{"id":11710,"date":"2016-07-28T23:43:20","date_gmt":"2016-07-29T02:43:20","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11710"},"modified":"2016-08-19T20:05:20","modified_gmt":"2016-08-19T23:05:20","slug":"o-porto-maravilha-e-negro-debaixo-da-atracao-ha-milhares-de-ossos-de-escravos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11710","title":{"rendered":"O Porto Maravilha \u00e9 negro: debaixo da atra\u00e7\u00e3o, h\u00e1 milhares de ossos de escravos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/18192158\/Desembarque-de-escravos-no-Cais-do-Valongo-JM-Rugendas-1835.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/550047-infraestrutura-logistica-portuaria-o-estado-cooptado-pelo-setor-privado-e-a-populacao-a-merce-do-capital-entrevista-especial-com-roberto-moraes-pessanha\" target=\"_blank\"><strong>Porto Maravilha<\/strong><\/a> esconde saberes fundamentais \u00e0 costura do passado do <strong>Rio de Janeiro<\/strong>. Para juntar os peda\u00e7os de tecido naquela \u00e1rea, \u00e9 necess\u00e1rio, primeiramente, saber onde se pisa. Em 1\u00b0 <!--more-->de mar\u00e7o de 2011, as obras do projeto de <strong>renova\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio portu\u00e1rio<\/strong> deixaram de ser somente um conceito moderno, que olha para o futuro.<\/p>\n<p>A reportagem \u00e9 de<strong> Rog\u00e9rio Daflon<\/strong>, publicada por <a href=\"http:\/\/apublica.org\/2016\/07\/o-porto-maravilha-e-negro\/\" target=\"_blank\"><b>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/b><\/a>, 19-07-2016.<\/p>\n<p>Naquele dia, por for\u00e7a de lei, uma equipe do<strong> Museu Nacional<\/strong> acompanhava as interven\u00e7\u00f5es de drenagem no subsolo por escavadeiras das empreiteiras que constroem o arrojado empreendimento. Os <strong>arque\u00f3logos<\/strong> j\u00e1 sabiam o que estava por vir \u00e0 superf\u00edcie da rua Bar\u00e3o de Tef\u00e9: o<strong> Cais do Valongo<\/strong>, onde centenas de milhares de escravos aportaram a partir do s\u00e9culo 18, sobre o cal\u00e7amento de p\u00e9 de moleque \u2013t\u00e9cnica construtiva do <strong>Brasil Col\u00f4nia<\/strong>, com pedras arredondadas de rios acomodadas sobre a terra batida.<\/p>\n<p>Os seixos irregulares estavam sob outra camada, mais \u00e0 moda do <strong>Brasil Imp\u00e9rio<\/strong>, com conjuntos de blocos de granitos empilhados para receber, em 1843, a <strong>imperatriz Teresa Cristina<\/strong>, ent\u00e3o futura esposa de dom Pedro 2\u00ba. Por cima desse revestimento, havia ainda o aterro planejado pelo prefeito <strong>Pereira Passos<\/strong> no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, que p\u00f4s um fim \u00e0 mem\u00f3ria do passado imperial. E escondeu tamb\u00e9m o origin\u00e1rio <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/41000-africanos-lembram-holocausto-negrotema-foi-lembrado-no-forum-mundial-de-teologia-entrevista-com-roberto-zwetsch\" target=\"_blank\"><strong>holocausto brasileiro<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>O <strong>Cais do Valongo<\/strong> foi o maior porto negreiro das Am\u00e9ricas e, segundo o historiador<strong> Manolo Florentino<\/strong>, esteve em atividade nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 18 at\u00e9 final de 1830, ocupando uma \u00e1rea entre os bairros da Gamboa, da Sa\u00fade e do Santo Cristo. Nele desembarcaram mais de 700 mil escravos, vindos, sobretudo, do <strong>Congo<\/strong> e de <strong>Angola<\/strong> \u2013pode-se dizer que o Valongo foi o ponto de converg\u00eancia de 7% de todos os cerca de 10,7 milh\u00f5es de escravos traficados \u00e0s terras do Novo Mundo. Pelo menos mais 700 mil foram traficados para outros pontos do litoral do estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A capital, naquela \u00e9poca, era umas das cidades mais negras do mundo colonial. E o trecho mais agitado por essa migra\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria era a rua do Valongo, atualmente rua Camerino. Sobre ela, como mencionado no livro &#8220;1808&#8221;, do jornalista Laurentino Gomes, a viajante inglesa <strong>Maria Graham<\/strong>, amiga da<strong> imperatriz Leopoldina<\/strong>, escreveu em seu di\u00e1rio:<\/p>\n<p>&#8220;<em>Vi hoje o Valongo. \u00c9 o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longu\u00edssima rua s\u00e3o um dep\u00f3sito de escravos. Passando pelas suas portas \u00e0 noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente \u00e0s paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabe\u00e7as raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares, as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracos para sentarem-se<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>At\u00e9 as escava\u00e7\u00f5es, realizadas em 2011, o<strong> Cais do Valongo<\/strong> estava literalmente soterrado na mem\u00f3ria dos cariocas. Por isso, a reportagem da &#8220;P\u00fablica&#8221; tentou averiguar como a cidade est\u00e1 lidando, cinco anos depois, com seu passado em meio ao processo de revitaliza\u00e7\u00e3o do porto, fundado num tempo em que pessoas se achavam superiores a outras a ponto de escraviz\u00e1-las.<\/p>\n<p>Para o pesquisador <strong>Rog\u00e9rio Jord\u00e3o<\/strong>, cuja tese de doutorado discorreu sobre o pr\u00f3prio <strong>Cais do Valongo<\/strong>, a prefeitura se comporta de maneira paradoxal ao cuidar da mem\u00f3ria da sofrida e pulsante Pequena \u00c1frica, como o artista e compositor<strong> Heitor dos Prazeres<\/strong> chamou aquela \u00e1rea no in\u00edcio do s\u00e9culo 20. &#8220;\u00c9 como se a prefeitura praticasse uma estranha din\u00e2mica de lembrar esquecendo-se&#8221;, diz <strong>Jord\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>Para ilustrar sua provoca\u00e7\u00e3o, o pesquisador aponta para o <strong>Museu de Arte do Rio e Museu do Amanh\u00e3<\/strong> \u2013 este constru\u00eddo com investimento de R$ 215 milh\u00f5es \u2013 ambos administrados pela<strong> Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho<\/strong> e considerados s\u00edmbolos do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/555833-o-maior-misterio-da-olimpiada\" target=\"_blank\"><strong>Projeto Porto Maravilha<\/strong><\/a>. &#8220;Estes dois museus come\u00e7aram a ser constru\u00eddos no mesmo per\u00edodo [da redescoberta do Cais do Valongo] e j\u00e1 est\u00e3o em pleno funcionamento, enquanto os milhares de objetos de matriz africana encontrados nas obras [de escava\u00e7\u00e3o] ainda n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis ao p\u00fablico&#8221;. S\u00e3o pe\u00e7as de barro, seguis [uma esp\u00e9cie de conta], monjolos, b\u00fazios, lou\u00e7as quebradas, ocut\u00e1 [pedra que atrai o Orix\u00e1], como descreve <strong>Jord\u00e3o<\/strong> em sua tese.<\/p>\n<p>A prefeitura chegou a anunciar um projeto cujo nome seria <strong>Laborat\u00f3rio Aberto de Arqueologia<\/strong>, a ser inaugurado at\u00e9 o fim de 2015, bem antes da <strong>Olimp\u00edada<\/strong>\u2026 A ideia era que o p\u00fablico acompanhasse in loco o processo de recupera\u00e7\u00e3o das pe\u00e7as. Mas at\u00e9 agora o projeto n\u00e3o saiu do papel.<\/p>\n<p>Hoje o destino desses<strong> achados arqueol\u00f3gicos<\/strong> \u00e9 conhecido por poucos. Eles est\u00e3o no <strong>Galp\u00e3o da Gamboa<\/strong>, no sop\u00e9 do morro da Provid\u00eancia e bem pr\u00f3ximo \u00e0 Cidade do Samba, no centro. Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, os objetos j\u00e1 foram todos catalogados e est\u00e3o embalados em cont\u00eaineres.<\/p>\n<p>Os artefatos t\u00eam tanta import\u00e2ncia que a arque\u00f3loga <strong>T\u00e2nia Andrade Lima<\/strong>, que coordenou as escava\u00e7\u00f5es no in\u00edcio das obras do <strong>Porto Maravilha<\/strong>, convidou quatro religiosos de matriz africana para explicar seus diferentes significados. &#8220;Quando percebi que est\u00e1vamos encontrando objetos pessoais e tamb\u00e9m objetos relacionados a pr\u00e1ticas m\u00e1gico-religiosas dos africanos escravizados, entendi que a comunidade negra deveria ser chamada a participar do trabalho. Sou eurodescendente, de forma\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, assim como grande parte da equipe de arque\u00f3logos que trabalharam no <strong>Valongo<\/strong>, de tal forma que meu entendimento foi o de que esses objetos constituem uma heran\u00e7a que aquelas pessoas deixaram para seus descendentes, e nessa condi\u00e7\u00e3o lhes pertencem em primeiro lugar. Eles n\u00e3o puderam deixar nada sen\u00e3o aquelas poucas pe\u00e7as. Foi o que restou deles&#8221;, disse a antrop\u00f3loga \u00e0 &#8220;<strong>P\u00fablica<\/strong>&#8220;.<\/p>\n<p><strong>M\u00e3e Celina de Xang\u00f4<\/strong>, uma das convidadas, interpretou objetos pelo jogo de b\u00fazios atrav\u00e9s do qual consultava os Orix\u00e1s. Hoje presidente do Centro Cultural Pequena \u00c1frica, ela questiona: &#8220;A coleta desses artigos foi feita em 2011 e cinco anos depois ningu\u00e9m sabe como e quando eles ficar\u00e3o expostos. H\u00e1 um projeto do <strong>Museu da Di\u00e1spora Africana<\/strong>, mas sem haver nada de concreto&#8221;, diz a m\u00e3e de santo do Candombl\u00e9. &#8220;\u00c9 com muita tristeza que tomo conhecimento hoje que objetos t\u00e3o importantes \u00e0 nossa hist\u00f3ria, muitos deles pertencentes a cultos de matriz africana, est\u00e3o em sacos pl\u00e1sticos dentro de cont\u00eaineres&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p>Para o historiador <strong>Manolo Florentino<\/strong>, deveria haver um trabalho multidisciplinar cont\u00ednuo, e n\u00e3o apenas esfor\u00e7os pontuais, para desvendar os in\u00fameros segredos que aquela \u00e1rea guarda sobre a cultura negra. &#8220;Tudo que envolve o Valongo e a presen\u00e7a negra de uma forma geral deveria ser mais pesquisado. Esse trabalho tem um custo alt\u00edssimo e, talvez por isso, n\u00e3o tem sido abordado da maneira adequada tecnicamente&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Como considera que tal quadro n\u00e3o mudar\u00e1 em m\u00e9dio prazo, ele tem d\u00favidas se vai dar certo a ambi\u00e7\u00e3o da prefeitura e do <strong>Iphan<\/strong> (Instituto de Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional) de obter da <strong>Unesco<\/strong> o reconhecimento do <strong>Cais do Valongo<\/strong>, da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/519316-temporada-de-caca-aos-quilombos\" target=\"_blank\"><b>Pedra do Sal<\/b><\/a> e do <strong>Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos <\/strong>como<strong> Patrim\u00f4nio da Humanidad<\/strong>e. Os dois \u00f3rg\u00e3os formaram equipes para produzir um dossi\u00ea sobre a import\u00e2ncia dos tr\u00eas \u00edcones da cultura negra local.<\/p>\n<p>O documento resultante faz uma defesa enf\u00e1tica do<strong> Cais do Valongo <\/strong>logo no primeiro par\u00e1grafo: &#8220;Merece ser considerado pela Unesco patrim\u00f4nio da humanidade porque \u00e9 o s\u00edtio de mem\u00f3ria da escravid\u00e3o mais completo que se conhece. Ele tem import\u00e2ncia n\u00e3o apenas para a hist\u00f3ria brasileira e, portanto, para a nossa vida como na\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m para a hist\u00f3ria do mundo&#8221;. A <strong>ONU<\/strong> acolheu a candidatura no \u00faltimo dia 3 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Florentino<\/strong> considera que a aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 vaga deveria suscitar mais investimentos para a<strong> cultura negra<\/strong> local. Membro do Trans-Atlantic Slave Trade Voyages, uma iniciativa internacional de coleta de dados sobre viagens de <strong>navios negreiros<\/strong>, com sede na Universidade Emory, na Ge\u00f3rgia, Estados Unidos, o historiador afirma que entre 1790 e 1830, cerca de 700 mil escravos desembarcaram no Cais do Valongo, fazendo dele o maior porto negreiro das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>At\u00e9 1830, ano da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-anteriores\/6161-o-brasil-resistiu-por-quase-meio-seculo-a-proibicao-do-trafico-de-negros\" target=\"_blank\"><strong>proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico negreiro<\/strong><\/a>, apenas a cidade do<strong> Rio de Janeiro<\/strong> \u2013 no porto antigo, no Largo de Santa Rita, e depois no Cais do Valongo\u2013 e o Cabo de B\u00fazios foram ponto de desembarque no Estado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a proibi\u00e7\u00e3o, o n\u00famero de escravos desembarcados na capital cai vertiginosamente, ao mesmo tempo que um intenso desembarque come\u00e7a a ocorrer nas faixas litor\u00e2neas, como <strong>Ponta Negra, Ilha Grande, Mangaratiba e Paraty<\/strong>. Alguns navios mais ousados optavam pela enseada de <strong>Botafogo<\/strong> e a praia de <strong>Copacabana<\/strong>, mas em quantidade menos expressiva.<\/p>\n<p>Em 1856, houve a \u00faltima viagem registrada antes da <strong>aboli\u00e7\u00e3o da escravatura<\/strong>, 22 anos depois. Na d\u00e9cada de maior movimento, entre 1821 e 1830, o Cais do Valongo recebeu mais de 335 mil escravos, uma m\u00e9dia de 33,5 mil a cada ano.<\/p>\n<p><strong>O circuito da prefeitura<\/strong><\/p>\n<p>Redescoberto, o <strong>Cais do Valongo<\/strong> traz os navios negreiros de volta ao imagin\u00e1rio do carioca. As \u00e1guas da <strong>ba\u00eda de Guanabara<\/strong> n\u00e3o batem mais \u00e0quela altura da rua Bar\u00e3o de Tef\u00e9, por obra do aterro feito na administra\u00e7\u00e3o do prefeito<strong> Pereira Passos<\/strong> (1902-1906). No \u00faltimo ano de seu mandato, Passos inaugurou, na parte mais baixa do morro da Concei\u00e7\u00e3o, o <strong>Jardim Suspenso do Valongo<\/strong>, a cerca de cem metros do antigo cais. Seguiu \u00e0 risca o modelo de transforma\u00e7\u00e3o adotado em Paris no fim do s\u00e9culo 19, excluindo as marcas do passado.<\/p>\n<p>Surpreendentemente, o<strong> Jardim Suspenso do Valongo<\/strong> integra o denominado <strong>Circuito Hist\u00f3rico e Arqueol\u00f3gico da Celebra\u00e7\u00e3o da Heran\u00e7a Africana<\/strong>, que, criado em 2012 pela prefeitura, re\u00fane apenas seis pontos de interesse. &#8220;O Jardim foi algo feito sob inspira\u00e7\u00e3o europeia justamente para ajudar a ocultar a import\u00e2ncia do Cais do Valongo. Isso deveria ser explicado ao visitante&#8221;, afirma a historiadora <strong>Martha Abreu<\/strong>. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma men\u00e7\u00e3o ao fato de que, no espa\u00e7o do jardim at\u00e9 1831, funcionaram armaz\u00e9ns de venda de escravos e, posteriormente, caf\u00e9 e outros produtos.<\/p>\n<p><strong>Cais do Valongo ap\u00f3s as obras<\/strong><\/p>\n<p>O pr\u00f3prio <strong>Cais do Valongo<\/strong> integra, \u00e9 claro, o circuito, completado pelo<strong> Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos<\/strong>, pela <strong>Pedra do Sal<\/strong>, pelo<strong> Centro Cultural Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio e pelo Largo do Dep\u00f3sito<\/strong>. O deslize na montagem do circuito \u00e9 um ind\u00edcio de que o poder p\u00fablico n\u00e3o vem cumprindo sua miss\u00e3o de animar o debate sobre a heran\u00e7a africana no porto. Placas j\u00e1 mal conservadas trazem um texto superficial sobre a fenda aberta no meio da cal\u00e7ada com as diferentes camadas do Cais do Valongo e Cais da Imperatriz.<\/p>\n<p>Para<strong> Dami\u00e3o Braga<\/strong>, da Associa\u00e7\u00e3o da Comunidade Remanescente de Quilombo da Pedra do Sal, a pr\u00f3pria obra passou por cima de outros ancoradouros de navios negreiros. &#8220;Vi com meus olhos ancoradouros sendo cobertos na rua Coelho e Castro, pr\u00f3ximo \u00e0 pra\u00e7a Mau\u00e1&#8221;, disse ele \u00e0 &#8220;<strong>P\u00fablica<\/strong>&#8220;.<\/p>\n<p><strong>Um cemit\u00e9rio sob nossos p\u00e9s<\/strong><\/p>\n<p>Filha de um portugu\u00eas com uma espanhola, a carioca <strong>Ana Maria de la Merced Guimar\u00e3es<\/strong> demonstrou muito interesse pelo passado. N\u00e3o tinha a menor ideia de como sua vida mudaria ap\u00f3s a compra de uma casa constru\u00edda em 1866 na rua Pedro Ernesto, no bairro da Gamboa. Em 1996, ela e o marido, <strong>Petruccio dos Anjos<\/strong>, estavam \u00e0s voltas com uma reforma no im\u00f3vel onde morariam com tr\u00eas filhas. Um dia, Merced, como \u00e9 conhecida, recebeu um telefonema em seu trabalho. Escutou, at\u00f4nita, que os pedreiros da obra, ao cavar um buraco, se depararam com um punhado de ossos.<\/p>\n<p>Ela soube ent\u00e3o que havia um <strong>s\u00edtio arqueol\u00f3gico<\/strong> sob seus p\u00e9s. At\u00e9 aquele momento, n\u00e3o havia nenhuma refer\u00eancia material da exist\u00eancia do Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos, que servira para sepultar os escravos que morriam quando o navio negreiro j\u00e1 estava na ba\u00eda de Guanabara, ou que faleciam ap\u00f3s o desembarque.<\/p>\n<p>Logo que chegou em casa, <strong>Merced<\/strong> se dirigiu \u00e0 resid\u00eancia do vizinho<strong> Ant\u00f4nio Carlos Machado<\/strong>, presidente do Afox\u00e9 Filhos de Gandhi, que a aconselhou a procurar o <strong>Centro Cultural Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio<\/strong>, dedicado \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/504505-quilombolas-sujeitos-de-direitos-fundiarios-e-historico-culturais-entrevista-especial-com-rose-leine-bertaco-giacomini\" target=\"_blank\"><strong>cultura negra<\/strong><\/a>. De l\u00e1, saiu o aviso ao ent\u00e3o Departamento Geral de Patrim\u00f4nio Cultural, que, por sua vez, arregimentou membros do Instituto de Arqueologia Brasileira. De repente, a casa que escolhera para morar com a fam\u00edlia passou a abrigar constantemente seis pessoas, entre arque\u00f3logos e t\u00e9cnicos de escava\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vinte e oito esqueletos tiveram seus ossos reunidos e pesquisados. Os estudos trouxeram algumas caracter\u00edsticas dos mortos: idade entre 3 e 25 anos, de ambos os sexos. O historiador <strong>J\u00falio Cesar Medeiros<\/strong> conta o horror dos enterros em seu livro<strong><i> \u00c0 flor da terra: o Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos no Rio de Janeiro.<\/i><\/strong> Nele, o autor descreve que os cad\u00e1veres eram enterrados a apenas um palmo de profundidade. Inicialmente o <strong>Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos<\/strong> estava instalado no largo de Santa Rita, pr\u00f3ximo \u00e0 pra\u00e7a Mau\u00e1, onde havia um grande fluxo da burguesia da \u00e9poca: \u201cO vice-rei marqu\u00eas de Lavradio tirou o mercado dali, para esconder as cenas do desembarque dos escravos onde j\u00e1 havia uma burguesia vivendo. Consequentemente o cemit\u00e9rio que funcionava ali foi a para a <strong>Regi\u00e3o do Valongo<\/strong>, na segunda metade do s\u00e9culo 18, quando a regi\u00e3o era desabitada\u201d, diz o texto. Aos poucos, a \u00e1rea ao redor foi sendo ocupada por uma popula\u00e7\u00e3o pobre.<\/p>\n<p>Mais de 6 mil <strong>escravos<\/strong> foram enterrados ali de 1824 a 1830, segundo registros hist\u00f3ricos da<strong> Igreja de Santa Rita<\/strong>, ent\u00e3o respons\u00e1vel pelo servi\u00e7o, anota Medeiros em seu livro. \u00c0 <strong>P\u00fablica<\/strong>, ele afirmou categoricamente: existem mais corpos enterrados na \u00e1rea do <strong>Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos<\/strong> e tamb\u00e9m em casas vizinhas. \u201cDigo isso porque s\u00f3 calculei o n\u00famero de enterros no CNP [Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos] em um per\u00edodo bem curto, com os registros do livro de \u00f3bitos da freguesia de Santa Rita, de 1824 a 1830.\u201d Nesse momento, o historiador faz um desabafo: \u201cOs dados de outros per\u00edodos relacionados a esses enterros est\u00e3o no Arquivo da C\u00faria Metropolitana do Rio de Janeiro, na Catedral do Rio de Janeiro, no centro. Ocorre que os livros est\u00e3o em p\u00e9ssimo estado, e ainda tive dificuldade de acesso a eles na C\u00faria. H\u00e1 um risco grande de se perder um material de riqueza inestim\u00e1vel\u201d, alerta <strong>Medeiros<\/strong>.<\/p>\n<p>H\u00e1 outro risco de perda irrepar\u00e1vel. O presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Regi\u00e3o do Porto do Rio (<strong>Cdurp<\/strong>), <strong>Alberto Silva<\/strong>, afirmou em entrevista \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong> que uma pesquisa do <strong>Museu Nacional<\/strong>, da <strong>Universidade Federal do Rio de Janeiro<\/strong>, d\u00e1 conta de que casas de mais tr\u00eas ruas est\u00e3o na delimita\u00e7\u00e3o espacial do cemit\u00e9rio feita pela pesquisa. \u201cCasas das ruas Pedro Ernesto, Le\u00f4ncio de Albuquerque e do Prop\u00f3sito est\u00e3o na \u00e1rea do cemit\u00e9rio\u201d, afirmou. Indagado sobre por que a prefeitura n\u00e3o promoveu novas escava\u00e7\u00f5es nessas casas e na via, <strong>Silva<\/strong> respondeu: \u201cQuem tem de definir isso \u00e9 o <strong>Iphan<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 uma atribui\u00e7\u00e3o da prefeitura\u201d. Sobre a prefeitura n\u00e3o estimular novas escava\u00e7\u00f5es, Silva, que \u00e9 soci\u00f3logo, declarou que o sofrimento dali est\u00e1 representado pelo cemit\u00e9rio \u2013 e que esse debate est\u00e1 \u201cerrado\u201d. \u201cO importante \u00e9 que o Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos est\u00e1 simbolizado na \u00e1rea da casa da Merced, que recebe em torno de R$ 90 mil por ano para preserv\u00e1-lo. Os corpos foram queimados e revolvidos, o que dificultaria muito o trabalho. E ter\u00edamos de desapropriar casas para fazer novas pesquisas\u201d, disse ele, que representa a prefeitura, que removeu mais fam\u00edlias do que qualquer governo municipal da hist\u00f3ria do Rio.<\/p>\n<p>A <strong>P\u00fablica<\/strong> procurou a presidente da<strong> Superintend\u00eancia Regional do Iphan<\/strong> no Rio de Janeiro, <strong>M\u00f4nica da Costa<\/strong>. Pela assessoria de imprensa, ela respondeu que quem estava mais \u00e0 frente desse assunto era o Instituto Rio Patrim\u00f4nio da Humanidade, presidido pelo arquiteto <strong>Washington Fajardo<\/strong>, com quem a <strong>P\u00fablica<\/strong> entrou em contato, por interm\u00e9dio da assessoria de imprensa, e n\u00e3o obteve resposta at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<p><strong>Medeiros<\/strong> acrescenta que h\u00e1 outro fato de grande import\u00e2ncia que continua sendo subestimado: \u201cNingu\u00e9m sabe at\u00e9 hoje onde ficava no <strong>Valongo<\/strong> o lazareto, uma enfermaria de quarentena dos escravos. Os escravos que n\u00e3o resistiam ali eram diretamente encaminhados ao <strong>CPN<\/strong>. Ainda h\u00e1 muito o que pesquisar no porto\u201d.<\/p>\n<p><strong>As muitas mortes dos pretos novos<\/strong><\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201c<strong>pretos novos<\/strong>\u201d era a denomina\u00e7\u00e3o para os <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?secao=477\" target=\"_blank\"><strong>escravos<\/strong><\/a> rec\u00e9m-chegados ao Brasil. Os que n\u00e3o resistiam \u00e0s intemp\u00e9ries das viagens nos navios negreiros iam sendo enterrados. Os registros desses enterros trazem o nome do traficante, data dos sepultamentos, a faixa et\u00e1ria do escravo, o nome da embarca\u00e7\u00e3o e do capit\u00e3o. O porto de origem de cada africano tamb\u00e9m consta no livro de \u00f3bitos. No entanto, se havia algum tipo de organiza\u00e7\u00e3o dos registros, o desrespeito \u00e0s cerim\u00f4nias africanas, por sua vez, era imenso. \u201cNa cultura banto, seguida pela maioria dos escravos vindos para o <strong>Rio de Janeiro<\/strong>, a morte significa a passagem do mundo dos vivos para o sobrenatural. O morto, se fosse enterrado de acordo com os rituais, tinha um encontro com seus antepassados, mantendo uma liga\u00e7\u00e3o com o mundo dos vivos. Sem isso, o morto passaria ser um infort\u00fanio para os vivos. Trata-se de uma cosmovis\u00e3o\u201d, diz <strong>Medeiros<\/strong>.<\/p>\n<p>O historiador cita o<strong> cemit\u00e9rio de Nova York<\/strong>, na ilha de Manhattan, chamado <strong>African Burial Ground<\/strong>, no qual, no s\u00e9culo 18, os africanos escravizados e seus descendentes eram enterrados de acordo com seus ritos. Ali, ap\u00f3s uma grande luta da comunidade africana dos <strong>Estados Unidos<\/strong>, ergueu-se um memorial nos anos 1990. Os pesquisadores dizem que o trabalho ali \u00e9 cont\u00ednuo e deve durar pelo menos mais cem anos, segundo a disserta\u00e7\u00e3o de mestrado do arque\u00f3logo <strong>Reinaldo Bernardes Tavares<\/strong> para o Museu Nacional.<\/p>\n<p><strong>Medeiros<\/strong> n\u00e3o entende por que n\u00e3o h\u00e1 mais investimentos no<strong> Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos<\/strong> e em outras escava\u00e7\u00f5es em casas da vizinhan\u00e7a. \u201cA fachada [da casa que abriga o cemit\u00e9rio] precisa ser reformada, e o pr\u00f3prio cemit\u00e9rio poderia estar mais bem estruturado\u201d, afirmou ele. \u201cO cemit\u00e9rio deveria ter seu pr\u00f3prio banco de dados e computadores para alunos e pesquisadores visualizarem, entre outras coisas, as rotas dos navios negreiros\u201d, diz Medeiros. De fato, falta muita coisa ao cemit\u00e9rio. Os ossos encontrados n\u00e3o est\u00e3o no museu. Repousam no<strong> Instituto de Arqueologia do Brasil<\/strong>, na cidade de Belford Roxo, na regi\u00e3o metropolitana, a cerca de 30 quil\u00f4metros do centro do Rio.<\/p>\n<p>Um depoimento do diplomata ingl\u00eas <strong>James Herderson<\/strong>, reproduzido no livro 1808, do jornalista <strong>Laurentino Gomes<\/strong>, mostra o porqu\u00ea da morte de tantos escravos: \u201cOs<strong> navios negreiros<\/strong> que chegam ao Brasil apresentam um retrato terr\u00edvel da mis\u00e9ria humana. O conv\u00e9s \u00e9 abarrotado por criaturas, apertadas umas \u00e0s outras tanto quanto poss\u00edvel. Suas faces melanc\u00f3licas e seus corpos nus e esqu\u00e1lidos s\u00e3o o suficiente para encher de horror qualquer pessoa n\u00e3o habituada a esse tipo de cena. Muitos deles, enquanto caminham at\u00e9 os dep\u00f3sitos onde ficar\u00e3o expostos para a venda, mais se parecem com esqueletos ambulantes, em especial as crian\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>A chegada de crian\u00e7as e adolescentes escravizados ao <strong>Cais do Valongo<\/strong>, por sinal, tamb\u00e9m parece pouco estudada; seu objetivo perverso era aumentar a vida \u00fatil do escravo e prolongar a escravid\u00e3o. Dados do site <strong>The Trans-Atlantic Slave Trade Voyages<\/strong> revelam os efeitos da press\u00e3o para dar fim ao tr\u00e1fico de escravos liderada pela Inglaterra, cuja produ\u00e7\u00e3o manufatureira de suas col\u00f4nias no <strong>Caribe<\/strong> com homens livres custava mais que a portuguesa assentada no escravismo. Houve um aumento exponencial de crian\u00e7as de ambos os sexos em navios negreiros desembarcados no <strong>Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco<\/strong> entre 1811 e 1850.<\/p>\n<p>Tais dados elevam a cren\u00e7a de <strong>Manolo Florentino<\/strong> de que h\u00e1 mais ossadas de escravos de meninos e meninas enterradas na regi\u00e3o portu\u00e1ria. \u201cIsso \u00e9 um motivo mais do que suficiente para entender que aquela regi\u00e3o n\u00e3o pode ser simplesmente \u2018<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/514911-megaeventos-e-a-governanca-empreendedorista-neoliberal-entrevista-especial-com-orlando-alves-dos-santos-junior\" target=\"_blank\"><strong>revitalizada<\/strong><\/a>\u2019. Ela precisa ser estudada profundamente, e isso exige investimento\u201d, diz o professor do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Sociais (IFCS). <strong>Florentino<\/strong> ficou apreensivo com a decis\u00e3o da prefeitura de construir um VLT (ve\u00edculo leve sobre trilhos) justamente na rua Pedro Ernesto, endere\u00e7o do <strong>Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos<\/strong>, onde mais pesquisas deveriam ser feitas, acredita. \u201cDesejo que o VLT tenha sido instalado ali sem que se prejudiquem futuras pesquisas arqueol\u00f3gicas, que se mostram cada vez mais necess\u00e1rias naquela \u00e1rea.\u201d Segundo<strong> Alberto Silva<\/strong>, os trilhos foram instalados seguindo as regras do <strong>Iphan<\/strong>, e nada foi encontrado no caminho.<\/p>\n<p>De qualquer forma, para o professor, \u00e9 necess\u00e1ria uma prospec\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica cont\u00ednua para definir a real extens\u00e3o do cemit\u00e9rio, tentativa j\u00e1 feita pelo <strong>Museu Nacional<\/strong>, com alguns avan\u00e7os. Segundo estimativa do jornalista<strong> Laurentino Gomes<\/strong>, mais de 20 mil <strong>corpos de escravos<\/strong> devem ter sido enterrados na<strong> regi\u00e3o do Valongo<\/strong> at\u00e9 a desativa\u00e7\u00e3o do mercado negreiro. \u201cAquela \u00e1rea deveria ser palco de um grande estudo arqueol\u00f3gico e de gen\u00e9tica para uma an\u00e1lise acurada dos ossos a serem encontrados, com uma ampla equipe multidisciplinar envolvendo tamb\u00e9m profissionais como antrop\u00f3logos e historiadores. Nos<strong> Estados Unidos<\/strong>, onde o <strong>movimento black<\/strong> exigiu isso, foi feito esse trabalho em \u00e1reas na Costa Leste, assim como no Caribe. N\u00e3o vejo iniciativas assim no Brasil\u201d, diz Florentino.<\/p>\n<p><strong>42 lugares em vez de 6<\/strong><\/p>\n<p>Dentre os seis pontos do<strong> Circuito Hist\u00f3rico e Arqueol\u00f3gico da Celebra\u00e7\u00e3o da Heran\u00e7a Africana<\/strong>, destaca-se o Centro Cultural Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, em um pr\u00e9dio renascentista onde funciona desde os anos 1990, \u00e9 um centro de refer\u00eancia da<strong> cultura afro-brasileira<\/strong>. A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/520433-entrevista-especial-com-sonia-fleury\" target=\"_blank\"><b>Pedra do Sal<\/b><\/a><strong>,<\/strong> na base do morro da Concei\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m integra o circuito. Sua rocha, na rua Argemiro Bulc\u00e3o, era o lugar onde o sal era descarregado por escravos no s\u00e9culo 18. A regi\u00e3o foi palco do <strong>surgimento do samba<\/strong> nas duas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20 pelas m\u00e3os de descendentes de escravos. Ranchos carnavalescos, afox\u00e9s e rodas de samba s\u00e3o parte de sua hist\u00f3ria. Atualmente, \u00e9 ponto de converg\u00eancia de sambistas da cidade.<\/p>\n<p>As historiadoras <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4742&amp;secao=407\" target=\"_blank\"><strong>Hebe Mattos<\/strong>,<strong> Martha Abreu<\/strong><\/a> e <strong>Keila Grinberg<\/strong> consideram o circuito da prefeitura diminuto diante da presen\u00e7a hist\u00f3rica dos negros na zona portu\u00e1ria. As tr\u00eas criaram um aplicativo para celular com 42 lugares representativos da cultura afro-brasileira na regi\u00e3o, de nome \u201c<strong>Passados presentes<\/strong>\u201d. Ele inclui tamb\u00e9m a hist\u00f3ria do porto ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, na virada do s\u00e9culo 19 para o 20, quando negros vieram da <strong>Bahia<\/strong> para antigas \u00e1reas cafeeiras do<strong> Vale do Para\u00edba<\/strong>. \u201c\u00c9 uma parte muito valiosa da hist\u00f3ria do porto, quando os escravos rec\u00e9m-libertos migram para a atividade portu\u00e1ria e se engajam em sindicatos de estivadores, influenciando em muito a ocupa\u00e7\u00e3o do lugar\u201d, diz Florentino.<\/p>\n<p>\u201cMesmo os pontos indicados pela administra\u00e7\u00e3o municipal apresentam problemas, como as placas rasgadas no<strong> Cais do Valongo<\/strong>\u201d, diz <strong>Martha<\/strong>. \u201cAli, h\u00e1 terreiros de candombl\u00e9 importantes, trapiches e corti\u00e7os que resistiram.\u201d Ela aponta para a presen\u00e7a de corti\u00e7os no final do s\u00e9culo 19, que abrigavam essa popula\u00e7\u00e3o de ex-escravos, como um marco. \u201cA destrui\u00e7\u00e3o do <strong>corti\u00e7o Cabe\u00e7a de Porco<\/strong> determinada pelo ent\u00e3o prefeito do Distrito Federal, Barata Ribeiro, expulsou mais de 4 mil pessoas dali\u201d, diz o historiador <strong>Claudio Honorato<\/strong>. Esse corti\u00e7o ocupava quase toda a rua Bar\u00e3o de S\u00e3o F\u00e9lix e se estendia at\u00e9 o morro da Provid\u00eancia. \u201cSua destrui\u00e7\u00e3o foi algo nitidamente para dar exemplo.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 sete pontos indicados no aplicativo com tradicionais rodas de capoeira, o que sempre refor\u00e7a a imagem do grande capoeirista da regi\u00e3o, o <strong>Prata Preta<\/strong>, um dos l\u00edderes da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/522760-para-limpeza-do-rj-governo-mandou-mais-de-2-mil-pessoas-para-o-ac-diz-historiador\" target=\"_blank\"><strong>Revolta da Vacina<\/strong><\/a>. A pra\u00e7a da Harmonia, onde houve a resist\u00eancia, tamb\u00e9m est\u00e1 no aplicativo das historiadoras.<\/p>\n<p><strong>Um quilombo no meio do porto das remo\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Existe um quilombo na \u00e1rea da Pedra do Sal, explica <strong>Dami\u00e3o Braga<\/strong>, presidente da Associa\u00e7\u00e3o da Comunidade Remanescente de Quilombo da Pedra do Sal, a quem quiser ouvir. E houve avan\u00e7os rumo \u00e0 sua demarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O munic\u00edpio sancionou em 2014 uma proposta do ent\u00e3o vereador <strong>Eliomar Coelho<\/strong> (PSOL), criando <strong>a \u00c1rea de Especial Interesse Cultural<\/strong> (AEIC) do<strong> Quilombo da Pedra do Sal<\/strong>. O Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (<strong>Incra<\/strong>) fez um Relat\u00f3rio T\u00e9cnico de Identifica\u00e7\u00e3o e Delimita\u00e7\u00e3o do Quilombo da Pedra do Sal. Em 2010, publicou nos di\u00e1rios oficiais do Estado do Rio e da Uni\u00e3o parte desse estudo, que consiste em um extenso relat\u00f3rio hist\u00f3rico e antropol\u00f3gico do quilombo, al\u00e9m de um levantamento fundi\u00e1rio. \u201cTemos o reconhecimento da Funda\u00e7\u00e3o Palmares, que \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o do governo federal, como Patrim\u00f4nio Afro-Brasileiro. Agora falta a titula\u00e7\u00e3o do Incra, do estado e do munic\u00edpio\u201d, diz <strong>Braga<\/strong>.<\/p>\n<p>Segundo ele, o <strong>Incra<\/strong> tem o poder de titular cerca de 60% de toda a \u00e1rea, incluindo im\u00f3veis. J\u00e1 o munic\u00edpio tem um pouco menos de 40%, mas at\u00e9 agora n\u00e3o avan\u00e7ou na titula\u00e7\u00e3o. \u201cPor que a prefeitura n\u00e3o faz a titula\u00e7\u00e3o?\u201d, pergunta Braga. \u201cSer\u00e1 porque ali \u00e9 alvo de interesse imobili\u00e1rio?\u201d<\/p>\n<p><strong>Braga<\/strong> v\u00ea o processo de ocupa\u00e7\u00e3o por negros como contraponto fundamental \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/543638-rio-de-janeiro-uma-cidade-ordenada-pela-segregacao-entrevista-especial-com-lucas-faulhaber\" target=\"_blank\"><strong>gentrifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a> que vem ocorrendo no porto, por causa das obras de infraestrutura do <strong>Projeto Porto Maravilha<\/strong>. E garante que o quilombo far\u00e1 seu papel de resist\u00eancia nesse processo. Os argumentos para esse reconhecimento, reunidos no relat\u00f3rio do pr\u00f3prio Incra, s\u00e3o profundos. Ele ressalta que o porto \u00e9 um ponto de converg\u00eancia da<strong> cultura negra<\/strong> em diferentes \u00e9pocas. Um trecho do documento mostra esse poder agregador da regi\u00e3o. \u201cO territ\u00f3rio da <strong>Pedra do Sal<\/strong>, como local de chegada, recep\u00e7\u00e3o e ajuda entre baianos, no final do s\u00e9culo 19, pode ser ainda evidenciado pelas declara\u00e7\u00f5es de uma de suas ilustres representantes,<strong> Carmem Teixeira da Concei\u00e7\u00e3o<\/strong>, conhecida como Tia Carmem: \u2018Tinha na Pedra do Sal, l\u00e1 na Sa\u00fade, ali que era uma casa de baianos e africanos, quando chegavam da \u00c1frica ou da Bahia. Da casa deles se via o navio, a\u00ed j\u00e1 era uma bandeira branca, sinal de Oxal\u00e1, avisando que vinha chegando gente\u2019\u201d. O relat\u00f3rio conclui: \u201cEsse modo de viver e receber os que chegavam incorporou-se ao modo de vida da regi\u00e3o e pode ser verificado com outros exemplos. Os antepassados dos que hoje reivindicam a identidade de remanescentes quilombolas chegaram \u00e0 regi\u00e3o da mesma forma. Foram acolhidos por negros, portu\u00e1rios e irm\u00e3os de santo, chegados anteriormente. Trataram de recompor os peda\u00e7os de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de desterritorializa\u00e7\u00e3o, formando agremia\u00e7\u00f5es ou realizando atividades coletivas de trabalho, culto ou lazer\u201d.<\/p>\n<p>Morador do porto, o arquiteto <strong>Felipe Nin<\/strong> chama a aten\u00e7\u00e3o para o n\u00famero de ocupa\u00e7\u00f5es populares organizadas de pr\u00e9dios abandonados que foram destru\u00eddas pela prefeitura, como a <strong>Quilombo das Guerreiras<\/strong>,<strong> Machado de Assis<\/strong> e <strong>Zumbi dos Palmares<\/strong>. \u201cA prefeitura quer demonstrar apre\u00e7o pela mem\u00f3ria, enquanto quer tirar a popula\u00e7\u00e3o pobre da regi\u00e3o\u201d, critica ele. O fot\u00f3grafo <strong>Maur\u00edcio Hora<\/strong>, morador do morro da Provid\u00eancia, tamb\u00e9m foi testemunha da sanha da prefeitura de remover fam\u00edlias. Ele chegou a escrever um artigo para o <strong>New York Times<\/strong> denunciando a falta de crit\u00e9rio da gest\u00e3o p\u00fablica. \u201cQueriam tirar do morro da Provid\u00eancia o que lhe d\u00e1 sentido: a popula\u00e7\u00e3o\u201d. Nascido no morro, Maur\u00edcio tamb\u00e9m est\u00e1 envolvido na luta pela demarca\u00e7\u00e3o do Quilombo da Pedra do Sal. \u201cN\u00f3s somos negros e descendentes de escravos daqui. Temos de lutar pela nossa perman\u00eancia\u201d, afirma. Filho de estivador,<strong> Luiz Torres<\/strong>, pontua: \u201cO Quilombo da Pedra do Sal vai ajudar a recuperar e preservar a hist\u00f3ria do negro no porto\u201d.<\/p>\n<p>A inglesa<strong> Maria Graham d<\/strong>escreve o dia em que, no <strong>Valongo<\/strong>, flagrou o olhar assustado de negros adolescentes no mercado de escravos. Colocar-se no lugar daqueles jovens pode trazer uma reflex\u00e3o importante sobre o passado que se soterra em nome da cobi\u00e7a pelo amanh\u00e3: \u201cEm uma casa, as portas estavam fechadas at\u00e9 meia altura e um grupo de rapazes e mo\u00e7as, que n\u00e3o pareciam ter mais de quinze anos, e alguns muito menos, debru\u00e7ava-se sobre a meia porta e olhava a rua com faces curiosas. Eram evidentemente negros bem novos\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/557942-o-porto-maravilha-e-negro-debaixo-da-atracao-ha-milhares-de-ossos-de-escravos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O Porto Maravilha esconde saberes fundamentais \u00e0 costura do passado do Rio de Janeiro. 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