{"id":11764,"date":"2016-08-04T22:29:38","date_gmt":"2016-08-05T01:29:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11764"},"modified":"2023-04-13T10:29:06","modified_gmt":"2023-04-13T13:29:06","slug":"possibilidades-lenineanas-para-uma-paideia-comunista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11764","title":{"rendered":"Possibilidades lenineanas para uma Paid\u00e9ia Comunista"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/bloglavrapalavra.files.wordpress.com\/2016\/08\/mazzeo.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><strong>Por Antonio Carlos Mazzeo, in \u201cLenin: Teoria e Pr\u00e1tica Revolucion\u00e1ria\u201d<\/strong><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>A centralidade de classe como elemento de organiza\u00e7\u00e3o <!--more-->de uma nova hegemonia cultural e cosmol\u00f3gica \u00e9 a maior heran\u00e7a que o maior revolucion\u00e1rio do s\u00e9culo XX nos legou. Concordando ou n\u00e3o, essa heran\u00e7a e essas reflex\u00f5es constituem o fundamento<span id=\"more-4747\"><\/span> para as reflex\u00f5es de futuro para os que desejam sinceramente a constru\u00e7\u00e3o de um novo mundo e de uma ordem societ\u00e1ria hominizada. Como salienta Luk\u00e1cs, s\u00f3 a \u00f3tica inaugurada pela <\/em><em>ontolologia marxiana<\/em><em>, que pressup\u00f5e a conex\u00e3o entre as ideias e a materialidade do <\/em><em>ser social<\/em><em>, nos possibilita compreender os zigue-zagues de importantes pensadores que por muitas vezes chegaram aos limiares da resolu\u00e7\u00e3o de um problema mas acabaram por \u201cfugir\u201d de suas potenciais resolu\u00e7\u00f5es pelos pr\u00f3prios limites que a determina\u00e7\u00e3o ou op\u00e7\u00e3o de classe lhes impuseram.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>\u201c<em>A consci\u00eancia social reflete o ser social: tal \u00e9 a doutrina de Marx<\/em>\u201d. Lenin<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Os pressupostos<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Buscando polemizar com os que definem Lenin como um pragm\u00e1tico homem de a\u00e7\u00e3o, ou como entende Gerratana, um operador \u201ctaticista\u201d da pol\u00edtica, este texto tem por objetivo demonstrar que o desenvolvimento da pr\u00e1xis lenineana aparece integrada no <em>scopus <\/em>das grandes contribui\u00e7\u00f5es que procuraram dar <em>solu\u00e7\u00f5es de pr\u00e1xis <\/em>ou \u201crespostas civilizat\u00f3rias\u201d as quest\u00f5es candentes postas pela realidade concreta, ressaltando ainda, seu <em>rigoroso v\u00ednculo <\/em>ao conjunto categorial-anal\u00edtico da teoria social de Marx.<\/p>\n<p>Quando pensamos sob a \u00f3tica marxista, numa a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que tem como n\u00facleo a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, \u00e9 impl\u00edcita e intr\u00ednseca a no\u00e7\u00e3o de uma <em>educa\u00e7\u00e3o em permanente movimento<\/em>, porque esse conceito \u00e9 parte integrante da teoria social marxiana. Para Marx o homem \u00e9 produto de seu trabalho, isto \u00e9, a <em>pr\u00e1xis humana <\/em>constitui o elemento central que o transforma em homem, ou seja, o homem \u00e9 <em>produto de sua pr\u00e1xis<\/em>. A ideia de pr\u00e1xis, que aparece dialeticamente articulada como <em>a\u00e7\u00e3o-pensamento<\/em><strong><em>\/<\/em><\/strong><em>pensamento-a\u00e7\u00e3o<\/em>, coloca no campo da l\u00f3gica educacional a no\u00e7\u00e3o de <em>aprendizado permanente <\/em>do homem enquanto <em>ser <\/em>individual conectado umbilical e dialeticamente ao <em>ser social<\/em>. A ideia da conex\u00e3o e da <em>auto-media\u00e7\u00e3o<\/em>, que a sociedade faz consigo mesma, isto \u00e9, o <em>processo auto-mediativo <\/em>do <em>ser social<\/em>, tem como premissa a exist\u00eancia de um processo permanente do conhecimento que se objetiva em dois momentos dialeticamente articulados: 1) o que podemos chamar de <em>apreens\u00e3o racional imediata <\/em>da realidade; 2) e aquele que brota dessa <em>imediaticidade<\/em>, que \u00e9 a <em>apreens\u00e3o racional-mediativa <\/em>do mundo. Essa conex\u00e3o entre o mundo <em>mediativo <\/em>e o mundo <em>imediato<\/em>, \u00e9 fundamental para a compreens\u00e3o do processo permanente do aprendizado.<\/p>\n<p>O mundo <em>imediato <\/em>pode ser definido como a cotidianidade, a <em>imediaticidade<\/em>, o mundo pragm\u00e1tico-operativo do <em>ser social<\/em>. E o mundo da <em>media\u00e7\u00e3o <\/em>\u00e9 quando o ser social sai do plano de sua <em>imediaticidade<\/em>, e passa a refletir sobre a sua pr\u00f3pria cotidianidade. Como podemos definir essa media\u00e7\u00e3o? A <em>media\u00e7\u00e3o <\/em>nada mais \u00e9 que o <em>pensamento te\u00f3rico de si<\/em>, \u00e9 a teoria ou a abstra\u00e7\u00e3o que o <em>ser social <\/em>faz de si mesmo, do seu pr\u00f3prio mundo cotidiano. Portanto, a <em>media\u00e7\u00e3o <\/em>\u00e9 a <em>conex\u00e3o entre o mundo imediato e pragm\u00e1tico em que vivemos e a reflex\u00e3o permanente que os homens realizam atrav\u00e9s de sua pr\u00e1xis<\/em>. [1] A media\u00e7\u00e3o e a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o social pragm\u00e1tica, constituem momentos de aprendizado dialeticamente articulados. Como define Engels, h\u00e1 na pr\u00e1xis humana uma <em>conex\u00e3o dial\u00e9tica <\/em>e permanente entre o <em>quantum <\/em>socialmente realizado e as <em>qualidades geradas e conquistadas <\/em>por essas realiza\u00e7\u00f5es \u2013 a rela\u00e7\u00e3o entre quantidade e qualidade \u2013, nesse sentido, o <em>processo de ac\u00famulo social gera saltos qualitativos \u2013 de car\u00e1ter ontol\u00f3gico \u2013 <\/em>e, desse modo, novas conquistas sociais (ENGELS, 1979, p. 34 et seq.). \u00c9 esta conex\u00e3o que configura o permanente processo social do conhecimento. Portanto, nada mais correto do que vincular o pensamento marxiano a no\u00e7\u00e3o de conhecimento ligado ao aprendizado, como resultado da <em>pr\u00e1xis humana<\/em>.<\/p>\n<p>Como acentua Marx, ao longo de sua hist\u00f3ria, a humanidade desenvolveu diversas formas de pr\u00e1xis e at\u00e9 o surgimento do capitalismo, a quest\u00e3o central da compreens\u00e3o da realidade objetiva eram os limites postos pela predomin\u00e2ncia do idealismo e da metaf\u00edsica nas formas de constru\u00e7\u00f5es <em>mediativas <\/em>que s\u00f3 come\u00e7am a ser resolvidas e diga-se, <em>apenas em parte<\/em>, com o advento da sociabilidade burguesa. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel, como ressalta Luk\u00e1cs, que as <em>formas-pr\u00e1xis <\/em>(hist\u00f3ricas) do <em>ser social <\/em>procuraram responder aos problemas advindos dos pr\u00f3prios processos de objetiva\u00e7\u00e3o de si, quer dizer, o processo de trabalho social produziu modos cognoscitivos que possibilitaram, principalmente no plano pr\u00e1tico, o conhecimento, ainda que depois esse pr\u00f3prio conhecimento tenha propiciado um distanciamento de si (LUK\u00c1CS, 1966; 1990, p. 14). Objetivamente, os grandes saltos qualitativos que a humanidade deu no plano da reflex\u00e3o sobre seu pr\u00f3prio mundo cotidiano \u2013 sua <em>imediaticidade \u2013<\/em>, tiveram de certo modo uma preocupa\u00e7\u00e3o, <em>in limine<\/em>, de cunho pedag\u00f3gico, se entendermos a educa\u00e7\u00e3o como pr\u00e1tica de auto-conhecimento social e de supera\u00e7\u00e3o \u2013 aqui, no sentido da <em>Aufhebung<\/em>.<\/p>\n<p>Como ponto de partida tomemos, por exemplo, os gregos antigos. O desenvolvimento da polis, na Gr\u00e9cia antiga, possibilitou por diversos elementos hist\u00f3rico-objetivos, o nascimento de uma ontologia, sendo que os fil\u00f3sofos pr\u00e9-socr\u00e1ticos descobriram rapidamente, suas categorias mais importantes (LUK\u00c1CS, 1981a, v. I, p. 10). Mas a filosofia j\u00f4nica mantinha-se conectada as an\u00e1lises do mundo f\u00edsico incluindo-se ai a sociedade humana, compreendida como pertencente ao mundo da mat\u00e9ria f\u00edsica. Somente a crise da polis, em sua <em>particularidade ateniense<\/em>, por\u00e1 o humano no centro da filosofia e correlatamente a quest\u00e3o da \u201cpr\u00e1xis correta\u201d (MAZZEO, 2009, p. 104 et seq.). Se S\u00f3crates procura dar respostas a crise de dissolu\u00e7\u00e3o de uma <em>polis coletiva \u2013 baseada no campesinato <\/em>\u2013, confrontando-se com os sofistas, e nucleando suas cr\u00edticas a pr\u00f3pria emerg\u00eancia da nova sociabilidade arrimada na escravid\u00e3o, contrapondo a necessidade do <em>homem coletivo <\/em>ao surgente <em>homem privado<\/em>, Plat\u00e3o ser\u00e1, como ressaltou Luk\u00e1cs, o primeiro fil\u00f3sofo a tentar responder o <em>\u201cque fazer?<\/em>\u201d diante de uma polis (<em>coletiva<\/em>) em crise de dissolu\u00e7\u00e3o. [2] O corte socr\u00e1tico- plat\u00f4nico apresentou a proposta da constru\u00e7\u00e3o de um conceito de Paid\u00e9ia, uma <em>cosmologia <\/em>(<em>Weltanschauung)<\/em>, contendo <em>em si <\/em>um intr\u00ednseco n\u00facleo pedag\u00f3gico de transforma\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o pode ser restrito somente a religi\u00e3o, ainda que seja parte integrante dela. [3] Quanto voltamos ao S\u00f3crates traduzido e interpretado por Plat\u00e3o, podemos perceber que o n\u00facleo do embate Socr\u00e1tico com os sofistas \u2013 embate esse que inda em sua pris\u00e3o e, depois, sua condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte \u2013, \u00e9 composto por dois elementos chaves: primeiro, a ideia de que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel compreender o conjunto da cultura, a Paid\u00e9ia, como resultado de uma produ\u00e7\u00e3o social, quer dizer, <em>coletiva <\/em>Segundo, o combate a mercantiliza\u00e7\u00e3o do conhecimento e a imoralidade (e impossibilidade) de transformar o conhecimento socialmente produzido em mercadoria. Na concep\u00e7\u00e3o socr\u00e1tico-plat\u00f4nica o <em>conhecimento era concebido como pr\u00e1xis produto da constru\u00e7\u00e3o coletiva da Polis<\/em>. Mas al\u00e9m do problema da mercantiliza\u00e7\u00e3o do conhecimento, havia a quest\u00e3o da <em>aret\u00ea <\/em><em>\u2013 da virtude<\/em>. Para S\u00f3crates e Plat\u00e3o a <em>virtude<\/em>, produto do conhecimento constru\u00eddo na <em>pr\u00e1xis polit\u00e9ia<\/em>, n\u00e3o poderia ser objeto de compra ou venda. Da\u00ed a \u00eanfase plat\u00f4nica ao ressaltar as palavras de S\u00f3crates para quem o sofista vende seu conhecimento como mercadoria e a contraposi\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo \u00e1tico que oferecia seus conhecimentos a todos sem distin\u00e7\u00e3o, como um cidad\u00e3o de vida e de deveres p\u00fablicos. [4]<\/p>\n<p>Mais tarde Plat\u00e3o, muito amargurado e envergonhado com o desfecho do julgamento e a condena\u00e7\u00e3o a morte de S\u00f3crates, ir\u00e1 explicitar seu convencimento sobre a necessidade de dar forma pr\u00e1tica as ideias, e a cr\u00edtica ao \u201cestado das coisas\u201d, no desabafo feito na <em>Carta VII<\/em>, aos amigos de Dione: \u201c[\u2026] <em>pela grand\u00edssima vergonha que sentia de mim mesmo, pensando em mim mesmo como nada mais que um discurso, \u00fanica e simplesmente, e nunca um homem disposto a empenhar-se em alguma a\u00e7\u00e3o <\/em>[\u2026]\u201d [5] Esse \u00e9 o motivo fundamental para a funda\u00e7\u00e3o de sua Academia, por volta de 387 a.C. Pioneiramente Plat\u00e3o inaugura no pensamento ocidental a <em>possibilidade da conex\u00e3o entre constru\u00e7\u00e3o do conhecimento e a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade<\/em>, a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento e o combate a qualquer tipo de corrup\u00e7\u00e3o que o mercado coloca na sociedade. Obviamente, falamos de uma sociedade arrimada na escravid\u00e3o e de um mercado n\u00e3o capitalista que circulava apenas o excedente da produ\u00e7\u00e3o. Mas essa sociabilidade foi respons\u00e1vel pelo surgimento e sedimenta\u00e7\u00e3o da democracia Antiga e exatamente a contraposi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica a essa forma societal faz com que S\u00f3crates e Plat\u00e3o se coloquem criticamente diante da democracia escravista que pressupunha, tamb\u00e9m, a desigualdade e a preval\u00eancia dos ricos e poderosos sobre os cidad\u00e3os comuns e sem recursos. Obviamente a ideia de pr\u00e1xis n\u00e3o era uma novidade para o pensamento grego, ela surge implicitamente junto com a no\u00e7\u00e3o de <em>energ\u00e9ia<\/em>, que dava os conte\u00fados fundamentais da moral, ligada visceralmente a outra no\u00e7\u00e3o, a <em>techn\u00e9<\/em>, atividade social plena de conte\u00fados morais, conceitos que ganham expressividade a partir do surgimento da Trag\u00e9dia e que conformam a <em>conex\u00e3o entre energia, pr\u00e1xis e conhecimento<\/em>.<\/p>\n<p>De formas distintas e ganhando, ao longo da hist\u00f3ria, maior amplitude, essas no\u00e7\u00f5es estar\u00e3o presentes em todos os pensadores que se colocaram a necessidade de fundas transforma\u00e7\u00f5es societais, e a necessidade de justi\u00e7a social, constituindo uma linha pr\u00e1tico-especulativa que estar\u00e1 radicada no conjunto do pensamento ocidental. J\u00e1 os primeiros te\u00f3ricos do cristianismo, principalmente Clemente de Alexandria e seu disc\u00edpulo Or\u00edgenes, assumir\u00e3o a ideia de uma pr\u00e1xis universal e de transforma\u00e7\u00e3o. [6] O cristianismo, ilho direto do helenismo, ganha universalidade com sua inser\u00e7\u00e3o no debate cultural e filos\u00f3fico gregos, o que possibilita que ele se coloque como alternativa de constru\u00e7\u00e3o de uma nova Paid\u00e9ia \u2013 no contexto da crise do imp\u00e9rio romano e de dissolu\u00e7\u00e3o do escravismo \u2013 , onde o conhecimento, ainda que mistificado e pleno de <em>hierofanias <\/em>(manifesta\u00e7\u00f5es do sagrado), aponta para a necessidade de constru\u00e7\u00e3o de n\u00facleo de pr\u00e1xis agora, materializado na Igreja, que vem para substituir a polis universal dos gregos cl\u00e1ssicos. Nesse sentido, emerge nessa vis\u00e3o de pr\u00e1xis uma <em>outra ideia de igualitarismo<\/em>, n\u00e3o mais aquela dos cidad\u00e3os da polis, mas agora a dos \u201ccidad\u00e3os dos c\u00e9us,\u201d [7] mais rebaixada e mitificada sem d\u00favida e que no entanto prega a no\u00e7\u00e3o de <em>igualdade entre os homens <\/em>\u2013 mesmo que abstratamente \u2013 num mundo de formas sociais e de rela\u00e7\u00f5es de trabalho hierarquicamente r\u00edgidas. [8]<\/p>\n<p>O projeto de uma Paid\u00e9ia crista \u00e9 de tal import\u00e2ncia, que ir\u00e1 basilar todas as quest\u00f5es sobre o problema da igualdade entre os homens, incidindo diretamente nos debates sobre a conex\u00e3o entre os limites do conhecimento humano frente a deus e ao esp\u00edrito, influenciando a pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o da disputa entre a <em>ratio <\/em>e a <em>irratio <\/em>no contexto da constru\u00e7\u00e3o do racionalismo burgu\u00eas. [9] De qualquer modo, as constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e as <em>propostas de pr\u00e1xis <\/em>expressam o papel que a filosofia \u00e9 chamada a cumprir, no sentido de dar respostas as necessidades hist\u00f3ricas do <em>ser social<\/em>. Mas essas respostas, que aparecem nas articula\u00e7\u00f5es complexas da sociedade, n\u00e3o se expressam em sentido linear. N\u00e3o devemos esquecer que as <em>formas mediativas <\/em>se objetivam em sociedades divididas em classes sociais e por isso mesmo, representam vis\u00f5es de classe, no caso e em sua esmagadora maioria, das dominantes. Como salienta Luk\u00e1cs, s\u00f3 a \u00f3tica inaugurada pela <em>ontolologia marxiana<\/em>, que pressup\u00f5e a conex\u00e3o entre as ideias e a materialidade do <em>ser social<\/em>, nos possibilita compreender os zigue-zagues de importantes pensadores que por muitas vezes chegaram aos limiares da resolu\u00e7\u00e3o de um problema mas acabaram por \u201cfugir\u201d de suas potenciais resolu\u00e7\u00f5es pelos pr\u00f3prios limites que a determina\u00e7\u00e3o ou op\u00e7\u00e3o de classe lhes impuseram (LUK\u00c1CS, 1972, p. 80 et seq.). Esses pensadores que estiveram sempre nos umbrais hist\u00f3ricos do embate entre a <em>ratio <\/em>e a <em>irratio<\/em>, como, dentre outros, os revolucion\u00e1rios Giordano Bruno, Galileu, Maquiavel, Descartes, Kant e principalmente Hegel, primaram por lutar pela conquista do real, e \u00f3bvio, dentro dos limites <em>concretos <\/em>de seus tempos hist\u00f3ricos. No entanto, mais do que nunca esses pensadores estiveram nas trincheiras da constru\u00e7\u00e3o de uma <em>nova pr\u00e1xis<\/em>, aquela da sociabilidade que poria abaixo grande parte dos entraves para o conhecimento e para a liberdade humana.<\/p>\n<p>No plano da ci\u00eancia moderna, principalmente a que se desenvolve ap\u00f3s o s\u00e9culo XVI, a busca de <em>solu\u00e7\u00f5es de pr\u00e1xis <\/em>impuseram vit\u00f3rias da racionalidade sobre o obscurantismo a ponto do conhecido cardeal Bellarmino \u2013 o inquisidor santificado que condenou a fogueira Giordano Bruno e que foi tamb\u00e9m um dos inquisidores de Galileu Galilei \u2013 cinicamente, como bem descreveu Brecht, ser obrigado a dizer que se j\u00e1 n\u00e3o podia evitar que os marinheiros utilizassem os novos mapas astron\u00f4micos, pelo menos manteria a vigil\u00e2ncia sobre os que falsificavam as Escrituras (BRECHT, 1970, cena VII). O fato \u00e9 que na objetiva\u00e7\u00e3o de uma nova pr\u00e1xis, a corrente que ir\u00e1 construir o racionalismo burgu\u00eas estar\u00e1 permanentemente contrapondo a possibilidade de apreens\u00e3o ontol\u00f3gica dos avan\u00e7os do conhecimento \u2013 como produto de conquistas dos homens, fundadas sobre a ci\u00eancia \u2013, a vis\u00e3o meramente gnosiol\u00f3gica que fraciona a pr\u00e1xis e submete o primado ontol\u00f3gico ao mundo dos esp\u00edritos e da religiosidade. Hegel ser\u00e1 o maior representante da racionalidade revolucion\u00e1ria burguesa mas, apresentando como frisou Engels, um pensamento dividido entre o materialismo e o idealismo m\u00edstico (ENGELS, 1977, v. I, p. 75 et seq.), fundado na oposi\u00e7\u00e3o entre sistema e m\u00e9todo que encerra em si uma contradi\u00e7\u00e3o interna, super\u00e1vel no entanto, pela <em>dialeticidade <\/em>presente em seu m\u00e9todo. Do ponto de vista do sistema, como enfatiza Luk\u00e1cs, aparece uma harmoniza\u00e7\u00e3o ideal-l\u00f3gica entre sociedade e Estado, de modo que na esfera moral, o <em>dever-ser <\/em>abstrato perde qualquer senso de autenticidade, porque no plano da idealidade aparece conciliada com A Ideia \u2013 o <em>Esp\u00edrito<\/em>. Mas no plano <em>metodol\u00f3gico<\/em>, desdobrando a an\u00e1lise dial\u00e9tica interna dos elementos componentes desta harmonia inextric\u00e1vel, Hegel consegue dar um passo adiante, porque introduz na filosofia as <em>conex\u00f5es entre o particular e o universal <\/em>(HEGEL, 1975, \u00a7181). Se o universal apresenta-se como <em>Esp\u00edrito<\/em>, a categoria da <em>particularidade<\/em>, por outro lado, potencialmente se revela como uma <em>materialidade <\/em>componente do universal. O fato de que Hegel tenha incorporado em suas an\u00e1lises filos\u00f3ficas os resultados das pesquisas dos economistas cl\u00e1ssicos ingleses, como parte da objetividade e das rela\u00e7\u00f5es entre a abstra\u00e7\u00e3o e a materialidade, possibilita sua percep\u00e7\u00e3o objetiva sobre as contradi\u00e7\u00f5es dial\u00e9ticas existentes na rela\u00e7\u00e3o do Estado com a sociedade civil, e nas rela\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias da sociedade civil consigo mesma, definidas como o \u201ccampo de batalha\u201d dos interesses entre indiv\u00edduos privados e das corpora\u00e7\u00f5es profissionais, no limite hobbesiano de todos contra todos. [10] O jovem Marx percebe agudamente esse aspecto qualitativo de Hegel e enfatiza exatamente esse elemento, ao ressaltar que Hegel havia pressuposto a separa\u00e7\u00e3o da sociedade civil do Estado pol\u00edtico e, ao mesmo tempo, op\u00f4s o interesse em si e para si do Estado ao interesse particular e as necessidades da sociedade civil (MARX, 1987, v. I, p. 354 et seq.). Mas a vis\u00e3o hegeliana subsumida a no\u00e7\u00e3o do movimento realizado pela objetiva\u00e7\u00e3o da ideia, o desenvolvimento do Esp\u00edrito, pressup\u00f5e um processo de autoconhecimento do Esp\u00edrito\/Consci\u00eancia universal. Nesse sentido a <em>solu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1xis <\/em>proposta por Hegel ainda est\u00e1 vinculada a no\u00e7\u00e3o te\u00edsta de que a raz\u00e3o humana evolui como parte da pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o da Raz\u00e3o Universal. Da\u00ed a no\u00e7\u00e3o do Estado como a manifesta\u00e7\u00e3o encarnada do Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>De todo modo, h\u00e1 em Hegel o que Engels ir\u00e1 denominar de \u201cmaterialismo de cabe\u00e7a para baixo\u201d que come\u00e7a a ser dissolvido com Feuerbach, como diretiva de <em>solu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1xis <\/em>que se pleiteia materialista, no entanto, ainda permeada por uma no\u00e7\u00e3o sensorial da atividade humana e que apesar de conter avan\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o ao idealismo hegeliano, \u00e9 considerado por Engels e Lenin como contemplativa e imensamente inferior ao conjunto da constru\u00e7\u00e3o do corpo te\u00f3rico hegeliano. [11]<\/p>\n<p>Efetivamente a <em>Aufhebung <\/em>decisiva, em rela\u00e7\u00e3o ao idealismo ser\u00e1 constru\u00edda pela <em>solu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1xis contida na teoria social desenvolvida por <\/em>Marx e Engels, ainda que esse \u00faltimo tenha modesta e <em>exageradamente <\/em>se colocado no papel de coadjuvante<em>. <\/em>[12] Nessa ruptura com a concep\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica e contemplativa, o <em>n\u00facleo da pr\u00e1xis situa-se no pr\u00f3prio homem<\/em>, como o <em>realizador de si e de sua hist\u00f3ria<\/em>. A teoria social marxiana estrutura-se na <em>ontologia do trabalho <\/em>como <em>forma-pr\u00e1xis <\/em>fundamental da exist\u00eancia, dissipando qualquer solu\u00e7\u00e3o mistificada. Essa interpreta\u00e7\u00e3o, que releva a <em>materialidade inerente e constitutiva do ser social, <\/em>conforma-se como uma <em>compreens\u00e3o radicalmente nova<\/em>, em rela\u00e7\u00e3o a tradi\u00e7\u00e3o intelectual e de pr\u00e1xis do Ocidente. Na concep\u00e7\u00e3o marxiana todas as formas de objetiva\u00e7\u00e3o do <em>ser social <\/em>\u2013 materializadas pelos <em>modos-de-produ\u00e7\u00e3o <\/em>que deram a morfologia hist\u00f3rico-material das sociabilidades \u2013 implicaram, tamb\u00e9m em constru\u00e7\u00f5es <em>mediativas <\/em>do mundo e consequentemente, em teleologias, n\u00e3o somente enquanto reflexos da realidade, mas tamb\u00e9m como respostas as necessidades intr\u00ednsecas dos processos hist\u00f3ricos de objetiva\u00e7\u00e3o do <em>ser social<\/em>. [13] O elemento basilar da dial\u00e9tica materialista marxiana, presente na forma <em>dial\u00e9tica onto-gnoso metodol\u00f3gica de apreens\u00e3o das categorias hist\u00f3ricas, <\/em>possibilitou ver nas formas societais os aspectos constitutivos das contradi\u00e7\u00f5es e das lutas entre classes \u2013 com seus diversos matizes e em suas express\u00f5es temporais \u2013 superando o mero impressionismo emp\u00edrico resultante de suas determina\u00e7\u00f5es fenom\u00eanicas. Essa nova conceptualidade permite tamb\u00e9m considerar a <em>apreens\u00e3o da totalidade do ser social<\/em>. N\u00e3o como arbitrariedade ou produ\u00e7\u00e3o formal de car\u00e1ter subjetivista, e sim como resultado das m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es e da articula\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o dos diversos complexos constitutivos das <em>formas de ser <\/em>e dos movimentos do real em sua <em>concretude<\/em>. [14] Relevamos aqui a advert\u00eancia de Luk\u00e1cs de que nesse momento, em que a filosofia idealista \u00e9 definitivamente superada, ao mesmo tempo, a filosofia em sua modalidade <em>dial\u00e9tico-materialista <\/em>continua sendo<\/p>\n<p>[\u2026] o princ\u00edpio diretivo dessa nova cientificidade. Por isso, n\u00e3o \u00e9 casual, n\u00e3o \u00e9 uma peculiaridade surgida das contingencias hist\u00f3ricas da ci\u00eancia, o fato de que o Marx maduro tenha intitulado suas obras econ\u00f4micas n\u00e3o como <em>Economia<\/em>, mas como \u2018<em>Cr\u00edtica da economia pol\u00edtica\u2019<\/em>. (LUK\u00c1CS, 1981a, p. 276, grifos do autor).<\/p>\n<p>Mas se h\u00e1 um elemento de ruptura radical na concep\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica <em>onto-gnoso metodol\u00f3gica <\/em>da teoria social marxiana com a tradi\u00e7\u00e3o ocidental \u2013 no plano das formas de apreens\u00e3o do real \u2013 , em que a ci\u00eancia deixa para tr\u00e1s o dogma absoluto, agora historicizado e considerado \u201cabsoluto e relativo\u201d ao mesmo tempo, no escopo de sua historicidade concreta, essa <em>descontinuidade <\/em>apresenta-se tamb\u00e9m como <em>continuidade aggiornata <\/em>e recolocada das buscas de <em>solu\u00e7\u00f5es das pr\u00e1xis <\/em>que relevaram conhecimento\/educa\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o social. O significado da ruptura \u00e9 de grande vulto e resulta, como procuramos demonstrar, de uma <em>longa e dialeticamente descontinua e continua processualidade<\/em>. [15] Rompia-se ali com a uma milenar discuss\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do pensamento com o <em>ser social<\/em>, onde a materialidade subsumia-se as determina\u00e7\u00f5es de esp\u00edritos divinos e a raz\u00e3o como parte constitutiva de uma raz\u00e3o universal, existente em um esp\u00edrito supremo. A tarefa de Marx e de Engels foi a de por abaixo os entraves para o conhecimento da materialidade das rela\u00e7\u00f5es sociais, na <em>ruptura e continuidade <\/em>de Hegel e de Feuerbach.<\/p>\n<p>O elemento central marxiano, de aplica\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica, foi tamb\u00e9m a <em>descontinuidade-cont\u00ednua <\/em>de ruptura com a conceptualidade dos m\u00e9todos fechados e com seus consequentes desdobramentos que direcionavam a vis\u00e3o de \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d. At\u00e9 Hegel as tentativas de <em>solu\u00e7\u00f5es de pr\u00e1xis <\/em>apareciam como conex\u00e3o a um suposto \u201cnexo racional\u201d ligado a uma hist\u00f3ria <em>em-si <\/em>teol\u00f3gica e teleol\u00f3gica, vinculado a concep\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica de <em>Esp\u00edrito Racional extra-humano <\/em>a ser desvendado para ent\u00e3o, chegar-se a \u201cverdade absoluta\u201d, sendo que a partir do Renascimento, pressupunha-se tamb\u00e9m, o Contrato Social e o Estado, como express\u00f5es de Raz\u00e3o transcendente, fundados no escatol\u00f3gico Direito Natural. A cr\u00edtica demolidora da teoria social de Marx p\u00f5e como <em>solu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1xis <\/em>a no\u00e7\u00e3o de <em>hist\u00f3ria sem fim<\/em>, de movimento em <em>permanente processo de objetiva\u00e7\u00e3o, de constru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o do ser social<\/em>. Mas se j\u00e1 n\u00e3o existe a realiza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria atrav\u00e9s da raz\u00e3o escatol\u00f3gica de um Esp\u00edrito o sujeito do processo hist\u00f3rico passa ser o pr\u00f3prio homem, libertado do misticismo. Est\u00e1 impl\u00edcito e expl\u00edcito nesse recompor da conceptualidade das din\u00e2micas do <em>ser social <\/em>o <em>novo car\u00e1ter da pr\u00e1xis, <\/em>que pressup\u00f5e ainda, <em>sujeitos sociais <\/em>realizando materialmente suas processualidades hist\u00f3rico-sociais. N\u00e3o como \u201crealiza\u00e7\u00e3o da vontade\u201d ou de circunst\u00e2ncias de sua escolha, como acentua Marx, mas por determina\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es engendradas pela pr\u00f3pria sociabilidade, legadas e transmitidas pelo passado (MARX, 1978, p. 329). Se o capitalismo se constituiu como a organiza\u00e7\u00e3o societal mais desenvolvida de toda a hist\u00f3ria da humanidade, sua objetiva\u00e7\u00e3o abriu tamb\u00e9m a possibilidade para o aprofundamento da consci\u00eancia dos homens sobre si, tanto do seu pr\u00f3prio passado como das potencialidades futuras.<\/p>\n<p>Na forma social burguesa, as rela\u00e7\u00f5es sociais ainda encontram limites para seu amplo desenvolvimento, fundamentalmente por ser o capitalismo um modo-de-produ\u00e7\u00e3o baseado na propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e na explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, materializada na extra\u00e7\u00e3o de mais-valia do trabalhador e na produ\u00e7\u00e3o de mercadoria, enquanto <em>valor de troca<\/em>. A produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, realizada sob a forma de <em>valor de troca<\/em>, retira o <em>essencial humano <\/em>do trabalho, quer dizer, a mercadoria circula em um meio social descolado das reais necessidades de <em>uso das mercadorias<\/em>, sendo o trabalho coletivo apenas um meio estranhado e alienado de rela\u00e7\u00f5es sociais que n\u00e3o se concretizam entre homens produtores, mas entre coisas. \u00c9 o que Marx chama de <em>fetichismo da mercadoria <\/em>(MARX, 1973, v. I, p. 36 et seq.). Na sociabilidade burguesa o trabalho apresenta-se para o trabalhador como exterioridade, como se n\u00e3o fosse parte de sua ess\u00eancia, na qual o trabalhador ao inv\u00e9s de afirmar-se com seu trabalho, nega-se, ao colocar a possibilidade de sua realiza\u00e7\u00e3o (humana) fora dele. Nesse sentido, o trabalhador encontra-se <em>estranhado de sua essencialidade <\/em>\u2013 do trabalho. Mas, nas contradi\u00e7\u00f5es engendradas pela sociabilidade burguesa, o trabalhador potencialmente possui as condi\u00e7\u00f5es de supera\u00e7\u00e3o do estranhamento e da aliena\u00e7\u00e3o, porque a atividade alienada n\u00e3o produz somente a \u201cconsci\u00eancia alienada\u201d, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia de ser alienado. Em outras palavras, criam-se \u2013 al\u00e9m das for\u00e7as que depauperam e desfiguram a consci\u00eancia, dentro de uma dial\u00e9tica contradit\u00f3ria entre o pensamento cotidiano e a perspectiva da supera\u00e7\u00e3o de sua \u201cconsci\u00eancia tautol\u00f3gica\u201d, posta pela exist\u00eancia de uma <em>rela\u00e7\u00e3o imediata <\/em>entre teoria e pr\u00e1tica \u2013 outras for\u00e7as que possibilitam o afloramento da consci\u00eancia e a perspectiva de ruptura com o pensamento <em>estranhado<\/em>, como a pr\u00f3pria ci\u00eancia, que permite, por meio do conhecimento da realidade objetiva, o distanciamento da l\u00f3gica cotidiana (MAZZEO, 1999). [16] No <em>Manifesto Comunista <\/em>de 1848, Marx e Engels apontam para a contradi\u00e7\u00e3o que se desenvolve na sociabilidade burguesa e, na medida em a burguesia aprofunda as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas, desenvolve tamb\u00e9m o proletariado, como seu <em>contr\u00e1rio-antag\u00f4nico<\/em>.<\/p>\n<p>Nas primeiras d\u00e9cadas dos Oitocentos, ainda reverberava o impulso revolucion\u00e1rio da burguesia e sua luta pela constru\u00e7\u00e3o de uma forma-pol\u00edtico-jur\u00eddica, onde seu n\u00facleo tinha por fundamento a liberdade consubstanciada no livre mercado e a igualdade nucleada no formalismo jur\u00eddico de vezo metaf\u00edsico, assentado na formalidade do Direito Universal gen\u00e9rico. Antes mesmo de escrever o <em>Manifesto <\/em>de 1848, juntamente com Engels, Marx j\u00e1 havia apontado esses limites em sua polemica com Bruno Bauer, n\u2019<em>A Quest\u00e3o Judaica<\/em>, acentuando que no plano igualit\u00e1rio a sociabilidade burguesa vivia a dicotomia entre o <em>citoyen <\/em>de vida p\u00fablica e o <em>bourgeois <\/em>ou <em>prolet\u00e1ire <\/em>de vida privada, evidenciando que essa dualidade refletia a limita\u00e7\u00e3o de uma liberdade formal reduzida a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ou se quisermos, no <em>ser-precisamente-assim <\/em>da morfologia ideo-jur\u00eddica da sociabilidade burguesa (MARX, [19\u2013?a], p. 18 et seq.). No entanto, ao final do primeiro quartel do s\u00e9culo XIX e ao longo das d\u00e9cadas de 1830 e 1840, o desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas e a agudiza\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o da sociedade em duas classes fundamentais, gera uma clivagem que possibilita por na vida pol\u00edtica das sociedades civis burguesas europeias, particularmente na Fran\u00e7a, o proletariado moderno como um sujeito que rompe com o <em>bloco hist\u00f3rico <\/em>composto pela burguesia e pelo campesinato \u2013 constitu\u00eddo no processo mesmo das revolu\u00e7\u00f5es burguesas \u2013 e, consequentemente com os limites restritos da emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, pondo no centro de uma contradi\u00e7\u00e3o claramente definida na rela\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho e nas rela\u00e7\u00f5es da propriedade, a <em>supera\u00e7\u00e3o <\/em>da emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-cidad\u00e3 no projeto da <em>emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em>. Esgota-se ai, o per\u00edodo do protagonismo revolucion\u00e1rio burgu\u00eas agora, tornado conservador de sua ordem. Ao mesmo tempo, conforma-se o <em>novo sujeito <\/em>que levar\u00e1 adiante as tradi\u00e7\u00f5es ocidentais de liberdade, mas na perspectiva de constru\u00e7\u00e3o de um projeto societ\u00e1rio baseado em rela\u00e7\u00f5es sociais de produtores associados, ou se quisermos, o comunismo. O n\u00facleo do projeto \u00e9 desenhado no <em>Manifesto <\/em>de 1848:<\/p>\n<p><em>\u201cA finalidade imediata dos comunistas \u00e9 a mesma de todos os demais partidos prolet\u00e1rios: forma\u00e7\u00e3o do proletariado em classe, derrubamento do dom\u00ednio da burguesia, conquista do poder pol\u00edtico pelo proletariado\u201d<\/em> (MARX; ENGELS, 1986, p. 96, grifos nossos).<\/p>\n<p>Mas esse enunciado pressupunha tamb\u00e9m, a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de consci\u00eancia dos trabalhadores. J\u00e1 evidenciado na <em>Ideologia Alem\u00e3<\/em>, de que as ideias dominantes em uma sociedade s\u00e3o as da classe dominante \u2013 em que subentende-se a necessidade de constru\u00e7\u00e3o de uma <em>outra concep\u00e7\u00e3o <\/em>cultural societ\u00e1ria \u2013, o <em>Manifesto Comunista <\/em>resvala ligeiramente na quest\u00e3o da necessidade de constru\u00e7\u00e3o de uma <em>nova cultura <\/em>e de uma <em>nova consci\u00eancia<\/em>, para fundamentar a a\u00e7\u00e3o da ruptura radical com a sociabilidade burguesa, [17] mas seu car\u00e1ter de panfleto impede o aprofundamento dessa quest\u00e3o crucial. Em sua an\u00e1lise sobre a <em>Comuna de Paris <\/em>de 1871, Marx refor\u00e7a a ideia presente no <em>Manifesto <\/em>de 1848, da necessidade de transformar o poder pol\u00edtico e da destrui\u00e7\u00e3o do aparelho estatal (MARX, 2011, p. 168 et seq.) e Engels, em sua <em>introdu\u00e7\u00e3o <\/em>de 1891 a <em>A Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em>, de Marx, acentua a debilidade das correntes proudhonianas e blanquistas, hegem\u00f4nicas na <em>Comuna <\/em>de 1871, no que se refere ao projeto revolucion\u00e1rio (ENGELS, 2011, p. 194 et seq.). Numa entrevista a R. Landor, para o jornal <em>T<\/em><em>he World<\/em>, em julho de 1871, respondendo ao questionamento do jornalista sobre a presen\u00e7a da AIT na <em>Comuna de Paris<\/em>, Marx afirma: \u201c[\u2026] A revolta de Paris foi feita pelos trabalhadores de Paris. Os mais capazes dentre os trabalhadores devem necessariamente ter sido seus l\u00edderes e administradores [\u2026]\u201d. [18] De qualquer modo, a <em>necessidade de organiza\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria <\/em>e eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia dos trabalhadores na perspectiva do socialismo est\u00e1 impl\u00edcita ao longo de seus textos, como podemos verificar na <em>Cr\u00edtica do Programa de Gotha<\/em>, em sua dura cr\u00edtica a proposta do Partido Oper\u00e1rio Alem\u00e3o de apoiar a amplia\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os do Estado<\/p>\n<p>Prussiano, ao dizer:<\/p>\n<p>[\u2026] <em>educa\u00e7\u00e3o popular a cargo do Estado \u00e9 absolutamente inadmiss\u00edvel [\u2026] longe disso, o que deve ser feito \u00e9 subtrair da escola toda a influ\u00eancia da parte do governo e da Igreja [\u2026] o Estado \u00e9 que necessita receber do povo uma educa\u00e7\u00e3o muito severa<\/em>. (MARX, [19\u2013?b], p. 27, grifos nossos).<\/p>\n<p>Nessas declara\u00e7\u00f5es est\u00e3o subentendidos muitos elementos de discuss\u00e3o sobre a <em>organiza\u00e7\u00e3o do proletariado a partir de uma outra cultura<\/em>. De modo que estamos de acordo com o saudoso Lucio Magri, para quem seria in\u00fatil uma busca sistem\u00e1tica sobre uma teoria marxiana \u201cpronta\u201d do partido prolet\u00e1rio. [19] Ela apresenta-se em desenvolvimento, ao longo dos textos marxianos, mais claramente ap\u00f3s a experi\u00eancia da Comuna de 1871. Efetivamente, esse debate ganha impulso nos finais do s\u00e9culo XIX e in\u00edcios do XX. N\u00e3o por acaso este, tamb\u00e9m, ser\u00e1 o car\u00e1ter do embate de Lenin com a socialdemocracia europeia.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>Fundamentos lenineanos de uma Paid\u00e9ia revolucion\u00e1ria<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Quando nos referimos a um intelectual org\u00e2nico de classe como Lenin, na express\u00e3o de Gramsci, o maior <em>f<\/em><em>il\u00f3sofo da pr\u00e1xis<\/em>, imediatamente nos remetemos a sua permanente preocupa\u00e7\u00e3o em dar <em>respostas concretas para situa\u00e7\u00f5es concretas<\/em>, fundamentalmente no que se refere ao problema da organiza\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio e da eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia dos trabalhadores, onde evidencia-se a necessidade da articula\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre a <em>experi\u00eancia e a consci\u00eancia do oper\u00e1rio<\/em>. Para Lenin, a assimila\u00e7\u00e3o da teoria possibilita ao trabalhador ir al\u00e9m da apreens\u00e3o imediata da realidade, de sua <em>consci\u00eancia econ\u00f4mica<\/em>. Ir para al\u00e9m da <em>imediaticidade <\/em>requer ainda que se transpasse a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e sua <em>inerente media\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica<\/em>. A consci\u00eancia <em>em-si <\/em>da classe necessita da absor\u00e7\u00e3o de uma nova vis\u00e3o de mundo, fundada numa \u00f3tica cient\u00edfica da sociabilidade, em que o trabalhador se aproprie do conjunto do conhecimento produzido pela humanidade. [20] O instrumento para tal \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u2013 o <em>partido de Novo-Tipo <\/em>\u2013 organizador de uma <em>forma-conhecimento <\/em>fundada sobre a <em>pr\u00e1xis <\/em>revolucion\u00e1ria, em que os trabalhadores atuem sobre a realidade como \u201cte\u00f3ricos, como propagandistas, como agitadores e como organizadores\u201d (LENIN, 1976b, p. 431-432). Em uma palavra, como <em>intelectuais de pr\u00e1xis<\/em>, org\u00e2nicos de sua classe. Quais s\u00e3o os pressupostos te\u00f3rico-pol\u00edticos do <em>partido de Novo-Tipo <\/em>proposto por Lenin?<\/p>\n<p>Antes de tudo, a delimita\u00e7\u00e3o de um <em>campo de classe do saber<\/em>, direcionado a transforma\u00e7\u00e3o social \u2013 pondo, como ressalta Luk\u00e1cs, a revolu\u00e7\u00e3o na \u201cordem do dia\u201d (LUK\u00c1CS, 1970, p. 11 et seq.) \u2013 e que ao mesmo tempo, transcenda a mera vis\u00e3o instrumental ou taticista do conhecimento e da ci\u00eancia. A concep\u00e7\u00e3o de uma revolu\u00e7\u00e3o na \u201cordem do dia\u201d (a \u201catualidade da revolu\u00e7\u00e3o\u201d) define-se justamente na capacidade do materialismo-dial\u00e9tico possibilitar o amplo conhecimento do processo <em>hist\u00f3rico-concreto <\/em>da sociabilidade capitalista, suas tend\u00eancias e contradi\u00e7\u00f5es e as possibilidades de interven\u00e7\u00e3o na realidade objetiva para modific\u00e1-la. Nesse sentido, Lenin tinha o claro discernimento hist\u00f3rico de que a teoria social inaugurada por Marx e Engels expressava os alicerces e os fundamentos de uma outra <em>Vis\u00e3o-de-Mundo<\/em>, uma nova <em>Weltanschauung n\u00e3o concili\u00e1vel <\/em>com aquela erguida pela revolu\u00e7\u00e3o burguesa e que necessariamente requeria sua supera\u00e7\u00e3o \u2013 <em>Aufhebung <\/em>\u2013 dada a insufici\u00eancia e os limites hist\u00f3ricos da racionalidade burguesa em afrontar a complexidade e as contradi\u00e7\u00f5es de sua pr\u00f3pria forma societal.<\/p>\n<p>N\u00e3o a vulgata stalinista de uma \u201cci\u00eancia prolet\u00e1ria\u201d transformada, como acentuou Lefebvre, [21] numa ideologia (enquanto falsa consci\u00eancia) \u201crestaurada\u201d e anacr\u00f4nica \u2013 considerando-se a cr\u00edtica demolidora das ideologias feita por Marx \u2013 ou ainda, na defini\u00e7\u00e3o de Luk\u00e1cs, numa tend\u00eancia de abolir todas as media\u00e7\u00f5es (LUK\u00c1CS, 2011, p. 31). A compreens\u00e3o lenineana situava-se <em>rigorosamente <\/em>no \u00e2mbito das conclus\u00f5es marxianas, expressas na \u00faltima tese sobre Feuerbach, isto \u00e9, a necessidade da <em>pr\u00e1xis <\/em>no processo do conhecimento e como cr\u00edtica objetiva ao mero conhecimento interpretativo. Para Lenin, a <em>pr\u00e1xis <\/em>estava na base, como <em>conditio sine qua non<\/em>, da supera\u00e7\u00e3o do conhecimento contemplativo e metaf\u00edsico.<\/p>\n<p>Nessa concep\u00e7\u00e3o, Lenin ressalta que o marxismo n\u00e3o deveria ser entendido como um filosofia fan\u00e1tica e sect\u00e1ria, das f\u00f3rmulas prontas e petrificadas pois, segundo sua vis\u00e3o, a teoria social de Marx resulta de <em>rupturas e continuidades <\/em>(<em>continua\u00e7\u00e3o-dial\u00e9tica<\/em>) das doutrinas dos maiores pensadores. [22] De modo que a \u201cfilosofia da pr\u00e1xis\u201d somente pode gerar respostas as <em>necessidades hist\u00f3ricas \u2013 historisch bestehenden Bed\u00fcrfnisse \u2013 <\/em>do <em>ser social <\/em>se estiver <em>visceral e dialeticamente conectada <\/em>a a\u00e7ao e ao pensamento \u2013 o fundamento da teoria revolucion\u00e1ria. Este \u00e9 o elemento central do <em>corpo te\u00f3rico <\/em>lenineano, cujo n\u00facleo est\u00e1 presente em sua <em>teoria do reflexo<\/em>, desenvolvida no livro <em>Materialismo e Empirocriticismo<\/em>, de 1908, e esparsamente em suas notas sobre Arist\u00f3teles e Hegel, nos <em>Cadernos Filos\u00f3ficos<\/em>. Para o revolucion\u00e1rio russo, as formas de <em>reflexo <\/em>(<em>forma-consci\u00eancia<\/em>) do mundo constituem sempre o resultado da realidade objetiva e devem ser apreendidas em suas conex\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es dial\u00e9ticas entre o <em>universal <\/em>e o <em>particular<\/em>, isto \u00e9, as formas abstratas e as formas concretas engendradas pelo <em>ser social<\/em>. [23] Da\u00ed o <em>reflexo \u2013 <\/em>a <em>mediaticidade <\/em>\u2013 constituir uma abstra\u00e7\u00e3o resultante das rela\u00e7\u00f5es sociais e das respostas (inclusive as estranhadas) socialmente constru\u00eddas para as quest\u00f5es advindas do processo de objetiva\u00e7\u00e3o do <em>ser social<\/em>.<\/p>\n<p>A <em>solu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1xis <\/em>lenineana apoia-se na convic\u00e7\u00e3o demonstrada por Marx sobre a necessidade do <em>conhecimento enquanto instrumento de revolu\u00e7\u00e3o social <\/em>\u2013que objetiva transcender a sociabilidade constru\u00edda pela burguesia \u2013 e que constitui um elemento nuclear da teoria social marxiana, quer dizer, a necessidade da constru\u00e7\u00e3o de categorias anal\u00edticas (e hist\u00f3ricas) para explicar e intervir no mundo real. Essa concep\u00e7\u00e3o insere-se inegavelmente no <em>scopus <\/em>do pr\u00f3prio conjunto hist\u00f3rico do pensamento ocidental. Mas se a teoria social marxiana apontava a necessidade de organiza\u00e7\u00e3o de uma <em>nova cultura <\/em>\u2013 de um <em>conjunto cultural de pr\u00e1xis <\/em>\u2013 que envolvia tamb\u00e9m o problema da consci\u00eancia de classe, para Lenin colocava-se ainda, a quest\u00e3o do \u201cque fazer?\u201d para buscar a <em>resolu\u00e7\u00e3o <\/em>te\u00f3rico-pr\u00e1tica desse problema fundamental \u2013 na vis\u00e3o de Luk\u00e1cs, <em>a tarefa hist\u00f3rica do proletariado <\/em>\u2013, ou seja que a a\u00e7\u00e3o independente dos trabalhadores significava, tamb\u00e9m, livrar-se dos limites da consci\u00eancia burguesa \u2013 ou da consci\u00eancia determinada por uma sociabilidade assentada no estranhamento e na aliena\u00e7\u00e3o. O debate realizado internamente a socialdemocracia do in\u00edcio do s\u00e9culo XX expressou essa necessidade, enfatizando exatamente que apesar de socialmente constru\u00edda e determinada, a consci\u00eancia social n\u00e3o \u00e9 id\u00eantica ao <em>ser social <\/em>(LENIN, 1976d, p. 311 et seq.). \u00c9 caracter\u00edstica da consci\u00eancia produzida ap\u00f3s a \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XIX, a fragmenta\u00e7\u00e3o da pr\u00e1xis, como resultado do aceleramento das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas que requerem cada vez mais solu\u00e7\u00f5es reinadas no \u00e2mbito pragm\u00e1tico da produ\u00e7\u00e3o o que determina, por sua vez, um <em>reflexo <\/em>estranhado da materialidade da vida, de suas categoriza\u00e7\u00f5es e da pr\u00f3pria <em>media\u00e7\u00e3o<\/em>. Lenin, ao polemizar com Avenarius e Bogdanov, ressalta que a preval\u00eancia do gnosiol\u00f3gico solipsista o <em>elemento <\/em>hist\u00f3rico-contextual (e por consequ\u00eancia, o ontol\u00f3gico) do pr\u00f3prio processo do conhecimento \u2013 como define Engels tanto no <em>Anti-D<\/em><em>\u03cb<\/em><em>hring <\/em>como em <em>Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosoia Cl\u00e1ssica Alem\u00e3 \u2013<\/em>, que \u00e9 o problema do <em>relativismo dial\u00e9tico entre as \u201cverdades<\/em>\u201d, <em>o relativo e o absoluto do conhecimento<\/em>, em que ica evidente a relev\u00e2ncia do ontol\u00f3gico no processo da apreens\u00e3o do real sob a \u00f3tica do materialismo dial\u00e9tico (LENIN, 1976d, p. 260 et seq.). Essa cr\u00edtica mordaz, tinha por objetivo evidenciar a quest\u00e3o da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O pressuposto da teoria social marxiana \u00e9 que toda constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica encontra-se ligada a materialidade da vida objetiva, resultado das contradi\u00e7\u00f5es engendradas pelo <em>ser social. <\/em>Nesse sentido, para Lenin era fundamental n\u00e3o somente definir o conceito <em>materialista-dial\u00e9tico <\/em>de <em>consci\u00eancia de classe <\/em>como tamb\u00e9m, encontrar e construir o caminho para sua objetiva\u00e7\u00e3o. Desse modo, Lenin reinsere no movimento oper\u00e1rio europeu, nos termos do materialismo dial\u00e9tico, a quest\u00e3o da conex\u00e3o entre <em>necessidade hist\u00f3rica <\/em>e <em>consci\u00eancia<\/em>. J\u00e1 em seu texto de 1894, <em>Quem S\u00e3o Os \u201cAmigos do Povo\u201d e Como Lutam Contra os Socialdemocratas<\/em>, Lenin alertava que Marx, apesar de n\u00e3o ter sido o \u201cdescobridor\u201d da ideia de <em>necessidade hist\u00f3rica<\/em>, desenvolveu esse conceito conectando o elemento da subjetividade social as legalidades inerentes e engendradas pelo <em>ser social<\/em>. (LENIN, 1976e, v. I, p. 167 et seq.). Ora, para a teoria social marxiana a consci\u00eancia n\u00e3o se caracteriza como \u201csubst\u00e2ncia\u201d exterior e aut\u00f4noma do pensamento, ao modo cartesiano do <em>C\u00f3gito ergo sun <\/em>(Penso, logo existo) mas, ao contr\u00e1rio, vincula-se imediata e dialeticamente a ele, como resultado de rela\u00e7\u00f5es materiais desenvolvidas no <em>ser social<\/em>. [24] Lenin estabelece a <em>identidade <\/em>entre consci\u00eancia e conhecimento, sendo que essa identidade ganha seus contornos morfol\u00f3gicos na forma da divis\u00e3o social do trabalho e, consequentemente de classes. Marx e Engels haviam assinalado esse <em>elemento de classe <\/em>no processo de apreens\u00e3o do real, acentuando que as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas constituem uma sociabilidade alienada, onde est\u00e3o imersos na mesma aliena\u00e7\u00e3o a classe possuidora e a classe prolet\u00e1ria; em que a primeira sente-se \u00e0 vontade nessa aliena\u00e7\u00e3o, encontrando nela uma confirma\u00e7\u00e3o, reconhecendo nessa <em>apar\u00eancia de hominidade <\/em>seu pr\u00f3prio poder e a segunda, o proletariado, sente-se aniquilado e v\u00ea na aliena\u00e7\u00e3o a impossibilidade de uma exist\u00eancia hominizada (MARX; ENGELS, 1974, p. 53). Em suma, o <em>ponto crucial <\/em>reside portanto, na <em>divis\u00e3o social do trabalho<\/em>, isto \u00e9: <em>a forma da organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o incide na fragmenta\u00e7\u00e3o da pr\u00e1xis<\/em>, no dizer de Gramsci (<em>Gli Intellettuali<\/em>), a divis\u00e3o do homem entre <em>faber <\/em>e <em>sapiens<\/em>, posta pela produ\u00e7\u00e3o capitalista, realiza tanto no plano subjetivo como no objetivo, o <em>estranhamento de si do proletariado<\/em>. Por suposto, a forma de inclus\u00e3o dos trabalhadores no processo produtivo determina, tamb\u00e9m, um \u201ctipo\u201d de inser\u00e7\u00e3o nas formas de conhecimento, quer dizer, cabe ao proletariado uma inser\u00e7\u00e3o subalterna e perif\u00e9rica no processo do conhecimento, subsumido as hierarquias sociais e principalmente da produ\u00e7\u00e3o e ao controle social cada vez maior, das subjetividades. Lenin acentuou que seria ing\u00eanuo acreditar que a consci\u00eancia de classe do proletariado \u2013 dadas as contradi\u00e7\u00f5es postas pelas rela\u00e7\u00f5es sociais da produ\u00e7\u00e3o capitalista e da realidade da explora\u00e7\u00e3o do trabalho \u2013 aflorasse pouco a pouco, por si mesma, como destacou Luk\u00e1cs, que o proletariado pudesse maturar espontaneamente, no plano ideol\u00f3gico, sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de classe (LUK\u00c1CS, 1970, p. 29). [25] O processo de forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe pressup\u00f5e ainda, a <em>autoeduca\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria<\/em>, formada nas lutas de massas, nas greves organizadas pelos sindicatos ou nas reivindica\u00e7\u00f5es por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida pelo proletariado.<\/p>\n<p>Como observa Lenin, se essa \u00e9 a premissa para a eclos\u00e3o da consci\u00eancia, h\u00e1 que se ter claro que essa \u00e9 uma <em>forma-consci\u00eancia imediata e intuitiva, de car\u00e1ter econ\u00f4mico <\/em>e, por isso mesmo, plena de grandes limita\u00e7\u00f5es. Portanto a <em>solu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1xis <\/em>n\u00e3o deve estar limitada ao <em>praticismo intuitivo e economicista<\/em>. Analisando as movimenta\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias dos finais do s\u00e9culo XIX na R\u00fassia, Lenin ressalta que algumas dessas greves espont\u00e2neas ocorreram como motins com destrui\u00e7\u00f5es de m\u00e1quinas \u2013 de consci\u00eancia espont\u00e2nea rebaixada \u2013 e que, por outro lado, houve um salto qualitativo nas movimenta\u00e7\u00f5es da d\u00e9cada de 1890. Mas a conclus\u00e3o lenineana \u00e9 que o \u201celemento\u201d espont\u00e2neo n\u00e3o representou mais que a forma embrion\u00e1ria do consciente (LENIN, 1976b, p. 381-382). [26] Este, em realidade, era o debate posto na \u201cordem do dia\u201d pelos setores da vanguarda do movimento oper\u00e1rio mas como salienta Luk\u00e1cs, naquele momento Lenin foi o \u00fanico dirigente do movimento oper\u00e1rio a conectar a quest\u00e3o da consci\u00eancia com o da organiza\u00e7\u00e3o (LUK\u00c1CS, 1970, p. 30). De qualquer modo h\u00e1, nesse momento, uma conflu\u00eancia das posi\u00e7\u00f5es de Lenin com as de Karl kautsky, no que se refere a cr\u00edtica da vis\u00e3o m\u00edstica da consci\u00eancia espont\u00e2nea, t\u00e3o em voga no movimento oper\u00e1rio \u2013 da \u00e9poca e ainda hoje. Lenin \u00e9 claro sobre essa quest\u00e3o: a consci\u00eancia resulta das rela\u00e7\u00f5es materiais da sociedade, tanto no \u00e2mbito da subjetividade, como no \u00e2mbito objetivo; ela n\u00e3o \u00e9 resultado de um \u201cesp\u00edrito\u201d que paira no \u00e9ter. Se h\u00e1 uma consci\u00eancia espont\u00e2nea gerada na experi\u00eancia de luta dos trabalhadores, a plenitude e o aprofundamento dessa consci\u00eancia, que possibilite a <em>transcend\u00eancia <\/em>(<em>Aufhebung<\/em>) do mero imediato e do economicismo, deve ser buscada no conjunto do conhecimento gerado pela humanidade, quer dizer, <em>a consci\u00eancia prolet\u00e1ria deve estar conectada com o que de melhor se produziu no plano do conhecimento humano, <\/em>o que significa dizer, na dire\u00e7\u00e3o das formula\u00e7\u00f5es de Marx e de Engels, que a <em>consci\u00eancia do proletariado vem de fora<\/em>. Fica evidente, que o \u201cde fora\u201d diz respeito a um conhecimento produzido externamente a <em>imediaticidade; \u201cde fora\u201d do econ\u00f4mico-imediato: <\/em>na defini\u00e7\u00e3o de Kautsky integralmente absorvida por Lenin:<\/p>\n<p>A consci\u00eancia socialista moderna pode surgir unicamente sobre a base de um profundo conhecimento cient\u00edfico [\u2026] Mas n\u00e3o \u00e9 o proletariado o portador da ci\u00eancia, mas a intelectualidade burguesa [\u2026] \u00e9 o c\u00e9rebro de alguns membros isolados desta camada de onde surgiu o socialismo moderno e foram eles que o transmitiram aos prolet\u00e1rios destacados pelo seu desenvolvimento intelectual, os quais o introduziram de pronto na luta de classes do proletariado, nos locais onde as condi\u00e7\u00f5es permitiram. De modo que a consci\u00eancia socialista \u00e9 algo introduzido de fora (<em>von aussen Hineingetragenes [de fora para dentro] <\/em>) na luta de classes do proletariado e nao algo que tenha surgido espontaneamente (<em>urw\u03cbchsig<\/em>) [\u2026] (KAUTSKY apud LENIN, 1976b, p. 390-391).<\/p>\n<p>Ainda baseando-se em Kautsky, Lenin conclui: \u201c[\u2026] <em>isto n\u00e3o significa, naturalmente, que os trabalhadores n\u00e3o participem desta elabora\u00e7\u00e3o. Mas participam n\u00e3o na qualidade de oper\u00e1rios, mas sim de te\u00f3ricos do socialismo <\/em>[\u2026]\u201d (KAUTSKY apud LENIN, 1976b, p. 391, grifos nossos). O que deve ser ressaltado dessa formula\u00e7\u00e3o lenineana \u00e9 que somente atrav\u00e9s da <em>conex\u00e3o da pr\u00e1tica com a teoria <\/em>pode-se superar a metaf\u00edsica de uma pr\u00e1tica redentora, ou como bem definiu Luk\u00e1cs, o utopismo messi\u00e2nico (LUK\u00c1CS, 1969, p. xxvii). [27] Na contraposi\u00e7\u00e3o ao \u201cpraticismo\u201d Lenin apresenta o problema da <em>media\u00e7\u00e3o <\/em>para organizar o que literalmente chama \u201cnecessidades de conhecimentos pol\u00edticos e de educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora\u201d. Por isso, continua, a pergunta \u201co que fazer?\u201d para levar aos trabalhadores conhecimentos pol\u00edticos? (LENIN, 1976b, p. 428-429). [28] N\u00e3o basta o trabalho pr\u00e1tico, insistir\u00e1; n\u00e3o basta colocar uma etiqueta com o nome de \u201cvanguarda\u201d. Este ser\u00e1 o n\u00facleo base de sua teoria do partido revolucion\u00e1rio e, nesse plano, a ideia do partido de <em>Novo-Tipo <\/em>aparece, ressalta Luk\u00e1cs, como o <em>instrumento de media\u00e7\u00e3o <\/em>entre a pr\u00e1tica e a teoria (LUK\u00c1CS, 1969, p. 312).<\/p>\n<p>\u00c9 certo que a primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX caracteriza-se como um per\u00edodo aberto para as revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias e muitas das propostas lenineanas estavam direcionadas as quest\u00f5es das <em>particularidades hist\u00f3ricas <\/em>da R\u00fassia, dentre elas, a organiza\u00e7\u00e3o da luta democr\u00e1tica como luta revolucion\u00e1ria e socialista. Mas a formula\u00e7\u00e3o da teoria do partido de <em>Novo-Tipo <\/em>procurava atender, tamb\u00e9m, as necessidades do conjunto do movimento oper\u00e1rio e da ent\u00e3o esquerda da socialdemocracia. Era uma preocupa\u00e7\u00e3o obsessiva da subjetividade pol\u00edtica de Lenin, expl\u00edcito em seu quase \u201cdesabafo pol\u00edtico\u201d, quando cobra de todos, inclusive de si mesmo a autoindulg\u00eancia diante das dificuldades de organiza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia espont\u00e2nea e da necessidade de um plano audaz para superar os entraves organizativos: \u201cQue nenhum militante dedicado ao trabalho pr\u00e1tico se ofenda por este duro ep\u00edteto, pois no que concerne a falta de preparo, o aplico a mim mesmo[\u2026]\u201d (LENIN, 1976b, p. 473). Lenin vai mais adiante, escancarando sua amargura revolucion\u00e1ria diante da aus\u00eancia de uma organiza\u00e7\u00e3o eficaz:<\/p>\n<p>[\u2026] sofr\u00edamos o indiz\u00edvel ao ver que n\u00e3o \u00e9ramos mais do que artes\u00e3os [\u2026] E quanto mais frequentemente recordava o agudo sentimento de vergonha que experimentava na \u00e9poca, tanto mais se acrescentou em mim a amargura sentida contra esses pseudos socialdemocratas, cuja propaganda desonra o nome de revolucion\u00e1rio [\u2026] (LENIN, 1976b, p. 473).<\/p>\n<p>Mas se podemos dizer que h\u00e1 uma \u201cidentidade subjetiva\u201d com os constrangimentos amargos de Plat\u00e3o, diante de sua impot\u00eancia pela condena\u00e7\u00e3o e morte de S\u00f3crates (veja-se a nota 10) esta, findava na apar\u00eancia. Plat\u00e3o lamentava sua in\u00e9rcia; Lenin, ao contr\u00e1rio, os empecilhos para aprofundar e reinar a a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, dos militantes, principalmente os de extra\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Esse novo tipo de organiza\u00e7\u00e3o requeria tamb\u00e9m um revolucion\u00e1rio <em>full time <\/em>e com alto grau de prepara\u00e7\u00e3o intelectual e ideol\u00f3gica:<\/p>\n<p>[\u2026] nossas obriga\u00e7\u00f5es imperiosas e primordiais s\u00e3o as de contribuir com a forma\u00e7\u00e3o de trabalhadores revolucion\u00e1rios que, do ponto de vista de sua atividade no partido, estejam no mesmo n\u00edvel que os revolucion\u00e1rios intelectuais [\u2026] por isso, nossa aten\u00e7\u00e3o deve estar direcionada, principalmente, a elevar os trabalhadores ao n\u00edvel dos revolucion\u00e1rios e que n\u00e3o nos rebaixemos indefectivelmente no n\u00edvel da \u2018massa trabalhadora\u2019. (LENIN, 1976b, p. 477).<\/p>\n<p>Obviamente Lenin refere-se a \u201cmassa espont\u00e2nea\u201d dos trabalhadores e a necessidade de transformar os militantes e o proletariado em intelectuais de sua classe.<\/p>\n<p>Formar trabalhadores como intelectuais, de per si, caracteriza uma outra no\u00e7\u00e3o presente nas formula\u00e7\u00f5es lenineanas: a de criar um <em>campo de hegemonia <\/em>\u2013 termo militar empregado por Lenin j\u00e1 em 1905, em seu texto <em>Democracia Oper\u00e1ria e Democracia Burguesa <\/em>(LENIN, 1976f, v. VIII) \u2013 n\u00e3o somente pol\u00edtico mas fundamentalmente <em>te\u00f3rico-cosmol\u00f3gico<\/em>, uma contraposi\u00e7\u00e3o as formula\u00e7\u00f5es burguesas. A teoria social de Marx j\u00e1 havia apontado para a necessidade da constru\u00e7\u00e3o de uma cosmologia (<em>Weltanschauung<\/em>) que <em>superasse <\/em>aquela constru\u00edda pela revolu\u00e7\u00e3o burguesa e que a expressava, em suas potencialidades e em seus limites. Sem negar e pressupondo o permanente di\u00e1logo\/embate com a cosmologia burguesa \u2013 <em>mas apontando suas limita\u00e7\u00f5es e a necessidade social de sua supera\u00e7\u00e3o <\/em>\u2013 , o materialismo dial\u00e9tico apresentou-se como a alternativa hist\u00f3rica cultural e cient\u00edfica, para uma nova sociabilidade. Ora, no plano da organiza\u00e7\u00e3o das formas ideo-societais, essa foi exatamente a trajet\u00f3ria hist\u00f3rica dos grande per\u00edodos de transi\u00e7\u00e3o, devidamente correspondente aos nexos temporais em que se processaram, respondendo e construindo <em>media\u00e7\u00f5es <\/em>adequadas a uma outra e nova organiza\u00e7\u00e3o social, que em determinado momento apresentaram-se como debate\/conlito com o velho. Nesses processos de transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u2013 <em>todos de longa dura\u00e7\u00e3o <\/em>\u2013 a organiza\u00e7\u00e3o do novo n\u00e3o ocorreu sem a constru\u00e7\u00e3o de um <em>n\u00facleo articulador e coesivo<\/em>. Na Antiguidade, na polis grega, o n\u00facleo foi constitu\u00eddo na pol\u00edtica, como religi\u00e3o \u201claica\u201d, na Roma republicana no senado, na Idade M\u00e9dia, na Igreja e com as Revolu\u00e7\u00f5es Burguesas, no Estado. Marx havia apontado que a radicaliza\u00e7\u00e3o da \u201cemancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d posta pela burguesia deveria resultar na <em>emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em>, que tinha como fundamento a supera\u00e7\u00e3o do Estado e da divis\u00e3o da sociedade em classes sociais, como um processo de transi\u00e7\u00e3o para uma sociedade de produtores associados livres. \u00c9 no contexto da busca pela organiza\u00e7\u00e3o dessa transi\u00e7\u00e3o de longa dura\u00e7\u00e3o que Lenin formula sua teoria do partido de <em>Novo-Tipo, <\/em>em que o protagonismo dos oprimidos requeria a apropria\u00e7\u00e3o de todo conhecimento produzido pela humanidade e necessariamente a <em>transforma\u00e7\u00e3o do trabalhador em intelectual de sua classe<\/em>, que voltasse para a f\u00e1brica n\u00e3o mais como um membro da \u201cmassa espont\u00e2nea, mergulhada na <em>imediaticidade <\/em>economicista e no senso comum. Uma \u201cforte organiza\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios\u201d, que seria <em>meio e n\u00e3o um fim em si mesma<\/em>, que organizasse a revolu\u00e7\u00e3o social e a constru\u00e7\u00e3o de uma forma social livre, que desmontasse o aparelho estatal e todas as formas de opress\u00e3o e junto com elas, se dissolvesse na liberdade ampla da nova sociedade. N\u00e3o um <em>condottiero <\/em>de velho tipo, mas um <em>organizador da anti-forma ideo-societal <\/em>vigente no mundo burgu\u00eas, express\u00e3o dos interesses hist\u00f3ricos das classes oprimidas e o construtor de um novo mundo.<\/p>\n<p>O caminho aberto, por outro lado, deparou-se com muitos obst\u00e1culos, inclusive os ideol\u00f3gicos e organizativos \u2013 basta que verifiquemos a burocratiza\u00e7\u00e3o dos partidos que se reivindicaram leninistas ao longo do s\u00e9culo XX. A pr\u00f3pria din\u00e2mica da luta de classes engendrou enormes dificuldades nessas organiza\u00e7\u00f5es. Gramsci avan\u00e7ou muito na reflex\u00e3o sobre o partido \u2013 o <em>moderno pr\u00edncipe <\/em>\u2013 e a hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX p\u00f4s a prova sua pr\u00e1xis, muitas vezes, demonstrando seus limites. Mas, por outro lado, a senda foi aberta, e o movimento da sociedade \u00e9 permanente, assim como as suas revolu\u00e7\u00f5es. Podemos e devemos p\u00f4r em discuss\u00e3o todas as teses lenineanas sobre a organiza\u00e7\u00e3o que dever\u00e1 levar a cabo a transforma\u00e7\u00e3o social, entender suas potencialidades e tamb\u00e9m seus limites historicamente determinados.<\/p>\n<p>Mas o fundamento, a centralidade de classe como elemento de organiza\u00e7\u00e3o de uma nova hegemonia cultural e cosmol\u00f3gica \u00e9 a maior heran\u00e7a que o maior revolucion\u00e1rio do s\u00e9culo XX nos legou. Concordando ou n\u00e3o, essa heran\u00e7a e essas reflex\u00f5es constituem o fundamento para as reflex\u00f5es de futuro para os que desejam sinceramente a constru\u00e7\u00e3o de um novo mundo e de uma ordem societ\u00e1ria hominizada.<\/p>\n<hr \/>\n<p>1 A esse respeito, ver LUK\u00c1CS, G. <em>Est\u00e9tica<\/em>. Barcelona: Grijalbo, 1966, cap. I, item 2 (<em>Principios y Comienzos de La diferenciaci\u00f3n<\/em>), v. I, p. 81\u2013145.<\/p>\n<p>2 Idem, especialmente p. 142-167. Ver tamb\u00e9m PLATAO. Lettera VII (Carta VII). In: ______. <em>Platone Tutte le <\/em><em>Opere<\/em>. Roma: Newton &amp; Compton, 1997a. 235c a 328c, v. V.<\/p>\n<p>3 Na defini\u00e7\u00e3o de Jaeger, a Paid\u00e9ia constitui-se numa clara <em>ideia de si <\/em>da identidade grega antiga, resultado de um esfor\u00e7o para justificar a no\u00e7\u00e3o de comunidade e ao mesmo tempo, de individualidade humana que nasce com a polis. Veja-se JAEGER, W. <em>Paid\u00e9ia: <\/em>los ideales de La cultura griega. M\u00e9xico: FCE, 1987. Introdu\u00e7\u00e3o, p. 7 et seq.<\/p>\n<p>4 Ver PLATAO, op. cit., <em>Protagora<\/em>, 313, v. III e <em>Apologia di Socrate, <\/em>32a \u2013 33b, v. I<\/p>\n<p>5 PLATAO, <em>Lettera VII<\/em>, op. cit., 328b \u2013 328c, v. V<\/p>\n<p>6 Nessa bela passagem de Or\u00edgenes: \u201c\u00c9 nosso desejo instruir todos os homens na palavra de Deus, apesar da nega\u00e7\u00e3o de Celso, e queremos comunicar aos adolescentes a exorta\u00e7\u00e3o que lhes conv\u00e9m e indicar aos escravos como podem ser engrandecidos pelo Logos recebendo um esp\u00edrito de liberdade [\u2026] E sobre esse ponto eu poderia dizer em resposta as palavras de Celso: ser\u00e1 que os fil\u00f3sofos n\u00e3o convidam os adolescentes a ouvi-los? N\u00e3o exortam a que deixem uma vida desregrada para abra\u00e7arem os bens superiores? Ent\u00e3o n\u00e3o querem que os escravos vivam como fil\u00f3sofos? Vamos tamb\u00e9m n\u00f3s censurar os fil\u00f3sofos por terem conduzido escravos a virtude, como fez Pit\u00e1goras com Zamolxis, Zenon com Perseu e, ontem ou anteontem, os que conduziram Epiceto a filosofia? Ou vos ser\u00e1 permitido, \u00f3 gregos, chamar a filosofia adolescentes, escravos, idiotas, ao passo que para n\u00f3s seria desumanidade fazer isto, quando aplicando-lhes o rem\u00e9dio do Logos, queremos curar toda natureza racional ou conduzi-la a familiaridade com Deus.\u201d OR\u00cdGENES. <em>Contra Celso<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2004. <em>Livro III<\/em>, 54.<\/p>\n<p>7 Como vemos em Paulo de Tarso: \u201c[\u2026] N\u00f3s, por\u00e9m, somos cidad\u00e3os dos c\u00e9us [\u2026]\u201d. In: B\u00cdBLIA Sagrada. S\u00e3o Paulo: Ave-Maria, 1998. <em>Filipenses<\/em>, III-20.<\/p>\n<p>8 Obviamente fazer o complexo debate sobre o igualitarismo n\u00e3o caberia nesse texto, mas \u00e9 necess\u00e1rio ressaltar que a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o grega de igualitarismo e, mais adiante a de democracia, pressupunha a desigualdade entre camponeses pobres e ricos propriet\u00e1rios terratenentes, no per\u00edodo da <em>polis igualit\u00e1ria<\/em>, fundada sobre a produ\u00e7\u00e3o camponesa e mais tarde, a democracia cl\u00e1ssica, baseada na escravid\u00e3o. Veja-se MAZZEO, A. C. <em>O Voo de Minerva<\/em>, op. cit, especialmente Parte II.<\/p>\n<p>9 Sobre a disputa entre a Ratio e a Irratio, ver especialmente LUK\u00c1CS, G. <em>El asalto a la raz\u00f3n <\/em>(<em>Die <\/em><em>Zerst\u04e7rung <\/em><em>Der Vernunft. <\/em>Berlin: Aufbau-Verlag, 1953), M\u00e9xico: Grijalbo, 1972. cap. II.<\/p>\n<p>10 Como podemos ver em Hegel:\u201d[\u2026] Bem como a sociedade civil \u00e9 o campo de batalha do interesse privado individual de todos contra todos, est\u00e1 nela a sede do conflito entre esse interesse e os interesses particulares comuns e entre ambos interesses juntos [\u2026]\u201d idem, \u00a7289<\/p>\n<p>11 Veja-se ENGELS, <em>Ludwig Feuerbach<\/em>, op.cit, p. 99-100. No coment\u00e1rio de Lenin sobre as <em>Li\u00e7\u00f5es sobre a Ess\u00eancia da Religi\u00e3o<\/em>: \u201dFeuerbach \u00e9 brilhante mas nao profundo [\u2026]\u201d LENIN, V. I. Cuadernos filos\u00f3ficos. In: ______. <em>Obras completas<\/em>. Madri: Akal, 1976a. v. XLII, p. 53.<\/p>\n<p>12 Como podemos verificar na nota de Engels: \u201cSeja-me permitido aqui um pequeno coment\u00e1rio pessoal. Ultimamente, tem-se aludido, com frequ\u00eancia, a minha participa\u00e7\u00e3o nessa teoria; n\u00e3o posso, pois, deixar de dizer aqui algumas palavras para esclarecer este assunto. Que tive certa participa\u00e7\u00e3o independente na fundamenta\u00e7\u00e3o e sobretudo na elabora\u00e7\u00e3o da teoria, antes e durante os quarenta anos de minha colabora\u00e7\u00e3o com Marx, \u00e9 coisa que eu mesmo n\u00e3o posso negar. A parte mais consider\u00e1vel das ideias diretrizes principais, particularmente no terreno econ\u00f4mico e hist\u00f3rico, e especialmente sua formula\u00e7\u00e3o n\u00edtida e definitiva, cabem, por\u00e9m a Marx. A contribui\u00e7\u00e3o que eu trouxe \u2013 com exce\u00e7\u00e3o, quando muito, de alguns ramos especializados \u2013 Marx tamb\u00e9m teria podido traze-la, mesmo sem mim. Em compensa\u00e7\u00e3o, eu jamais teria feito o que Marx conseguiu fazer. Marx tinha mais envergadura e via mais longe, mais ampla e mais rapidamente que todos n\u00f3s outros. Marx era um g\u00eanio; n\u00f3s outros, no m\u00e1ximo, homens de talento. Sem ele, a teoria estaria hoje muito longe de ser o que \u00e9. Por isso, ela tem, legitimamente, seu nome.\u201d Nota de F. Engels in idem, p. 103.<\/p>\n<p>13 Na c\u00e9lebre passagem de Marx em 1859: \u201cMinhas investiga\u00e7\u00f5es me levaram a conclus\u00e3o de que tanto as rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas como as formas de Estado, n\u00e3o podem ser compreendidas por si mesmas nem pela chamada evolu\u00e7\u00e3o geral do esp\u00edrito humano mas, ao contr\u00e1rio, tem suas ra\u00edzes nas condi\u00e7\u00f5es materiais da vida [\u2026]\u201d. MARX, K. <em>Contribuci\u00f3n a La Cr\u00edtica de La Economia Pol\u00edtica<\/em>. Buenos Aires: Estudio, 1970. Pref\u00e1cio, p. 8.<\/p>\n<p>14 Como acentua Marx: \u201c<em>O concreto \u00e9 concreto porque \u00e9 a s\u00edntese de m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es, por tanto, a unidade da diversidade<\/em>. <em>Por isso, aparece no pensamento como processo de s\u00edntese, como resultado, n\u00e3o como ponto de partida<\/em>, ainda que seja o verdadeiro ponto de partida e, por conseguinte, mesmo assim, o ponto de partida da vis\u00e3o imediata e da representa\u00e7\u00e3o.\u201d Idem, p. 213, grifos nossos.<\/p>\n<p>15 Como ressalta Engels: \u201c[\u2026] Logo que descobrimos \u2013 e afinal de contas ningu\u00e9m mais do que Hegel nos ajudou a descobri-lo \u2013 que, assim colocada, a tarefa da filosofia se reduz a pretender que um fil\u00f3sofo isolado realize aquilo que somente a humanidade em seu conjunto poder\u00e1 realizar, em seu desenvolvimento progressivo \u2013 assim que descobrimos isso a filosofia no sentido tradicional da palavra, chega a seu fim. <em>J\u00e1 n\u00e3o interessa a \u2018verdade absoluta\u2019 inating\u00edvel por este caminho e inacess\u00edvel ao \u00fanico indiv\u00edduo, e o que se procura s\u00e3o as verdade relativas, adquiridas atrav\u00e9s das ci\u00eancias positivas e da generaliza\u00e7\u00e3o de seus resultados por meio do pensamento dial\u00e9tico<\/em>.\u201d ENGELS, <em>Ludwig Feuerbch<\/em>, op. cit., p. 85, grifos nossos.<\/p>\n<p>16 Ver <em>Quest\u00f5es Preliminares<\/em><\/p>\n<p>17 \u201cSer\u00e1 necess\u00e1ria uma intelig\u00eancia profunda para compreender que ao mudarem as rela\u00e7\u00f5es de vida dos homens, as suas rela\u00e7\u00f5es sociais, a sua exist\u00eancia social, mudam tamb\u00e9m as suas representa\u00e7\u00f5es, as suas concep\u00e7\u00f5es e os seus conceitos, numa palavra, a sua consci\u00eancia?\u201d Idem, p. 102.<\/p>\n<p>18 Entrevista de Karl Marx a R. Landor, In: Ibidem, p. 216.<\/p>\n<p>19 Na defini\u00e7\u00e3o de L. Magri: \u201c[\u2026] estes s\u00e3o pontos importantes do pensamento marxista que nunca foram desenvolvidos a fundo, cujos contornos for\u00e7osamente devem ser reconstru\u00eddos mediante um trabalho de interpreta\u00e7\u00e3o e cujo tratamento exigiria novas indaga\u00e7\u00f5es e novos esfor\u00e7os criativos. Isso n\u00e3o significa, por\u00e9m, que na obra de Marx n\u00e3o esteja contida implicitamente uma defini\u00e7\u00e3o desses conceitos [\u2026]\u201d MAGRI, L. Problemas de la Teoria Marxista del Partido Revolucion\u00e1rio. In: CERRONI, Umberto et. al. <em>Teoria Marxista del partido pol\u00edtico<\/em>. C\u00f3rdoba: Pasado y Presente, 1971. p. 61. (Cuadernos Pasado y Presente, n. 7).<\/p>\n<p>20 Em especial, LENIN, V. I. .Que hacer? Problemas candentes de nuestro movimiento. In: LENIN, V. I. <em>Obras<\/em>, op. cit., p. 428 et seq. v. V. Veja-se tamb\u00e9m, GRUPPI, L. <em>O pensamento de Lenin<\/em>. Rio de Janeiro: Graal, 1979. p. 35.<\/p>\n<p>21 Cf. LEFEBVRE, H. <em>L\u00f3gica formal\/l\u00f3gica dial\u00e9tica<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1983. Pref\u00e1cio a segunda edi\u00e7\u00e3o, p. 2.<\/p>\n<p>22 Nas palavras de Lenin:\u201d[\u2026] A hist\u00f3ria da filosofia e a hist\u00f3ria da ci\u00eancia social mostram com toda a clareza que o marxismo n\u00e3o \u00e9 nada que se pare\u00e7a com sectarismo, no sentido duma doutrina fechada sobre si mesma e ossificada, que tivesse surgido a margem da grande estrada do desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o mundial. Ao contr\u00e1rio, Marx respondeu as quest\u00f5es levantadas pela \u2018humanidade avan\u00e7ada\u2019 e a sua doutrina nasceu como a continua\u00e7\u00e3o direta e imediata das doutrinas dos mais eminentes da filosofia, da economia pol\u00edtica e do socialismo\u201d. LENIN, V. I. <em>Tres fuentes y partes integrantes do marxismo<\/em>. In: op. cit., p. 205, v. XIX.<\/p>\n<p>23 Como ressalta Lenin:\u201d[\u2026] A consci\u00eancia social reflete o ser social: tal \u00e9 a doutrina de Marx. O reflexo pode ser uma c\u00f3pia aproximadamente exata do refletido, mas \u00e9 absurdo falar aqui de identidade. Que a consci\u00eancia em geral relita o ser, essa \u00e9 uma tese geral de <em>todo <\/em>materialismo. E n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel deixar de ver sua conex\u00e3o direta e indissol\u00favel com a tese do materialismo hist\u00f3rico que diz: a consci\u00eancia social <em>reflete <\/em>o ser social.\u201d LENIN, V. I. <em>Materialismo y empirocriticismo<\/em>, op. cit., p. 312, v. XIV.<\/p>\n<p>24 Como ir\u00e1 acentuar mais tarde W. Benjamin, na dire\u00e7\u00e3o de Lenin:\u201d[\u2026] A crian\u00e7a prolet\u00e1ria nasce dentro de sua classe. Mais exatamente, dentro da prole de sua classe, e n\u00e3o no seio da fam\u00edlia. Ela \u00e9, desde o in\u00edcio, um elemento dessa prole, e n\u00e3o \u00e9 nenhuma meta educacional doutrin\u00e1ria que determina aquilo que essa crian\u00e7a deve tornar-se, mas sim a situa\u00e7\u00e3o de classe [\u2026]\u201d BENJAMIN, W. Uma pedagogia comunista [1930]. In: BENJAMIN, W. <em>Reflex\u00f5es sobre a crian\u00e7a, o brinquedo e a educa\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Duas Cidades, 2009. p. 122. (tradu\u00e7\u00e3o brasileira da <em>Gesammeltre Schriften <\/em>\u2013 <em>Escritos Reunidos <\/em>\u2013 de Walter Benjamin, organizados por Rolf Tiedemann e Hermann Schweppenh\u00e4user, Suhrkamp, Frankfurt, 1972 \u2013 1989).<\/p>\n<p>25 M. L\u04e7wy ressalta esse aspecto: \u201c[\u2026] o proletariado \u00e9 definido n\u00e3o como uma classe <em>particular <\/em>da sociedade burguesa, reclamando direitos particulares, mas como uma esfera que tem um car\u00e1ter <em>universal <\/em>por causa de seu sofrimento [\u2026]\u201d L\u04e7wy, M. <em>A Teoria da Revolu\u00e7\u00e3o no jovem Marx<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2012. p. 189.<\/p>\n<p>26 Como analisa Lenin: \u201dSe os motins eram simplesmente levantes de gente oprimida, as greves sistem\u00e1ticas j\u00e1 representavam embri\u00f5es de luta classe, mas precisamente nada mais que embri\u00f5es. Em si, essas greves eram luta trade-unionista, n\u00e3o eram ainda luta socialdemocrata; assinalam o despertar do antagonismo entre trabalhadores e patr\u00f5es. Mas os trabalhadores n\u00e3o podiam ter a consci\u00eancia do antagonismo irreconcili\u00e1vel entre seus interesses e todo o regime pol\u00edtico e social contempor\u00e2neo, quer dizer, n\u00e3o possu\u00edam consci\u00eancia socialdemocrata.\u201d Idem, p. 382.<\/p>\n<p>27 Pref\u00e1cio de 1967.<\/p>\n<p>28 Mais uma vez, ressaltamos a aproxima\u00e7\u00e3o de Benjamin as reflex\u00f5es lenineanas: \u201d[\u2026] A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da luta de classes, mas n\u00e3o apenas isso. Ela coloca, segundo a concep\u00e7\u00e3o comunista, a avalia\u00e7\u00e3o completa do meio social dado a servi\u00e7o de metas revolucion\u00e1rias. Mas, como esse meio social n\u00e3o \u00e9 apenas lutas, mas tamb\u00e9m trabalho, a educa\u00e7\u00e3o apresenta-se ao mesmo tempo como educa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do trabalho.\u201d BENJAMIN, W. cit. p.123.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/2016\/08\/01\/possibilidades-lenineanas-para-uma-paideia-comunista\/#more-4747\">https:\/\/lavrapalavra.com\/2016\/08\/01\/possibilidades-lenineanas-para-uma-paideia-comunista\/#more-4747<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Antonio Carlos Mazzeo, in \u201cLenin: Teoria e Pr\u00e1tica Revolucion\u00e1ria\u201d A centralidade de classe como elemento de organiza\u00e7\u00e3o\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11764\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50,3,33],"tags":[],"class_list":["post-11764","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","category-s7-formacao-politica","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-33K","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11764","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11764"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11764\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30276,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11764\/revisions\/30276"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11764"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11764"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11764"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}