{"id":11813,"date":"2016-08-11T01:14:37","date_gmt":"2016-08-11T04:14:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11813"},"modified":"2016-09-03T14:03:02","modified_gmt":"2016-09-03T17:03:02","slug":"olimpiadas-2016-o-esporte-e-o-que-menos-importa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11813","title":{"rendered":"Olimp\u00edadas 2016: O esporte \u00e9 o que menos importa"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2016\/08\/olimpiadas-mauro-iasi.jpg?w=747&#038;h=348&#038;fit=620%2C348\" alt=\"imagem\" \/><strong>Isto aqui, ioi\u00f4, \u00e9 um pouquinho de Brasil, iai\u00e1<\/strong><\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>Blog da Boitempo<!--more--><\/p>\n<p>Um pouquinho, sinh\u00e1, s\u00f3 um pouquinho. Uma parte n\u00e3o se mostra naquilo que se apresenta como imagem ideol\u00f3gica. Seleciona-se, assim como os atletas em busca do \u00edndice ol\u00edmpico, aquilo que aparecer\u00e1 na imagem refletida do real.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um Brasil que canta e \u00e9 feliz, este \u00e9 um pa\u00eds em que uma menina negra da favela chega ao ouro, este \u00e9 um pa\u00eds que se esfor\u00e7a muito, luta diariamente vencendo obst\u00e1culos. Este \u00e9 um Brasil, no entanto, que canta porque \u00e9 triste, no qual crian\u00e7as negras s\u00e3o abatidas a tiros nas favelas, em que os ju\u00edzes saem para jantar com os vencedores, um pa\u00eds em que se trabalha muito e se ganha pouco enquanto poucos ficam com quase tudo. Como nas Olimp\u00edadas.<\/p>\n<p>Como em toda imagem ideol\u00f3gica, as Olimp\u00edadas tamb\u00e9m mostram e demonstram muito naquilo que escondem. N\u00e3o \u00e9 uma mera falsidade, pura manipula\u00e7\u00e3o. Isto aqui, sinh\u00f4, \u00e9 bastante do Brasil. Os jogos s\u00e3o um funil seletivo no qual passam apenas os melhores entre os melhores, os campe\u00f5es, os semideuses ol\u00edmpicos, que disputam poucos lugares no p\u00f3dio e s\u00f3 um pode ser de ouro. A livre concorr\u00eancia entre indiv\u00edduos desiguais em condi\u00e7\u00f5es, igualados pelas regras comuns da disputa. Iguais em direito, desiguais de fato. Indiv\u00edduos, her\u00f3icos, enfrentando dificuldades at\u00e9 alcan\u00e7ar os louros da vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas, isso \u00e9 o \u00f3bvio. Uma outra dimens\u00e3o se insinua de forma mais sub-rept\u00edcia. H\u00e1 vagas especiais para aqueles que n\u00e3o atingiram os \u00edndices, para que todos os pa\u00edses participem como convidados, h\u00e1 equipes para abrigar os refugiados e, depois, h\u00e1 as Paraolimp\u00edadas. Todos os c\u00edrculos, de todas as cores, se irmanam num abra\u00e7o como as argolas do m\u00e1gico que com per\u00edcia esconde o truque. A mensagem para o mundo \u00e9 a import\u00e2ncia de cuidar da natureza e do equil\u00edbrio ambiental, a paz mundial, assim como a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o e do cuidado com as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Vejam, n\u00e3o h\u00e1 nada de errado neste discurso, assim como n\u00e3o h\u00e1 nada de errado nos jogos, na emo\u00e7\u00e3o da disputa, no reconhecimento do esfor\u00e7o dos atletas, na beleza dos esportes. A dimens\u00e3o ideol\u00f3gica atua em outra dimens\u00e3o que exige um pouco de distanciamento.<\/p>\n<p>Os jogos que defendem o equil\u00edbrio ambiental, por exemplo, n\u00e3o cumpriram com suas metas. Fizeram uma Pira Ol\u00edmpica menor, para economizar energia, mas na conta da compensa\u00e7\u00e3o de carbono resta um d\u00e9ficit de 31% por conta do replantio insuficiente de mudas em rela\u00e7\u00e3o a emiss\u00e3o de gases associados \u00e0s obras para receber o evento. O esgoto jogado na Ba\u00eda da Guanabara, cuja promessa seria tratar 80%, n\u00e3o chegou nem \u00e0 metade da meta. A limpeza e canaliza\u00e7\u00e3o dos rios da bacia de Jacarepagu\u00e1, segundo os dados da \u201cJornada de lutas: Jogos da Exclus\u00e3o\u201d, tiveram suas obras paralisadas no final de 2015, com um ano de atraso no prazo previsto, e sem nenhum resultado, apesar das empreiteiras Andrade Gutierrez e Carioca Engenharia terem abocanhado a bagatela de R$ 235 milh\u00f5es pelas obras.<\/p>\n<p>Enquanto se festeja a inclusividade dos jogos, a generosa inclus\u00e3o de na\u00e7\u00f5es sem \u00edndice ol\u00edmpico ou a oportunidade para refugiados (alguns vindos de pa\u00edses que foram bombardeados pelas na\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias que depois se negaram a receb\u00ea-los em seus territ\u00f3rios), os megaeventos desalojaram mais de 77 mil pessoas desde 2009. No Rio de Janeiro, in\u00fameras fam\u00edlias foram desalojadas na Vila Autodromo, Vila Recreio II, favela Metro Mangueira, Vila Harmonia e outras muitas apenas para criar terrenos vazios para a futura especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p>Pombinhas de papel simbolizam a paz no mundo e a cidade \u00e9 tomada pelo ex\u00e9rcito e a pol\u00edcia. A ocupa\u00e7\u00e3o na Mar\u00e9, durante a copa do mundo em 2015, consumiu R$ 599 milh\u00f5es em 15 meses. Os organizadores dos \u201cJogos da Exclus\u00e3o\u201d estimam que entre 2010 e 2016 a prefeitura do Rio investiu R$ 303 milh\u00f5es em programas sociais em todas as favelas da cidade. O conjunto dos gastos com seguran\u00e7a podem chegar aos 3 bilh\u00f5es de reais. Os assassinatos cometidos por policiais cresceram 135% em um ano.<\/p>\n<p>Pessoas s\u00e3o retiradas dos est\u00e1dios por expressar sua posi\u00e7\u00e3o contra o governo ileg\u00edtimo instalado em Bras\u00edlia e uma lei da morda\u00e7a cai sobre os atletas. Enquanto os fogos iluminavam a noite da cidade, a policia descia a porrada nos manifestantes em outro canto.<\/p>\n<p>Mas, o que o esporte tem a ver com tudo isso? Ele n\u00e3o \u00e9 o culpado pelas raz\u00f5es que levam aos meus queixumes pol\u00edticos, nem com a gan\u00e2ncia das grandes empresas que esfolam mercantilisticamente o evento. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Atletas treinam muito e com dedica\u00e7\u00e3o, uns com mais apoio, outros sem nenhum, mas o que importa \u00e9 que neles podemos ver, algumas vezes, isso que um certo Bar\u00e3o, Pierre de Coubertin, chamou de \u201cesp\u00edrito ol\u00edmpico\u201d. E isso \u00e9 muito bom de se assistir e deve ser ainda mais legal participar. Mas, pesa como maldi\u00e7\u00e3o de todo \u201cesp\u00edrito\u201d habitar um \u201ccorpo\u201d, objetivar-se e, em certas condi\u00e7\u00f5es, estranhar-se. A materialidade ol\u00edmpica \u00e9 a intensa utiliza\u00e7\u00e3o desse valor de uso para servir de base para o seu valor de troca. Sua transforma\u00e7\u00e3o em mercadoria, sua mercantiliza\u00e7\u00e3o intensa, independe das formas pr\u00f3prias de seu valor de uso e muito menos das inten\u00e7\u00f5es de seus protagonistas, ali\u00e1s como em todo processo de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias.<\/p>\n<p>O esporte \u00e9 o que menos importa. O Minist\u00e9rio do Esporte, que quase nunca usa a verba que lhe \u00e9 atribu\u00edda, disponibilizou cerca de 190 milh\u00f5es para bolsas para aqueles que alcan\u00e7am \u00edndices e podem disputar vagas no esporte de competi\u00e7\u00e3o. \u00c9 quase o valor pelo qual o Maracan\u00e3 foi vendido, cerca de 180 milh\u00f5es a serem pagos em 30 anos, apesar das obras terem chegado ao estratosf\u00e9rico valor de 1,34 bilh\u00e3o. Programas de massifica\u00e7\u00e3o do esporte, forma\u00e7\u00e3o, estruturas de qualidade, como sempre s\u00e3o abandonados e seus recursos m\u00ednguam.<\/p>\n<p>Ao final, as medalhas distribu\u00eddas, os lucros das empreiteiras, dos conglomerados de comunica\u00e7\u00e3o, dos monop\u00f3lios envolvidos contabilizados, nossa emo\u00e7\u00e3o cat\u00e1rtica realizada, a cidade voltar\u00e1 ao seu \u201cnormal\u201d. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro seguir\u00e1 sua crise, os professores do ensino fundamental seguir\u00e3o com seus sal\u00e1rios atrasados, as carca\u00e7as de estruturas descart\u00e1veis apodrecer\u00e3o como testemunhas silenciosas do desperd\u00edcio e da ostenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ai sinh\u00f4, ai, ai, sinh\u00e1\u2026 tem mais uma coisa que est\u00e1 aqui e vai seguir depois:<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 tamb\u00e9m um pouco de uma ra\u00e7a<br \/>\nQue n\u00e3o tem medo de fuma\u00e7a ai, ai<br \/>\nE n\u00e3o se entrega n\u00e3o<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/08\/10\/olimpiadas-2016-o-esporte-e-o-que-menos-importa\/\">Olimp\u00edadas 2016: O esporte \u00e9 o que menos&nbsp;importa<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Isto aqui, ioi\u00f4, \u00e9 um pouquinho de Brasil, iai\u00e1 Por Mauro Luis Iasi Blog da Boitempo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11813\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-11813","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-34x","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11813","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11813"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11813\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11813"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11813"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11813"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}