{"id":11501,"date":"2016-07-12T14:41:33","date_gmt":"2016-07-12T17:41:33","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11501"},"modified":"2016-08-02T00:59:02","modified_gmt":"2016-08-02T03:59:02","slug":"teste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11501","title":{"rendered":"Sem Marx n\u00f3s n\u00e3o entendemos o mundo em que vivemos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/jornalistaslivres.org\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/marx10.jpeg?resize=848.5%2C566&amp;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>Para Marcelo Braz, professor da UFRJ, o golpe no Brasil \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o did\u00e1tica sobre os limites da democracia burguesa e da sociedade capitalista<\/p>\n<p>por <a href=\"https:\/\/jornalistaslivres.org\/2016\/07\/sem-marx-nos-nao-entendemos-o-mundo-em-que-vivemos-2\/\" target=\"_blank\">Jornalistas Livres<\/a><!--more--><\/p>\n<p>Por Camilla Hoshino, do Brasil de Fato, Leandro Taques, dos Jornalistas Livres e Christian Quintero, do Hemisferio Izquierdo<\/p>\n<p>De Veran\u00f3polis (RS)<\/p>\n<p>Recolocar o Brasil na rota de influ\u00eancia e domina\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos e criar condi\u00e7\u00f5es para acelerar medidas no campo econ\u00f4mico que possibilitem novas formas de amplia\u00e7\u00e3o da extra\u00e7\u00e3o de valor. Estes s\u00e3o os principais objetivos da atual agenda pol\u00edtica manejada pelo governo interino de Michel Temer (PMDB), de acordo com o professor da UFRJ Marcelo Braz. \u201c\u00c9 preciso construir unidade no plano t\u00e1tico entre os setores progressistas para conter o processo feroz de contrarreformas profundas que est\u00e3o sendo colocadas em pauta\u201d, comenta.<\/p>\n<p>Marcelo Braz \u00e9 p\u00f3s-doutor em Economia pela Universidade de Lisboa, doutor em Servi\u00e7o Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor e vice-diretor da Escola de Servi\u00e7o Social (ESS) da UFRJ. \u00c9 membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e atua em parceria com movimentos populares, como o MST, sendo professor e colaborador da Escola Nacional Florestan Fernandes.<\/p>\n<p>Em entrevista ao Brasil de Fato, Jornalistas Livres e ao Hemisferio Izquierdo, Braz fala do golpe em curso no pa\u00eds, a partir da an\u00e1lise da estrutura pol\u00edtica do capitalismo brasileiro, condensado no Estado e em suas institui\u00e7\u00f5es, e de elementos hist\u00f3ricos marcados pelo interesse das classes dominantes. \u201cSempre que os n\u00edveis de emancipa\u00e7\u00e3o social avan\u00e7am, a burguesia trata de faz\u00ea-los recuar\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Autor e coautor de diversas publica\u00e7\u00f5es, Braz se destaca em temas relacionados \u00e0 economia pol\u00edtica, quest\u00e3o social, capitalismo contempor\u00e2neo, socialismo e marxismo. Em rela\u00e7\u00e3o aos m\u00e9todos de an\u00e1lise do mundo contempor\u00e2neo, afirma: \u201cS\u00f3 Marx n\u00e3o d\u00e1 conta da complexidade do mundo em que vivemos, mas sem Marx n\u00f3s n\u00e3o entendemos o mundo em que vivemos\u201d.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p>BdF\/JL\/HI \u200a\u2014\u200aO senhor publicou recentemente um artigo intitulado \u201cUm golpe nas ilus\u00f5es democr\u00e1ticas\u201d, analisando a atual conjuntura pol\u00edtica no Brasil a partir de elementos hist\u00f3ricos e estruturais. Gostar\u00edamos que retomasse as ideias centrais desse texto, sinalizando principalmente aquilo que entende por \u201cilus\u00f5es democr\u00e1ticas\u201d.<\/p>\n<p>Marcelo Braz\u200a\u2014\u200aO ponto de partida desta an\u00e1lise foi o desfecho- que ainda n\u00e3o se completou- que destituiu a presidente eleita Dilma Rousseff e teve seu \u00e1pice, do ponto de vista institucional, na vota\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara dos Deputados no dia 17 de abril de 2016. Digo do ponto de vista institucional, porque do ponto de vista das classes que constru\u00edram as condi\u00e7\u00f5es para o golpe isso vai al\u00e9m das institui\u00e7\u00f5es. Mas a efem\u00e9ride do dia 17 de abril foi um momento que apresentou ao Brasil e ao mundo o apodrecimento do sistema representativo brasileiro e o n\u00edvel da indig\u00eancia moral e intelectual dos parlamentares reunidos naquele show de horrores. S\u00f3 que desta vez o show foi televisionado. E, lamentavelmente, esta data que marca o Massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, em que dezenove companheiros sem-terra foram assassinados [no Par\u00e1, em 1996], entrar\u00e1 novamente para a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u201cBancada BBBBB\u201d<\/p>\n<p>Aqueles parlamentares, que representam interesses de classe muito concretos, nada representam o interesse do povo brasileiro. Isso n\u00e3o \u00e9 for\u00e7ar a an\u00e1lise, pois sabemos que existem muitas formas parlamentares que podem representar algumas demandas dos trabalhadores. Mas aquela vota\u00e7\u00e3o serviu, didaticamente, para mostrar que o sistema pol\u00edtico condensado no Congresso Nacional- n\u00e3o apenas na C\u00e2mara dos Deputados, mas tamb\u00e9m no Senado Federal- envelheceu completamente. Os parlamentares que l\u00e1 est\u00e3o n\u00e3o representam os interesses de Deus e da fam\u00edlia- como disseram durante a vota\u00e7\u00e3o-, e nem os interesses da cidadezinha do interior, por mais que eles possam representar algumas demandas locais. O dom\u00ednio da C\u00e2mara dos Deputados, como j\u00e1 dizem h\u00e1 algum tempo, \u00e9 o dom\u00ednio da \u2018bancada BBB\u2019, do boi, da bala e da b\u00edblia. E eu diria que \u00e9 a \u2018bancada BBBBB\u2019, porque \u00e9 a bancada ruralista, \u00e9 a bancada da ind\u00fastria de armas, \u00e9 a bancada dos evang\u00e9licos conservadores- porque nem todos s\u00e3o conservadores-, \u00e9 a bancada dos bancos e institui\u00e7\u00f5es financeiras e a bancada da cartolagem do futebol ou a bancada da bola, que inclusive conspirou recentemente contra a CPI do futebol.<\/p>\n<p>Elementos estruturais e hist\u00f3ricos<\/p>\n<p>De forma mais precisa, o dia 17 de abril de 2016 entra para a hist\u00f3ria como um momento em que se deu o desfecho principal do desencadeamento dos fatos conjunturais que guardam as suas liga\u00e7\u00f5es com elementos estruturais e com os elementos hist\u00f3ricos da nossa realidade. Portanto, aquilo n\u00e3o foi \u2018um raio que caiu de um c\u00e9u sereno\u2019 [refer\u00eancia \u00e0 obra Napole\u00f3n le petit, de Vitor Hugo, sobre o golpe de Estado de Luis Bonaparte, na Fran\u00e7a, em 1851]. Por um lado, o que n\u00f3s vimos naquele momento representa, num plano imediato conjuntural, a fal\u00eancia da democracia brasileira. Do ponto de vista estrutural representa at\u00e9 onde v\u00e3o os interesses das classes dominantes e como elas podem manipular um sistema pol\u00edtico apodrecido, mas que lhes \u00e9 muito \u00fatil. O que se apresenta \u00e9 um comportamento das classes dominantes brasileiras profundamente antidemocr\u00e1tico, que sempre colocou profundos \u00f3bices a qualquer conquista democr\u00e1tica mais significativa. Nem digo sobre conquistas que pudessem levar \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico, porque isso n\u00f3s sabemos que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com o derrube do Estado. Mas sempre que os n\u00edveis de emancipa\u00e7\u00e3o social avan\u00e7am, a burguesia trata de faz\u00ea-los recuar.<\/p>\n<p>Recuos democr\u00e1ticos<\/p>\n<p>Se pensarmos a democracia nas camadas pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica- esta \u00faltima jamais alcan\u00e7ada no \u00e2mbito da sociedade capitalista- veremos que a sociedade capitalista pode comportar alguns n\u00edveis de democracia pol\u00edtica e de democracia social. Mas todas as vezes em que a sociedade brasileira- evidentemente que eu estou falando da luta dos trabalhadores- fez avan\u00e7ar algumas formas de democracia pol\u00edtica e de democracia social, as respostas das classes dominantes e das outras classes \u00e0 ela associada, foram golpes, instaura\u00e7\u00e3o de processos abertamente ditatoriais- e at\u00e9 mesmo fascistas- ou a introdu\u00e7\u00e3o de profundos recuos democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos comparar o recuo democr\u00e1tico da nossa pobre democracia, que se empobrece mais ainda com o que estamos vivendo hoje, com o recuo democr\u00e1tico mais profundo que configurou o golpe de 1964. Em 1964, no per\u00edodo pr\u00e9-golpe, o movimento ia ao sentido de reformas de fato estruturais, de reformas de base, como a reforma agr\u00e1ria, a reforma urbana e a reforma financeira. A esquerda estava se batendo por reformas de base de car\u00e1ter estrutural. O que n\u00f3s assistimos agora, mais do que em 1964- sabemos que a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 evolutiva nem linear- \u00e9 uma estrutura pol\u00edtica do capitalismo brasileiro, condensada no Estado e nas suas diversas institui\u00e7\u00f5es burguesas, muito pouco perme\u00e1vel \u00e0s demandas sociais dos trabalhadores. Ela se mostra hoje mais resistente a atender algumas demandas no n\u00edvel da democracia pol\u00edtica e da democracia social dos trabalhadores. Isso do ponto de vista de algumas conquistas que os trabalhadores podem ter nos limites da ordem burguesa. O que significa dizer que n\u00f3s precisamos fazer um balan\u00e7o profundo do significado do que a\u00ed est\u00e1 exposto para ver que tipos de a\u00e7\u00f5es no plano imediato devem ser colocadas e que tipo de a\u00e7\u00f5es em m\u00e9dio prazo podem ser pensadas.<\/p>\n<p>Tirar Dilma e colocar Temer \u00e9 colocar um governo \u2018puro sangue\u2019 da burguesia, isto \u00e9, que representa por inteiro os interesses da burguesia nos seus seguimentos mais avan\u00e7ados, incluindo n\u00e3o s\u00f3, mas principalmente, o capital financeiro. Porque um dos significados desse golpe- do qual n\u00f3s somos, lamentavelmente, contempor\u00e2neos- \u00e9 destravar os obst\u00e1culos que impedem a implementa\u00e7\u00e3o de uma agenda profundamente regressiva.<\/p>\n<p>BdF\/JL\/HI\u200a\u2014\u200aQuais seriam os objetivos mais concretos dessa \u201cagenda profundamente regressiva\u201d?<\/p>\n<p>Marcelo Braz\u200a\u2014\u200aA agenda do golpe atende tr\u00eas objetivos principais. O primeiro \u00e9 recolocar o Brasil na rota da influ\u00eancia e da domina\u00e7\u00e3o preferencial dos Estados Unidos. Isso n\u00e3o significa que os Estados Unidos tenha deixado de exercer o seu imperialismo entre n\u00f3s. Mas sabemos que os \u00faltimos dez ou quinze anos, por conta de governos com colora\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas muito distintas, colocaram obst\u00e1culos para a manuten\u00e7\u00e3o da zona de influ\u00eancia preferencial dominada pelos Estados Unidos na Am\u00e9rica. Esses governos apresentaram desde uma inclina\u00e7\u00e3o fortemente anti-imperialista, como o de Hugo Chavez, na Venezuela, at\u00e9 um reformismo fraco como o do PT, no Brasil. Passando dessas extremidades, tamb\u00e9m tivemos os governos dos Kirchner, na Argentina, de Rafael Correa, no Equador e de Evo Morales, na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>O segundo plano \u00e9 criar condi\u00e7\u00f5es para acelerar medidas no campo econ\u00f4mico que aumentem as possibilidades de novas formas de extra\u00e7\u00e3o de mais valia, seja ela absoluta ou relativa. Evidentemente que isso significa, do ponto de vista da mais valia relativa, aumentar a produtividade m\u00e9dia do trabalho, elevar os investimentos tecnol\u00f3gicos. Se quiserem saber mais, basta ler o que Delfim Neto- este que \u00e9 o \u00faltimo signat\u00e1rio vivo do AI5- tem dito com muita frequ\u00eancia em suas colunas. Ele diz que \u00e9 muito baixa a produtividade m\u00e9dia do trabalho no Brasil e que \u00e9 preciso um incremento dessa produtividade. Isso coloca o terceiro objetivo da agenda regressiva- que se casa com o segundo, porque auxilia nas condi\u00e7\u00f5es de se criar novas formas de mais valia absoluta- que \u00e9 promover um desmonte do m\u00e1ximo que as for\u00e7as conservadoras soldadas nesse governo conseguirem. Significa promover um desmonte no pouco do edif\u00edcio dos direitos sociais e trabalhistas que foram conquistados no Brasil.<\/p>\n<p>BdF\/JL\/HI\u200a\u2014\u200aDo ponto de vista da extra\u00e7\u00e3o de mais valia, quais s\u00e3o as formas de efetivar esse objetivo?<\/p>\n<p>Marcelo Braz\u200a\u2014\u200aUma das formas \u00e9 realizando tarefas em atraso. S\u00e3o as tarefas que Fernando Henrique Cardoso anunciou l\u00e1 atr\u00e1s, mas que o vigor da luta em oposi\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo dos anos 1990- por meio de atores que encabe\u00e7aram essa luta, inclusive e fundamentalmente o PT, naquela \u00e9poca, entre outros, como o movimento sindical, CUT, etc.- conseguiu conter. Como ele [Fernando Henrique] mesmo disse no discurso de posse, \u2018um dos objetivos do meu governo \u00e9 superar a Era Vargas\u2019. Trocando em mi\u00fados, o que ele quis dizer com \u2018superar a Era Vargas\u2019 n\u00e3o era superar o Estado burgu\u00eas que Vargas construiu, mas desmontar os direitos trabalhistas condensados na CLT. E n\u00e3o apenas os direitos trabalhistas, mas tamb\u00e9m os direitos sociais, que avan\u00e7aram o tanto quanto foi poss\u00edvel no ordenamento constitucional de 1988. Mas os setores burgueses diversos acham que a conta est\u00e1 muito cara. Nesse sentido, at\u00e9 o Bolsa Fam\u00edlia est\u00e1 sendo atacado pelo novo Ministro do Desenvolvimento Social e Agr\u00e1rio, Osmar Terra. Ele est\u00e1 dizendo que o programa precisa ser mais focal, que deve atingir apenas cinco por cento dos mais pobres entre os mais pobres. Isso significa, no dizer desse cidad\u00e3o, beneficiar apenas dez milh\u00f5es de brasileiros contra os sessenta milh\u00f5es que hoje o Bolsa Fam\u00edlia alcan\u00e7a. N\u00e3o preciso dizer o que a contribui\u00e7\u00e3o do Bolsa Fam\u00edlia significa em termos monet\u00e1rios\u2026<\/p>\n<p>Ataque a direitos constitucionais<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 o Bolsa Fam\u00edlia o objetivo principal, e sim o ataque \u00e0 previd\u00eancia, que n\u00e3o \u00e9 distributiva, \u00e9 contributiva, mas que arrecada e constitui o fundo p\u00fablico dos trabalhadores. No sentido n\u00e3o s\u00f3 de privatizar parte dela, criando um mercado de previd\u00eancia privada, mas no sentido de um avan\u00e7o para esse fundo p\u00fablico maior do que aquele que se faz hoje. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a previd\u00eancia, \u00e9 tamb\u00e9m a assist\u00eancia social. Veremos o avan\u00e7o contra alguns direitos constitucionais como o Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada e, sobretudo, o avan\u00e7o contra a sa\u00fade, este sim, um direito universal constitu\u00eddo no SUS, que \u00e9 um sistema extremamente avan\u00e7ado, modelar, um dos mais avan\u00e7ados do mundo e que, evidentemente, n\u00e3o pode funcionar, pois tem um subfinanciamento cr\u00f4nico. A meu ver, \u00e9 necess\u00e1rio construir, no plano imediato e t\u00e1tico, uma ampla frente dos segmentos mais progressistas que resistam a esses recuos democr\u00e1ticos, porque o golpe do dia 17 de abril foi um recuo democr\u00e1tico, que significa um atalho para mais recuos democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>BdF\/JL\/HI\u200a\u2014\u200aNesse sentido, quais os desafios da esquerda?<\/p>\n<p>Marcelo Braz\u200a\u2014\u200aEu diria que, no plano imediato, se a interrup\u00e7\u00e3o do mandato da presidente Dilma se confirmar entre agosto e setembro, \u00e9 preciso construir alguma unidade no plano t\u00e1tico entre os setores progressistas, entre os setores variados da esquerda brasileira, entre os diversos movimentos sociais, entre os diversos partidos que levantam a bandeira dos trabalhadores brasileiros em suas diversas franjas, para conter o processo feroz de contrarreformas profundas que esse governo j\u00e1 est\u00e1 colocando em pauta.<\/p>\n<p>No meu texto [Um golpe nas ilus\u00f5es democr\u00e1ticas] eu atento para o \u2018discurso de posse\u2019- entre aspas, porque n\u00e3o \u00e9 posse e sim um governo interino-, em que Michel Temer diz com todas as palavras tudo aquilo que est\u00e1 posto no documento do PMDB, \u2018Uma ponte para o Futuro\u2019. Na realidade, \u00e9 uma ponte para a barb\u00e1rie, sabemos. As duas linhas desse governo, diz Michel Temer, ser\u00e3o \u2018ordem e progresso, que est\u00e3o na nossa bandeira\u2019 e \u2018privatizar tudo o que for poss\u00edvel\u2019. N\u00f3s sabemos que \u2018ordem\u2019 significa porrada nos trabalhadores e \u2018progresso\u2019 significa liberdade ao capital. Ent\u00e3o, a meu ver essa unidade de resist\u00eancia \u00e9 mais do que necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Campanha contra a esquerda<\/p>\n<p>Foi realizada uma campanha difamat\u00f3ria contra a esquerda, n\u00e3o apenas no Congresso Nacional, mas organizada pelo maior partido organizado da classe dominante brasileira, que \u00e9 o partido da m\u00eddia, no sentido de descredibilizar inteiramente n\u00e3o s\u00f3 a esquerda brasileira, mas a atividade pol\u00edtica como um todo. O ataque preferencial \u00e9 ao PT e a tentativa de derrotar o PT- que antes de qualquer coisa \u00e9 uma derrota da estrat\u00e9gia do PT- respinga em toda a esquerda. Portanto, hipoteca toda a esquerda e traz problemas para todos.<\/p>\n<p>A unidade no plano t\u00e1tico \u00e9 necess\u00e1ria n\u00e3o apenas para resistir ao rolo compressor que vem por a\u00ed e que est\u00e1 se consolidando e ao linchamento moral do PT, mas ao ataque efetivo que j\u00e1 se constitui contra o MST, com persegui\u00e7\u00f5es, encarceramento e investiga\u00e7\u00f5es que certamente est\u00e3o sendo feitas nos sistemas de intelig\u00eancia militar do governo. Agora o governo interino recria o Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional e coloca ali um ex-general que foi servi\u00e7al da ditadura [S\u00e9rgio Etchegoyen], filho de um general que serviu a ditadura. Ent\u00e3o, \u00e9 para resistir aos ataques \u00e0 classe trabalhadora, \u00e0s nossas organiza\u00e7\u00f5es, \u00e9 para fazer den\u00fancias pol\u00edticas, \u00e9 para poder fazer campanhas e denunciar as pris\u00f5es e pressionar pela liberta\u00e7\u00e3o de companheiros como Jos\u00e9 Valdir, Luiz Batista [do MST], \u00e9 para resistir aos ataques aos direitos sociais e democr\u00e1ticos e para resistir contra as privatiza\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo anunciadas.<\/p>\n<p>BdF\/JL\/HI \u200a\u2014\u200aDiversas organiza\u00e7\u00f5es, que apresentam estrat\u00e9gias distintas em m\u00e9dio e longo prazo, t\u00eam constitu\u00eddo, no plano t\u00e1tico, frentes de resist\u00eancia ao golpe. Como o senhor v\u00ea isso?<\/p>\n<p>Marcelo Braz\u200a\u2014\u200aN\u00e3o quero entrar na an\u00e1lise espec\u00edfica das frentes, mas acredito que possa existir algo que d\u00ea liga a uma \u2018frente das frentes\u2019, a uma frente ampla, democr\u00e1tica e unida. N\u00e3o estou sugerindo este nome- foi s\u00f3 algo que me veio \u00e0 cabe\u00e7a-, porque inclusive o nome teria que ser muito amplo para comportar todas essas frentes. A meu ver essa constru\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ter futuro se caminhar na linha da resist\u00eancia no plano t\u00e1tico contra os recuos democr\u00e1ticos que esse governo certamente implementar\u00e1. Ele conta com o apoio da m\u00eddia, e, no Congresso Nacional com uma hegemonia muito forte, de maneira que o que est\u00e1 em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas destravar os obst\u00e1culos para poder criar condi\u00e7\u00f5es para acelerar os recuos democr\u00e1ticos, implementar contrarreformas que atacam os trabalhadores e os direitos, mas tamb\u00e9m est\u00e1 em jogo a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se o \u2018Fora Temer\u2019 unifica. Como palavra de ordem j\u00e1 vimos que unifica, mas \u00e9 preciso dar conte\u00fado maior a isso. Pois at\u00e9 mesmo o \u2018Fora Temer\u2019 interfere mais no horizonte estrat\u00e9gico do que nas t\u00e1ticas mais de resist\u00eancia que s\u00e3o necess\u00e1rias agora. Ent\u00e3o, eu creio que, sem baluartismos, com a humildade necess\u00e1ria da autocr\u00edtica, o que pode ser feito \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma frente ampla e unida que lute contra os recuos democr\u00e1ticos que vem por a\u00ed. Isso n\u00e3o significa um rebaixamento do horizonte estrat\u00e9gico de nenhuma organiza\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 uma opini\u00e3o puramente pessoal.<\/p>\n<p>BdF\/JL\/HI \u200a\u2014\u200aO senhor \u00e9 um pesquisador de autores cl\u00e1ssicos, como Marx, e defende a atualiza\u00e7\u00e3o de suas teorias. Aproveitando o gancho da an\u00e1lise, poderia citar tr\u00eas elementos da obra de Marx que nos ajudem a compreender o mundo contempor\u00e2neo?<\/p>\n<p>Marcelo Braz\u200a\u2014\u200aOs tr\u00eas elementos, seguramente, s\u00e3o o m\u00e9todo hist\u00f3rico dial\u00e9tico, a teoria do valor-trabalho e a teoria da revolu\u00e7\u00e3o. Sendo fi\u00e9is \u00e0 obra de Marx, a partir da compreens\u00e3o de que \u00e9 preciso estudar o tempo todo o m\u00e9todo hist\u00f3rico dial\u00e9tico, a tarefa que se coloca para n\u00f3s \u00e9 realizar uma an\u00e1lise te\u00f3rica que atualize Marx como j\u00e1 h\u00e1 diversas an\u00e1lises te\u00f3ricas que analisaram Marx durante o s\u00e9culo XX. Essa tarefa \u00e9 dific\u00edlima, mas urgente, necess\u00e1ria e permanente. No que diz respeito a esses tr\u00eas pilares, a teoria do valor \u00e9 o aspecto que mais requer e exige an\u00e1lises te\u00f3ricas contempor\u00e2neas, porque as an\u00e1lises te\u00f3ricas equivocadas nesse aspecto v\u00e3o trazer problemas e v\u00e3o turvar exatamente a teoria da revolu\u00e7\u00e3o. Teremos, por exemplo, dificuldade de identificar o sujeito da revolu\u00e7\u00e3o se n\u00e3o tivermos uma an\u00e1lise contempor\u00e2nea do capitalismo e das novas formas de extra\u00e7\u00e3o do valor. Por \u00faltimo, \u00e9 claro que precisamos atualizar a teoria da revolu\u00e7\u00e3o, mas com base numa atualiza\u00e7\u00e3o da teoria do valor. E essa atualiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nenhuma revis\u00e3o de Marx, mas \u00e9 enxergar a vitalidade das categorias marxianas. \u00c9 ver como elas sobrevivem ao tempo hist\u00f3rico, como podem iluminar nossa realidade atual e como podem nos ajudar a entender as formas novas de extra\u00e7\u00e3o de valor. Que fique claro, isso n\u00e3o \u00e9 uma revis\u00e3o. E para finalizar, aquilo que eu sempre digo, \u00e9 que temos que nos convencer de que s\u00f3 Marx n\u00e3o d\u00e1 conta da complexidade do mundo em que vivemos, mas sem Marx n\u00f3s n\u00e3o entendemos o mundo em que vivemos.<\/p>\n<p>Foto: Leandro Taques\/Jornalistas Livres<\/p>\n<blockquote data-secret=\"j4si2qSKgn\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/jornalistaslivres.org\/2016\/07\/sem-marx-nos-nao-entendemos-o-mundo-em-que-vivemos-2\/\">Sem Marx n\u00f3s n\u00e3o entendemos o mundo em que vivemos<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/jornalistaslivres.org\/2016\/07\/sem-marx-nos-nao-entendemos-o-mundo-em-que-vivemos-2\/embed\/#?secret=j4si2qSKgn\" data-secret=\"j4si2qSKgn\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Sem Marx n\u00f3s n\u00e3o entendemos o mundo em que vivemos&#8221; &#8212; Jornalistas Livres\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Para Marcelo Braz, professor da UFRJ, o golpe no Brasil \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o did\u00e1tica sobre os limites da democracia burguesa e da sociedade \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11501\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-11501","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/s659gw-teste","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11501","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11501"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11501\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11501"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11501"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11501"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}