{"id":11877,"date":"2016-08-18T20:26:17","date_gmt":"2016-08-18T23:26:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11877"},"modified":"2016-09-06T08:21:12","modified_gmt":"2016-09-06T11:21:12","slug":"rede-globo-heranca-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11877","title":{"rendered":"REDE GLOBO: HERAN\u00c7A DA DITADURA"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/ZAfYJ5mOwUB29_F5nQ1903Uh7OWy1nYKvi78GK-TG30pXo6k1E9zM-O-27whitoHmrPfrzS7wu8cyV8DV5ILXNWuMCFxjEpt--cN7hmJQdlRGk49fR_gC76smMSHAc3PRZVyg7uR-hIrvAkEzorclWkb0SAe7-3ue1iuQakcLtke3MrTq5Cc8Y6VOJKKq7oEovXJZTW6rt19kOutOmse6cgobkCXLy1vQFIzm4ts8vVePRCwczw0vDPe5i_bDtk_S39PBIoGa-05HYL1Xz32EmBKxGEGYG25thB5qDD94W-0W-13aWTN1lxBgiIiQw9UkCGsLWH27cjyx6yfNUb8G6f9cMbiUP32UaNI4dQd4saNoy7p5FUiHB39Y1BzbM-xUF_SxzeKtOHJet5xWrIXsQr9XDV6bTXE7WovElFocb4mQXwEf0xJcrKqI9khpJ_zt36GFd5ikHxaxzY5gCa3v1uIhrqRb-E5JZCkOEgFf_QcZqUW1iS_ZdPwMOeTJn5dBAFd4VwJ_Mh8xOGjvpbOuSgKMazdXgWqhGHWysReldys6xJAjClej1c8Nu5WurrqW-JDIXYEtKHrs4SvnYZy2T4AunevUAw=w610-h410-no\" alt=\"imagem\" \/>Paulo de Biase Di Blasio[i]<\/p>\n<p>A Rede Globo n\u00e3o tem formalmente o monop\u00f3lio das comunica\u00e7\u00f5es no pa\u00eds. Mas na pr\u00e1tica det\u00e9m esse monop\u00f3lio com suas empresas e pela grande rede de emissoras afiliadas. Domina o entretenimento com novelas, filmes e programas. Controla, por seu poderio econ\u00f4mico, <!--more-->importantes aspectos culturais do pa\u00eds, como o carnaval e o futebol. Seu jornalismo pauta os demais jornais e TVs. Na TV por assinatura controla 61 canais. Mas a hist\u00f3ria da Rede Globo \u00e9 repleta de ilegalidades, favorecimentos, defesa da ditadura empresarial-militar implantada em 1964 e apoio aos setores burgueses pr\u00f3-imperialistas.[1]<\/p>\n<p>A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, e principalmente na segunda metade da d\u00e9cada de 1950, o Brasil recebeu investimentos estrangeiros de grande monta. Em todas as \u00e1reas poss\u00edveis e permitidas pela legisla\u00e7\u00e3o brasileira. Gigantes norte-americanos das comunica\u00e7\u00f5es buscavam meios de penetrar no pa\u00eds, embora fosse vedada por lei qualquer associa\u00e7\u00e3o com estrangeiros nas comunica\u00e7\u00f5es (art. 160 da Constitui\u00e7\u00e3o). V\u00e1rias tentativas foram realizadas sem sucesso no setor televisivo. Em plena Guerra Fria, o controle das comunica\u00e7\u00f5es ganhava grande import\u00e2ncia na propaganda do modo de vida capitalista e na luta ideol\u00f3gica contra o socialismo.<\/p>\n<p>Em 1961, a R\u00e1dio Globo conseguiu a concess\u00e3o de uma emissora de TV. A concess\u00e3o era feita pessoalmente pelo Presidente da Rep\u00fablica, sem observar nenhum crit\u00e9rio, seja t\u00e9cnico, seja de viabilidade econ\u00f4mica, ou outro qualquer. Em 1962, a TV Globo Ltda. assinou dois contratos com o grupo norte-americano Time-Life (das revistas \u201cFortune\u201d, \u201cTime\u201d e \u201cLife\u201d), ultraconservador e pr\u00f3ximo ao Partido Republicano, o que era ilegal. E a Globo passou a receber milh\u00f5es de d\u00f3lares. Uma s\u00e9rie de artimanhas contratuais procurava escamotear as irregularidades, como, por exemplo, um contrato de loca\u00e7\u00e3o que tinha como locat\u00e1ria a Globo e como locador o Time-Life num terreno que pertencia \u00e0 TV Globo. Houve at\u00e9 invas\u00e3o do Cart\u00f3rio onde estava a escritura dessa transa\u00e7\u00e3o, sendo arrancada do livro a folha que constava esse documento. Isso tudo com a \u201cvista grossa\u201d das autoridades.<\/p>\n<p>O jornal O Globo sempre defendeu os setores mais reacion\u00e1rios das classes dominantes. Fez campanha contra o Governo Goulart e apoiou intransigentemente o Golpe de 1964. Com a ditadura empresarial-militar implantada, as Organiza\u00e7\u00f5es Globo sentiram os ventos favor\u00e1veis da impunidade. Mas as contradi\u00e7\u00f5es no seio dos setores golpistas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia e \u00e0 pol\u00edtica vieram \u00e0 tona. E a sociedade Globo-Time-Life sofreu den\u00fancias na C\u00e2mara de Deputados e nos \u00f3rg\u00e3os do governo. As irregularidades eram t\u00e3o flagrantes que a ABERT (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Empresas de R\u00e1dio e Televis\u00e3o), presidida pelo deputado federal Jo\u00e3o Calmon, diretor dos \u201cDi\u00e1rios Associados\u201d, e o golpista Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara, fizeram den\u00fancias contra a TV Globo, que iniciou suas transmiss\u00f5es em 1965. Calmon e Lacerda n\u00e3o eram personagens acima de qualquer suspeita e muito menos nacionalistas, mas procuravam preservar seus espa\u00e7os de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com os milh\u00f5es de d\u00f3lares do grupo Time-Life, a TV Globo adquiriu equipamentos modernos e contratou os melhores diretores administrativos, diretores de TV, t\u00e9cnicos e artistas de outras emissoras brasileiras. Uma concorr\u00eancia desleal e predat\u00f3ria. Executivos da Time-Life trabalhavam como assessores na TV Globo, tanto na parte administrativa quanto no setor art\u00edstico. O grupo Time-Life tinha participa\u00e7\u00e3o em 3% do faturamento da TV Globo, um valor considerado muito alto por especialistas. Do lado institucional, a CONTEL (Conselho Nacional de Telecomunica\u00e7\u00f5es) e o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a contemporizavam a favor de Roberto Marinho, evidenciando que os setores da burguesia pr\u00f3-imperialista ditavam as regras do novo regime pol\u00edtico. O Ministro do Planejamento Roberto Campos, conhecido como \u201cBob Fields\u201d pelo seu norte-americanismo, foi um dos suportes da Globo nesse processo. Roberto Marinho retribu\u00eda bajulando Campos em seu jornal.<\/p>\n<p>Mesmo com uma C\u00e2mara de Deputados depurada dos pol\u00edticos ligados \u00e0 esquerda e aos setores nacionalistas, as den\u00fancias contra a TV Globo provocaram a instala\u00e7\u00e3o de uma CPI para apurar as irregularidades em 1966. A CPI era composta em sua maioria por partid\u00e1rios da ditadura. Em depoimento \u00e0 Comiss\u00e3o, o presidente da ABERT, Jo\u00e3o Calmon afirmou: <em>\u201cEntretanto, se perdemos neste epis\u00f3dio, o Brasil deixar\u00e1 de ser um pa\u00eds independente para virar uma col\u00f4nia, um protetorado. \u00c9 muito mais f\u00e1cil, muito mais c\u00f4modo e muito mais barato, n\u00e3o exige derramamento de sangue, controlar a opini\u00e3o p\u00fablica atrav\u00e9s dos seus \u00f3rg\u00e3os de divulga\u00e7\u00e3o, do que construir bases militares ou financiar tropas de ocupa\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> (13\/04\/1966). Lacerda, que seria cassado pela ditadura tempos depois, percebendo que seus projetos pol\u00edticos n\u00e3o seriam vi\u00e1veis com os rumos trilhados pelo regime militar, afirmava na CPI, abordando a atua\u00e7\u00e3o do IPES (organiza\u00e7\u00e3o da burguesia pr\u00f3-imperialista) e do General Golbery, chamado por ele de Dr. Goebels: <em>\u201cEstavam estimulando no Brasil a forma\u00e7\u00e3o de um controle de opini\u00e3o p\u00fablica, de um controle sobre a opini\u00e3o, de tal modo que a meus olhos, como aos de outros informados, encontra-se o perigo progressivo e crescente de, dentro em breve, n\u00e3o saber mais o povo o que lhe interessa saber, mas o que pelo menos a outro povo interessa. O povo n\u00e3o vai formar a sua opini\u00e3o segundo os t\u00f3picos, as agendas, as ordens-do-dia, os assuntos, os temas, os problemas, as solu\u00e7\u00f5es que no livre debate se apresentem ao pa\u00eds, mas, sim, segundo as tend\u00eancias, os interesses criados ou por criar daqueles que tenham de fora para dentro interesses aqui.\u201d<\/em><\/p>\n<p>A CPI Globo-Time-Life, concluindo seus trabalhos, condenou essa associa\u00e7\u00e3o: <em>\u201cOs contratos firmados entre TV Globo e Time-Life ferem o artigo 160 da Constitui\u00e7\u00e3o &#8230; por isso, sugere-se ao Poder Executivo aplicar \u00e0 empresa faltosa a puni\u00e7\u00e3o legal pela infring\u00eancia daquele dispositivo constitucional.\u201d<\/em> Ocorre que a ditadura n\u00e3o tomou nenhuma atitude. O ditador Castelo Branco protelou e, em fim de governo, passou o pedido de reconsidera\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o feita pela Globo para o pr\u00f3ximo ditador, o Marechal Costa e Silva, que em setembro de 1968, aceitou as alega\u00e7\u00f5es de legalidade da Rede Globo. A partir da sociedade Globo-Time-Life, as organiza\u00e7\u00f5es Globo cresceram vertiginosamente, com v\u00e1rias concess\u00f5es de r\u00e1dios e TVs. Os investimentos da ditadura no sistema de telecomunica\u00e7\u00f5es (Embratel) facilitaram as a\u00e7\u00f5es da Globo em construir sua rede via sat\u00e9lite. Por outro lado, a Rede Globo retribu\u00eda essas benesses com a defesa e propaganda da ditadura empresarial-militar. Em seus telejornais e programas o pa\u00eds vivia seus melhores dias. Nenhuma cr\u00edtica, pelo contr\u00e1rio. Nos anos 60, o programa <em>\u201cAmaral Neto, o rep\u00f3rter\u201d<\/em>, do deputado udenista e golpista, era o espa\u00e7o de defesa ufanista das realiza\u00e7\u00f5es do regime militar. Em 1975, a TV Globo fez um programa especial sobre os onze anos da \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d, com o t\u00edtulo <em>\u201cBrasil: ontem, hoje e amanh\u00e3\u201d<\/em>, no qual faz uma escancarada defesa do Golpe de Estado, com severas cr\u00edticas ao governo Goulart e aos movimentos sociais, alardeando as grandes conquistas econ\u00f4micas e sociais do regime, prevendo um futuro brilhante para o pa\u00eds. (v\u00eddeo dispon\u00edvel no youtube: <a href=\"https:\/\/youtu.be\/eoJOraGa0ZU\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=https:\/\/youtu.be\/eoJOraGa0ZU&amp;source=gmail&amp;ust=1471648241802000&amp;usg=AFQjCNH9If_URrH0oXbgt6NjgLosHdlyGQ\">https:\/\/youtu.be\/eoJOraGa0ZU<\/a>)<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria da Rede Globo \u00e9 rica em exemplos de manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica em defesa dos interesses pol\u00edticos das classes dominantes, do sistema capitalista-imperialista e dos regimes pol\u00edticos que sustentam essa domina\u00e7\u00e3o. Vamos apenas citar os casos mais graves, que tiveram grande influ\u00eancia na pol\u00edtica brasileira. O caso das bombas do Riocentro no primeiro de maio de 1981 \u00e9 um claro exemplo de distor\u00e7\u00e3o da verdade em benef\u00edcio pol\u00edtico da ditadura.[2] A pol\u00edtica de \u201cabertura democr\u00e1tica\u201d da ditadura, que acenava com elei\u00e7\u00f5es para governadores em 1982, encontrava forte oposi\u00e7\u00e3o dos setores militares ligados aos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, a chamada \u201clinha dura\u201d. Numa demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a desses setores, foi articulado um ato terrorista contra o show do 1\u00ba de maio, Dia do Trabalhador, organizado por sindicatos e partidos de esquerda, com a presen\u00e7a de artistas de renome no cen\u00e1rio musical do pa\u00eds. Tudo foi feito para facilitar a a\u00e7\u00e3o terrorista: mudan\u00e7a da chefia de seguran\u00e7a do Riocentro e redu\u00e7\u00e3o do seu pessoal. Estimava-se a presen\u00e7a de 20 mil pessoas no evento. O objetivo da a\u00e7\u00e3o militar era dar um recado dos setores duros ao governo e provocar p\u00e2nico e mortes no show promovido por \u201cesquerdistas\u201d, j\u00e1 que as sa\u00eddas de emerg\u00eancia estavam trancadas. Uma bomba explodiu perto da casa de for\u00e7a, sem afetar o fornecimento de energia. Outra bomba explodiu num carro (Puma), no colo de um sargento, que morreu na hora, tendo ao seu lado um capit\u00e3o do ex\u00e9rcito, que ficou gravemente ferido. Apesar do forte isolamento da \u00e1rea feita por militares, as primeiras equipes de imprensa que chegaram ao Riocentro identificaram mais de uma bomba dentro do Puma. Na edi\u00e7\u00e3o de 06\/05, O Globo informava: <em>\u201cO laudo pericial sobre as explos\u00f5es ocorridas no Riocentro confirma que foram encontradas e desativadas por peritos, mais duas bombas dentro do Puma\u201d<\/em>. Ocorre que neste mesmo dia, o diretor-redator-chefe Roberto Marinho foi recebido pelo Comandante do I\u00ba Ex\u00e9rcito, General Gentil Marcondes Filho. No dia seguinte, O Globo informava: <em>\u201cFontes ligadas ao I\u00ba Ex\u00e9rcito asseguraram ontem a O Globo que o laudo sobre as bombas do Riocentro declara haver apenas duas: a que explodiu na casa de for\u00e7a e a que explodiu no carro&#8221;.<\/em> Estava montado o esquema para acobertar a participa\u00e7\u00e3o de militares no ato terrorista. Um IPM foi aberto pelo Ex\u00e9rcito para apurar os fatos e concluiu que os militares foram v\u00edtimas de um atentado de uma organiza\u00e7\u00e3o de esquerda. A farsa era t\u00e3o gritante que s\u00f3 idiotas acreditaram. Mas a Rede Globo cumpriu seu papel de guardi\u00e3 dos interesses das classes dominantes mais reacion\u00e1rias do pa\u00eds, porque naquele momento era preciso preservar politicamente os militares.<\/p>\n<p>Outro caso foi a campanha pelas Diretas J\u00e1 em 1984. A Rede Globo ignorou solenemente os primeiros com\u00edcios pelas elei\u00e7\u00f5es diretas para presidente da rep\u00fablica. As equipes da TV Globo que cobriam os com\u00edcios, cujas reportagens n\u00e3o iam ao ar, eram hostilizadas pelos manifestantes: \u201cO povo n\u00e3o \u00e9 bobo, abaixo a Rede Globo\u201d. Somente quando setores pol\u00edticos mais conservadores deram sinais de apoio \u00e0 campanha, a Rede Globo passou a transmitir reportagens dos com\u00edcios que ocorriam em todo o pa\u00eds. Quando a emenda Dante de Oliveira foi derrotada e a sa\u00edda pol\u00edtica das for\u00e7as burguesas democr\u00e1ticas conservadoras se inclinava para a disputa no Col\u00e9gio Eleitoral da ditadura, a Globo assumiu a sua defesa. A Globo, sempre sendo o term\u00f4metro pol\u00edtico do pa\u00eds, expressava os interesses das classes dominantes. A \u201ctransi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, a \u201cNova Rep\u00fablica\u201d, que estava assentada em acordos pol\u00edticos para garantir que n\u00e3o haveria grandes mudan\u00e7as socioecon\u00f4micas e nem retalia\u00e7\u00f5es contra os militares, foi entusiasticamente apoiada pela Rede Globo. A n\u00e3o derrubada da ditadura empresarial-militar \u00e9 respons\u00e1vel pelos grandes problemas pol\u00edticos e econ\u00f4micos que vivemos atualmente, dos quais o monop\u00f3lio da Rede Globo \u00e9 um dos mais graves.<\/p>\n<p>A primeira elei\u00e7\u00e3o direta para presidente, em 1989, ocorreu numa conjuntura econ\u00f4mica e pol\u00edtica bem conturbada. A infla\u00e7\u00e3o galopante, de 80% ao m\u00eas, anunciava um legado econ\u00f4mico desastroso para o novo presidente. A burguesia mais conservadora estava dividida e lan\u00e7ou v\u00e1rios candidatos, por\u00e9m com pouco lastro eleitoral (Paulo Maluf, Afif, Caiado, Ulisses, Aureliano e Covas). A burguesia mais progressista tinha Brizola de um lado e Lula do outro, com a Frente Brasil Popular, uma alian\u00e7a dos setores populares com a pequena burguesia. Correndo por fora e por um pequeno partido, um representante das oligarquias nordestinas, Collor de Mello, travestido de pol\u00edtico moderno. Pol\u00edtico ligado \u00e0 ditadura, governador de Alagoas e dono de TV afiliada \u00e0 Globo, Collor ficou popular como o \u201cca\u00e7ador de maraj\u00e1s\u201d, por sua campanha contra os servidores p\u00fablicos de altos sal\u00e1rios, campanha esta que foi amplamente apoiada pela neoliberal Rede Globo. Diante desse quadro pol\u00edtico-eleitoral, a burguesia brasileira associada ao imperialismo, temendo uma poss\u00edvel vit\u00f3ria de Lula ou Brizola, apostou todas as fichas em Collor de Mello, tido como o \u00fanico capaz de derrota-los nas urnas. No segundo turno das elei\u00e7\u00f5es, as pesquisas apontavam um grande equil\u00edbrio entre Collor e Lula, que contou com o apoio de Brizola. \u00c9 neste momento que a Globo entra em cena. No \u00faltimo debate, o executivo-mor da Rede Globo assessorou Collor, procurando torna-lo um candidato mais popular. O debate aconteceu tarde da noite, n\u00e3o sendo visto por grande parte da popula\u00e7\u00e3o. No dia seguinte, em hor\u00e1rio nobre, no Jornal Nacional, a Rede Globo transmitiu um compacto de seis minutos do debate, do tipo melhores momentos, assistido por 66% da audi\u00eancia. S\u00f3 que com os melhores momentos do Collor e os piores momentos do Lula. Uma manipula\u00e7\u00e3o descarada que foi reconhecida por jornalistas da pr\u00f3pria Rede Globo, que foram, por isso, demitidos. Para muitos especialistas em campanhas eleitorais esse compacto contribuiu em muito para a vit\u00f3ria de Collor (sobre esse assunto e outros casos da Rede Globo veja o v\u00eddeo \u201cMuito al\u00e9m do cidad\u00e3o Kane\u201d, dispon\u00edvel no youtube: <a href=\"https:\/\/youtu.be\/s-8scOe31D0\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=https:\/\/youtu.be\/s-8scOe31D0&amp;source=gmail&amp;ust=1471648241802000&amp;usg=AFQjCNGeCpno6lG3DBc2dPVVZO61y_oHow\">https:\/\/youtu.be\/s-8scOe31D0<\/a>).<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio mais recente da influ\u00eancia da Rede Globo na pol\u00edtica est\u00e1 bem vivo em nossa mem\u00f3ria. Foi o processo de impeachment da presidenta da rep\u00fablica. Com a derrota nas elei\u00e7\u00f5es de 2014, a burguesia associada ao imperialismo come\u00e7ou a se articular para criar as condi\u00e7\u00f5es para derrubar o lulapetismo. Para o imperialismo, a crise capitalista iniciada em 2008 passou a exigir, para a sua supera\u00e7\u00e3o, para recompor e ampliar os lucros do Capital, um violento ataque aos direitos da classe trabalhadora e \u00e0s economias nacionais dos pa\u00edses capitalistas perif\u00e9ricos como o Brasil. As medidas neoliberais contr\u00e1rias aos interesses dos trabalhadores dos governos petistas nos \u00faltimos 13 anos n\u00e3o bastaram para sanha por lucros da burguesia brasileira e do imperialismo. Era a hora de afastar intermedi\u00e1rios pequeno-burgueses e colocar um governo puro-sangue burgu\u00eas, totalmente afinado com o imperialismo. Mal come\u00e7a o segundo mandato, a m\u00eddia brasileira, comandada pela Rede Globo, desencadeia uma campanha sistem\u00e1tica contra o governo petista, municiada pelas informa\u00e7\u00f5es privilegiadas da Opera\u00e7\u00e3o Lava-jato. Esta opera\u00e7\u00e3o, comandada por um grupo de promotores e ju\u00edzes treinados pelos EUA, com acesso a informa\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia norte-americanos e com a Pol\u00edcia Federal a seu servi\u00e7o, virou vedete nos meios de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O mote da luta contra a corrup\u00e7\u00e3o ganhou a classe m\u00e9dia, sempre facilmente atra\u00edda e ludibriada por esse tema. De acordo com o que era veiculado pela m\u00eddia, parecia que o PT e seu governo inventaram a corrup\u00e7\u00e3o no honesto Brasil. Sem entrar na quest\u00e3o espec\u00edfica da corrup\u00e7\u00e3o, o objetivo pol\u00edtico da burguesia associada ao imperialismo era derrubar o lulapetismo, colocar em pr\u00e1tica sua pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal, atacando as conquistas dos trabalhadores e as empresas estatais, e inviabilizar o PT do ponto de vista pol\u00edtico-eleitoral, principalmente para 2018. Ou seja, evitar a qualquer custo um poss\u00edvel retorno da pol\u00edtica pequeno-burguesa petista ao governo. As manifesta\u00e7\u00f5es contra o governo do PT eram praticamente convocadas pelo jornalismo da Rede Globo. Com amplas coberturas, inclusive ao vivo, essas manifesta\u00e7\u00f5es passavam para a popula\u00e7\u00e3o uma percep\u00e7\u00e3o de que o pa\u00eds inteiro apoiava o impeachment da presidenta. At\u00e9 a imprensa imperialista registrou essa escandalosa manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica. O desfecho disso tudo todos sabemos.<\/p>\n<p>Como vimos, o monop\u00f3lio da Rede Globo \u00e9 muito prejudicial aos interesses da classe trabalhadora e dos setores populares. A manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente em todos os aspectos na programa\u00e7\u00e3o das empresas privadas de telecomunica\u00e7\u00f5es. A radical democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 um imperativo para a classe trabalhadora. Mas a democratiza\u00e7\u00e3o radical dos meios de comunica\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorrer\u00e1 quando as massas tomarem o poder, constituindo o Poder Popular. As empresas de comunica\u00e7\u00e3o devem estar sob controle dos trabalhadores e submetidas aos organismos populares constru\u00eddos no processo da luta revolucion\u00e1ria pelo Socialismo.<\/p>\n<hr \/>\n<div>\n<div>[1] Sobre o processo de forma\u00e7\u00e3o da TV Globo nos anos 1960, baseamo-nos no livro de Daniel Herz, <em>A hist\u00f3ria secreta da Rede Globo<\/em>, de 1987, da Editora Tch\u00ea!<\/div>\n<div>[2] Informa\u00e7\u00f5es colhidas do livro de Belisa Ribeiro, <em>Bomba no Riocentro<\/em>, de 1981, da editora Codecri.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<hr \/>\n<p>[i] Professor da rede p\u00fablica de Nova Friburgo, Estado do Rio de Janeiro<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Paulo de Biase Di Blasio[i] A Rede Globo n\u00e3o tem formalmente o monop\u00f3lio das comunica\u00e7\u00f5es no pa\u00eds. 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