{"id":1151,"date":"2011-01-22T15:51:19","date_gmt":"2011-01-22T15:51:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1151"},"modified":"2011-01-22T15:51:19","modified_gmt":"2011-01-22T15:51:19","slug":"o-poder-o-carater-a-via-da-revolucao-e-a-unidade-da-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1151","title":{"rendered":"O PODER, O CAR\u00c1TER, A VIA DA REVOLU\u00c7\u00c3O E A UNIDADE DA ESQUERDA."},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Aten\u00e7\u00e3o: este texto foi escrito nos primeiros anos da d\u00e9cada de 1980<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O ABC do marxismo-leninismo ensina que o problema fundamental da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 o problema do poder; o afastamento na pr\u00e1tica desta verdade \u00e9, em nosso julgamento, um dos fatores principais que, se n\u00e3o fosse corrigido a tempo, poderia ter-nos deixado fora da linha de frente da revolu\u00e7\u00e3o salvadorenha.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, tiveram lugar duas grandes revolu\u00e7\u00f5es verdadeiras, a de Cuba e a da Nicar\u00e1gua e, em nenhum dos dois casos, os Partidos Comunistas estiveram \u00e0 frente. No caso da Nicar\u00e1gua, a experi\u00eancia com o partido irm\u00e3o foi desastrosa, excetuando-se a parte dele que desde 1978 se incorporou \u00e0 luta armada.<\/p>\n<p>Estamos convencidos de que a aus\u00eancia pr\u00e1tica de uma clara conduta da luta pelo poder \u00e9 o fator principal que explica estes resultados. Esta mesma quest\u00e3o tem estado na base, cremos n\u00f3s, das equivocadas caracteriza\u00e7\u00f5es de certos processos sociais e pol\u00edticos reformistas na Am\u00e9rica Latina como \u201crevolu\u00e7\u00f5es\u201d. Na pr\u00e1tica esta caracteriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se confirmou, mas serviu para determinar um papel de simples for\u00e7a de apoio para os partidos irm\u00e3os dos respectivos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Outra express\u00e3o deste mesmo problema \u00e9 o papel exagerado e, em alguns casos, a absolutiza\u00e7\u00e3o do papel que se fixa para o Programa Econ\u00f4mico-Social para determinar o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o, o curso da luta por sua vit\u00f3ria e da defesa e consolida\u00e7\u00e3o da mesma. No Chile, durante o governo de Allende, por exemplo, tanto os participantes da Unidade Popular, como as for\u00e7as assim chamadas ultra-esquerdistas, davam uma import\u00e2ncia central e decisiva ao Programa Econ\u00f4mico-Social. Para os outros, tudo consistia em radicalizar esse programa, rebaixar seus limites. Entretanto, ningu\u00e9m elaborou nem aplicou uma orienta\u00e7\u00e3o correta para resolver realmente o problema do poder, nem para defender o governo de Allende.<\/p>\n<p>Refiro-me ao caso chileno porque creio que \u00e9 quase de laborat\u00f3rio: \u00e9 curioso que quando apareceram objetivamente os processos e correntes que configuravam a possibilidade de resolver revolucionariamente o problema do poder, nem uns nem outros o captaram. Tenho em conta a configura\u00e7\u00e3o dentro do ex\u00e9rcito chileno de uma corrente que compreendia bastante claramente a necessidade de solucionar o problema do poder. A dimens\u00e3o e transcend\u00eancia desse fato pode ser apreciado nas anota\u00e7\u00f5es do Gal. Prat em seu di\u00e1rio durante 1973 (1). \u00c9 tamb\u00e9m curioso como a rea\u00e7\u00e3o entendeu com precis\u00e3o esse assunto. Tudo o que a rea\u00e7\u00e3o fez no Chile durante o governo de Allende, estava dirigido para esmagar a possibilidade de perder o poder e quando se configurou esta corrente no ex\u00e9rcito, seu esfor\u00e7o concentrado esteve dirigido para desfazer-se de Prat e seus companheiros.<\/p>\n<p>Como atuaram as for\u00e7as revolucion\u00e1rias frente a esse fen\u00f4meno? Ningu\u00e9m definitivamente defendeu Prat e a parte do ex\u00e9rcito que ele encabe\u00e7ava. Uns o sacrificaram em interesse de manobras pol\u00edticas acreditando honradamente que estas trariam a sa\u00edda da crise; e, os outros, consideraram que a presen\u00e7a de Prat no governo era \u201ca presen\u00e7a da burguesia\u201d, que o pacto com Prat era \u201ca trai\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o\u201d e decidiram constituir-se na \u201coposi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria camponesa\u201d.<\/p>\n<p>Quando a corrente de Prat era forte e predominante, quando derrotou o \u201cTancazo\u201d (junho\/1973), as massas intu\u00edram a import\u00e2ncia daquele momento para resolver revolucionariamente o problema do poder; se lan\u00e7aram \u00e0 rua, como todos sabemos, exigindo golpear profundamente a rea\u00e7\u00e3o, fechar o parlamento, depurar o ex\u00e9rcito, mas a dire\u00e7\u00e3o daquele processo n\u00e3o tomou resolutamente em suas m\u00e3os estas bandeiras. N\u00e3o estou defendendo a id\u00e9ia de que tudo se resolveria no Chile organizando a luta em torno de Prat; creio sim, que o aparecimento da corrente encabe\u00e7ada por ele e a onda de massas que seguiu \u00e0 sua vit\u00f3ria sobre Tancazo foi o mais pr\u00f3ximo que houve durante o governo da Unidade Popular para a solu\u00e7\u00e3o do problema do poder para a revolu\u00e7\u00e3o. Essa possibilidade apareceu objetivamente e se constituiu assim numa prova para medir a clareza das for\u00e7as revolucion\u00e1rias para a tese do marxismo-leninismo de que <strong>\u201co problema do poder \u00e9 o problema fundamental de toda revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o mundial tem referendado esta verdade, v\u00e1rias vezes. N\u00e3o \u00e9 um programa econ\u00f4mico-social o central, o decisivo. Os ritmos na aplica\u00e7\u00e3o do programa social, a realidade das mudan\u00e7as econ\u00f4mico-sociais est\u00e3o na depend\u00eancia das condi\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais em que se realiza cada revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os revolucion\u00e1rios t\u00eam a possibilidade de escolher o ritmo melhor, inclusive de fazer pausas e at\u00e9 retrocessos se for necess\u00e1rio, com a condi\u00e7\u00e3o de que conquistem o poder e o retenham firmemente em suas m\u00e3os. A revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e a NEP (nova pol\u00edtica econ\u00f4mica) (2) s\u00e3o exemplos da necess\u00e1ria desacelera\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as econ\u00f4mico-sociais. Em Cuba, o programa econ\u00f4mico-social do Movimento 26 de julho de fato era s\u00f3 o discurso de Fidel \u201cA hist\u00f3ria me absolver\u00e1\u201d, desconhecido para as grandes massas majorit\u00e1rias do povo antes do triunfo da revolu\u00e7\u00e3o. Na experi\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o cubana foi necess\u00e1rio acelerar, sem embargo, a radicaliza\u00e7\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais para defend\u00ea-la frente \u00e0s asfixiantes medidas contra-revolucion\u00e1rias empreendidas pelo imperialismo ianque. A atual experi\u00eancia da Nicar\u00e1gua, onde o ritmo e a profundidade das transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais teve de graduar-se, \u00e9 outra constata\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da tese da qual j\u00e1 falamos e se poderia citar exemplos da Europa oriental e \u00c1frica.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio esclarecer profundamente a dial\u00e9tica do problema do poder e o Programa Econ\u00f4mico-Social. Tem-se que voltar ao delineamento leninista novamente; toda quest\u00e3o tra\u00e7ada por L\u00eanin em suas Teses de Abril, de 1917, apontava a tomada do poder pelo proletariado revolucion\u00e1rio e seu partido, para esclarecer e unir em torno destes as for\u00e7as das grandes massas camponesas e populares em geral para realizar a tarefa.<\/p>\n<p>As \u201cTeses de Abril\u201d continuam sendo o modelo de como compreender o problema do poder e como determinar a conduta do partido na situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Responder \u00e0 pergunta de por que o movimento comunista da Am\u00e9rica Latina e outras regi\u00f5es do Terceiro Mundo deixou de ter no centro de sua atua\u00e7\u00e3o a luta pelo poder, \u00e9 um assunto complexo; n\u00f3s n\u00e3o temos uma resposta satisfat\u00f3ria; seguramente h\u00e1 v\u00e1rias. Vou referir-me a uma: parece-me que a solu\u00e7\u00e3o do problema do car\u00e1ter e da via da revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 vinculada a este assunto.<\/p>\n<p><strong>O CAR\u00c1TER E A VIA DA REVOLU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Em Cuba ficou demonstrada uma regularidade da revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina: a revolu\u00e7\u00e3o que aqui amadurece \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o socialista. Ficou tamb\u00e9m demonstrado em Cuba que n\u00e3o se pode ir ao socialismo, que n\u00e3o se pode realizar revolu\u00e7\u00e3o socialista sen\u00e3o com bandeiras democr\u00e1ticas anti-imperialistas, que n\u00e3o se pode realizar at\u00e9 o fundo a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica anti-imperialista nem se pode defender suas conquistas sem se atingir o socialismo.<\/p>\n<p>Dito de outra maneira: n\u00e3o se pode atingir o socialismo sen\u00e3o pela via da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica anti-imperialista, mas tampouco se pode consumar a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica anti-imperialista sem atingir o socialismo. De maneira que entre ambas h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o essencial indissol\u00favel, s\u00e3o facetas de uma \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o duas revolu\u00e7\u00f5es. Se olhamos de agora para o futuro, o que se apresenta \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica anti-imperialista e que n\u00e3o se apresenta com uma revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 parte, sen\u00e3o como a realiza\u00e7\u00e3o das tarefas pr\u00f3prias da primeira fase da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Sendo assim, compreende-se melhor que n\u00e3o pode haver revolu\u00e7\u00e3o sem resolver a fundo o problema do poder e que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio esperar que as grandes massas tenham uma consci\u00eancia socialista para conceber a tomada revolucion\u00e1ria do poder. Em Cuba, n\u00e3o havia consci\u00eancia socialista generalizada antes da vit\u00f3ria de 1\u00b0 de janeiro de 1959. Parece-me que, se o problema do car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 enfocado desta maneira, a atividade dos partidos revolucion\u00e1rios n\u00e3o pode deixar de ter em seu centro o problema do poder.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei de onde surgiu este esquema, mas nosso partido, e me parece que muitos outros partidos comunistas da Am\u00e9rica Latina, temos trabalhado durante dec\u00eanios com a id\u00e9ia de duas revolu\u00e7\u00f5es e v\u00edamos a experi\u00eancia cubana com uma \u201cpeculiaridade excepcional\u201d. Reagimos tantas e tantas vezes contra a coloca\u00e7\u00e3o esquerdista da luta pela implanta\u00e7\u00e3o direta, sem est\u00e1gios, do socialismo e chegamos a nos convencer de que a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma tarefa a ser organizada e promovida principalmente por n\u00f3s. Que poder\u00edamos nos limitar e nos conformarmos em ser for\u00e7a de apoio e assegurar a amplitude do leque das for\u00e7as democr\u00e1ticas participantes.<\/p>\n<p>Assim, a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica antiimperialista se nos apresentava como uma \u201cvia de aproxima\u00e7\u00e3o\u201d, que pode alcan\u00e7ar-se deixando na dianteira da a\u00e7\u00e3o setores \u201cprogressistas\u201d, \u201canti-imperialistas\u201d, das camadas m\u00e9dias (da intelectualidade, dos militares, etc.) e at\u00e9 da burguesia. As experi\u00eancias peruana, panamenha e portuguesa (brevemente tamb\u00e9m a experi\u00eancia do Gal Juan Torres na Bol\u00edvia), pareceram confirmar esta tese ainda que elas mesmas terminaram negando-a. Claro que em nenhum documento partid\u00e1rio se disse expressamente tal coisa, mas a conduta pr\u00e1tica de nosso partido e de outros partidos irm\u00e3os foi essa. O que surge de tal conduta n\u00e3o \u00e9 nem pode ser o partido da revolu\u00e7\u00e3o mas sim o partido das reformas. O Partido Comunista Salvadorenho, para assumir seu papel revolucion\u00e1rio, teve que abandonar este esquema equivocado.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos convencidos de que o movimento comunista latino-americano h\u00e1 que fazer uma grande luta ideol\u00f3gica para nos livrarmos desse peso reformista.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que estou longe de pensar que esta \u00e9 uma an\u00e1lise integral e suficientemente profunda. S\u00e3o simplesmente reflex\u00f5es e preocupa\u00e7\u00f5es, dedu\u00e7\u00f5es de nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia e sugest\u00f5es para aqueles que trabalham na esfera cientifica, estudando o processo revolucion\u00e1rio mundial; s\u00e3o sugest\u00f5es para voltar a este ponto, com freq\u00fc\u00eancia, ainda que pare\u00e7a um assunto elementar.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da luta pelo poder est\u00e1 ligada a demasiadas coisas. Primeiramente com o problema da via da revolu\u00e7\u00e3o e do car\u00e1ter desta. Na Am\u00e9rica Latina a revolu\u00e7\u00e3o socialista, h\u00e1 que arrebatar o poder \u00e0 burguesia, h\u00e1 que destruir o aparelho burocr\u00e1tico militar da burguesia; isto nas condi\u00e7\u00f5es atuais \u2013 e o ser\u00e1 assim por muit\u00edssimo tempo \u2013 n\u00e3o pode realizar-se pela via pac\u00edfica.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, esta tese j\u00e1 foi comprovada pela experi\u00eancia de duas revolu\u00e7\u00f5es armadas triunfantes e pela derrota de dois intentos de consumar a via pac\u00edfica, nos dois pa\u00edses mais democr\u00e1ticos do continente: Chile e Uruguai. Em ambos os casos, ex\u00e9rcitos \u201cinstitucionalistas\u201d, \u201cprofissionalistas\u201d e as n\u00e3o tradicionais, tropas gorilas, t\u00e3o difundidas em nosso continente, puseram a pique o barco e a navega\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica. Costa Rica, a \u201cSu\u00ed\u00e7a da Am\u00e9rica\u201d \u2013 que \u201cn\u00e3o tem ex\u00e9rcito\u201d \u2013 encontra-se sacudida hoje por uma vertiginosa carreira repressiva, de organiza\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o de bandos fascistas armados sobre o cen\u00e1rio de uma desenfreada crise econ\u00f4mica. Ningu\u00e9m adere agora na Costa Rica \u00e0 hip\u00f3tese de uma evolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica da revolu\u00e7\u00e3o. A id\u00e9ia da via pac\u00edfica para a revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina est\u00e1 ligada ao reformismo, no meu entender.<\/p>\n<p>Na sociedade latino-americana h\u00e1 muitas for\u00e7as progressistas. Poderia se pensar que unindo estes setores progressistas pode-se influir sobre o que costuma chamar-se hoje \u201ccentros e aparelhos do Poder\u201d e, pouco a pouco, ir modificando a ess\u00eancia do Estado, \u201ctomar o poder por partes\u201d. Se aceitamos que a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica anti-imperialista \u00e9 parte insepar\u00e1vel da revolu\u00e7\u00e3o socialista, n\u00e3o se pode realizar a revolu\u00e7\u00e3o tomando pacificamente o poder por partes, ser\u00e1 indispens\u00e1vel sob uma ou outra forma, desmantelar a m\u00e1quina estatal dos capitalistas e seus amos imperialistas, erigir um novo poder e um novo estado. Em tais condi\u00e7\u00f5es, resulta evidente que a via pac\u00edfica n\u00e3o \u00e9 a via da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Manejar este problema da via da revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina a partir de que \u00e9 indiscutivelmente verdadeira (com for\u00e7a de dogma) a afirma\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 possibilidades iguais, eq\u00fcitativas, pela via armada e via pac\u00edfica \u00e9, em nossa opini\u00e3o um erro muito grande, inclusive se esta tese se formula como uma afirma\u00e7\u00e3o \u201cem principio\u201d. \u00c9 igualmente um grave erro manejar a quest\u00e3o da via da revolu\u00e7\u00e3o com um assunto puramente \u201ct\u00e1tico\u201d, sujeito a imprevis\u00edveis varia\u00e7\u00f5es\u201d. Ambos esquemas s\u00e3o uma coloca\u00e7\u00e3o eufem\u00edstica da posi\u00e7\u00e3o reformista, n\u00e3o revolucion\u00e1ria, que aliena o papel de vanguarda do partido comunista.<\/p>\n<p>Logo, a via armada da revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o exclui a luta pela realiza\u00e7\u00e3o das reformas econ\u00f4mico-sociais. Esta luta joga um importante papel na educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das massas e as alian\u00e7as; ademais as mudan\u00e7as \u201cprofundas\u201d do programa democr\u00e1tico antiimperialista s\u00e3o em ess\u00eancia reformas, j\u00e1 que por si s\u00f3 n\u00e3o podem abolir o capitalismo e, pelo contr\u00e1rio, podem refor\u00e7\u00e1-lo; o que imprime um car\u00e1ter revolucion\u00e1rio a esse programa \u00e9 a luta revolucion\u00e1ria pelo poder e a tomada revolucion\u00e1ria do poder.<\/p>\n<p>Na experi\u00eancia do Partido Comunista Salvadorenho, os err\u00f4neos enfoques e em certos aspectos fundamentais, menos que erros, debilidades te\u00f3rico-ideol\u00f3gicas relacionadas com os problemas do poder, o car\u00e1ter e a via da revolu\u00e7\u00e3o, junto com a influ\u00eancia das concep\u00e7\u00f5es de nossos aliados democr\u00e1ticos no curso da luta eleitoral de onze anos, na qual participamos os comunistas, engendraram em nossas fileiras esquemas e ilus\u00f5es reformistas. Desfazer-se delas requereu autocr\u00edtica franca e profunda, junto com medidas audazes e dif\u00edceis.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o do PCS na luta eleitoral foi acertada. A luta eleitoral se havia convertido objetivamente na arena principal da luta pol\u00edtica nacional desde 1964, sobre a base da industrializa\u00e7\u00e3o e do grande auge econ\u00f4mico (1963-1968) que ent\u00e3o se lograva no marco dos conv\u00eanios do Mercado Comum centro-americano e depois da reforma legal que permitiu a representa\u00e7\u00e3o proporcional na Assembl\u00e9ia Legislativa. N\u00e3o participar na luta eleitoral significava de fato colocar-se bastante \u00e0 margem da luta pol\u00edtica e ademais abandonar as massas ao controle ideol\u00f3gico da burguesia.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que desde 1970 as organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias armadas, surgidas nesse ano, repudiaram a luta eleitoral e se abstiveram de participar delas. Mas tamb\u00e9m \u00e9 certo, como o reconhece hoje a maioria dessas organiza\u00e7\u00f5es irm\u00e3s, que o crescimento e desenvolvimento da luta armada recebeu bastante contribui\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o dos comunistas nas freq\u00fcentes contendas eleitorais (tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es presidenciais e seis elei\u00e7\u00f5es parlamentares e municipais entre 1966 e 1977).<\/p>\n<p>Com efeito, a participa\u00e7\u00e3o do PCS na luta eleitoral de onze anos, ainda que n\u00e3o com seu pr\u00f3prio nome por causa de sua ilegalidade, facilitou \u00e0s massas trabalhadoras e populares em geral, fazer uma intensa aprendizagem pol\u00edtica, conquistou a maioria para a causa democr\u00e1tica anti-imperialista, alertou em tempo ao povo e a todas as for\u00e7as democr\u00e1ticas contra o perigo do fascismo, ajudou a precipitar a crise da ditadura militar como sistema pol\u00edtico de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 em v\u00e3o, escreveu L\u00eanin em seu folheto \u201csobre o Estado\u201d publicado em 1929: \u201c&#8230;s\u00f3 o capitalismo, gra\u00e7as \u00e0 luta urbana, permitiu \u00e0 classe oprimida dos prolet\u00e1rios adquirir consci\u00eancia de si mesma e criar o movimento oper\u00e1rio universal, os milh\u00f5es de oper\u00e1rios organizados em partidos no mundo inteiro, os partidos socialistas que dirigem conscientemente a luta das massas. Sem parlamentar, sem elei\u00e7\u00f5es, este desenvolvimento da classe oper\u00e1ria, teria sido imposs\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>A vida demonstrou em El Salvador, que a participa\u00e7\u00e3o eleitoral dos comunistas deu uma grande contribui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao movimento de luta pela revolu\u00e7\u00e3o e que, olhando neste momento todo aquele per\u00edodo, pode-se afirmar que o atual movimento revolucion\u00e1rio, seu programa, sua linha, \u00e9 uma s\u00edntese da luta armada e de massas das organiza\u00e7\u00f5es irm\u00e3s, de suas elabora\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas-pol\u00edticas, da luta pol\u00edtica e de massas, e a linha do PCS.<\/p>\n<p>Apesar de tudo que tem de positivo de nossa participa\u00e7\u00e3o eleitoral, \u00e9 necess\u00e1rio insistir em assinalar que ela manteve vivas e, de certo modo, refor\u00e7ou as manifesta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gico-politicas do reformismo em nossas fileiras, come\u00e7ando pela Dire\u00e7\u00e3o, embora nunca se tenha adotado oficialmente a via pac\u00edfica da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O movimento eleitoral levou a maioria do povo a enfrentar a fraude, a imposi\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o e assim, na pr\u00e1tica \u2013 n\u00e3o somente por n\u00f3s como tamb\u00e9m pelas grandes massas \u2013 se esgotaram as possibilidades da \u201cvia\u201d das elei\u00e7\u00f5es para democratizar e transformar o pa\u00eds. N\u00f3s sab\u00edamos que assim ocorreria e ajudamos as massas a realizar o aprendizado desta verdade levando-as a confrontar-se com ela e realizando uma propaganda esclarecedora sistem\u00e1tica. Na escola insubstitu\u00edvel de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, as grandes massas aprenderam a conhecer a verdadeira face da ditadura militar reacion\u00e1ria, seu fraudulento jogo com as elei\u00e7\u00f5es, livraram-se das ilus\u00f5es, da \u201cvia\u201d eleitoral e compreenderam que n\u00e3o h\u00e1 outro caminho para alcan\u00e7ar a democracia, a justi\u00e7a social e o progresso a servi\u00e7o do povo, que a derrubada da ditadura, cada dia mais sanguin\u00e1ria e opressiva, atrav\u00e9s da viol\u00eancia revolucion\u00e1ria. Repito, os comunistas ajudamos conscientemente as massas a realizar esse aprendizado. Em nossas campanhas eleitorais dizemos que n\u00e3o se devia esperar das urnas o poder, que estas eram um ponto de passagem no caminho e que o poder teria que ser conquistado com outra forma de luta.<\/p>\n<p>Isto contribuiu para preparar as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para uma virada ampla das massas no sentido do apoio \u00e0 luta armada e \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o de um crescente n\u00famero de seus componentes como militantes e combatentes das organiza\u00e7\u00f5es armadas.<\/p>\n<p>Mas chegado este momento \u2013 em fevereiro de 1977 \u2013 e apesar que a comiss\u00e3o pol\u00edtica do Comit\u00ea Central concordou em realizar a mudan\u00e7a de nosso partido para a luta armada que dar\u00e1 continuidade \u00e0 luta pol\u00edtica do povo, demoramos 2 anos em consum\u00e1-la. Tivemos que fazer um grande esfor\u00e7o anal\u00edtico e autocr\u00edtico para encontrar as causas dessa demora. O \u00eaxito desse esfor\u00e7o pode ser alcan\u00e7ado, principalmente, porque logramos vencer o m\u00e9todo frequentemente praticado em circunst\u00e2ncias semelhantes, que consiste em lan\u00e7ar culpa uns aos outros no partido, ou de culpar outras organiza\u00e7\u00f5es evitando-se enfrentar a verdade e chegando, por outro lado, a provocar fracionamentos. O fracionamento poderia ter marginalizado o partido da vida pol\u00edtica do pa\u00eds. As conclus\u00f5es do esfor\u00e7o anal\u00edtico do PCS pode resumir-se assim: existiam obst\u00e1culos ideol\u00f3gicos e org\u00e2nicos que se chocavam contra as decis\u00f5es de realizar a virada em favor da luta armada.<\/p>\n<p>No que se refere aos obst\u00e1culos ideol\u00f3gicos, j\u00e1 falei. O principal obst\u00e1culo org\u00e2nico consistia em que quadros do partido, os quadros da dire\u00e7\u00e3o nacional e os intermedi\u00e1rios, que s\u00e3o o c\u00e9rebro, os ossos e nervos do partido, de quem depende decisivamente a elabora\u00e7\u00e3o e o cumprimento dos acordos centrais n\u00e3o sabiam como organizar a passagem \u00e0 luta armada, nem como combin\u00e1-la com a luta pol\u00edtica. Sua forma\u00e7\u00e3o era unilateral. Nossos quadros eram sumamente eficientes e, inclusive, inovadores para desenvolver a luta de massas n\u00e3o armada, para propaganda, para agita\u00e7\u00e3o, para o trabalho com os aliados democr\u00e1ticos, para o trabalho nas universidades, mas quando chegou a hora de implementar esta forma superior de luta n\u00e3o est\u00e1vamos preparados para ela.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos uma comiss\u00e3o militar, mas o conjunto de quadros do partido, que \u00e9 o decisivo, n\u00e3o sabia como levar \u00e0 pr\u00e1tica as orienta\u00e7\u00f5es acerca da luta armada. Para superar este obst\u00e1culo, a Dire\u00e7\u00e3o empreendeu passos audaciosos, baseando-se nos acordos do VII Congresso, realizado na clandestinidade em abril de 1979. Foi abandonada a id\u00e9ia de que a Comiss\u00e3o Militar \u00e9 a encarregada de formar um aparelho militar, separado do corpo do partido, numa esp\u00e9cie de dispositivo que deve sair do seu misterioso esconderijo e entrar em a\u00e7\u00e3o quando chega o momento. A vida demonstrou que desse modo n\u00e3o se pode criar t\u00e3o milagroso mecanismo. Os companheiros da Comiss\u00e3o Militar n\u00e3o tinham culpa. Essa situa\u00e7\u00e3o era o resultado de um defeito essencial na pol\u00edtica geral para a forma\u00e7\u00e3o de quadros do Partido, pol\u00edtica sem duvida vinculada \u00e0s concep\u00e7\u00f5es reformistas n\u00e3o derrotadas totalmente.<\/p>\n<p>Ademais, se a Comiss\u00e3o Militar houvesse logrado desenvolver esse tipo de aparato militar, haver\u00edamos tido um enorme problema. No geral, segundo a experi\u00eancia dos outros partidos, aqui mesmo na \u00e1rea centro-americana, isto acaba em enfrentamento entre a Comiss\u00e3o Militar e o resto da Dire\u00e7\u00e3o. Na base das contradi\u00e7\u00f5es entre as comiss\u00f5es militares e o resto do Partido, independentemente de se uns e outros levam raz\u00e3o em cada conflito concreto, encontramos este problema da incapacidade do conjunto do Partido para organizar e dirigir a luta armada quando chega o momento de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Este problema s\u00f3 podia resolver-se convertendo o Partido, em seu conjunto, em chefe e ator n\u00e3o s\u00f3 de sua luta pol\u00edtica como tamb\u00e9m de sua luta armada, tornando o grande combinador e dirigente de todas as formas de luta. Para lograr isso, tivemos que tomar medidas audazes: fizemos que um n\u00famero rapidamente crescente dos membros do Comit\u00ea Central, da Comiss\u00e3o Pol\u00edtica, dos Comit\u00eas Dirigentes Intermedi\u00e1rios e uma grande massa do Partido e da Juventude Comunista de El Salvador, JCS, estudassem os problemas da luta armada revolucion\u00e1ria e se exercitassem na arte e na t\u00e9cnica militar, n\u00e3o para dedicar todos eles ao aparelho militar, se n\u00e3o para praticar a convic\u00e7\u00e3o de que a luta armada no Partido deve ser organizada realizada e dirigida pelo Partido, por seus organismos dirigentes e de base.<\/p>\n<p>O acerto daquela orienta\u00e7\u00e3o se confirmou nos fatos de que nossas for\u00e7as armadas se multiplicaram muitas vezes, a partir dos dias seguintes ao VII Congresso e, o que \u00e9 mais importante, combatem hoje com crescente capacidade e efic\u00e1cia. Se n\u00f3s n\u00e3o houv\u00e9ssemos feito esta virada org\u00e2nica, as massas teriam continuado batendo \u00e0s portas de nosso Partido, pedindo para incorporar-se e n\u00e3o ter\u00edamos podido assimil\u00e1-las, exceto a uns poucos indiv\u00edduos. O Partido teria ficado assim exclu\u00eddo da fila de frente da revolu\u00e7\u00e3o, qui\u00e7\u00e1 se haveria dividido e se liquidado.<\/p>\n<p>Quero sublinhar que, a partir de nossa experi\u00eancia, a conclus\u00e3o \u00e9 que as concep\u00e7\u00f5es reformistas com respeito ao problema do poder e \u00e0 via da revolu\u00e7\u00e3o v\u00eam unidas \u00e0 exist\u00eancia de uma estrutura org\u00e2nica partid\u00e1ria atrofiada, tamb\u00e9m reformista. Nossos partidos s\u00e3o capazes de organizar a luta sindical, a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda pol\u00edtica, as manifesta\u00e7\u00f5es de massas, as greves, as campanhas eleitorais e demais atividades similares; por\u00e9m, n\u00e3o mais que isso. Assim s\u00f3 podemos ser for\u00e7a de apoio.<\/p>\n<p><strong>A UNIDADE DA ESQUERDA REVOLUCION\u00c1RIA<\/strong><\/p>\n<p>Ligada com todos estes problemas est\u00e1 a quest\u00e3o da unidade das for\u00e7as de esquerda revolucion\u00e1ria, a atitude dos comunistas com respeito \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias surgidas fora das estruturas do partido. \u00c9 curioso e sintom\u00e1tico que os partidos comunistas tenhamos mostrado nos \u00faltimos dec\u00eanios uma grande capacidade para nos entendermos com os vizinhos do lado direito, enquanto que em troca n\u00e3o logramos, na maioria dos casos, estabelecer rela\u00e7\u00f5es, alian\u00e7as est\u00e1veis e progressivas com nossos vizinhos do lado esquerdo. Entendemos perfeitamente todos os matizes a partir de n\u00f3s para a direita, suas origens, sua significa\u00e7\u00e3o, etc., mas com respeito aos que est\u00e3o \u00e0 nossa esquerda, n\u00e3o somos capazes de compreender a ess\u00eancia mesma do fen\u00f4meno de sua exist\u00eancia e caracter\u00edsticas, nem sua significa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica objetiva, nem nossas tarefas para com eles. Os comunistas latino-americanos n\u00e3o tivemos durante muito tempo uma linha consistente e sistem\u00e1tica para unir todas as for\u00e7as da esquerda, inclu\u00edda a esquerda armada.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada pejorativo nem depreciativo na denomina\u00e7\u00e3o \u201cvizinhos do lado direito\u201d, \u00e9 s\u00f3 um recurso para grafar a exposi\u00e7\u00e3o destas id\u00e9ias. Os comunistas salvadorenhos, nos orgulhamos e nos sentimos honrados pela amizade de uma grande parte desses aliados, firmes e conseq\u00fcentes lutadores pelos ideais democr\u00e1ticos, de independ\u00eancia e progresso social.<\/p>\n<p>Nisto jogam seu papel v\u00e1rios fatores. O principal sem embargo \u00e9 que, no geral \u2013 ainda que n\u00e3o em todos os casos \u2013 os que \u00e0 nossa esquerda empunham as armas se comprometem em uma luta revolucion\u00e1ria real, cometem muitos erros t\u00edpicos do esquerdismo em suas coloca\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, atacando duramente o Partido dos comunistas, mas acerta num ponto fundamental: trabalham obcecados por organizar e promover a luta armada que na Am\u00e9rica Latina e em tantas outras regi\u00f5es do terceiro mundo demonstrou ser a via da revolu\u00e7\u00e3o. Na medida que persistem em sua luta, e seus erros n\u00e3o os fazem sucumbir, aprendem pouco a pouco de seus reveses, corrigem seus erros pol\u00edticos e se libertam por fim de sua enfermidade esquerdista, ainda que muitas dessas organiza\u00e7\u00f5es jamais logrem corrigir-se, se n\u00e3o sucumbem, vegetam inclusive por dec\u00eanios, como grupos de catacumba. Deixam de ser revolucion\u00e1rios, derivam para o terrorismo individual. Uma correta linha de luta pela unidade da esquerda impulsionada pelos comunistas, poderia acelerar ou ajudar na corre\u00e7\u00e3o dos erros esquerdistas. Mas os comunistas n\u00e3o podem jogar esse papel se n\u00e3o corrigem seus pr\u00f3prios erros de direita, seu reformismo.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o chega \u00e0 corre\u00e7\u00e3o do reformismo, as rela\u00e7\u00f5es entre os comunistas e a esquerda armada \u2013 fazendo de um lado toda ret\u00f3rica \u2013 se coloca na pr\u00e1tica e ess\u00eancia como a rela\u00e7\u00e3o entre a reforma e a revolu\u00e7\u00e3o; e est\u00e1 claro que os reformistas podem entender-se melhor com outros reformistas. Essa, acredito, \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o de por que os comunistas latino-americanos sabemos nos entender melhor com os que est\u00e3o \u00e0 nossa direita do que com os que est\u00e3o \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>Suponha-se que nisto est\u00e3o implicados muitos outros aspectos do problema. Primeiro o fato de que possam surgir outras organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias \u00e0 margem das estruturas de nossos partidos. O velho discurso dogm\u00e1tico de que o partido comunista \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, \u201co partido da classe oper\u00e1ria\u201d, a \u201cvanguarda de luta anti-imperialista e pelo socialismo\u201d, etc., reduz e inclusive bloqueia nossa capacidade para compreender que nas condi\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas (de classe) engendradas pelo capitalismo dependente na Am\u00e9rica Latina, \u00e9 imposs\u00edvel que tais organiza\u00e7\u00f5es da esquerda armada deixem de surgir e de existir e que, portanto, \u00e9 absurdamente indispens\u00e1vel realizar uma sistem\u00e1tica pol\u00edtica para elas que combine a luta ideol\u00f3gica contra seus erros e a luta pela unidade com eles, baseada na eleva\u00e7\u00e3o real do car\u00e1ter revolucion\u00e1rio, do car\u00e1ter classista e de vanguarda de nosso partido.<\/p>\n<p>Entre as causas que tornaram poss\u00edvel o surgimento de organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias fora das estruturas do PCS, t\u00eam lugar importante os tra\u00e7os reformistas de sua pol\u00edtica, os quais j\u00e1 pontifiquei, sua incompreens\u00e3o dos problemas e possibilidades pr\u00e1ticas para organizar e desenvolver a luta armada nas condi\u00e7\u00f5es de nosso pequeno e densamente povoado pa\u00eds (um documento aprovado em mar\u00e7o de 1968 praticamente descartava que se pudesse desenvolver a guerra de guerrilhas, exceto pra defender o poder revolucion\u00e1rio instaurado por meio de uma insurrei\u00e7\u00e3o geral).<\/p>\n<p>Mas os erros e debilidades do partido comunista n\u00e3o s\u00e3o a causa absoluta do surgimento de ditas organiza\u00e7\u00f5es como foi alegado por alguns. Inclusive se o partido n\u00e3o tivesse cometido tais erros teriam surgido uma ou mais organiza\u00e7\u00f5es esquerdistas, como o demonstraram experi\u00eancias, entre elas a dos bolcheviques.<\/p>\n<p>\u00c9 que ademais de causas subjetivas existem tamb\u00e9m determinantes causas objetivas que t\u00eam suas ra\u00edzes na estrutura de classe e nos fen\u00f4menos sociais pr\u00f3prios do capitalismo dependente, quando o modo de produ\u00e7\u00e3o e a superestrutura estatal abrigam res\u00edduos de forma\u00e7\u00f5es sociais pr\u00e9-capitalistas ou do capitalismo primitivo. Em El Salvador, os processos que impulsionaram uma brusca expans\u00e3o do capitalismo dependente tiveram lugar nos anos 50 e, sobretudo, nos sessenta. Estes processos tiveram em cena novos sujeitos sociais, sem os quais \u00e9 imposs\u00edvel entender o leque de todas as for\u00e7as pol\u00edticas que hoje se confrontam em El Salvador.<\/p>\n<p>Examinemos a quest\u00e3o dos novos agentes populares. Surgiu uma nova classe oper\u00e1ria do processo de industrializa\u00e7\u00e3o daqueles anos, mais qualificada desde o ponto de vista t\u00e9cnico, por\u00e9m com uma consci\u00eancia de classe muito mais d\u00e9bil que a velha classe oper\u00e1ria artesanal, produto de sua recente origem social camponesa e pequeno-burguesa provinciana; um proletariado e semi-proletariado agr\u00edcola muito ressentido por sua recente proletariza\u00e7\u00e3o e, portanto, muito explosivo; um enorme setor marginal urbano produto da emigra\u00e7\u00e3o rural provocada pelo desenvolvimento do capitalismo na agricultura; e um importante setor pequeno burgu\u00eas intelectual, tamb\u00e9m marginal, nascido da expans\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia e universit\u00e1ria, que n\u00e3o tem correspond\u00eancia com as capacidades internacionais que o estabelecimento econ\u00f4mico nacional proporciona.<\/p>\n<p>S\u00f3 quando entendemos esta quest\u00e3o dos novos agentes sociais criados pela expans\u00e3o do capitalismo dependente, podemos compreender que a possibilidade do surgimento de verdadeiras organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas revolucion\u00e1rias fora das estruturas do partido comunista existe objetivamente, e que \u00e9 pr\u00f3prio dos pa\u00edses de capitalismo dependente muito mais que dos pa\u00edses de capitalismo desenvolvido.<\/p>\n<p>Trata-se de organiza\u00e7\u00f5es que aderem ao marxismo-leninismo, que apresentam as perspectivas do socialismo, em que pese n\u00e3o estarem vinculadas ao Movimento Comunista Internacional.<\/p>\n<p>Todavia, n\u00e3o faltam casos em que tais grupos degeneram em desprez\u00edveis redutos de provoca\u00e7\u00e3o e divisionismo ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, o discurso destas organiza\u00e7\u00f5es \u00e9 muito similar ao esquerdismo infantil criticado por L\u00eanin, mas os agentes n\u00e3o s\u00e3o exatamente id\u00eanticos. Estas organiza\u00e7\u00f5es aparecem, inclusive, onde h\u00e1 partidos comunistas desenvolvidos e reaparecem ainda quando derrotados e aniquilados fisicamente. N\u00e3o s\u00e3o, pois, propriamente express\u00f5es da inf\u00e2ncia do movimento oper\u00e1rio e dos partidos comunistas, que se supera pelo desenvolvimento destes, sen\u00e3o que se repete constantemente originando organiza\u00e7\u00f5es com freq\u00fc\u00eancia maiores que os respectivos partidos comunistas. Os partidos comunistas, na maioria de nossos pa\u00edses, s\u00e3o pequenos e pouco influentes, pese sua m\u00e9dia de idade ao redor de meio s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina \u00e9 este um fen\u00f4meno que possui sua pr\u00f3pria sustenta\u00e7\u00e3o social, majorit\u00e1ria na sociedade capitalista dependente. Da\u00ed que se analisarmos o problema s\u00f3 atendendo o discurso das organiza\u00e7\u00f5es surgidas \u00e0 margem do Partido (PC), pode se cometer o erro de pensar que se realizarmos uma luta ideol\u00f3gica e pol\u00edtica en\u00e9rgica contra o esquerdismo, desaparecer\u00e3o estes grupos esquerdistas ou se reduzir\u00e3o \u00e0 insignific\u00e2ncia. Este esquema fracassou na Am\u00e9rica Latina; n\u00e3o conduziu ao desaparecimento das organiza\u00e7\u00f5es \u201cesquerdistas\u201d, nem \u00e0 unidade das for\u00e7as revolucion\u00e1rias, sen\u00e3o ao enfrentamento dos partidos comunistas com as demais organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. Favoreceu o fortalecimento de correntes reformistas nas fileiras comunistas e n\u00e3o contribuiu tampouco ao amadurecimento do pr\u00f3prio partido, se entendemos por maturidade n\u00e3o a idade mas sim a compreens\u00e3o da vida que nos rodeia, a realidade social e pol\u00edtica na qual se est\u00e1 imerso e a capacidade de mud\u00e1-la. Em numerosos casos algumas dessas organiza\u00e7\u00f5es \u201cesquerdistas\u201d n\u00e3o s\u00f3 cresceram mais que o respectivo partido comunista, como tamb\u00e9m amadureceram antes dele e conduziram os trabalhadores e outras classes e camadas populares a realizar vitoriosamente a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica anti-imperialista e se transformaram, ou se transformam hoje no partido marxista-leninista que encabe\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o do socialismo ou a marcha para este.<\/p>\n<p>Penso que tem uma grande import\u00e2ncia a an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es objetivas sobre as quais surge o fen\u00f4meno da prolifera\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda. Tratei de esbo\u00e7ar o problema, de coloc\u00e1-lo no terreno objetivo e oferec\u00ea-lo assim \u00e0 discuss\u00e3o. Estou convencido, repito, de que entender isto \u00e9 j\u00e1 ganhar mais da metade das premissas necess\u00e1rias para elaborar uma pol\u00edtica correta de unidade das for\u00e7as revolucion\u00e1rias e do movimento revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Eu sustento, pois, que independentemente de que os partidos comunistas cometam erros ou n\u00e3o, existem ra\u00edzes na Am\u00e9rica Latina e outras regi\u00f5es de similar desenvolvimento social no mundo para que surjam essas organiza\u00e7\u00f5es. Isso se deduz de nossa experi\u00eancia e n\u00e3o s\u00f3 dela. Podemos ver muito claramente esta verdade, se temos em conta que o PCS foi durante 40 anos um lutador solit\u00e1rio pelas id\u00e9ias do socialismo e do comunismo, inclusive a \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o de esquerda no pa\u00eds (desde sua funda\u00e7\u00e3o em 1930, at\u00e9 o aparecimento de organiza\u00e7\u00f5es da esquerda armada em 1970). Durante quarenta anos, nosso partido sofreu mais e durante mais tempo por sua enfermidade reformista (que o afetou em alguns momentos) e, sem embargo, puderam surgir novas organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias unicamente at\u00e9 depois de que o substancial desdobramento do capitalismo dependente mudou o panorama social, engendrou uma nova estrutura classista.<\/p>\n<p>Durante mais de 5 anos, o PCS realizou uma ativa pol\u00eamica p\u00fablica com as coloca\u00e7\u00f5es e posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas das organiza\u00e7\u00f5es da esquerda armada. A caracter\u00edstica principal do estilo e do m\u00e9todo de nossa pol\u00eamica constitui em descartar a utiliza\u00e7\u00e3o de adjetivos em substitui\u00e7\u00e3o a an\u00e1lise e abordar anal\u00edtica, clara e persuasivamente e o mais profundo poss\u00edvel temas fundamentais das discrep\u00e2ncias entre nossas linhas gerais e entre nossas concep\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. Esfor\u00e7amo-nos a expor e desenvolver nossa pol\u00edtica de alian\u00e7as, nossa tese sobre o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o, nossa t\u00e1tica nas elei\u00e7\u00f5es, nossa opini\u00e3o acerca das possibilidades da real configura\u00e7\u00e3o do fascismo nas condi\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica Latina (possibilidade negada por algumas organiza\u00e7\u00f5es) e sobre o processo de fascistiza\u00e7\u00e3o da velha ditadura militar que se desenvolvia em nosso pa\u00eds. Realiz\u00e1vamos nossa pol\u00eamica pronunciando-nos a favor da unidade da esquerda e no marco de uma luta expressa para alcan\u00e7ar dita unidade. Corresponde ao PCS o m\u00e9rito de haver desfraldado primeiro e defendido mais sistematicamente a bandeira da unidade da esquerda.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante as virtudes de nossa pol\u00eamica, que sem d\u00favida contribuiu para esclarecer a tem\u00e1tica te\u00f3rico-pol\u00edtica que confrontava o movimento revolucion\u00e1rio e democr\u00e1tico, houve nela uma debilidade: o tema da via da revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi abordado; a dial\u00e9tica relacionada com o poder e o programa econ\u00f4mico-social s\u00f3 foi abordado nos dias seguintes ao triunfo da revolu\u00e7\u00e3o popular sandinista. Este vazio na tem\u00e1tica de nossa pol\u00eamica n\u00e3o foi casual: resultava das amarras reformistas a que me referi antes.<\/p>\n<p><strong>Palavras Finais<\/strong><\/p>\n<p>O PCS n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico destacamento do movimento comunista latino-americano que realiza esta fundamental virada revolucion\u00e1ria. S\u00e3o v\u00e1rios os partidos que na Am\u00e9rica do Sul e Central aceitam o desafio da luta armada e a unidade das for\u00e7as revolucion\u00e1rias. Esta \u00e9 a sa\u00edda j\u00e1 em marcha de uma longa crise de nosso movimento e o peso que este agregar\u00e1 \u00e0 luta pela revolu\u00e7\u00e3o, uma vez sanado de suas enfermidades, ser\u00e1 muito grande.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o triunfar\u00e1 depois de aprender de seus reveses em nosso continente, que vive hoje uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que vai estendendo-se desde a Am\u00e9rica Central e o Caribe que, dia a dia, \u00e9 o epicentro do terremoto que est\u00e1 desaprumando o dom\u00ednio imperialista, as ditaduras militares e a explora\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>(1) \u201cUma vida Dedicada \u00e0 Defesa da Constitui\u00e7\u00e3o\u201d, General Prat, Editora Fondo de Cultura Econ\u00f4mica, M\u00e9xico.<\/p>\n<p>(2) MEP: Nova Pol\u00edtica Econ\u00f4mica aplicada por conselho de L\u00eanin desde finais de 1921 e in\u00edcio de 1922 (depois da guerra civil e da interven\u00e7\u00e3o militar estrangeira) que abarcou v\u00e1rios anos e compreendia a retirada tempor\u00e1ria e a conseq\u00fcente reanima\u00e7\u00e3o do capitalismo, dentro de certos limites e a ofensiva posterior para o socialismo, na conflu\u00eancia dos anos 20 e 30.<\/p>\n<p>*Schafik H\u00e1ndal, faleceu em 24.01.2006, quando retornava da posse de Evo Morales na presid\u00eancia da Bol\u00edvia. Foi candidato derrotado pela FMLN \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica de El Salvador em 2004.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: FMLN\n\n\n\n\n\n\n\n\nComandante Schafik H\u00e1ndal*(Partido Comunista Salvadorenho)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1151\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[94],"tags":[],"class_list":["post-1151","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c107-el-salvador"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-iz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1151","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1151"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1151\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}