{"id":1182,"date":"2011-02-05T15:02:23","date_gmt":"2011-02-05T15:02:23","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1182"},"modified":"2011-02-05T15:02:23","modified_gmt":"2011-02-05T15:02:23","slug":"patrice-lumumba-um-heroi-africano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1182","title":{"rendered":"Patrice Lumumba, um her\u00f3i africano"},"content":{"rendered":"\n<p>Fez no passado dia 17 de Janeiro 50 anos que Patrice Lumumba foi assassinado. Com este texto do jornalista Carlos Lopes Pereira, <a href=\"http:\/\/odiario.info\/\" target=\"_blank\">odiario.info<\/a> n\u00e3o s\u00f3 evoca o crime do colonialismo belga e do imperialismo norte-americano, como presta homenagem a \u201cum her\u00f3i da liberta\u00e7\u00e3o africana cujo legado se mant\u00e9m actual e inspira novas lutas pela emancipa\u00e7\u00e3o social dos povos do continente e de todo Mundo.\u201d<\/p>\n<p>Faz agora meio s\u00e9culo. Foi a 17 de Janeiro de 1961 que agentes do colonialismo belga e do imperialismo norte-americano, com a coniv\u00eancia de traidores congoleses, assassinaram de forma b\u00e1rbara Patrice Lumumba, combatente da independ\u00eancia da sua terra e primeiro chefe do governo da Rep\u00fablica do Congo. Apesar de ter desaparecido h\u00e1 50 anos, ainda muito jovem, a sua figura emerge hoje como a de um patriota \u00edntegro e corajoso, de um lutador anticolonialista e anti-imperialista. Em \u00c1frica, na \u00c1sia e na Am\u00e9rica Latina, diferentes gera\u00e7\u00f5es de revolucion\u00e1rios admiram-no, a par de Kwame Nkrumah, Am\u00edlcar Cabral, Agostinho Neto ou Samora Machel, como um her\u00f3i da liberta\u00e7\u00e3o africana cujo legado se mant\u00e9m actual e inspira novas lutas pela emancipa\u00e7\u00e3o social dos povos do continente e de todo Mundo.<\/p>\n<p>A biografia de Patrice Lumumba pode ser resumida em poucas linhas. Nasceu em 2 de Julho de 1925, filho de camponeses pobres, na aldeia de Onalua, na prov\u00edncia do Kasai, na ent\u00e3o col\u00f3nia do Congo Belga (mais tarde Rep\u00fablica do Congo, depois Zaire e hoje Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo). Fez os estudos prim\u00e1rios numa escola mission\u00e1ria cat\u00f3lica &#8211; a \u00fanica possibilidade para muitos jovens africanos da \u00e9poca &#8211; e, na juventude, trabalhou como funcion\u00e1rio dos correios e empregado de algumas companhias belgas.<\/p>\n<p>A partir dos 23 anos participou activamente na vida pol\u00edtica da sua terra, ent\u00e3o uma possess\u00e3o belga, desenvolvendo os seus ideais independentistas e sofrendo com isso a repress\u00e3o dos colonialistas belgas &#8211; esteve v\u00e1rias vezes preso. Foi sindicalista, escreveu em jornais como o \u00abUhuru\u00bb (\u00abLiberdade\u00bb) e \u00abIndependance\u00bb e, em 1958, fundou e tornou-se l\u00edder do maior partido nacionalista congol\u00eas, o Movimento Nacional Congol\u00eas (MNC) &#8211; o \u00fanico constitu\u00eddo em bases n\u00e3o tribais.<\/p>\n<p>Em 1958-1959 assistiu, em Accra, capital do rec\u00e9m-independente Gana, de Nkrumah, \u00e0 primeira confer\u00eancia pan-africana dos povos &#8211; onde foi eleito para o seu secretariado permanente -, e em Ibadan, na Nig\u00e9ria, a um semin\u00e1rio internacional sobre cultura, onde fez um discurso defendendo a unidade africana e a independ\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>No come\u00e7o de 1960, em Bruxelas, participou na confer\u00eancia belga-congolesa em que foi acordada, entre os nacionalistas congoleses e a pot\u00eancia colonial, a independ\u00eancia do Congo, imposta pela longa resist\u00eancia popular e pelas reivindica\u00e7\u00f5es das for\u00e7as nacionalistas.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares de Maio de 1960, o MNC e partidos que o apoiavam conquistaram a maioria dos votos. A 30 de Junho o Congo tornou-se independente e Patrice Lumumba foi nomeado primeiro-ministro do governo da rep\u00fablica. O seu discurso nesse dia permanecer\u00e1 nos anais da diplomacia mundial como uma pe\u00e7a orat\u00f3ria magn\u00edfica, em que o jovem dirigente africano, na presen\u00e7a do rei Baldu\u00edno, da B\u00e9lgica, e de outros dignit\u00e1rios estrangeiros, denunciou abertamente os crimes hediondos do colonialismo belga sobre o povo congol\u00eas e tra\u00e7ou as perspectivas do futuro Congo, liberto das grilhetas da domina\u00e7\u00e3o estrangeira.<\/p>\n<p>Em Setembro desse ano Lumumba foi demitido pelo presidente Kasavubu, apoiado pelos Estados Unidos e por militares golpistas comandados por um certo coronel Mobutu. Em Novembro \u00e9 preso e, a 17 de Janeiro de 1961, depois de meses de deten\u00e7\u00e3o ilegal, \u00e9 barbaramente torturado e assassinado. N\u00e3o tinha ainda completado 36 anos e idade.<\/p>\n<p>\u2014\/\/\/\u2014<\/p>\n<p>Historiadores e jornalistas que investigaram as circunst\u00e2ncias do assassinato de Patrice Lumumba convergem na descri\u00e7\u00e3o do que se passou nesse deplor\u00e1vel 17 de Janeiro de 1961.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, a pol\u00edcia pol\u00edtica mobutista foi buscar Lumumba \u00e0 pris\u00e3o de Thysville e meteu-o num avi\u00e3o, com mais dois companheiros, Mpolo e Okito, enviando-os para a capital do Katanga \u00abindependente\u00bb. Durante a viagem para Elizabethville (depois Lubumbashi), os presos sofreram agress\u00f5es selv\u00e1ticas e, chegados ao aeroporto, foram recebidos por militares secessionistas catangueses e mercen\u00e1rios belgas. Atirados para dentro de um jipe e levados para uma quinta pr\u00f3xima, foram fuzilados nessa noite por um pelot\u00e3o comandado por um oficial belga. Os seus verdugos fizeram desaparecer os corpos de Lumumba e seus dois companheiros.<\/p>\n<p>Mais tarde, uma comiss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas encarregada de investigar o assassinato do jovem l\u00edder congol\u00eas responsabilizou pelo crime a administra\u00e7\u00e3o de L\u00e9opoldville chefiada pelo ent\u00e3o presidente Kasavubu e onde pontificava j\u00e1 Mobutu; as autoridades do Katanga; respons\u00e1veis da empresa belga Union Mini\u00e8re du Haut Katanga; e um grupo de mercen\u00e1rios ao servi\u00e7o de Tchomb\u00e9, l\u00edder dos secessionistas catangueses.<\/p>\n<p>\u00c9 conhecido tamb\u00e9m que uma outra comiss\u00e3o, esta do Senado dos Estados Unidos, que em meados dos anos Setenta do s\u00e9culo passado investigou as actividades dos servi\u00e7os de \u00abintelligence\u00bb norte-americanos, descobriu que a CIA organizou em Agosto de 1960 &#8211; o Congo era independente h\u00e1 apenas dois meses! &#8211; uma conspira\u00e7\u00e3o com o \u00abobjectivo urgente e priorit\u00e1rio\u00bb de assassinar o primeiro-ministro congol\u00eas. Para Allen Dulles, o ent\u00e3o director dos servi\u00e7os secretos norte-americanos, Patrice Lumumba era \u00abum perigo grave\u00bb que os Estados Unidos tiveram que eliminar.<\/p>\n<p>\u2014\/\/\/\u2014<\/p>\n<p>O afastamento de Lumumba da chefia do governo, a sua pris\u00e3o e o seu assassinato foram o resultado conjugado dos interesses do colonialismo belga &#8211; que, apesar da independ\u00eancia do Congo, continuou a pretender explorar a seu bel-prazer as riquezas do pa\u00eds &#8211; e da interven\u00e7\u00e3o do imperialismo norte-americano, atrav\u00e9s da CIA &#8211; o jovem primeiro-ministro era considerado por Washington um \u00abesquerdista\u00bb, simpatizante da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica -, coniventes com as Na\u00e7\u00f5es Unidas e com sectores da burguesia congolesa que n\u00e3o hesitaram em trair o seu povo e aliar-se \u00e0 domina\u00e7\u00e3o estrangeira.<\/p>\n<p>Um factor decisivo da trag\u00e9dia congolesa foi a secess\u00e3o do Katanga, prov\u00edncia congolesa rica em min\u00e9rios, que Mois\u00e9s Tchomb\u00e9 proclamou independente do Congo, financiado pela companhia Union Mini\u00e8re e com apoio de soldados belgas e de mercen\u00e1rios. O presidente Kasavubu e o primeiro-ministro Lumumba apelaram \u00e0 interven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que enviou uma pequena for\u00e7a para o pa\u00eds, sem conseguir evitar a guerra civil, que se prolongou at\u00e9 1964. No ano seguinte, neste contexto de prolongada conflitualidade, Mobutu assumiu a lideran\u00e7a do pa\u00eds, rebaptizado como Zaire, e implantou uma ditadura sangrenta, reinando despoticamente at\u00e9 1997, como um fantoche dos Estados Unidos e das pot\u00eancias ocidentais.<\/p>\n<p>\u2014\/\/\/\u2014<\/p>\n<p>J\u00e1 preso pela soldadesca golpista e antes de ser entregue aos secessionistas catangueses e mercen\u00e1rios estrangeiros que o haviam de assassinar poucos dias depois, Lumumba escreveu uma carta de despedida a sua mulher Pauline, em que reafirma a sua confian\u00e7a no futuro. S\u00e3o belas e comoventes, mas cheias de esperan\u00e7a, essas breves palavras, publicadas mais tarde pela revista \u00abJeune Afrique\u00bb:<\/p>\n<p>\u00ab(\u2026) N\u00e3o estamos s\u00f3s. A \u00c1frica, a \u00c1sia e os povos livres e libertados de todos os cantos do mundo estar\u00e3o sempre ao lado dos milh\u00f5es de congoleses que n\u00e3o abandonar\u00e3o a luta sen\u00e3o no dia em que n\u00e3o houver mais colonizadores e seus mercen\u00e1rios no nosso pa\u00eds. Aos meus filhos, a quem talvez n\u00e3o verei mais, quero dizer-lhes que o futuro do Congo \u00e9 belo e que o pa\u00eds espera deles, como eu espero de cada congol\u00eas, que cumpram o objectivo sagrado da reconstru\u00e7\u00e3o da nossa independ\u00eancia e da nossa soberania, porque sem justi\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 dignidade e sem independ\u00eancia n\u00e3o h\u00e1 homens livres.<\/p>\n<p>Nem as brutalidades, nem as sev\u00edcias, nem as torturas me obrigaram alguma vez a pedir clem\u00eancia, porque prefiro morrer de cabe\u00e7a erguida, com f\u00e9 inquebrant\u00e1vel e confian\u00e7a profunda no destino do meu pa\u00eds, do que viver na submiss\u00e3o e no desprezo pelos princ\u00edpios sagrados. A Hist\u00f3ria dir\u00e1 um dia a sua palavra; n\u00e3o a hist\u00f3ria que \u00e9 ensinada nas Na\u00e7\u00f5es Unidas, em Washington, Paris ou Bruxelas, mas a que ser\u00e1 ensinada nos pa\u00edses libertados do colonialismo e dos seus fantoches. A \u00c1frica escrever\u00e1 a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e ela ser\u00e1, no Norte e no Sul do Sahara, uma hist\u00f3ria de gl\u00f3ria e dignidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o chores por mim, minha companheira, eu sei que o meu pa\u00eds, que sofre tanto, saber\u00e1 defender a sua independ\u00eancia e a sua liberdade.<\/p>\n<p>Viva o Congo! Viva a \u00c1frica!\u00bb.<\/p>\n<p>Para os revolucion\u00e1rios do s\u00e9culo XXI em \u00c1frica e em todo o mundo, que hoje continuam a lutar em condi\u00e7\u00f5es diferenciadas contra a domina\u00e7\u00e3o imperialista e a explora\u00e7\u00e3o capitalista, Patrice Lumumba continua bem presente com o seu exemplo de patriota e combatente pela liberdade. E s\u00e3o de uma enorme actualidade as ideias que defendeu generosamente e pelas quais deu a vida &#8211; a urg\u00eancia da independ\u00eancia nacional e da genu\u00edna soberania para todos os pa\u00edses, a unidade africana, a luta intransigente contra o colonialismo e o neocolonialismo, o combate pela emancipa\u00e7\u00e3o social dos povos.<\/p>\n<p><em>*Jornalista, amigo e colaborador de <a href=\"http:\/\/odiario.info\/\" target=\"_blank\">odiario.info<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><em>Este texto foi publicado no Avante n\u00ba 1.938 de 20 de Janeiro de 2011.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=1944\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=1944<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nCarlos Lopes Pereira*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1182\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-1182","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c42-comunistas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-j4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1182","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1182"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1182\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1182"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1182"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}