{"id":1177,"date":"2011-02-02T21:07:48","date_gmt":"2011-02-02T21:07:48","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1177"},"modified":"2011-02-02T21:07:48","modified_gmt":"2011-02-02T21:07:48","slug":"decimo-sexto-dia-do-povo-tunisino-acabou-a-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1177","title":{"rendered":"D\u00e9cimo-sexto dia do povo Tunisino. Acabou a liberdade"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201c\u2026se \u00e9 verdade que nunca tinha acontecido anteriormente um povo \u00e1rabe derrubar um tirano, uma grande retrac\u00e7\u00e3o se nota nestes dias na Tun\u00edsia, onde come\u00e7a a temer-se que depois do assalto de ontem ao Qasba [dia 28 de Janeiro] todos os sacrif\u00edcios feitos nestes dias tenham sido em v\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Maquiavel dizia, por outras palavras, que por vezes o pr\u00edncipe quando perde a legitimidade perante o seu povo tem de apelar \u00e0 \u00abrevolu\u00e7\u00e3o\u00bb cont\u00ednua. Mudam-se os nomes n\u00e3o porque as coisas tenham mudado mas para que tudo fique na mesma. Ou parecido, porque os nomes tamb\u00e9m s\u00e3o coisas que n\u00e3o se ajustam a todas as situa\u00e7\u00f5es \u2013 tal como as luvas. Na antiga China, os imperadores que iniciavam uma nova dinastia, depois de um golpe palaciano alteravam todos os pesos e todas as medidas, e come\u00e7avam a partir do zero a contagem do tempo. Ben Al\u00ed derrubou por dentro Bourguiba, e a esse golpe chamou a Grande Mudan\u00e7a, le Grand Changement. E se \u00e9 verdade que nunca tinha acontecido anteriormente um povo \u00e1rabe derrubar um tirano, uma grande retrac\u00e7\u00e3o se nota nestes dias na Tun\u00edsia, onde come\u00e7a a temer-se que depois do assalto de ontem ao Qasba [dia 28 de Janeiro] todos os sacrif\u00edcios feitos nestes dias tenham sido em v\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 como se nunca tivesse havido o 14 de Janeiro, resume desolada Amira.<\/p>\n<p>Com efeito, depois de duas semanas de conten\u00e7\u00e3o voltou a assenhorar-se da situa\u00e7\u00e3o. Ontem, partiu pernas e bra\u00e7os no Qasba e durante todo o dia circularam listas n\u00e3o confirmadas de mortos e desaparecidos. Pelo menos vinte presos continuavam esta tarde na esquadra. E na pra\u00e7a do Qasba, entre mantas e panelas ficaram ontem dezenas de telem\u00f3veis espalhados. De muitos dos que ontem foram dispersos n\u00e3o se sabe nada. Entretanto, esta manh\u00e3, 12 horas depois, enquanto repintavam as paredes do que foi durante cinco dias o minist\u00e9rio do povo, La Press publicava na capa uma foto da concentra\u00e7\u00e3o dispersada com o t\u00edtulo: \u00abem Qasba a caravana da liberdade cont\u00ednua com os protestos\u00bb. A revolu\u00e7\u00e3o \u2013 j\u00e1 tem a marca de um governo que tecido na obscuridade e de uma imprensa que utiliza novos nomes para dizer as mesmas coisas.<\/p>\n<p>Os investidores portugueses impacientam-se e os EUA, suspensos do Egipto, querem sufocar definitivamente o foco tunisino. Os protestos, enfraquecidos com o claudicar da UGTT, s\u00e3o agora reprimidos sem contempla\u00e7\u00f5es. Aos tunisinos, que se tinha habituado a assentar arraiais na avenida Bourguiba, \u00e9-lhes agora recordado durante todo o dia que h\u00e1 uma lei marcial, que as manifesta\u00e7\u00f5es est\u00e3o proibidas, que \u00e9 a pol\u00edcia e n\u00e3o o povo que ocupa as ruas. Bombas lacrimog\u00e9neas e cargas de cassetete marcaram uma jornada em que os media internacionais, com os olhos postos no Egipto nem sequer estavam presentes, ou estiveram apenas na confer\u00eancia de imprensa da Human Rights Watch. Come\u00e7\u00e1vamos a habituar-nos a saltar e agora temos de reaprender a correr.<\/p>\n<p>Mas esta jornada de ressaca \u2013 em que o mar recua levando com ele os restos da festa \u2013 conheceu um homem enorme, descomunal, um homem cujo pessimismo musculoso, paradoxalmente, nos levava ao optimismo. Foi-me apresentado pelo jornalista italiano Gabrielle del Grande, rep\u00f3rter que leva a sua profiss\u00e3o a s\u00e9rio. Trata-se Redha Redhaoui, com quem estive algumas horas. \u00c9 um advogado de Gafsa que dedicou os dois \u00faltimos anos a defender os processados pelas revoltas mineiras de 2008 em Redeyef e os outros povos da regi\u00e3o e noutras povoa\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o. \u00c9 um homem grande, quadrado, de cabelos grisalhos e modos francos e fraternos; grande bebedor, extraordin\u00e1rio contador de anedotas jocosas e de uma generosidade desarmante. Sentimo-nos tranquilos ao seu lado enquanto ele enumera implacavelmente motivos de inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Por que \u00e9 que o novo ministro do Interior deu ordem para desalojar o Qasba? A ordem n\u00e3o foi dada pelo ministro do Interior. Os novos ministros s\u00e3o de opereta. N\u00e3o decidem nada. H\u00e1 um governo paralelo na sombra.<\/p>\n<p>Esse governo sombra tem que ver, claro, com a interven\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos. N\u00e3o \u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o tenha sido manipulada ou provocada do exterior, disse, pelo contr\u00e1rio foi de uma pureza t\u00e3o grande que \u00e9 a sua pr\u00f3pria autonomia que a p\u00f5e em perigo. Desde 2009, quando todos descartavam essa eventualidade, que os EUA se interrogavam se, efectivamente era poss\u00edvel que um governo ser derrubado pelos movimentos sociais do mundo \u00e1rabe. At\u00e9 ao ponto de, assegura, o nome de \u00abrevolu\u00e7\u00e3o dos jasmins\u00bb, em que ningu\u00e9m aqui se reconhece, ter sido enunciado 8 dias antes da imola\u00e7\u00e3o de Mohamed Bouazizi, em 17 de Dezembro.<\/p>\n<p>&#8211; A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 agora muito complicada, diz, recordando a c\u00e9lebre frase de Gramsci. Encontramo-nos no meio de um mundo antigo que n\u00e3o morreu e um mundo novo que ainda n\u00e3o acabou de nascer. Foi nesse vazio que despertou a consci\u00eancia das pessoas; \u00e9 uma consci\u00eancia explosiva que quer tudo aqui e agora, que n\u00e3o est\u00e1 disposta a negociar, mas que se choca com limites econ\u00f3micos, sociais e pol\u00edticos muito severos. Esta despropor\u00e7\u00e3o entra liberdade pura e as suas possibilidades reais de materializa\u00e7\u00e3o torna complicado a actua\u00e7\u00e3o perante um regime que apenas se alterou. Nesse p\u00e2ntano entre o mundo antigo que n\u00e3o acabou ainda de morrer e o novo que ainda n\u00e3o acabou de nascer est\u00e1, al\u00e9m da pol\u00edcia, um corpo educado para defender a ditadura, muito dif\u00edcil de controlar e ainda mais dif\u00edcil de depurar.<\/p>\n<p>Por outro lado, assegura, coma UGTT n\u00e3o se pode contar. Est\u00e1 ocupada a resolver a sua pr\u00f3pria crise. A direc\u00e7\u00e3o est\u00e1 implicada at\u00e9 \u00e0s entranhas com a corrup\u00e7\u00e3o do sistema e colaborou na sua sustenta\u00e7\u00e3o ao impedir a forma\u00e7\u00e3o de outras for\u00e7as sindicais. Os militantes de esquerda obrigados a actuar na sombra co\u00e7am-se agora com limites inultrapass\u00e1veis, debilitando ao mesmo tempo a unidade do sindicato. As divis\u00f5es s\u00e3o grandes como o prova, por exemplo, o comunicado que o sector de ensino distribuiu na avenida Bourguiba e em que apoia a luta do povo contra o governo provis\u00f3rio de Ghanoushi.<\/p>\n<p>Enquanto fala e bebe cerveja no Hotel Internacional, Rheda Redhaoui comenta a situa\u00e7\u00e3o no Egipto, cujas imagens a Al-Jazeera emite em directo. Diverte-o muito a reprodu\u00e7\u00e3o passo a passo dos acontecimentos na Tun\u00edsia e a concess\u00e3o de Mubarak de pela primeira vez nomear um vice-presidente ou, o que \u00e9 o mesmo, um sucessor: Omar Suleiman, chefe dos servi\u00e7os secretos e o homem mais pr\u00f3ximo de Israel. Nesse momento toca o seu telem\u00f3vel. Chamam-no de Qasserine.<\/p>\n<p>Convocaram uma greve para amanh\u00e3, diz, e pedem-me para alertar os media estrangeiros para fazerem a cobertura. Ao contr\u00e1rio do que se possa pensar isto ainda nem sequer come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos para uma avenida Bourguiba revolta e obscurecida onde houve uma manifesta\u00e7\u00e3o. As mulheres democratas, grupos de estudantes e pequenos grupos gritam, uma e outra vez dispersos pela pol\u00edcia. Na rua Marselha um jovem com um capuz na cabe\u00e7a, delgad\u00edssimo, aproxima-se balbuciante de n\u00f3s e mostra a Redha com a m\u00e3o tr\u00e9mula um papel e diz-lhe que \u00e9 irm\u00e3o de um dos m\u00e1rtires de Qasserine e que n\u00e3o tem dinheiro para regressar \u00e0 sua cidade. Redha p\u00f5e-lhe a m\u00e3o no ombro, ouve-o e depois discretamente d\u00e1-lhe vinte dinares (10 euros) uma quantia descomunal.<\/p>\n<p>A primeira est\u00f3ria \u00e9 falsa, mas a segunda \u00e9 poss\u00edvel que seja verdade, diz com humor, assim aplicamos-lhe o princ\u00edpio da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>E logo temos que p\u00f4r rapidamente na boca a m\u00e1scara que nos deram de manh\u00e3 na avenida Bourguiba e come\u00e7ar a correr. O ar torna-se de novo denso e irritante. Silvam granadas lacrimog\u00e9neas e uma sombra afastada pisa-nos os calcanhares.<\/p>\n<p>Na avenida Paris afrouxamos o passo. Como n\u00e3o se passasse nada Redha prop\u00f5e-nos ir beber e comer qualquer coisa. Nesse momento toca novamente o telem\u00f3vel. Temos de voltar atr\u00e1s porque a sua amiga Faten, uma jovem de Gafsa que nos tinha apresentado umas horas antes, est\u00e1 ferida. Encontramo-la cem metros mais al\u00e9m, apoiada em tr\u00eas ou quatro pessoas. S\u00f3 assim pode andar, e quando chegamos at\u00e9 ela cai no ch\u00e3o. O len\u00e7o palestino que lhe cobre a cabe\u00e7a est\u00e1 sujo de sangue.<\/p>\n<p>&#8211; A pol\u00edcia entrou no caf\u00e9 e bateu-lhe na cabe\u00e7a com o cassetete, dizem-nos os seus acompanhantes.<\/p>\n<p>Redha levanta-a, p\u00e1ra um t\u00e1xi e despedindo-se precipitadamente de n\u00f3s leva-a ao hospital Charles Nicole.<\/p>\n<p>A atmosfera \u00e9 pastosa e suja. N\u00e3o h\u00e1 manifesta\u00e7\u00f5es nem protestos. S\u00f3 algumas pessoas dispersas e im\u00f3veis nos passeios. Mas de repente chegam tr\u00eas furg\u00f5es da pol\u00edcia, abrem as portas e sai um monte de pol\u00edcias de uniformes negros. Olhamo-los quase como curiosidade tur\u00edstica, sem compreender o que se passa. Depois toda a gente desata a correr e n\u00f3s seguimo-los. Voltam a rebentar granadas lacrimog\u00e9neas; corremos, corremos, com o cora\u00e7\u00e3o na boca e a sensa\u00e7\u00e3o que eles est\u00e3o por toda a parte, ziguezagueando entre ruelas e trope\u00e7ando em todos tranquilamente por ali passavam.<\/p>\n<p>Cheg\u00e1mos a casa e telefon\u00e1mos a Redha. Continua no hospital mas, por sorte, Faten est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>A Tun\u00edsia n\u00e3o.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia das pessoas \u00e9 muito superior \u00e0 estreiteza do caminho. A estreiteza \u00e9, na verdade, muito estreita.<\/p>\n<p><em>*Colaboradora habitual de Rebeli\u00f3n.org<\/em><\/p>\n<p><em>Este texto foi publicado em <a href=\"http:\/\/www.rebelion.org\/\" target=\"_blank\">www.rebelion.org<\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.odiario.info\/?p=1958<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nAlma Allende*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1177\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-1177","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-iZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1177","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1177"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1177\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}