cosm\u00e9ticas \u2013 foi realizada na cidade do Rio de Janeiro, agora capital e no estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Negr\u00e3o de Lima (Guanabara) e Leonel Brizola (Rio de Janeiro) foram os \u00fanicos governadores a priorizarem, cada um a seu tempo e cada qual com sua realidade, quest\u00f5es como meio-ambiente, saneamento, obras de conten\u00e7\u00e3o em encostas, todo o conjunto de atribui\u00e7\u00f5es do poder p\u00fablico para evitar o que aconteceu neste ano de 2011.<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico de Brizola, a urbaniza\u00e7\u00e3o de favelas levou a GLOBO a acus\u00e1-lo de alian\u00e7a com o tr\u00e1fico. O mau caratismo da GLOBO tem dez mil anos como diria N\u00e9lson Rodrigues sobre o gol de Emerson na final do campeonato brasileiro do ano passado.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Cabral, reeleito ano passado, por exemplo, das verbas destinadas para obras de conten\u00e7\u00e3o de encostas, preserva\u00e7\u00e3o ambiental e saneamento, passou 24 milh\u00f5es \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho (arapuca da m\u00e1fia MARINHO &#8211; GLOBO para fugir de impostos e fingir que ajuda). Para que e por que ningu\u00e9m sabe ao certo, mas n\u00e3o \u00e9 incorreto concluir que o dinheiro tinha e teve a finalidade de fazer um mimo na mais poderosa rede de comunica\u00e7\u00f5es do Pa\u00eds e ganhar apoio \u00e0 sua candidatura \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se morreram at\u00e9 agora 630 pessoas por conta da inc\u00faria de governos estaduais e municipais e do pr\u00f3prio homem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza, do ponto de vista da GLOBO e dos Marinho isso significa uma baita audi\u00eancia.<\/p>\n<p>Transformaram a trag\u00e9dia em espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Apropriaram-se da dor das pessoas, mentiram e mentem como no caso do desentendimento que n\u00e3o houve entre a Cruz Vermelha e a Prefeitura de Teres\u00f3polis, \u00e9 poss\u00edvel at\u00e9 que tenha existido uma tabela extra para comerciais inseridos durante as transmiss\u00f5es especiais diante dos custos das mesmas.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o humanos, nunca foram.<\/p>\n<p>O governo federal sistematicamente tem repassado verbas ao estado do Rio para obras nessa dire\u00e7\u00e3o. Tais verbas sistematicamente prestam-se a demagogia de governantes (Marcelo Alencar sumiu com o dinheiro da despolui\u00e7\u00e3o da ba\u00eda da Guanabara e Garotinho idem) e a decretos de luto oficial quando as trag\u00e9dias ocorrem.<\/p>\n<p>O protocolo da hipocrisia.<\/p>\n<p>Or\u00e7amentos estaduais e municipais, cada qual dentro de suas possibilidades, t\u00eam inclu\u00eddo verbas para projetos visando a realiza\u00e7\u00e3o de obras necess\u00e1rias a evitar que aconte\u00e7a o que aconteceu em v\u00e1rias cidades do estado do Rio e de outros, como Minas e S\u00e3o Paulo (o primeiro, estado sob governo de um desvairado por oito anos \u2013 A\u00e9cio \u2013 e agora um alucinado Anastasia. S\u00e3o Paulo sob governo tucano desde a primeira elei\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Covas, em 1994.)<\/p>\n<p>A soma de recursos dos tr\u00eas n\u00edveis de governo, os contratos firmados com ag\u00eancias nacionais e internacionais de financiamento para projetos voltados a esse fim, preven\u00e7\u00e3o de trag\u00e9dias como a que est\u00e1 acontecendo, foi suficiente para que nada disso tivesse acontecido. Ou essa propor\u00e7\u00e3o de calamidade fosse menor, at\u00e9 na preven\u00e7\u00e3o, como aconteceu na Austr\u00e1lia, onde as fam\u00edlias em meio a enchentes as maiores da hist\u00f3ria do pa\u00eds fossem retiradas a tempo.<\/p>\n<p>Em Cuba, antes da passagem do furac\u00e3o Katrina o governo evacuou uma cidade inteira e apenas uma morte foi registrada.<\/p>\n<p>Os governantes aqui \u00e9 que foram e s\u00e3o incompetentes e corruptos. Uma ou outra coisa, ou as duas ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Aldo Rebelo, que dizem ser comunista, nas m\u00e3os dos latifundi\u00e1rios, quer um novo C\u00f3digo Florestal que abra as florestas ao latif\u00fandio, ao agroneg\u00f3cio, em parceria com o deputado Vacarezza, do PT. L\u00edder da bancada, que, nas m\u00e3os da Monsanto, quer a semente conhecida como TERMINATOR em nossa agricultura, acentuando sua depend\u00eancia a grupos e empresas estrangeiras e cedendo terras brasileiras a essas quadrilhas, numa propor\u00e7\u00e3o que afeta a soberania nacional, a integridade de nosso territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica voltada para o saneamento, para o meio-ambiente, existem opera\u00e7\u00f5es cosm\u00e9ticas e demagogia em cima do sofrimento e da dor das v\u00edtimas desse tipo de desd\u00e9m.<\/p>\n<p>Criminoso, desd\u00e9m criminoso.<\/p>\n<p>A cidade \u00e9 a realidade imediata de cada um de n\u00f3s. \u00c9 na cidade que nascemos, crescemos, nos formamos, constitu\u00edmos nossas fam\u00edlias, vivemos o dia a dia e na cidade \u00e9 que terminamos esse dia a dia, mas que se estende aos que geramos.<\/p>\n<p>Nossos governantes pensam em termos de um ou dois mandatos, um ou dois per\u00edodos de \u201cgrandes neg\u00f3cios\u201d.<\/p>\n<p>A primeira li\u00e7\u00e3o que a trag\u00e9dia nos traz \u00e9 a da imperiosa necessidade de canais de participa\u00e7\u00e3o popular, com car\u00e1ter deliberativo, de fiscaliza\u00e7\u00e3o, para impedir que governos doem dinheiro p\u00fablico a funda\u00e7\u00f5es como a Roberto Marinho, disfarce, fachada de uma das maiores m\u00e1fias do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ou legalizem a casa, em \u00e1rea proibida, de um apresentador de tev\u00ea \u2013 Luciano Huck \u2013 porque cliente do escrit\u00f3rio de advocacia da mulher do governador.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode permitir que o projeto de \u201creconstru\u00e7\u00e3o\u201d das cidades destru\u00eddas pelas chuvas fique restrito a prefeitos e vereadores (c\u00e2maras municipais s\u00e3o uma aberra\u00e7\u00e3o, conselhos de cidad\u00e3os substituem-nas e d\u00e3o representatividade real aos habitantes da cidade, de cada cidade).<\/p>\n<p>Do contr\u00e1rio vira uma festa de empreiteiras e todo o entorno dessas organiza\u00e7\u00f5es criminosas, sob a batuta de prefeitos sem rumo e\/ou corruptos.<\/p>\n<p>Quando Evo Morales, presidente da Bol\u00edvia, disse a prop\u00f3sito de um coment\u00e1rio sobre os bolivianos serem \u201cpobres\u201d, que \u201cdizem que somos pobres, mas n\u00e3o somos pobres n\u00e3o, somos ind\u00edgenas\u201d \u2013 o povo boliviano em sua maioria \u00e9 ind\u00edgena \u2013 estava dizendo que os cidad\u00e3os s\u00e3o capazes de construir sua realidade em cima de estruturas que permitam a exist\u00eancia, a coexist\u00eancia e a conviv\u00eancia em bases dignas e humanas, mantendo suas culturas, tradi\u00e7\u00f5es, a realidade de cada povo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 necessidade de uma loja da rede McDonald\u2019s em cada cidade do mundo para que todos possam ser felizes.<\/p>\n<p>E se temos uma realidade brasileira, temos uma realidade fluminense, uma realidade de Teres\u00f3polis, outra de Petr\u00f3polis, outra de Friburgo e assim por diante. Cada uma em seu contexto, em seus limites. Todas com pontos de semelhan\u00e7a, l\u00f3gico, somos uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Somos um todo, mas somos partes tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia do Rio de Janeiro vai se repetir dentro de mais alguns anos. Com certeza. Neste momento, a m\u00eddia est\u00e1 preocupada com o espet\u00e1culo. A GLOBO j\u00e1 est\u00e1 preocupada com a demora em esgotar o assunto, isso pode afetar a audi\u00eancia do BBB-11 e o \u201cdrama\u201d sobre determinada <em>sister<\/em> ser ou n\u00e3o transexual; e os governos em se mostrarem \u201cpresentes\u201d numa realidade que \u00e9 viva e cruel por conta de suas aus\u00eancias.<\/p>\n<p>Ou o povo das cidades atingidas, de todas as cidades brasileiras toma o destino de cada uma de suas cidades, nossas cidades, em nossas m\u00e3os, ou tudo vai continuar como farsa, se repetindo indefinidamente de tempos em tempos.<\/p>\n<p>E \u00e9 assim que vamos construir uma pol\u00edtica ambiental, que envolva saneamento, obras b\u00e1sicas de conten\u00e7\u00e3o de encostas, preserva\u00e7\u00e3o de \u00e1reas que implicam riscos, nas cidades, nos estados e no Brasil.<\/p>\n<p>Do contr\u00e1rio, em breve, estaremos afogados nos \u201cneg\u00f3cios\u201d dos que ganham com trag\u00e9dias como essa.<\/p>\n<p>*especial para o jornal <a href=\"http:\/\/www.jornalorebate.com.br\/\" target=\"_blank\">www.jornalorebate.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Jornal O Rebate\n\n\n\n\n\n\n\n\nLaerte Braga*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1148\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1148","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-iw","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1148","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1148"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1148\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}