{"id":11726,"date":"2016-07-31T22:20:06","date_gmt":"2016-08-01T01:20:06","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11726"},"modified":"2016-08-19T20:05:48","modified_gmt":"2016-08-19T23:05:48","slug":"ativista-brasileira-deportada-solidariedade-a-palestina-e-questao-de-seguranca-para-israel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11726","title":{"rendered":"Ativista brasileira deportada: Solidariedade \u00e0 Palestina \u00e9 quest\u00e3o de seguran\u00e7a para Israel"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/moaracrivelente2.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Moara Crivelente<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo &#8211; 28\/07\/2016 &#8211; 20h12<\/p>\n<p>Doutoranda em Pol\u00edtica Internacional, Moara Crivelente foi deportada por Israel quando se encaminhava \u00e0 Palestina; ela conta neste artigo sua experi\u00eancia<!--more--><\/p>\n<p>Mensagens pichadas nas paredes e nos estrados dos beliches declaram: \u201cpara cada membro do Movimento Internacional de Solidariedade deportado, mais dez vir\u00e3o\u201d. Foi lendo essas frases escritas com pasta de dentes ou at\u00e9 com comida que as horas passaram no centro de deten\u00e7\u00e3o da Autoridade de Popula\u00e7\u00e3o, Imigra\u00e7\u00e3o e Fronteiras do Minist\u00e9rio do Interior israelense, para onde eu e tantos outros antes e depois de mim fomos levados para esperar a deporta\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s horas de interrogat\u00f3rio no aeroporto internacional de Ben Gurion, em Tel Aviv, fomos declarados banidos por 10 anos, por \u201cquest\u00f5es de seguran\u00e7a\u201d \u2013 sem mais explica\u00e7\u00f5es. Somos amea\u00e7as.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica israelense de deporta\u00e7\u00e3o de ativistas solid\u00e1rios \u00e0 causa palestina pelo fim da ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 novidade. Em 2003, por exemplo, oito membros do International Solidarity Movement (Movimento Internacional de Solidariedade), todos europeus e norte-americanos, foram deportados porque protestavam contra o confisco de terras palestinas para a constru\u00e7\u00e3o do muro israelense pr\u00f3ximo a Jenin, na Cisjord\u00e2nia ocupada, ou porque removiam obst\u00e1culos nas estradas pr\u00f3ximas a Nablus, colocando em evid\u00eancia a dificuldade para a movimenta\u00e7\u00e3o dos palestinos em suas pr\u00f3prias terras.<\/p>\n<p>Em 2011, cerca de duas centenas de ativistas foram detidos e deportados ao chegarem no aeroporto. Uma not\u00edcia do di\u00e1rio israelense Haaretz de julho daquele ano comenta que um grupo de 25 pessoas \u201csuspeitas de serem ativistas pr\u00f3-palestinos\u201d teriam suas entradas negadas. Al\u00e9m deles, outros 69 j\u00e1 haviam sido interrogados por aqueles dias e seus destinos eram a deporta\u00e7\u00e3o. O Minist\u00e9rio do Transporte de Israel entregara tamb\u00e9m uma lista com os nomes de outras 342 pessoas que as companhias a\u00e9reas estrangeiras n\u00e3o deveriam sequer deixar embarcar.<\/p>\n<p>A not\u00edcia no Haaretz conta que \u201cIsrael teve sucesso em impedir at\u00e9 o momento [9 de julho de 2011] a entrada de 200 passageiros que desejavam vir a Israel como parte da campanha Bem-Vindo \u00e0 Palestina, que organizou um \u2018vooa\u00e7o\u2019 ao Oriente M\u00e9dio neste final de semana para visitas de solidariedade aos territ\u00f3rios palestinos.\u201d E esta \u00e9 apenas uma parte da t\u00e1tica israelense de perseguir qualquer manifesta\u00e7\u00e3o de solidariedade aos palestinos. As campanhas acad\u00eamicas e o movimento por Boicote, Desenvolvimento e San\u00e7\u00f5es t\u00eam sido os alvos mais vis\u00edveis. Tamb\u00e9m s\u00e3o perseguidas organiza\u00e7\u00f5es israelenses de defesa dos direitos humanos e uma rede de soldados que decidiu comentar as arbitrariedades que o Ex\u00e9rcito comete na Palestina ocupada \u2013 Breaking the Silence.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 in\u00fameros casos de palestinos deportados por Israel desde o in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o militar. De 1967 a 1992, de acordo com a organiza\u00e7\u00e3o israelense B\u2019Tselem, Israel deportou 1.522 palestinos dos seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios. Em 2002, haviam sido deportadas 32 pessoas da Cisjord\u00e2nia para a Faixa de Gaza, por \u201cdecis\u00f5es administrativas\u201d, ou seja, sem que os deportados fossem acusados de algo ou tivessem suas defesas ouvidas.<\/p>\n<p><strong>Deportar a solidariedade como \u201craz\u00e3o de seguran\u00e7a\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Em sete horas de espera no aeroporto, fui interrogada repetidamente. Logo na primeira vez uma dupla dos servi\u00e7os de seguran\u00e7a se apresentou dizendo j\u00e1 estar decidido que eu seria deportada, a menos que \u2013 disse aquele que representava o papel do compreensivo \u2013 eu cooperasse.<\/p>\n<p>\u201cCooperar\u201d significava contar sobre cada canto da Palestina em que estive nas visitas anteriores e cada pessoa que conheci. Quase insistiram tamb\u00e9m que eu dissesse ter visto manifestantes palestinos atirarem pedras contra soldados nos protestos em que afirmaram saber que eu estive, porque tinham fotos tiradas pelos soldados. Pediram-me a senha do meu celular. Fui cordial e respondi o m\u00e1ximo de perguntas at\u00e9 ent\u00e3o \u2014 inclusive contando que meu prop\u00f3sito era fazer um curso de Direito Internacional com a organiza\u00e7\u00e3o Al-Haq e que sou tamb\u00e9m doutoranda, com foco na quest\u00e3o \u2014 mas recusei a dar minha senha ou contatos. Aquilo era uma oportunidade para os \u201cservi\u00e7os de seguran\u00e7a\u201d conseguirem nomes e \u201cculpados\u201d palestinos. Em 2015, Gary Spedding, um ativista brit\u00e2nico, passou por algo semelhante. As autoridades de seguran\u00e7a copiaram contatos e mensagens pessoais do seu telefone. Ele foi deportado, acusado de possivelmente vir a causar tumultos devido \u00e0s suas mensagens nas redes sociais.<\/p>\n<p>Tive mais algumas intera\u00e7\u00f5es com agentes, que se dirigiam a mim \u00e0 base de imperativos, levando-me de uma sala para outra, para o servi\u00e7o de fronteiras, onde recolheram minhas digitais e tiraram uma foto, depois para o local onde revistaram meticulosamente minha mala e o meu corpo, e ent\u00e3o para outra sala, onde esperei \u2013 s\u00f3 depois entendi, j\u00e1 que n\u00e3o me davam informa\u00e7\u00f5es \u2013 pelo transporte at\u00e9 o centro de deten\u00e7\u00e3o. Veio como uma nova ordem: \u201centre no carro.\u201d Estava sozinha com dois agentes; entrei no banco de tr\u00e1s de uma van com os vidros e o espa\u00e7o do condutor tapados com placas de metal.<\/p>\n<p>No centro de deten\u00e7\u00e3o, finalmente consegui informa\u00e7\u00f5es sobre meu voo de volta, que sairia em nove horas. L\u00e1 conheci uma jovem australiana que esperava havia quatro dias e s\u00f3 partiria no quinto. Deram-nos uma liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica e comida, 10 minutos no p\u00e1tio e uma porta trancada por fora. Esperamos. Num momento do dia, chegamos a ser nove pessoas naquele quarto feito cela, com cinco beliches. A maior parte era de mulheres da Ucr\u00e2nia, Mold\u00e1via, Ge\u00f3rgia e do Uzbequist\u00e3o que planejavam fazer turismo, mas cuja entrada foi negada.<\/p>\n<p>A australiana era outra amea\u00e7a: ousara participar de um protesto, em uma visita anterior, em Bil\u2019in, onde tamb\u00e9m estive. L\u00e1, um comit\u00ea popular luta contra a ocupa\u00e7\u00e3o israelense manifesta na vila por deten\u00e7\u00f5es, repress\u00e3o e pelo muro que engolfou uma por\u00e7\u00e3o das terras agricult\u00e1veis \u2013 n\u00e3o sem resist\u00eancia, em parte vitoriosa, pois o curso do muro teve de ser desviado. O pr\u00f3prio coordenador do comit\u00ea, Abdallah Abu Rahma, que j\u00e1 esteve preso antes, espera o julgamento por novas acusa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Do centro de deten\u00e7\u00e3o, fui levada de carro diretamente at\u00e9 a porta do avi\u00e3o. Um agente me acompanhou para dentro da aeronave e entregou ao comiss\u00e1rio de bordo meus documentos \u2013 que estiveram com eles todo esse tempo. Brasileiros n\u00e3o precisam de visto para entrar em Israel, nem israelenses precisam de visto para entrar no Brasil. Entretanto, uma conta das deporta\u00e7\u00f5es dificilmente seria equilibrada entre os dois pa\u00edses. Muito menos por quest\u00f5es pol\u00edticas. Em 2015, mais dois brasileiros de ascend\u00eancia palestina foram barrados quando integravam um grupo de movimentos sociais em visita de solidariedade, vindos do F\u00f3rum Social Mundial na Tun\u00edsia. Tamb\u00e9m est\u00e3o banidos.<\/p>\n<p>Voltar \u00e9 uma impossibilidade pelos pr\u00f3ximos 10 anos \u2014 ou at\u00e9 que os palestinos possam finalmente exercer soberania sobre suas fronteiras, ou ainda que a Embaixada de Israel conceda uma \u201cpermiss\u00e3o especial\u201d. Se a experi\u00eancia resulta em um apelo, \u00e9 pelo fim da ocupa\u00e7\u00e3o israelense. Afinal, este \u00e9 o alvo: a solidariedade ao povo palestino, que resiste, e a luta pela liberta\u00e7\u00e3o da Palestina.<\/p>\n<p><em>*Moara Crivelente \u00e9 doutoranda em Pol\u00edtica Internacional e Resolu\u00e7\u00e3o de Conflitos, jornalista e membro do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).<\/em><\/p>\n<p>Artigo publicado originalmente no site <a href=\"http:\/\/www.resistencia.cc\/solidariedade-a-palestina-para-israel-questao-de-seguranca-e-deportacao\/\" target=\"_blank\">Resist\u00eancia<\/a>.<\/p>\n<p>http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/opiniao\/44818\/ativista+brasileira+deportada+solidariedade+a+palestina+e+questao+de+seguranca+para+israel.shtml<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Moara Crivelente S\u00e3o Paulo &#8211; 28\/07\/2016 &#8211; 20h12 Doutoranda em Pol\u00edtica Internacional, Moara Crivelente foi deportada por Israel quando se encaminhava \u00e0 Palestina; \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11726\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-11726","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-338","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11726","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11726"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11726\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}