{"id":11702,"date":"2016-07-28T23:21:17","date_gmt":"2016-07-29T02:21:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11702"},"modified":"2016-08-19T20:04:31","modified_gmt":"2016-08-19T23:04:31","slug":"haiti-a-partir-de-hoje-somos-todos-negros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11702","title":{"rendered":"Haiti: \u201cA partir de hoje somos todos negros\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/AUTORESEDUARDOGRNER1.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Eduardo Gr\u00fcner*<\/p>\n<p>Os haitianos ainda hoje pagam caro o atrevimento de em 1804 terem aprovado a mais radical e igualit\u00e1ria das Constitui\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Eduardo Gr\u00fcner ensina-nos que os haitianos n\u00e3o se<!--more--> limitaram a construir a 1\u00aa Rep\u00fablica independente negra do mundo, mas tamb\u00e9m descobriram que eles estavam exclu\u00eddos da \u00abtotalidade\u00bb da Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o que haviam recebido com alvoro\u00e7ada e v\u00e3 esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>E para isso, logo no seu art\u00ba 14\u00ba a Constitui\u00e7\u00e3o haitiana de 1804 define a totalidade, agora a partir da parte que havia sido exclu\u00edda (eles), e prescreve:<\/p>\n<p>\u00abTodas as distin\u00e7\u00f5es de cor necessariamente desaparecer\u00e3o entre os filhos de uma e a mesma fam\u00edlia, onde o Chefe de Estado \u00e9 o pai; todos os cidad\u00e3os haitianos, de aqui em diante, ser\u00e3o conhecidos pela denomina\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de negros\u00bb, denomina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o exclu\u00eda brancos nem mulheres\u2026<\/p>\n<p>Come\u00e7o por citar uma abruptamente uma frase justamente c\u00e9lebre em certos meios restritos, ainda que devesse s\u00ea-lo muito mais conhecida, pelo seu profundo alcance numa teoria cr\u00edtica da identidade. A frase \u00e9 esta:<br \/>\n\u00abTodos os cidad\u00e3os, de ora em diante, ser\u00e3o conhecidos pela denomina\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de negros\u00bb.<\/p>\n<p>Esta frase n\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o de um capricho, nem um improviso provocat\u00f3rio, e muito menos um del\u00edrio surrealista. \u00c9 o artigo 14\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o Haitiana de 1805, promulgada por Jean-Jacques Dessalines, de acordo com os rascunhos de Toussaint Louverture em 1801, mas cuja institucionaliza\u00e7\u00e3o teve que esperar pela Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia de 1804, com Toussaint j\u00e1 morto nas pris\u00f5es napole\u00f3nicas. E, na passada, sirva esta refer\u00eancia para questionar a bizarra ideia de festejar o chamado \u00abBicenten\u00e1rio\u00bb das revolu\u00e7\u00f5es independentistas americanas em 2010, quando a primeira, a mais radical e a mais inesperada dessas revolu\u00e7\u00f5es foi levada a cabo em 1804 e n\u00e3o em 1810. A mais radical, digo bem, visto que nela foram os ex-escravos africanos \u2013 isto \u00e9, a classe dominada por excel\u00eancia, e n\u00e3o as novas elites \u00abburguesas\u00bb compostas por europeus brancos \u2013 os que tomaram o poder para fundar uma republica, justamente chamada negra.<\/p>\n<p>Mas voltemos \u00e0 nossa pequena frase citada. O que \u00e9 que se est\u00e1 a jogar na sua estranha formula\u00e7\u00e3o? Recordemos alguns antecedentes m\u00ednimos. Haiti \u2013 que antes de 1804 se chamava de S. Domingos \u2013 era de longe a mais rica col\u00f3nia francesa no Caribe, e h\u00e1 at\u00e9 quem afirme que era a mais rica col\u00f3nia em qualquer parte. Em 1789, quando rebenta a camada revolu\u00e7\u00e3o \u00abFrancesa\u00bb, havia nessa sociedade plantadora e esclavagista produtora de a\u00e7\u00facar e caf\u00e9 uns 500.000 escravos de origem africana, uns 27.000 colonos brancos e uns 34.000 \u00abmulatos\u00bb. J\u00e1 no princ\u00edpio do s\u00e9culo XVIII os cartesianos ocupantes franceses, com a sua racionalista paix\u00e3o taxon\u00f3mica, tinham acreditado poder detetar e classificar 126 tonalidades diferentes de \u00abnegritude\u00bb, cada uma com a sua respetiva denomina\u00e7\u00e3o e \u00abcaracterologia\u00bb. Rebentada a revolu\u00e7\u00e3o na metr\u00f3pole, os escravos recebem alvoro\u00e7ados as not\u00edcias sobre o seu maior documento pol\u00edtico, a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Universais do Homem e do Cidad\u00e3o, s\u00f3 para rapidamente se inteirarem que eles n\u00e3o s\u00e3o membros desse \u00abuniversal\u00bb: s\u00e3o a parte sem a qual o Todo n\u00e3o poderia funcionar (qualquer coisa mais que uma ter\u00e7a parte das receitas francesas provenientes do trabalho escravo de S. Domingo), pelo que devem ficar como a particularidade exclu\u00edda do \u00abUniversal\u00bb, para que o novo \u00abTodo\u00bb possa ser sustentado pela economia. E que por isso mesmo ter\u00e3o que iniciar \u2013 em 1791 \u2013 um longo e violento processo revolucion\u00e1rio pr\u00f3prio, com a paradoxal finalidade de cumprir esse postulado de \u00abuniversalidade\u00bb que lhes \u00e9 alheia, ou melhor dito roubada, o que custar\u00e1 aos ex-escravos a bagatela de 200.000 vidas. O verdadeiro paradoxo \u2013 quase nos atrev\u00edamos a dizer o esc\u00e2ndalo \u2013 \u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o haitiana \u00e9 nesse sentido, \u00abmais francesa que a francesa\u00bb porque \u00e9 haitiana \u2013 porque \u00e9 a particularidade que por defini\u00e7\u00e3o falta \u00e0 \u00abTotalidade\u00bb.<\/p>\n<p>O artigo 14\u00ba \u00e9 pois, como costuma dizer-se, uma repara\u00e7\u00e3o, jur\u00eddico-pol\u00edtica em primeiro lugar, mas tamb\u00e9m e sobretudo, \u00abfilos\u00f3fica\u00bb, e de uma radicalidade filos\u00f3fica autenticamente in\u00e9dita.<\/p>\n<p>No que diz respeito ao tema que hoje nos traz aqui, a sua din\u00e2mica questiona criticamente, de facto, todas as d\u00favidas de qualquer princ\u00edpio de \u00abidentidade\u00bb universal. Com a declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia de 1804 nasce, como diz\u00edamos, uma rep\u00fablica \u00abnegra\u00bb, mas com nome ind\u00edgena (\u00abHayti\u00bb, \u00e9 o antigo nome da ilha na l\u00edngua ta\u00edna). Primeira manifesta\u00e7\u00e3o de pluralidades \u00abidentit\u00e1rias\u00bb cruzadas.<\/p>\n<p>Mas se se quiserem mais provas da densidade filos\u00f3fica do conte\u00fado pol\u00edtico da revolu\u00e7\u00e3o, bastaria citar o primeiro par\u00e1grafo do Pre\u00e2mbulo da nova constitui\u00e7\u00e3o, promulgada por Dessalines em 20 de maio de 1805:<br \/>\n\u00abNa presen\u00e7a do Ser Supremo, perante quem todos os mortais s\u00e3o iguais, e que disseminou tantas classes de seres diferentes cobre a superf\u00edcie do globo com o \u00fanico prop\u00f3sito de manifestar a sua gl\u00f3ria e poder atrav\u00e9s daa diversidade das suas obras\u2026\u00bb.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o se trata, v\u00ea-se, da simples homogeneidade abstrata da igualdade perante a Lei (humana ou divina). Come\u00e7a-se por afirmar uma igualdade universal para, no mesmo movimento, asseverar a diferen\u00e7a e a diversidade. Apela-se \u00e0 ret\u00f3rica ilustrada da revolu\u00e7\u00e3o francesa (o \u00abSer Supremo\u00bb) para imediatamente dotar o Ser de determina\u00e7\u00f5es particular-concretas. A frase seguinte avan\u00e7a um pouco mais neste caminho:<br \/>\n\u00ab\u2026Perante a cria\u00e7\u00e3o inteira, cujos filhos despossu\u00eddos temos t\u00e3o injustamente e durante tanto tempo sido considerados\u2026\u00bb<\/p>\n<p>Outra vez a totalidade da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 especificada pela sua parte exclu\u00edda, \u00abdespossu\u00edda\u00bb &#8211; por essa parte-que-n\u00e3o-tem-parte, como diria Jacques Ranci\u00e8re: para o nosso caso, os antigos escravos negros (\u00abetnia\u00bb e classe s\u00e3o novamente evocados para definir um n\u00e3o-lugar na totalidade). Tudo concorre para a arquitetura textual de uma complicada dial\u00e9tica na qual universalismo e particularismo, na verdade, se referenciam mutuamente, ainda que sem operar uma \u00abs\u00edntese superadora\u00bb, como faria uma certa vulgata hegeliana: a igualdade universal n\u00e3o poderia ser alcan\u00e7ada sem a exig\u00eancia particular dos escravos negros que foram \u00abexpulsos\u00bb da universalidade; ao contr\u00e1rio, a sua exig\u00eancia particular s\u00f3 tem sentido pela sua refer\u00eancia \u00e1 universalidade. A primeira desborda a segunda e \u00e0 segunda \u00e9-lhe pequena a primeira. A parte \u00e9 mais que o \u00abTodo\u00bb ao que a parte lhe faz falta.<\/p>\n<p>Esta estrutura ainda se manifesta mais quando confrontamos aqueles artigos do corpo constitucional que abordam especialmente as quest\u00f5es \u00abraciais\u00bb e de \u00abclasse\u00bb. O artigo 12\u00ba adverte-nos que \u00abNenhuma pessoa branca, de qualquer nacionalidade, poder\u00e1 p\u00f4r p\u00e9 neste territ\u00f3rio na qualidade de amo ou propriet\u00e1rio, nem no futuro adquirir aqui propriedade alguma\u00bb; o artigo seguinte, no entanto, aclara que \u00abo artigo procedente n\u00e3o ter\u00e1 qualquer efeito sobre as mulheres brancas que tenham sido naturalizadas pelo governo (\u2026). Inclu\u00eddos na presente disposi\u00e7\u00e3o est\u00e3o tamb\u00e9m os alem\u00e3es e polacos (?) naturalizados pelo governo\u00bb. E assim chegamos ao nosso famoso artigo 14\u00ba, que agora citamos de forma completa: \u00abTodas as distin\u00e7\u00f5es de cor necessariamente desaparecer\u00e3o entre os filhos de uma e a mesma fam\u00edlia, onde o Chefe de Estado \u00e9 o pai; todos os cidad\u00e3os haitianos, de aqui em diante, ser\u00e3o conhecidos pela denomina\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de negros\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos por que raz\u00e3o se faz a estranha especifica\u00e7\u00e3o sobre os \u00abalem\u00e3es e polacos\u00bb naturalizados. Mas sem d\u00favida que a sua men\u00e7\u00e3o \u00e9 o c\u00famulo do \u00absarcasmo\u00bb particularista, ainda mais sublinhado pelo facto de tamb\u00e9m os alem\u00e3es e os polacos \u2013 que costumam ser associados \u00e0 pele branqu\u00edssima e aos cabelos loiros dos sax\u00f5es e dos eslavos \u2013 passarem agora a ser negros. Esta generaliza\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira vista absurda tem o enorme valor de produzir uma disrup\u00e7\u00e3o do \u00abracialismo\u00bb biologista ou \u00abnaturalista\u00bb, que entre os finais do s\u00e9culo XVIII e princ\u00edpios do s\u00e9culo XIX terem come\u00e7ado a impor-se: se at\u00e9 os polacos e os alem\u00e3es podem ser decretados \u00abnegros\u00bb, ent\u00e3o \u00e9 evidente que negro \u00e9 uma denomina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (ou pol\u00edtico-cultural se quisermos), isto \u00e9, arbitr\u00e1ria, (num sentido mais ou menos saussiriano da arbitrariedade do signo lingu\u00edstico) e n\u00e3o natural nem necess\u00e1ria. E que, portanto, o foi sempre: com o mesmo gesto se \u00abdes-constroi\u00bb a fal\u00e1cia racista que atribui tra\u00e7os diferenciais \u00e0s 126 \u00abesp\u00e9cies\u00bb de negritude.<\/p>\n<p>H\u00e1 que insistir: atrav\u00e9s do \u00abato da fala\u00bb &#8211; este verdadeiro e poderoso performativo \u2013 produz-se uma inquietante aporia filos\u00f3fica, a de que o universal \u00e9 derivado de uma generaliza\u00e7\u00e3o de um dos seus particulares. E n\u00e3o \u00e9 de um qualquer, mas, uma vez mais, do que at\u00e9 ent\u00e3o tinha sido \u00abmaterialmente\u00bb exclu\u00eddo. \u00c9 uma aporia quase \u00abbenjaminiana\u00bb: \u00e9 o polo extremo, o que se contrap\u00f5e \u00e0 pretens\u00e3o de universalidade, o que p\u00f5e a constela\u00e7\u00e3o na sua totalidade. Como disse n\u00e3o sem discreto sarcasmo Sybille Fischer, \u00abchamar a todos os haitianos, para al\u00e9m da cor da sua pele, negros, \u00e9 um gesto semelhante ao de chamar a todas as pessoas, independentemente do seu sexo, mulheres. De qualquer forma, e para voltar ao tema, est\u00e1 clara a inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-cultural da cl\u00e1usula. Finalmente, para que \u00e9 necess\u00e1rio introduzi-la, se come\u00e7ou por se aclarar que no Haiti n\u00e3o ser\u00e1 permitida nenhuma classe de distin\u00e7\u00f5es pela cor da pele? O sentido n\u00e3o \u00e9, pois, meramente jur\u00eddico: trata-se de n\u00e3o ocultar nem disfar\u00e7ar, na hist\u00f3ria que agora se pode chamar \u00abhaitiana\u00bb, o lugar determinante que nela teve o conflito pol\u00edtico entre as \u00abra\u00e7as\u00bb. O artigo 14\u00ba (e toda a constitui\u00e7\u00e3o \u00e0 qual pertence) faz de facto a cr\u00edtica , inclusive antecipada, de uma (ideo)l\u00f3gica constitucional que imagina o estado-na\u00e7\u00e3o \u00abmoderno\u00bb como uma unidade homog\u00e9nea, sem distin\u00e7\u00f5es de classes, \u00abra\u00e7as\u00bb, g\u00e9nero, etc.. E tamb\u00e9m, h\u00e1 que diz\u00ea-lo, faz a cr\u00edtica \u2013 muito mais \u00abantecipada\u00bb \u2013 de certas (ing\u00e9nuas ou n\u00e3o) celebra\u00e7\u00f5es \u00abmulticulturalistas\u00bb at\u00e9 que ponto a emerg\u00eancia das \u00abdiferen\u00e7as\u00bb s\u00e3o uma fun\u00e7\u00e3o das desigualdades produzidas pelo poder.<\/p>\n<p>No entanto, ao mesmo tempo h\u00e1 na constitui\u00e7\u00e3o de 1805, e no pr\u00f3prio artigo 14\u00ba, uma conce\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria da na\u00e7\u00e3o. Mas veja-se com que crit\u00e9rio: \u00abTodas as distin\u00e7\u00f5es de cor necessariamente desaparecer\u00e3o entre os filhos de uma mesma fam\u00edlia, onde o Chefe de Estado \u00e9 o pai\u00bb. \u00abPaternalismo\u00bb, diz\u00edamos antes \u2013 e naturalmente, pod\u00edamos acrescentar \u00abpatriarcalismo\u00bb \u2013; a na\u00e7\u00e3o \u00e9 pensada como uma grande fam\u00edlia unida e indivis\u00edvel (onde, j\u00e1 o sabemos, todos os membros s\u00e3o \u00abnegros\u00bb), dirigida \u2013 como corresponde \u00e0 met\u00e1fora \u2013 pelo \u00abpai\u00bb e tamb\u00e9m Chefe de Estado (ainda que n\u00e3o s\u00f3: j\u00e1 vimos que, alegoricamente, h\u00e1 ao mesmo tempo um regresso \u00e0 Mater impl\u00edcita nessa carne negra, sem a qual n\u00e3o se pode pensar a cidadania haitiana). \u00c9 justamente contra esta analogia entre o Estado e a fam\u00edlia (uma oposi\u00e7\u00e3o que na tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica europeia pode j\u00e1 detetar-se na Gr\u00e9cia Antiga e a sua distin\u00e7\u00e3o entre polis e oikos, central inclusivamente como motivo de conflito tr\u00e1gico, tal como se encontra na Ant\u00edgona de S\u00f3focles), \u00e9 contra esta analogia, diz\u00edamos, que lutam os primeiros grandes teorizadores do Estado \u00abeuropeu-moderno\u00bb (o debate pode ler-se em Maquiavel, em Hobbes, em Locke). Obviamente, trata-se antes de mais de um combate contra o \u00abpaternalismo\u00bb feudal. Mas \u00e9 tamb\u00e9m um argumento tendente \u00e0 separa\u00e7\u00e3o entre \u00absociedade pol\u00edtica\u00bb e \u00absociedade civil\u00bb \u2013 ou mais genericamente, entre Estado e sociedade \u2013, separa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a autonomia da ascendente classe \u00abburguesa\u00bb. De qualquer modo, essa \u00e9 uma quest\u00e3o europeia \u00abocidental\u00bb. O artigo 14\u00ba nada tema ver com essa pol\u00e9mica, e por outro lado, ao consider\u00e1-la de facto alheia, refuta tamb\u00e9m a sua \u00abnaturalidade\u00bb: a unidade \u00abpol\u00edtica\u00bb que levanta como programa \u00e9 a da estrutura social n\u00e3o \u00abtradicional\u00bb ou \u00abpr\u00e9-moderna\u00bb, mas, simplesmente, africana, isto \u00e9, outra, na qual a l\u00f3gica do poder \u00abpol\u00edtico\u00bb \u00e9 indistingu\u00edvel do que os antrop\u00f3logos estudaram como estruturas do parentesco que, segundo diz o pr\u00f3prio L\u00e9vy-Strauss, transformam a consanguinidade biol\u00f3gica em alian\u00e7a social e pol\u00edtica [1]. Outra demonstra\u00e7\u00e3o, pois, de politiza\u00e7\u00e3o \u2013 isto \u00e9 de materializa\u00e7\u00e3o, no sentido estrito \u2013 de uma \u00abnatureza\u00bb abstrata.<\/p>\n<p>Tudo o dissemos anteriormente poder\u00edamos chamar uma identidade dividida \u2013 ou se se quiser, bifurcada \u2013 haitiana. Temos uma na\u00e7\u00e3o nova, fundada \u00aba partir do zero\u00bb: ao contr\u00e1rio do que vir\u00e1 a suceder com as outras independ\u00eancias americanas h\u00e1 uma des-continuidade radical (jur\u00eddica, sem d\u00favida, mas tamb\u00e9m e sobretudo \u00e9tnico-cultural: \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o \u00abnegra\u00bb) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o colonial. Mas a sua \u00abnovidade\u00bb consiste, antes de mais, num reconhecimento e uma encena\u00e7\u00e3o dos insol\u00faveis conflitos herdados da situa\u00e7\u00e3o colonial e da l\u00f3gica \u00e9tnica, social e econ\u00f3mica da planta\u00e7\u00e3o: o ide\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa \u00e9, simultaneamente conservado, levado mais al\u00e9m dela mesma, um \u00abmais al\u00e9m\u00bb onde se encontra com a cor negra; e esse \u00abcor local\u00bb, para assim a chamar, obriga a um retrocesso \u2013 para l\u00e1 das conce\u00e7\u00f5es \u00abevolucionistas\u00bb e \u00abprogressistas\u00bb euroc\u00eantricas \u2013 para as tradi\u00e7\u00f5es sociais e m\u00edticas africanas. A sua modernidade \u2013 plenamente assumida sob o ide\u00e1rio sob o ide\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa \u2013 s\u00f3 pode ser \u00abrealizada\u00bb atrav\u00e9s de um recurso \u00e0 \u00abtradi\u00e7\u00e3o. Como reza essa extraordin\u00e1ria primeira frase da biografia de Zapata por John Womack: \u00abEsta \u00e9 a hist\u00f3ria de uns camponeses que n\u00e3o queriam mudar, e que por isso mesmo\u2026 fizeram uma revolu\u00e7\u00e3o\u00bb. Poderiam citar-se v\u00e1rias outras inst\u00e2ncias paradoxais (talvez se devesse dizer \u00abdial\u00e9ticas\u00bb) para ilustrar esta bifurca\u00e7\u00e3o dos tempos modernos que, longe de ser \u00abextra moderna\u00bb, pertence a uma modernidade que s\u00f3 quando se aborda a partir do que Benjamin chamaria a hist\u00f3ria dos vencidos se mostra , ela tamb\u00e9m, como tendo uma identidade dividida. No Haiti seria o caso da religi\u00e3o vudu ou da l\u00edngua crioula, que agora n\u00e3o temos tempo de discutir. Esta podia ser uma via para pensar a sintom\u00e1tica e quase total aus\u00eancia, na denominada Teoria P\u00f3s-Colonial, de refer\u00eancias a um fen\u00f3meno como o haitiano, que parece dever ser um exemplo paradigm\u00e1tico para as suas categorias. Com efeito, n\u00e3o ilustra exemplarmente o artigo 14\u00ba o que Gayatri Spivak denominou essencialismo estrat\u00e9gico? No entanto, parece que as coisas n\u00e3o foram assim t\u00e3o f\u00e1ceis.<\/p>\n<p>Doris Garraway introduz uma hip\u00f3tese para explicar esta \u00abimpot\u00eancia\u00bb da teoria p\u00f3s-colonial face ao fen\u00f3meno Haiti: a da n\u00e3o-pertin\u00eancia das categorias de nacionalismo com as quais os acad\u00e9micos tentam caraterizar os movimentos anticoloniais modernos, categorias que n\u00e3o podem dar conta do fen\u00f3meno da revolu\u00e7\u00e3o haitiana. Um dos mais influentes textos sobre este tema, o de Benedict Anderson (que n\u00e3o \u00e9 preciso diz\u00ea-lo, nunca menciona o Haiti) [2], avan\u00e7a a sugestiva hip\u00f3tese de o nacionalismo n\u00e3o \u00e9 um produto europeu p\u00f3s-Revolu\u00e7\u00e3o Francesa \u2013 como convencionalmente se d\u00e1 por assente) \u2013 mas uma \u00abinven\u00e7\u00e3o\u00bb do mundo colonial na sua luta por romper com as pot\u00eancias imperiais. O Haiti, no entanto, n\u00e3o encaixa em nenhum dos paradigmas que Anderson exp\u00f5e detalhadamente. N\u00e3o \u00e9 um t\u00edpico nacionalismo \u00abcrioulo\u00bb como os habituais nas independ\u00eancias da Am\u00e9rica Latina, onde as minorias, brancas na sua maioria, propulsaram o que pode ser chamado nativismo fronteiri\u00e7o, ainda que conservando culturais europeus e uma ordem social com supremacia branca. O Haiti tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 exatamente o caso dos movimentos anticoloniais da \u00cdndia ou de \u00c1frica, que introduziram nas suas quest\u00f5es de soberania um desejo de diferen\u00e7a absoluta com a Europa, baseada na pureza das suas origens \u00e9tnico-culturais. A revolu\u00e7\u00e3o haitiana sup\u00f4s uma transcultura\u00e7\u00e3o conflitual (ou catastr\u00f3fica, como a denomin\u00e1mos noutro lugar) marcada por uma tens\u00e3o n\u00e3o-resolvida entre essas refer\u00eancias culturais: uma tens\u00e3o em boa medida ligada ao facto de, no momento se produzir o movimento emancipat\u00f3rio, uma importante parte dos escravos insurretos (qualquer coisa como mais de um ter\u00e7o do total) n\u00e3o serem \u00abafricanos\u00bb origin\u00e1rios, mas os seus antepassados provinham (uma proveni\u00eancia for\u00e7ada, naturalmente) de \u00c1frica, enquanto eles j\u00e1 podiam ser considerados antilhanos ou caribenhos.<\/p>\n<p>H\u00e1 pois, neste caso, uma esp\u00e9cie de tri\u00e2ngulo \u00abtensional\u00bb que \u00e9 qualquer como simetricamente inverso do tri\u00e2ngulo atl\u00e2ntico, de que tanto se falou para qualificar o com\u00e9rcio esclavagista, e que como tal sup\u00f5e tr\u00eas v\u00e9rtices (\u00c1frica\/Europa\/Am\u00e9rica), e n\u00e3o uma menos complexa oposi\u00e7\u00e3o linear como noutros casos que temos mencionado (\u00c1frica\/Europa, \u00cdndia\/Europa, etc.), ou uma continuidade cultural com descontinuidade jur\u00eddica como no caso de outros movimentos independentistas latino-americanos. O v\u00e9rtice \u00ab\u00c1frica\u00bb \u00e9 aqui, naturalmente, o terceiro exclu\u00eddo que se inclui, rompendo toda a possibilidade de um equil\u00edbrio (ainda que conflitual) entre os dois polos (Europa\/Col\u00f3nias) ao introduzir, por um lado, a no\u00e7\u00e3o de um retorno m\u00edtico \u00e0 \u00abGuinea\u00bb (como os escravos denominavam \u00c1frica) e a sua pr\u00f3pria tens\u00e3o interna pelos crioulos \u00abafro-americanos\u00bb, por outro a quest\u00e3o da negritude, e tudo isso ao mesmo tempo aderindo (nunca \u00e9 demais repeti-lo com maiores e heter\u00f3tipos alcances) ao ide\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e da \u00abmodernidade\u00bb.<\/p>\n<p>Nem as teorias cl\u00e1ssicas do nacionalismo \u2013 que, como j\u00e1 dissemos, tendem a consider\u00e1-lo um fen\u00f3meno da modernidade europeia \u2013 nem a teoria de Benedict Anderson \u2013, se bem que procure livrar-se de um inacabado eurocentrismo, constr\u00f3i um a s\u00e9rie de modelos em nenhum dos quais se encaixa o caso haitiano \u2013 nem o mainstream da teoria p\u00f3s-colonial \u2013 que, com todas as suas \u00abra\u00edzes\u00bb horizontais [rizomas], \u00abhibridices\u00bb, \u00abin-betweens\u00bb e tudo o mais continua, paradoxalmente, a pensar de forma bin\u00e1ria a rela\u00e7\u00e3o metropolis \/ col\u00f3nia \u2013 seguindo \u00e0 nossa maneira Levy Strauss \u2013 com a qual teve de se confrontar a revolu\u00e7\u00e3o haitiana.<\/p>\n<p>Com \u00abbifurca\u00e7\u00e3o tri-partida estamos a embalar, para uma maior clarifica\u00e7\u00e3o, o que na verdade \u00e9 um pleonasmo: apesar do equ\u00edvoco da raiz \u00abbi\u00bb, toda a bifurca\u00e7\u00e3o abre tr\u00eas dire\u00e7\u00f5es, como \u00e9 f\u00e1cil de ver no que se chama uma bifurca\u00e7\u00e3o do caminho, perante a qual se podem avan\u00e7ar pela esquerda, pela direita ou retroceder (de volta \u00e0 \u00abGuinea\u00bb, digamos assim). A bifurca\u00e7\u00e3o, como sabemos, \u00e9 uma figura central na chamada teoria das cat\u00e1strofes de Ren\u00e9 Thom e outros. E num outro registo te\u00f3rico e liter\u00e1rio, \u00e9 o lugar no qual \u00c9dipo se encontra com o seu destino: esse cruzamento tem tr\u00eas caminhos ( o que os latinos chamam Trivium, de que deriva o adjetivo trivial) onde, precisamente por n\u00e3o querer retroceder, assassina o seu pai, Layo e precipita-se na trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Ora bem, num par\u00e1grafo acima especul\u00e1vamos com a ideia que os escravos \u2013 revertendo a l\u00f3gica da \u00abuniversaliza\u00e7\u00e3o\u00bb da particularidade operada pelo eurocentrismo colonial \u2013 se assumirem como a parte que se projeta para o todo, sublinhando a sua \u00abuniversalidade\u00bb como falsa, visto que trunca. A isso pode chamar-se universalismo particular, enquanto oposto do particularismo \u00abuniversal\u00bb europeu e enquanto cumpre a premissa de um aut\u00eantico pensamento cr\u00edtico: a de uma dial\u00e9tica negativa que re-instala no centro do \u00abuniversal\u00bb o conflito irresol\u00favel com o particular exclu\u00eddo, p\u00f5e a nu a viol\u00eancia da nega\u00e7\u00e3o do \u00aboutro\u00bb interno, rejeitando as tenta\u00e7\u00f5es do pensamento \u00abidentit\u00e1rio\u00bb. Este \u00e9 o significado profundo do artigo 14\u00ba com a sua ir\u00f3nica \u2013 e politizada \u2013 universaliza\u00e7\u00e3o da cor negro. Mas o que faz esta l\u00f3gica \u00e9 construir e constituir essa cor como o significante privilegiado \u2013 ou se se preferir dizer assim, o operador semi\u00f3tico fundamental \u2013 de uma materialidade cr\u00edtica, uma bifurca\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica que vai atravessar, de uma ou outra maneira, a produtividade discursiva (filos\u00f3fica, ensa\u00edstica, ficcional, narrativa, po\u00e9tica e est\u00e9tica) da cultura antilhana. Desde j\u00e1, o cruzamento conflitual e a intertextualidade tr\u00e1gica s\u00e3o um processo presente em toda a cultura latino-americana (e em toda a cultura neo \u2013 ou p\u00f3s \u2013 colonial), e nesse contexto deve ser pensado \u00aba cor negro\u00bb. Mas no caribe a quest\u00e3o da negritude introdua uma especificidade, inclusive uma extremidade, que lhe d\u00e1 toda a sua peculiar singularidade. E essa \u00abextremidade\u00bb, essa especificidade que tamb\u00e9m \u2013 sob a l\u00f3gica do \u00abartigo 14\u00ba &#8211; \u00e9 criticamente universaliz\u00e1vel, enquanto mostra as aporias irresolvidas, e provavelmente irresol\u00faveis, de uma rela\u00e7\u00e3o outra com uma \u00abmodernidade\u00bb presumidamente homogeneizada pela cultura ocidental.<\/p>\n<p>Esta \u00faltima conclus\u00e3o pode tornar-se importante. Pessoalmente, sempre me surpreendeu a facilidade com que o pensamento \u00abp\u00f3s\u00bb se submete \u2013 mesmo que seja para se opor \u2013 \u00e0 vers\u00e3o dominante da Modernidade apresentada como o que o mesmo pensamento denominou uma grande narrativa homog\u00e9nea e linear. Mas n\u00e3o h\u00e1 apenas uma \u00abmodernidade\u00bb: a modernidade \u00e9 tanto o particularismo universal do \u00abTodos somos iguais menos alguns\u00bb da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa como o universalismo particular do \u00abtodos somos negros ainda que nem todos o sejamos\u00bb da Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana. O conceito de uma identidade intencionalmente bifurcada mostrando, como diz\u00edamos, que h\u00e1 outra modernidade, ou inclusive uma contra-modernidade \u00abperif\u00e9rica\u00bb, talvez permitisse libertar a oposi\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria \u00abmodernidade \/ p\u00f3s-modernidade em que permanece encerrado o academismo p\u00f3s, incluindo os estudos culturais e a teoria p\u00f3s-colonial. Desde j\u00e1 \u00e9 uma via sempre incompleta e em processo de des-totaliza\u00e7\u00e3o e re-totaliza\u00e7\u00e3o, como diria Sartre. A rela\u00e7\u00e3o de desconex\u00e3o\/reconex\u00e3o bifurcante das identidades resguarda, ao fim e ao cabo, os seus pr\u00f3prios enigmas, que talvez seja conveniente resguardar<\/p>\n<p><em>Notas:<br \/>\n[1]\u00a0 L\u00e9vi-Strauss, Claude:\u00a0\u00a0Las Estructuras Elementales del Parentesco\u00a0, Barcelona, Paid\u00f3s, 1975.<br \/>\n[2]\u00a0 Anderson, Benedict:\u00a0Comunidades Imaginadas\u00a0, Mexico, FCE, 1998.<br \/>\nhttp:\/\/www.contrahegemoniaweb.com.ar\/<\/em><\/p>\n<p>* Professor na Universidade de Buenos Aires (UBA).<\/p>\n<p>Este texto foi publicado em: http:\/\/www.lahaine.org\/haiti-a-partir-de-hoy<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/haiti-a-partir-de-hoje-somos\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Eduardo Gr\u00fcner* Os haitianos ainda hoje pagam caro o atrevimento de em 1804 terem aprovado a mais radical e igualit\u00e1ria das Constitui\u00e7\u00f5es do \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11702\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[55],"tags":[],"class_list":["post-11702","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c66-haiti"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-32K","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11702"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11702\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}