{"id":1178,"date":"2011-02-02T21:31:16","date_gmt":"2011-02-02T21:31:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1178"},"modified":"2011-02-02T21:31:16","modified_gmt":"2011-02-02T21:31:16","slug":"um-povo-desafia-o-seu-ditador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1178","title":{"rendered":"Um povo desafia o seu ditador"},"content":{"rendered":"\n<p>Manifestantes eg\u00edpcios enfrentam canh\u00f5es de \u00e1gua e g\u00e1s lacrimog\u00e9neo durante as batalhas generalizadas travadas no Cairo.<\/p>\n<p>Pode ser o fim. \u00c9 certamente o come\u00e7o do fim. Por todo o Egipto, dezenas de milhares de \u00e1rabes enfrentaram ontem g\u00e1s lacrimog\u00e9neo, ganhos de \u00e1gua, granadas atordoantes e fogo real para exigir a remo\u00e7\u00e3o de Hosni Mubarak ap\u00f3s mais de 30 anos de ditadura.<\/p>\n<p>E quando o Cairo jaz ensopada sob nuvens de g\u00e1s lacrimog\u00e9neo de milhares de latas disparadas sobre multid\u00f5es densas pela pol\u00edcia de choque, parece que o seu dom\u00ednio se aproxima do fim. Ontem nenhum de n\u00f3s nas ruas do Cairo sabia onde estava Mubarak \u2013 que mais tarde apareceria na televis\u00e3o para demitir o seu gabinete. E descobri que ningu\u00e9m se importava.<\/p>\n<p>Eles foram corajosos, em grande medida pac\u00edficos, estas dezenas de milhares, mas o comportamento chocante dos pol\u00edcias \u00e0 paisana de Mubarak \u2013 os battagi, a palavra significa literalmente &#8220;bandidos&#8221; em \u00e1rabe \u2013 que batiam, golpeavam e assaltavam manifestantes enquanto os pol\u00edcias observavam e nada faziam, foi uma desgra\u00e7a. Estes homens, muitos deles ex-pol\u00edcias viciados em droga, na noite passada foram a linha de frente do estado eg\u00edpcio. Os verdadeiros representantes de Hosni Mubarak quando pol\u00edcias uniformizados despejavam g\u00e1s sobre as multid\u00f5es.<\/p>\n<p>Houve um ponto na noite passada em que latas de g\u00e1s continuavam a lan\u00e7ar fumo sobre as \u00e1guas do Nilo quando a pol\u00edcia de choque e manifestantes combatia sobre as pontes do grande rio. Era incr\u00edvel, um povo levantado que n\u00e3o mais aceitava viol\u00eancia e brutalidade e pris\u00e3o como seu destino na maior na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe. E os pr\u00f3prios pol\u00edcias podem estar a quebrar: &#8220;O que podemos fazer?&#8221;, perguntou-nos um da pol\u00edcia de choque. &#8220;Temos ordens. Pensa que queremos fazer isto? O pa\u00eds est\u00e1 a ir abaixo&#8221;. O governo imp\u00f5e um cessar-fogo na noite passada quando manifestantes ajoelharam-se a orar em frente da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Como descrever um dia que pode demonstrar-se ser uma p\u00e1gina t\u00e3o gigantesca na hist\u00f3ria do Egipto? Talvez os rep\u00f3rter devam abandonar as suas an\u00e1lises e apenas contar o relato do aconteceu desde a manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 noite numa das mais antigas cidades do mundo. Assim, aqui est\u00e1, a est\u00f3ria da minhas notas, rabiscadas em meio a um povo desafiante em face de milhares de pol\u00edcias \u00e0 paisana e pol\u00edcias uniformizados.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou na mesquita Istikama na Pra\u00e7a Giza: uma feia passagem de escalavrados blocos de apartamentos em bet\u00e3o e uma linha de pol\u00edcia de choque que se estendia at\u00e9 o Nilo. Todos n\u00f3s sab\u00edamos que Mohamed El Baradei estaria ali para as ora\u00e7\u00f5es do meio-dia e, a princ\u00edpio, a multid\u00e3o parecia pequena. Os pol\u00edcias fumavam cigarros. Se isto era o fim do reinado de Mubarak, era um arranque pouco impressionante.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o, n\u00e3o muito depois de as \u00faltimas ora\u00e7\u00f5es terem sido expressas naquela multid\u00e3o de crentes, levantaram-se da rua, viraram-se para a pol\u00edcia. &#8220;Mubarak, Mubarak&#8221;, gritavam eles. &#8220;A Ar\u00e1bia Saudita est\u00e1 \u00e0 sua espera&#8221;. Foi quando os canh\u00f5es de \u00e1gua foram disparados sobre a multid\u00e3o \u2013 a pol\u00edcia tinha toda a inten\u00e7\u00e3o de combate-los apesar de nem mesmo uma pedra ter sido lan\u00e7ada. A \u00e1gua irrompia dentro da multid\u00e3o e ent\u00e3o as mangueiras foram apontadas directamente a El Baradei, o qual cambaleou para tr\u00e1s, encharcado.<\/p>\n<p>Ele havia retornado de Viena poucas horas antes e poucos eg\u00edpcios pensam que dirigir\u00e1 o Egipto \u2013 ele diz que quer ser um negociador \u2013 mas isto foi uma desgra\u00e7a. O mais honrado pol\u00edtico eg\u00edpcio, um vencedor do Pr\u00e9mio Nobel que manteve cargo de principal inspector nuclear da ONU, foi encharcado como um garoto da rua. Eis o que Mubarak pensa dele, suponho: apenas um outro perturbador com uma &#8220;agenda oculta&#8221; \u2013 que \u00e9 realmente a linguagem que o governo eg\u00edpcio est\u00e1 a usar neste momento.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o o g\u00e1s lacrimog\u00e9neo arrebentou sobre as multid\u00f5es. Talvez houvesse uns poucos milhares agora, mas quando passeei junto a eles, algo not\u00e1vel aconteceu. Dos blocos de apartamento e de becos escuros, das ruas da vizinhan\u00e7a, centenas e a seguir milhares de eg\u00edpcios enxamearam para a estrada conduzindo \u00e0 Pra\u00e7a Tahrir. Isto \u00e9 uma t\u00e1ctica que a pol\u00edcia decidiu impedir. Ter detractores de Mubarak no pr\u00f3prio centro do Cairo sugeriria que o seu dom\u00ednio j\u00e1 estava acabado. O governo havia cortado a Internet \u2013 cortando o Egipto do resto do mundo \u2013 e extinguido todos os sinais de telem\u00f3vel. N\u00e3o fez diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Queremos a queda do regime&#8221;, bradavam as multid\u00f5es. Talvez n\u00e3o o mais memor\u00e1vel brado de revolu\u00e7\u00e3o mas eles o gritavam muitas vezes at\u00e9 serem abafados pelo estouro das granadas de g\u00e1s lacrimog\u00e9neo. De todo o Cairo vinham em ondas para a cidade, jovens classe m\u00e9dia de Gazira, os pobres dos bairros de lata de Beaulak al-Daqrour, marchando firmemente atrav\u00e9s das pontes do Nilo como um ex\u00e9rcito \u2013 o que, admito, era o que eram.<\/p>\n<p>Mas o g\u00e1s das granadas chovia sobre eles. Tossindo e com \u00e2nsias de v\u00f3mito, eles marchavam em frente. Muitos mantinham os casacos sobre as bocas ou faziam fila numa loja de lim\u00f5es onde o propriet\u00e1rio espremia o fruto fresco nas suas bocas. O sumo de lim\u00e3o \u2013 um ant\u00eddoto para o g\u00e1s lacrimog\u00e9neo \u2013 entornava sobre o pavimento at\u00e9 a sarjeta.<\/p>\n<p>Isto foi no Cairo, naturalmente, mas estes protestos estavam a ter lugar por todo o Egipto, no m\u00ednimo em Suez, onde 13 eg\u00edpcios foram mortos. As manifesta\u00e7\u00f5es come\u00e7avam n\u00e3o s\u00f3 em mesquitas como tamb\u00e9m em igrejas coptas. &#8220;Sou crist\u00e3o, mas sou eg\u00edpcio em primeiro lugar&#8221;, disse-me um homem chamado Mina. &#8220;Quero que Mubarak se v\u00e1&#8221;. E aqui chegaram os primeiro <em>bataggi, <\/em>empurrando \u00e0 frente das fileiras da pol\u00edcia a fim de atacar os manifestantes. Eles tinham bast\u00f5es de metal e cassetetes de pol\u00edcia \u2013 vindos de onde? \u2013 e varas agu\u00e7adas. Poderiam ser processados por crimes graves se o regime Mubarak cair. Eles eram maldosos. Um homem chicoteou um jovem sobre as costas com um longo cabo amarelo. Ele uivou com o sofrimento. Por toda a cidade, os pol\u00edcias postavam-se em fileiras, legi\u00f5es delas, com o sol a cintilar sobre os seus visores. A multid\u00e3o deveria estar temerosa, mas a pol\u00edcia olhava amea\u00e7adoramente, como p\u00e1ssaros encapuzados. Ent\u00e3o os manifestantes atingiram a margem Leste do Nilo.<\/p>\n<p>Uns tantos turistas foram envolvidos neste espect\u00e1culo \u2013 vi tr\u00eas senhoras de meia-idade sobre uma das pontes do Nilo (os hot\u00e9is do Cairo, naturalmente, n\u00e3o haviam dito aos seus h\u00f3spedes o que estava a acontecer) \u2013 mas a pol\u00edcia decidiu que controlaria a extremidade Leste do tabuleiro da ponte. Eles abriram as suas fileiras outra vez e enviaram os bandidos para bater na vanguarda dos manifestantes. E foi neste momento que o envenenamento por g\u00e1s lacrimog\u00e9neo come\u00e7ou a s\u00e9rio, centenas e centenas de latas choviam sobre as multid\u00f5es que marchavam de todas as estradas para dentro da cidade. Ele picava os nossos olhos e fazia-nos tossir e respirar com dificuldade. Homens estavam a ser nauseados junto a lojas com as frentes fechadas.<\/p>\n<p>Inc\u00eandios parecem ter estalado na noite passada pr\u00f3ximo da sede do NDP, o partido que carimbava as ordens de Mubarak. Um cessar-fogo foi imposto e os primeiros relatos falam de tropas na cidade, o sinal fatal de que a pol\u00edcia perdeu o controle. Abrig\u00e1mo-nos no antigo Caf\u00e9 Riche perto da Pra\u00e7a Telaat Harb, um pequeno restaurante e bar com funcion\u00e1rios vestidos de azul; e ali, a bebericar o seu caf\u00e9, estava o grande escritor eg\u00edpcio Ibrahim Abudul Meguid, mesmo \u00e0 nossa frente. Era como encontrar-nos com T\u00f3lstoi a almo\u00e7ar em meio \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa. &#8220;N\u00e3o houve reac\u00e7\u00e3o de Mubarak!&#8221; exaltou-se ele. &#8220;\u00c9 como se nada houvesse acontecido! Mas eles conseguir\u00e3o \u2013 o povo conseguir\u00e1!&#8221; Os clientes sentados sufocados com o g\u00e1s. Foi uma daquelas cenas memor\u00e1veis que ocorrem em filmes e n\u00e3o na vida real.<\/p>\n<p>E havia um homem idoso sobre o pavimento, com uma m\u00e3o sobre os olhos a arder. O coronel reformado Weaam Sali do Ex\u00e9rcito eg\u00edpcio, usando as suas fitas de medalhas da guerra de 1967 com Israel \u2013 a qual o Egipto perdeu \u2013 e da guerra de 1973, a qual o coronel pensa que o Egipto venceu. &#8220;Estou a deixar as fileiras dos soldados veteranos&#8221;, disse-me ele. &#8220;Estou a aderir aos manifestantes&#8221;. E o que dizer do Ex\u00e9rcito? Ao longo do dia n\u00e3o o vimos. Os seus coron\u00e9is, brigadeiros e generais estiveram silenciosos. Estariam \u00e0 espera at\u00e9 que Mubarak impusesse a lei marcial?<\/p>\n<p>As multid\u00f5es recusaram-se a cumprir o toque de recolher. Em Suez, elas atearam fogo aos cami\u00f5es da pol\u00edcia. Em frente ao meu hotel, tentaram empurrar um outro cami\u00e3o para dentro do Nilo. Eu n\u00e3o podia voltar ao Cairo Ocidental atrav\u00e9s das pontes. O g\u00e1s das granadas ainda estava a evolar-se para o Nilo. Mas um pol\u00edcia finalmente teve pena de n\u00f3s \u2013 uma qualidade, tenho de dizer, que ontem n\u00e3o esteve muito em evid\u00eancia \u2013 e levou-nos para a margem pr\u00f3pria do Nilo. E havia um velho barco a motor, da esp\u00e9cie tur\u00edstica, com flores de pl\u00e1stico e um propriet\u00e1rio receptivo. Assim, naveg\u00e1mos de volta com estilo, bebericando Pepsi. E ent\u00e3o um veloz barco amarelo surgiu subitamente com dois homens a fazerem sinais de vit\u00f3ria para as multid\u00f5es nas pontes, com uma garota de p\u00e9 atr\u00e1s, a segurar um enorme estandarte nas m\u00e3os. Era a bandeira do Egipto.<\/p>\n<p>29\/Janeiro\/2011<\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/www.independent.co.uk\/news\/world\/africa\/robert-fisk-a-people-defies-its-dictator-and-a-nations-future-is-in-the-balance-2197769.html\" target=\"_blank\">www.independent.co.uk\/&#8230;<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/africa\/egipto_fisk_29jan11.html\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/africa\/egipto_fisk_29jan11.html<\/a> <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\npor Robert Fisk, no Cairo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1178\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-1178","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-j0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1178"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1178\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}