{"id":11580,"date":"2016-07-13T16:40:57","date_gmt":"2016-07-13T19:40:57","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11580"},"modified":"2016-08-02T00:59:39","modified_gmt":"2016-08-02T03:59:39","slug":"america-latina-da-ficcao-a-realidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11580","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina da fic\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/AMRICALATINA3MURALDEDIEGORIVERACENTROROC.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Miguel Urbano Rodrigues<\/p>\n<p>Miguel Urbano debru\u00e7a-se neste texto sobre a presente evolu\u00e7\u00e3o daAm\u00e9rica Latina, desde a contesta\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo no in\u00edcio do mil\u00e9nio com a elei\u00e7\u00e3o marcante de dois populistas com discurso anti neoliberal, Lula e Kirchner, para a presid\u00eancia do Brasil (2002) e Argentina (2003), at\u00e9 \u00e0 presente frase de recupera\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es por parte do imperialismo norte-americano.<!--more--><\/p>\n<p>O in\u00edcio do que parece ser o termo do presente ciclo de governos progressistas e das preocupa\u00e7\u00f5es com o futuro de Cuba e das Farc-EP parecem estar a \u00abfavorece[r] a reinstala\u00e7\u00e3o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o\u00bb na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Mas se o presente panorama exige realismo na an\u00e1lise da dificil situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 igualmente importante constatar que o agudizar das contradi\u00e7\u00f5es, acelerado pelo impar\u00e1vel avan\u00e7o da crise estrutural do sistema do capital, tornam necess\u00e1rio que o movimento oper\u00e1rio e sindical e os revolucion\u00e1rios clarifiquem as suas posi\u00e7\u00f5es e rompam com as influ\u00eancias ideol\u00f3gicas alheias aos seus interesses de classe.<\/p>\n<p>Miguel Urbano conclui: \u00abGostaria de ser otimista, mas a situa\u00e7\u00e3o existente na Am\u00e9rica Latrina, imp\u00f5e-me o dever de ser realista\u00bb.<\/p>\n<p>Am\u00e9rica Latina, ou Am\u00e9rique Latine s\u00e3o express\u00f5es geogr\u00e1fico-hist\u00f3ricas relativamente recentes.<\/p>\n<p>Essas palavras foram utilizadas pela primeira vez em 1836 por um franc\u00eas, Michel Chevalier, e vulgarizadas por Napole\u00e3o III quando invadiu e ocupou o M\u00e9xico em 1861. O objetivo do imperador foi excluir os povos da Am\u00e9rica que falavam ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Mas a express\u00e3o \u00e9 enganadora. Com uma superf\u00edcie de 21.070.000 km2, e uma popula\u00e7\u00e3o de aproximadamente 620 milh\u00f5es, a Am\u00e9rica Latina \u00e9 um conjunto heterog\u00e9neo de pa\u00edses.<\/p>\n<p>De comum entre eles somente falarem idiomas latinos \u2013 apenas oficiais em alguns &#8211; e terem sido colonizados e expoliados por pot\u00eancias europeias, e submetidos, a partir da primeira guerra mundial, \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperial dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>DIVERSIDADE<\/strong><\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica desses pa\u00edses \u00e9 extremamente diversificada.<\/p>\n<p>No Haiti (27.000 km2 e 9 milh\u00f5es de habitantes), em Cuba (110.000 km2 e 11.300.000 habitantes), em Porto Rico (8.500 km2 e 4.000.000 de habitantes) e na Rep\u00fablica Dominicana (48.000 km2 e 10.000.000 de habitantes) os povos aut\u00f3ctones foram totalmente exterminados. O Haiti \u00e9 hoje uns pais de afro-haitianos. No Brasil (8.500.000 km2 e 202.000.000 de habitantes) os amer\u00edndios s\u00e3o residuais (menos de 0,5%). A popula\u00e7\u00e3o atual descende de europeus e africanos e, em percentagem m\u00ednima, de asi\u00e1ticos. Na Argentina (2.792.000 km2 e 43.000.000 de habitantes) e no Uruguai (176.000 km2 e 3.500.000 habitantes) a quase totalidade da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 hoje de origem europeia.<\/p>\n<p>A diversidade de crit\u00e9rios adotados nos censos da popula\u00e7\u00e3o retira credibilidade \u00e0s estat\u00edsticas relativas \u00e0 composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica.<\/p>\n<p>Admite-se que no M\u00e9xico (1.964.000 km2) 12 dos 120.000.000 de habitantes s\u00e3o \u00edndios, dos quais uma elevada percentagem se expressa ainda em idiomas anteriores \u00e0 conquista espanhola. No Peru (1.285.000 km2 e 31.000.000 de habitantes) e na Bol\u00edvia (1.09. 000 km2 e 11.000.000 de habitantes), o qu\u00e9chua e o aimar\u00e1, l\u00ednguas do Inc\u00e1rio, s\u00e3o oficiais, ao lado do espanhol. No Equador (243.000 km2 e 16.000.000 de habitantes) a maioria dos \u00edndios mant\u00eam como l\u00edngua materna o qu\u00e9chua.<\/p>\n<p>No Paraguai (406.000 km2 e quase 7.000.000 de habitantes), o guarani \u00e9 falado pela maioria da popula\u00e7\u00e3o, embora esta descenda hoje sobretudo de emigrantes europeus. A chacina foi tamanha durante a guerra genocida contra a Triple Alian\u00e7a (Brasil, Argentina e o Uruguai), que a poligamia foi autorizada porque quatro quintos dos homens morreram durante o conflito, incentivado pela Inglaterra.<\/p>\n<p>No Chile (756.000 km2 e 18.000.000 de habitantes), os mapuches, descendentes dos antigos araucanos, s\u00e3o aproximadamente 1.500.000.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia (1.140.000 km2 e 48.000.000 de habitantes) e na Venezuela (915.000 km2 e 30.000.000 de habitantes) os amer\u00edndios s\u00e3o pouco numerosos, mas a miscigena\u00e7\u00e3o foi intensa. No primeiro desses pa\u00edses existe uma importante minoria de afro-colombianos (quase 5 milh\u00f5es).<\/p>\n<p>Na Guatemala (109.000 km2 e 16.000.000 de habitantes) a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 amer\u00edndia, descendente dos antigos maias, Nas Honduras (110.000 km2 e 8.700.000 habitantes; na Nicar\u00e1gua (148.000 km2 e 5.000.000 de habitantes); em El Salvador (21.500 km2 e 6.500.000 de habitantes); e no Panam\u00e1 (78.000 km2 e 3.000.000 de habitantes, a maioria \u00e9 mesti\u00e7a, mas a percentagem de amer\u00edndios pequena. Na Costa Rica (51.000 km2 e 5.000.000 de habitantes) a maioria tem aspeto europeu, mas isso resultou do genes ib\u00e9rico ter prevalecido sobre o dos aut\u00f3ctones, porque a miscigena\u00e7\u00e3o foi intensa.<\/p>\n<p>A quase totalidade da popula\u00e7\u00e3o das Antilhas Francesas (2.835 k2 e 850.000 habitantes) e da Guiana Francesa (83.000k2 e 250.000 habitantes) \u00e9 de origem africana.<\/p>\n<p><strong>A MESTI\u00c7AGEM E AS INTERA\u00c7\u00d5ES CULTURAIS<\/strong><\/p>\n<p>Dois franceses, Carmen Bernand e Serge Gruzinski, escreveram a obra mais importante que conhe\u00e7o sobre os processos de miscigena\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica*.<\/p>\n<p>Esses historiadores analisam exaustivamente os processos de mesti\u00e7agem no Hemisf\u00e9rio, que diferiram muito consoante as regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Chamam nomeadamente a aten\u00e7\u00e3o para uma realidade pouco estudada. No M\u00e9xico e no Peru, os conquistadores espanh\u00f3is massacraram sistematicamente as elites que detinham o poder e o saber. Mas os capit\u00e3es peninsulares pouparam as mulheres das classes altas de Tenochtitlan e do Inc\u00e1rio e em muitos casos casaram com elas.<\/p>\n<p>Os filhos dessas uni\u00f5es foram educados como espanh\u00f3is e muitos deles destacaram-se como pioneiros de uma nova cultura que fundia os valores da asteca, da inca e da europeia.<\/p>\n<p>\u00c9 conhecido o caso de Garcilaso de la Vega, autor de uma obra cl\u00e1ssica da historiografia espanhola. Sua m\u00e3e era uma princesa inca e seu pai um capit\u00e3o espanhol.<\/p>\n<p>Martin, o filho de Hernan Cort\u00eas e de Dona Marina, uma asteca de origem nobre, tamb\u00e9m se distinguiu pela sua interven\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O M\u00e9xico gerou um not\u00e1vel historiador mesti\u00e7o, Fernando Alva Ixtlixochitl, descendente dos reis de Tenochtitlan e Texcoco.<\/p>\n<p>A partir de meados do s\u00e9culo XVI o nauhatl \u2013 a l\u00edngua mais falada no planalto central mexicano \u2013 passou a ser escrito no alfabeto latino. As elites ind\u00edgenas tiveram acesso \u00e0 cultura do Renascimento no s\u00e9culo de ouro espanhol.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico surgiu uma gera\u00e7\u00e3o de escritores, m\u00fasicos e pintores mesti\u00e7os cujas obras, pela criatividade e imagina\u00e7\u00e3o, expressavam uma nova cultura, s\u00edntese e fus\u00e3o das aut\u00f3ctones e da introduzida pelos conquistadores. E isso ocorreu tambem no Peru, ber\u00e7o de outra das grandes civiliza\u00e7\u00f5es do Novo Mundo, a dos incas.<\/p>\n<p>Os historiadores dedicaram escassa aten\u00e7\u00e3o \u00e0s consequ\u00eancias sociais, econ\u00f3micas e politicas da trag\u00e9dia que do Canad\u00e1 \u00e0 Patag\u00f3nia resultou das doen\u00e7as vindas da Europa.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, um s\u00e9culo ap\u00f3s a conquista, a popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds era aproximadamente de um milh\u00e3o de habitantes, um d\u00e9cimo da existente quando Cort\u00e9s entrou em Tenochtitlan. No Peru, na Bol\u00edvia e no Equador, o despovoamento foi similar porque os \u00edndios n\u00e3o tinham defesas contra epidemias como a da var\u00edola e a da gripe.<\/p>\n<p>Transcorreu quase um quarto de s\u00e9culo desde a publica\u00e7\u00e3o do importante livro de Carmen Bernand e Serge Gruzinski. Estudos gen\u00e9ticos recentes encaram a problem\u00e1tica das mescigena\u00e7\u00f5es num per\u00edodo curto e sob uma perspetiva mais cultural do que \u00e9tnica.<\/p>\n<p>LUZ E SOMBRAS<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XIX as lutas pela independ\u00eancia foram sobretudo lideradas por crioulos de grandes fam\u00edlias. Miranda, Bolivar, San Martin, Sucre, Santander, O\u2019Higgins, Jos\u00e9 Artigas descendiam de europeus.<\/p>\n<p>Mas no M\u00e9xico as insurrei\u00e7\u00f5es armadas foram dirigidas por dois sacerdotes, Miguel Hidalgo e Jos\u00e9 Maria Morelos, este um mesti\u00e7o.<\/p>\n<p>O sonho de Bolivar \u2013 uma Am\u00e9rica Latina unida, democr\u00e1tica, progressista e verdadeiramente independente \u2013 foi rapidamente desmentido pelo rumo da Hist\u00f3ria. As oligarquias que assumiram o poder governaram despoticamente em benef\u00edcio da classe dominante, descendente de europeus. No Brasil, o pr\u00edncipe D. Pedro, filho de D Jo\u00e3o VI, proclamou-se imperador e a monarquia durou at\u00e9 1889.<\/p>\n<p>A ditadura foi, com poucas exce\u00e7\u00f5es, a forma de governo mais comum nas rep\u00fablicas latino-americanas.<\/p>\n<p>O recurso permanente a empr\u00e9stimos, resultantes do desgoverno e da estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, foi determinante para o endividamento galopante desses pa\u00edses. A Inglaterra foi a pot\u00eancia dominante na Regi\u00e3o at\u00e9 final da I Guerra Mundial. Na Argentina e no Chile a sua influ\u00eancia econ\u00f3mica e pol\u00edtica foi hegem\u00f3nica. A partir de 1920, o imperialismo norte-americano dominou o Continente e multiplicou as interven\u00e7\u00f5es militares em pa\u00edses que n\u00e3o se submetiam \u00e0s suas exig\u00eancias (M\u00e9xico, Nicar\u00e1gua, Haiti, Rep\u00fablica Dominicana, Panam\u00e1, Granada, entre outros).<\/p>\n<p><strong>DA REVOLU\u00c7\u00c3O CUBANA \u00c0 CRISE DO PROGRESSISMO<\/strong><\/p>\n<p>A vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana em 1958 gerou uma grande esperan\u00e7a na Am\u00e9rica Latina. A d\u00e9cada de 60 ficou assinalada pela convic\u00e7\u00e3o de que era poss\u00edvel tomar o poder atrav\u00e9s da luta armada e implantar o socialismo em pa\u00edses de capitalismo dependente, semi colonizados pelos EUA. Na Venezuela, no Peru, na Argentina, na Guatemala, na Nicar\u00e1gua, em El Salvador organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias pretensamente marxistas, inspiradas pela experi\u00eancia de Cuba, recorreram \u00e0 guerrilha rural, como estrat\u00e9gia de combate ao imperialismo. A tr\u00e1gica morte do Che na Bol\u00edvia sepultou duramente essa ilus\u00e3o rom\u00e2ntica. As guerrilhas foram derrotadas militarmente na maioria desses pa\u00edses. Em El Salvador um compromisso patrocinado pelos EUA p\u00f3s fim ao conflito armado. Na Nicar\u00e1gua a Frente Sandinista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional chegou ao poder em 1979, derrubando a ditadura de Somoza, mas perdeu-o em 1990 pela via eleitoral.<\/p>\n<p>A grande e inesperada exce\u00e7\u00e3o teve a Col\u00f4mbia por cen\u00e1rio. A sobreviv\u00eancia h\u00e1 mais de meio seculo das For\u00e7as Armadas Revolucionarias da Colombia-Ex\u00e9rcito do Povo demonstrou que em condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, politicas e econ\u00f3micas excecionais era poss\u00edvel desencadear e manter a luta armada contra o Ex\u00e9rcito mais numeroso e bem armado da Am\u00e9rica Latina. As FARC-EP s\u00e3o ali\u00e1s uma guerrilha-partido que se assume como marxista-leninista.<\/p>\n<p>Com a derrota norte-americana no Vietnam e da Fran\u00e7a na Arg\u00e9lia acentuou-se o desprest\u00edgio do imperialismo em escala mundial. A solidariedade da URSS aos movimentos de Liberta\u00e7\u00e3o na \u00c1frica e na \u00c1sia afetou tamb\u00e9m duramente a estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o norte-americana.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Salvador Allende no Chile, o advento no Peru e na Bol\u00edvia dos governos progressistas dos generais Velasco Alvarado e Juan Jos\u00e9 Torres e a resist\u00eancia vitoriosa da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana renovaram a esperan\u00e7a nos pa\u00edses a sul do Rio Bravo.<\/p>\n<p>Mas o imperialismo norte-americano, que alcan\u00e7ara uma grande vit\u00f3ria no Brasil com o golpe militar de 1964, que derrubou o presidente Jo\u00e3o Goulart, retomou a iniciativa na Am\u00e9rica Latina. Washington contribuiu decisivamente para a prepara\u00e7\u00e3o e o \u00eaxito da contrarrevolu\u00e7\u00e3o chilena; Kissinger confirmou-o nas suas mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>No resto do Hemisf\u00e9rio, a derrota das guerrilhas rurais e urbanas permitiu a consolida\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de ditaduras, no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, na Bol\u00edvia, nas Honduras, no Haiti, na Guatemala, na Nicar\u00e1gua.<\/p>\n<p>Os EUA apoiaram esses regimes que se submeteram docilmente \u00e0s exig\u00eancias do Banco Mundial e do FMI, adoptando pol\u00edticas neoliberais ortodoxas, inspiradas no modelo chileno imposto por Pinochet.<\/p>\n<p>O resultado foi desastroso. Para as economias latino-americanas os anos 80 foram \u00aba d\u00e9cada perdida\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 em qualquer pa\u00eds da Regi\u00e3o com condi\u00e7\u00f5es subjetivas para um choque frontal dos povos com o imperialismo estadounidense.<\/p>\n<p>Mas o aumento torrencial da contesta\u00e7\u00e3o social ao neoliberalismo do M\u00e9xico \u00e0 Argentina alarmou Washington. Gradualmente retirou o seu apoio \u00e0s ditaduras, consciente de que esses regimes n\u00e3o favoreciam j\u00e1 os seus interesses. Mudou de t\u00e1tica.<\/p>\n<p>No Brasil e no Chile foram eleitos presidentes que condenaram os regimes militares. Na Argentina, o povo insurgiu-se contra a pol\u00edtica de Menem, o pa\u00eds entrou em bancarrota e, ap\u00f3s prolongada crise, Nestor Kirchner sobiu \u00e0 presid\u00eancia e iniciou uma pol\u00edtica populista com um discurso anti neoliberal.<\/p>\n<p>Mas foi na Venezuela que, inesperadamente, um militar, o coronel Hugo Ch\u00e1vez, venceu com ampla maioria as elei\u00e7\u00f5es em 1999. Derrotou um golpe de estado em 2002 (apoiado e financiado pelos EUA) e um lock-out contrarrevolucionario, venceu sucessivas elei\u00e7\u00f5es e morreu como presidente em 2013.<\/p>\n<p>Inspirado em Bolivar, desenvolveu uma pol\u00edtica que gradualmente o confrontou com os EUA, sobretudo a partir do momento em que declarou a op\u00e7\u00e3o socialista da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana.<\/p>\n<p>Mas apesar da nacionaliza\u00e7\u00e3o real do petr\u00f3leo \u2013 fonte principal do PIB \u2013 e da reforma agr\u00e1ria, a Venezuela continuou a ser uns pais capitalista com o sector privado a controlar \u00e1reas chaves da economia e dos servi\u00e7os.<\/p>\n<p>A ideologia do regime, o chamado Socialismo do s\u00e9culo XXI, foi mais um slogan do que uma realidade, at\u00e9 porque o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o heterog\u00e9nea, distanciada do marxismo.<\/p>\n<p>Nicolas Maduro, o atual presidente, carece do carisma de Ch\u00e1vez. A oposi\u00e7\u00e3o venceu as elei\u00e7\u00f5es legislativas, conta com ampla maioria no parlamento, e a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica degrada-se a cada semana. O futuro da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana \u00e9 muito preocupante.<\/p>\n<p>Dificilmente o regime progressista da Bol\u00edvia \u2013 que se caracteriza por contradi\u00e7\u00f5es complexas \u2013 poderia sobreviver a um regresso ao poder da direita em Caracas.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos encontram-se no momento na ofensiva em toda a Am\u00e9rica Latina. James Petras tem chamado insistentemente a aten\u00e7\u00e3o para essa realidade, criticando o otimismo irrespons\u00e1vel de muitos intelectuais progressistas.<\/p>\n<p>O Brasil atravessa uma crise muito profunda de desfecho imprevis\u00edvel. Na Argentina, Macri, o sucessor de Cristina Kirchner, executa uma pol\u00edtica de direita de submiss\u00e3o total aos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Washington renunciou aos golpes de estado tradicionais, promovidos por militares. A t\u00e1tica agora \u00e9 outra. Obama \u2013 o presidente dos EUA mais perigoso para a humanidade das \u00faltimas d\u00e9cadas \u2013 incentiva e financia golpes institucionais atrav\u00e9s dos parlamentos para afastar presidentes inc\u00f3modos.<\/p>\n<p>Isso aconteceu nas Honduras e no Paraguai.<\/p>\n<p>As pr\u00f3prias FARC-EP que desafiam h\u00e1 60 anos numa luta \u00e9pica, a oligarquia colombiana, tutelada pelo imperialismo americano, enfrentam hoje problemas que suscitam legitimas interroga\u00e7\u00f5es quanto ao desfecho dos Di\u00e1logos de Paz com o governo de Juan Manuel Santos. O Acordo de Cessar fogo foi assinado por ambas as partes. Mas ser\u00e1 vi\u00e1vel na pr\u00e1tica a chamada \u00abreconcilia\u00e7\u00e3o\u00bb nos termos em que foi discutida, com o aval do secretariado do Estado-Maior Central da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria? Mas seja qual for o desfecho do processo de paz, o combate \u00e9pico das FARC-EP ser\u00e1 recordado como exemplo maravilhoso da eterna luta do homem pela liberdade.<\/p>\n<p>Cuba \u00e9 hoje o \u00faltimo baluarte revolucion\u00e1rio que det\u00e9m o poder na Am\u00e9rica Latina. Mas o restabelecimento de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com os EUA ao n\u00edvel de embaixadores justifica apreens\u00f5es. O bloqueio persiste, assim como a lei do ajuste cubano, e a entrada de capitais americanos no pa\u00eds e de centenas de milhares de turistas \u00e9 encarada com compreens\u00edvel temor por muitos dirigentes do Partido, tal como as medidas mercantis aprovadas pelo \u00faltimo congresso do PC de Cuba.<\/p>\n<p>N\u00e3o exagera o Partido Comunista do M\u00e9xico num documento do seu Comit\u00e9 Central datado de Fevereiro p.p. ao afirmar (<a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/america-crise-do-capitalismo-crise-do\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/<wbr \/>america-crise-do-capitalismo-<wbr \/>crise-do\/<\/a>) que na Am\u00e9rica Latina \u00abtemos um panorama no qual a crise do progressismo favorece a reinstala\u00e7\u00e3o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o e, al\u00e9m disso, em que o progressismo, auxiliado por partidos comunistas de prest\u00edgio, est\u00e1 \u00e0 condenar a cr\u00edtica revolucion\u00e1ria\u00bb.<\/p>\n<p>Os Acordos de Havana, assinados pelo comandante chefe das FARC e pelo presidente da Col\u00f4mbia s\u00e3o preocupantes. Significativamente foram festejados pela direita na Europa e na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Gostaria de ser otimista, mas a situa\u00e7\u00e3o existente na Am\u00e9rica Latrina, imp\u00f5e-me o dever de ser realista.<br \/>\n<em><br \/>\nVila Nova de Gaia, Julho de 2016<\/em><\/p>\n<p><em>* Carmen Barnand e Serge Guzinski, Histoire du Nouveau Monde-M\u00e9tissages, Ed.Fayard,Paris, 1993<\/em><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/america-latinada-ficcao-a-realidade\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Miguel Urbano Rodrigues Miguel Urbano debru\u00e7a-se neste texto sobre a presente evolu\u00e7\u00e3o daAm\u00e9rica Latina, desde a contesta\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo no in\u00edcio do mil\u00e9nio \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11580\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-11580","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-30M","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11580","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11580"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11580\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}