{"id":11679,"date":"2016-07-25T12:42:17","date_gmt":"2016-07-25T15:42:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11679"},"modified":"2016-08-11T01:21:33","modified_gmt":"2016-08-11T04:21:33","slug":"blair-para-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11679","title":{"rendered":"Blair para a Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/imagens0.publico.pt\/imagens.aspx\/737860?tp=UH&amp;db=IMAGENS&amp;w=171&amp;h=171&amp;act=cropResize\" alt=\"imagem\" \/>Manuel Loff *<\/p>\n<p>Desde h\u00e1 um ano que Blair preside ao Conselho Europeu para a Toler\u00e2ncia e a Reconcilia\u00e7\u00e3o. Belo nome&#8230;<\/p>\n<p>Blair mentiu: Saddam Hussein n\u00e3o representava um \u201cperigo iminente para a paz\u201d<!--more-->. Os servi\u00e7os brit\u00e2nicos forneceram \u201cinforma\u00e7\u00f5es erradas\u201d e, seguramente suspeitando que o eram, Blair \u201cexagerou o perigo iraquiano\u201d e empenhou-se em convencer os seus colegas de governo de que a rela\u00e7\u00e3o com os EUA seria posta em causa se a Gr\u00e3-Bretanha n\u00e3o os acompanhasse na guerra. No relat\u00f3rio de John Chilcot, um \u201cmandarim de Whitehall\u201d, a sede do Governo brit\u00e2nico, como o descreve o jornal <em>The Guardian<\/em>, que acaba de ser publicado ao fim de sete anos de investiga\u00e7\u00e3o, demonstra-se que foi Blair quem exagerou esta possibilidade, o que provocou a demiss\u00e3o do seu antigo ministro dos Estrangeiros, Robin Cook, em desacordo total com o envolvimento brit\u00e2nico na guerra, desencadeada em 2003. De facto, logo em 2002, meses depois do 11 de Setembro, Blair ter\u00e1 dado o seu acordo \u00e0 op\u00e7\u00e3o militar que Bush e os falc\u00f5es de Washington tinham tomado desde o in\u00edcio, muito antes de terem sequer apresentado as provas que h\u00e1 muito sabemos terem sido falsificadas das \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o massiva\u201d. \u201cA Gr\u00e3-Bretanha decidiu somar-se \u00e0 invas\u00e3o do Iraque antes de as chances de um desarmamento pac\u00edfico terem sido esgotadas. A guerra n\u00e3o foi, naquele momento, a derradeira op\u00e7\u00e3o.\u201d Os esfor\u00e7os de Blair em manter-se de bicos de p\u00e9s como fiel aliado de Washington &#8211; \u201cEstarei ao teu lado, aconte\u00e7a o que acontecer!\u201d, escreveu Blair a George Bush em julho de 2002 \u2013 foram t\u00e3o pateticamente v\u00e3os que Washington \u201cignorou as propostas brit\u00e2nicas para o p\u00f3s-guerra\u201d.<\/p>\n<p>Cai por terra a tese de que eram imprevis\u00edveis as pesadas consequ\u00eancias que a invas\u00e3o teve para a vida dos iraquianos, e para a vida de todo o mundo, como se a guerra fosse como os mel\u00f5es: antes de se abrirem, \u00e9 dif\u00edcil avaliar como s\u00e3o. O relat\u00f3rio \u00e9 muito claro: \u201cOs riscos de conflitos internos no Iraque, de inger\u00eancia iraniana, de instabilidade regional e de atividade da Al-Qaeda no Iraque, foram todos explicitamente identificados antes da invas\u00e3o.\u201d Em consequ\u00eancia, \u201cmorreram pelo menos\u00a0 150 mil iraquianos \u2013 provavelmente muitos mais \u2013 , a maioria civis (\u2026), mais de um milh\u00e3o de desalojados\u201d (<em>Guardian<\/em>, 6.7.2016). Em outubro de 2004, ao fim de um ano e meio de invas\u00e3o, os brit\u00e2nicos acompanhando os norte-americanos, os espanh\u00f3is e aquela infinidade de aliados menores que Washington costuma arrebanhar para estas tarefas (polacos, ucranianos, georgianos, albaneses, hondurenhos, \u2026), o Governo brit\u00e2nico discutiu como apresentar \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica o balan\u00e7o cada vez mais embara\u00e7oso das v\u00edtimas civis da guerra. O Foreign Office recomendou que \u201cnos limitemos a publicitar as v\u00edtimas civis cuja responsabilidade seja atribu\u00edvel aos terroristas. Qualquer balan\u00e7o geral das v\u00edtimas civis mostrar\u00e1 que a For\u00e7a Multinacional [dirigida pelos EUA] \u00e9 respons\u00e1vel por muitas mais do que os insurgentes\/terroristas\u201d (documento do relat\u00f3rio citado no <em>Iraq Body Count<\/em>, 7.7.2016). Entre essas centenas de milhares de mortos, 179 soldados brit\u00e2nicos. H\u00e1 dias, Blair assegurava que sentia \u201cmuito profunda e sinceramente a dor e o sofrimento daqueles que perderam seres amados no Iraque\u201d. A irm\u00e3 de um dos soldados mortos respondeu-lhe chamando-lhe \u201co pior terrorista do mundo\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o M\u00e9dio Oriente n\u00e3o vive em paz desde que os brit\u00e2nicos chegaram \u00e0 regi\u00e3o a seguir \u00e0 I Guerra Mundial, ocupando o Iraque, a Palestina, a Jord\u00e2nia e a pen\u00ednsula da Ar\u00e1bia. \u00c9 verdade que o projeto de cria\u00e7\u00e3o de um Estado judeu na regi\u00e3o motivou o mais duradouro dos conflitos do s\u00e9c. XX. E \u00e9 verdade que Bush pai se empenhara j\u00e1 em 1991 numa guerra do Golfo que, sa\u00eddos da Guerra Fria, marcou o in\u00edcio de um ciclo de <em>guerras perp\u00e9tuas<\/em> de que ainda n\u00e3o sa\u00edmos. Mas nada se compara \u00e0 capacidade desestabilizadora que a invas\u00e3o de 2003 teve. Os EUA fizeram do Iraque, depois do Afeganist\u00e3o, um territ\u00f3rio de aventureirismo e viol\u00eancia sem fim para tropas regulares e mercen\u00e1rios de todo o tipo de dezenas de pa\u00edses que, tendo acatado a hegemonia norte-americana, competem entre si para aparecerem como seus aliados fi\u00e9is. Ao mesmo ritmo com que instalaram bases por toda a regi\u00e3o, deixaram propagar como fogo ateado por gasolina o mais global dos fen\u00f3menos de viol\u00eancia jihadista, que eles pr\u00f3prios tinham alimentado contra advers\u00e1rios, desde os sovi\u00e9ticos at\u00e9 aos s\u00e9rvios ou aos s\u00edrios. Ou seja, quanto mais presen\u00e7a militar, mais Al-Qaeda e mais Estado Isl\u00e2mico. A guerra do Vietname atraiu a condena\u00e7\u00e3o universal dos EUA? A do Afeganist\u00e3o dura j\u00e1 h\u00e1 mais anos, e Obama acaba de dizer que t\u00e3o cedo de l\u00e1 n\u00e3o sai&#8230;<\/p>\n<p>A conspira\u00e7\u00e3o feita de mentiras, manipula\u00e7\u00f5es e cinismo (como \u00e9 frequente na pol\u00edtica internacional, \u00e9 certo) que conduziu \u00e0 invas\u00e3o do Iraque foi da responsabilidade de um grupo restrito de personagens que ganhou h\u00e1 anos um lugar na hist\u00f3ria da vergonha. Nenhum deles foi levado, ainda, \u00e0 justi\u00e7a. Donald Rumsfeld e Dick Cheney s\u00e3o hoje entusiastas da candidatura de Donald Trump. Condoleeza Rice d\u00e1 aulas em Stanford, o que diz bem da \u00e9tica das universidades elitistas dos EUA. Os demais (Aznar, os ministros brit\u00e2nicos dos Estrangeiros e da Defesa) ganham rios de dinheiro como consultores de grandes empresas, de log\u00edstica militar entre outras. Depois de deixar o governo em 2007, o seu amigo Bush Jr. prop\u00f4s Blair para, c\u00famulo do cinismo, mediador dos Quatro (ONU, EUA, UE e R\u00fassia) para a paz no M\u00e9dio Oriente. Sete anos depois, um grupo de diplomatas brit\u00e2nicos denunciou (ver<em>Guardian<\/em>, 23.6.2014) a \u201cinutilidade\u201d do desempenho de Blair e a \u201cfalta de transpar\u00eancia\u201d na forma como ele aproveitava os seus contactos como mediador para fazer neg\u00f3cios em nome da sua empresa <em>Tony Blair Associates<\/em>e do banco de investimentos, o <em>JPMorgan Chase <\/em>&#8211; da mesma forma que Dur\u00e3o Barroso, outro compincha de Blair da Cimeira dos A\u00e7ores, acaba de ser nomeado presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do <em>Goldman Sachs<\/em>. H\u00e1 tr\u00eas anos, o homem que at\u00e9 2007 n\u00e3o fizera se n\u00e3o carreira pol\u00edtica, reunia uma fortuna de 82 milh\u00f5es de euros.<\/p>\n<p>Lembro-me agora daquele friso de adoradores da personagem que dele fizeram o her\u00f3i do <em>aggiornamento<\/em>, da <em>moderniza\u00e7\u00e3o <\/em>da social-democracia, abandonando o que se dizia ser a velha ganga socialista e adotando a <em>Terceira Via<\/em>, com a ajuda do seu soci\u00f3logo <em>org\u00e2nico<\/em>, Anthony Giddens. As li\u00e7\u00f5es que Blair soubera aprender com Thatcher, trazendo o <em>New Labour<\/em> para o \u201cfuturo\u201d, eram as mesmas que Schr\u00f6der, Hollande\/Valls, Renzi e, n\u00e3o esque\u00e7amos, S\u00f3crates aprenderiam com Blair: menos Estado, menos sociedade, mais indiv\u00edduo;\u00a0 em pol\u00edtica internacional, menos complexo de culpa do Ocidente que colonizara e mais intervencionismo militar.<\/p>\n<p>Desde h\u00e1 um ano que Blair preside ao Conselho Europeu para a Toler\u00e2ncia e a Reconcilia\u00e7\u00e3o. Belo nome&#8230; Aznar acompanha-o no \u00f3rg\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 tudo dito.<\/p>\n<p><strong>*Historiador<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/www.publico.pt\/mundo\/noticia\/blair-para-a-historia-1737767<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Manuel Loff * Desde h\u00e1 um ano que Blair preside ao Conselho Europeu para a Toler\u00e2ncia e a Reconcilia\u00e7\u00e3o. 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