{"id":11883,"date":"2016-08-18T20:52:38","date_gmt":"2016-08-18T23:52:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11883"},"modified":"2016-09-06T08:21:39","modified_gmt":"2016-09-06T11:21:39","slug":"estados-unidos-ocultam-informacao-sobre-presos-politicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11883","title":{"rendered":"Estados Unidos ocultam informa\u00e7\u00e3o sobre presos pol\u00edticos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/operamundi.uol.com.br\/media\/images\/presospoliticos.png?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Breno Altman | Nova York &#8211; 02\/08\/2016 &#8211; 06h00<\/p>\n<p>O diplomata Andrew Jackson Young foi figura de destaque quando Jimmy Carter governava os Estados Unidos, entre 1977 e 1980. Nascido em Nova Orleans, negro e democrata, iria completar 45 anos quando assumiu o posto de embaixador nas Na\u00e7\u00f5es Unidas.<!--more--><\/p>\n<p>Era este o cargo que desempenhava quando deu, em julho de 1978, c\u00e9lebre entrevista ao jornal franc\u00eas <em>Le Matin<\/em>. O assunto era a repress\u00e3o contra dissidentes na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. N\u00e3o hesitou, por\u00e9m, em tocar nas pr\u00f3prias feridas nacionais.<\/p>\n<p>\u201cAinda temos centenas de pessoas, em nossas cadeias, que poderia classificar como prisioneiros pol\u00edticos\u201d, afirmou Young, a respeito de ativistas que tinham sido encarcerados nos anos 60 e 70.<\/p>\n<p>A casa quase caiu.<\/p>\n<p>Young chegou a sofrer processo de impeachment na C\u00e2mara dos Deputados, salvando seu mandato por 293 a 82 votos. O pr\u00f3prio presidente Carter referiu-se a suas palavras como \u201cdepoimento infeliz\u201d. O fato \u00e9 que o diplomata sincero jamais voltaria a desempenhar qualquer papel relevante na pol\u00edtica de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Depois de quase quatro d\u00e9cadas da retumbante confiss\u00e3o, pouca coisa mudou, apesar do fim da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos continuam a ocultar que mant\u00eam presos pol\u00edticos, pois n\u00e3o fica bem para a imagem de uma na\u00e7\u00e3o que se autoafirma l\u00edder do mundo livre e democr\u00e1tico. Ali\u00e1s, que explica a a\u00e7\u00e3o de seus tanques e avi\u00f5es ao redor do planeta como exporta\u00e7\u00e3o da liberdade.<\/p>\n<p>Das centenas de presos reconhecidos pelo ex-embaixador, algumas dezenas ainda permanecem em calabou\u00e7o. Muitos morreram ou cumpriram suas penas. Mas novos dissidentes foram capturados ao longo do tempo.<\/p>\n<p>A reportagem de <strong>Opera Mundi<\/strong>, depois de entrevistar diversos l\u00edderes de grupos humanit\u00e1rios e pesquisar sua documenta\u00e7\u00e3o, pode consolidar lista m\u00ednima de 54 condenados por raz\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o inclui apenas ativistas que tenham sido julgados por supostos crimes cometidos dentro do territ\u00f3rio norte-americano. Est\u00e3o fora desse c\u00e1lculo, por exemplo, os desterrados de Guant\u00e1namo.<\/p>\n<p>A maioria dos prisioneiros \u00e9 formada por minorias raciais ou nacionais.<\/p>\n<p>O contingente mais expressivo vem dos antigos Panteras Negras e suas ramifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>V\u00e1rios destes detentos est\u00e3o atr\u00e1s das grades h\u00e1 mais de 40 anos, quando Young ainda n\u00e3o havia reconhecido o drama pol\u00edtico e humano que enxovalharia qualquer na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O presidente Barack Obama, no funeral de Nelson Mandela, em 2014, fez quest\u00e3o de lembrar o mart\u00edrio de Madiba, que passou mais de 28 anos trancafiado pelo regime do apartheid, cumprindo senten\u00e7a por conspira\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia armada.<\/p>\n<p>Se fosse tocado pela mesma compaix\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a compatriotas seus, encontraria 37 presos que j\u00e1 ultrapassaram, alguns a perder de vista, o tempo de c\u00e1rcere do l\u00edder sul-africano. Todos igualmente apenados por conspira\u00e7\u00e3o ou resist\u00eancia armada.<\/p>\n<p>Outros pa\u00edses ocidentais que viveram processos de confronto interno, como It\u00e1lia e Alemanha, foram virando a p\u00e1gina dos anos de chumbo. Os militantes da insurg\u00eancia \u2014 como os filiados \u00e0s Brigadas Vermelhas ou ao grupo Baader-Meinhof \u2014 recuperaram progressivamente sua cidadania.<\/p>\n<p>Ao sul do rio Grande, na\u00e7\u00f5es latino-americanas tamb\u00e9m superaram a chaga dos presos pol\u00edticos, herdada de ditaduras que contavam com a simpatia geopol\u00edtica da Casa Branca.<\/p>\n<p><strong>Press\u00e3o interna<\/strong><\/p>\n<p>Os Estados Unidos, por\u00e9m, preferem manter abertas estas feridas. N\u00e3o hesitam em brandir cobran\u00e7as sobre direitos humanos em outras pra\u00e7as, mas se recusam a limpar o pr\u00f3prio quintal.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o entre discurso e realidade parece profunda ao ponto de provocar deser\u00e7\u00f5es no centro do poder. O advogado Ramsey Clark, hoje com 88 anos, talvez seja o principal expoente desta dissid\u00eancia palaciana.<\/p>\n<p>Como procurador-geral, chefiou o Departamento de Justi\u00e7a entre 1967 e 1969, durante a gest\u00e3o do democrata Lyndon Johnson, quando foram aprovadas as principais leis antissegregacionistas. Acumulou desgostos, no entanto, com a escalada repressiva comandada pelo FBI (a pol\u00edcia federal norte-americana), ent\u00e3o sob o comando de John Edgar Hoover, cujos alvos principais eram organiza\u00e7\u00f5es que lutavam contra o racismo e a Guerra do Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>Depois de se afastar do cargo, paulatinamente assumiu causas p\u00fablicas e judiciais contra o sistema.<\/p>\n<p>\u201cOs presos pol\u00edticos n\u00e3o t\u00eam reconhecimento legal, s\u00e3o tratados como inimigos do Estado\u201d, afirma, com sua voz baixa e pausada, que trai a cada s\u00edlaba o sotaque texano. \u201cO objetivo \u00e9 que sirvam de exemplo para novas gera\u00e7\u00f5es, estabelecendo o pre\u00e7o a pagar se recorrerem \u00e0 rebeli\u00e3o e \u00e0 insubordina\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Muitos dos condenados, ali\u00e1s, se consideram prisioneiros de guerra, v\u00edtimas de ofensiva militar destinada a subjugar o povo afro-americano e preservar um regime de supremacia branca. Essa era a raz\u00e3o na qual encontravam legitimidade para a\u00e7\u00f5es de autodefesa e ataque armado.<\/p>\n<p><strong>Irregularidades nos processos<\/strong><\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muitas condena\u00e7\u00f5es fabricadas, com press\u00e3o \u00e0s testemunhas e elimina\u00e7\u00e3o de provas a favor dos r\u00e9us\u201d, declara o advogado Robert Boyle, 61 anos, desde o final da universidade dedicado \u00e0 defesa de presos pol\u00edticos. \u201cUm acordo t\u00e1cito, que amarra o sistema judicial e as pol\u00edcias, determina regras especiais de repress\u00e3o contra integrantes de grupos revolucion\u00e1rios, muitas vezes violando o devido processo legal.\u201d<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo a Anistia Internacional, que normalmente indefere casos de luta armada, corrobora a tese de Boyle.<\/p>\n<p>S\u00e3o ilustrativas as situa\u00e7\u00f5es de Ed Poindexter e Mondo we Langa (nome africano de David Rice), l\u00edderes dos Panteras Negras em Omaha, no estado de Nebraska. Poindexter est\u00e1 preso h\u00e1 45 anos, cumprindo pris\u00e3o perp\u00e9tua pelo assassinato de um policial. Langa, depois de passar o mesmo per\u00edodo detido, morreu em 11 de mar\u00e7o de 2016.<\/p>\n<p>A \u00fanica prova condenat\u00f3ria foi o testemunho de um adolescente torturado e amea\u00e7ado com a cadeira el\u00e9trica se n\u00e3o colocasse a culpa nos dois militantes. A gravidade do epis\u00f3dio levou os dirigentes da mais conhecida entidade humanit\u00e1ria do planeta a classific\u00e1-los como presos de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Abundantes, as den\u00fancias de ilegalidades competem com cr\u00edticas \u00e0s normas processuais e sua execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cOs presos pol\u00edticos quase nunca recebem o benef\u00edcio da liberdade condicional a que t\u00eam direito\u201d, ressalta Boyle, com um sorriso amargurado de quem v\u00ea a si pr\u00f3prio dando murros em ponta de faca. \u201cAl\u00e9m da m\u00e1 vontade das mesas de avalia\u00e7\u00e3o, \u00e9 gigantesca a press\u00e3o das associa\u00e7\u00f5es policiais para impedir a liberta\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 acusado pela morte de algum colega.\u201d<\/p>\n<p>Muitas vezes as condena\u00e7\u00f5es foram baseadas em dispositivo jamais acionado para crimes comuns. Trata-se de lei estabelecida em 1861, que criou o delito de conspira\u00e7\u00e3o sediciosa, para punir governos estaduais que se levantassem contra a Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltou a ser utilizada na persegui\u00e7\u00e3o a comunistas e anarquistas durante as duas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, antes de fazer parte do card\u00e1pio repressivo da Guerra Fria.<\/p>\n<p>\u201cConspira\u00e7\u00e3o sediciosa \u00e9 instrumento de criminaliza\u00e7\u00e3o da contesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, explica o advogado Bret Grote, diretor do Centro Legal Abolicionista, de Pittsburgh, na Pensilv\u00e2nia, organiza\u00e7\u00e3o que se dedica a pressionar pela mudan\u00e7a dos c\u00f3digos penais. \u201cEssa regra dispensa prova material de crime e leva \u00e0 cadeia quem comete delito de inten\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Tal lei responde pela condena\u00e7\u00e3o, a 55 anos, do l\u00edder comunit\u00e1rio Oscar L\u00f3pez Rivera, preso desde 1981. O crime mais relevante pelo qual foi julgado \u00e9 o de ter integrado as For\u00e7as Armadas de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, grupo independentista de Porto Rico, seu pa\u00eds de nascimento, por muitos historiadores considerado uma esp\u00e9cie de col\u00f4nia norte-americana, ainda que usufrua do estatuto de estado aut\u00f4nomo.<\/p>\n<p>Her\u00f3i no Vietn\u00e3, condecorado com a Estrela de Bronze, Rivera n\u00e3o pode ser efetivamente conectado a nenhum delito comprovado, mas sua filia\u00e7\u00e3o a um partido separatista foi suficiente para faz\u00ea-lo mofar atr\u00e1s das grades.<\/p>\n<p><strong>P\u00f3s-11 de setembro<\/strong><\/p>\n<p>Poucos dos 59 presos pol\u00edticos ainda t\u00eam possibilidade de apela\u00e7\u00e3o, embora muitos possam reapresentar, ano ap\u00f3s ano, pedidos de liberdade condicional, costumeiramente negados.<\/p>\n<p>Aqueles que foram condenados por ju\u00edzes estaduais, tamb\u00e9m estariam aptos ao indulto dos respectivos governadores. Os presos federais dependem da boa vontade do presidente da Rep\u00fablica, que n\u00e3o pode interferir nas decis\u00f5es dos Estados.<\/p>\n<p>Mas uma cortina de ferro esconde a saga destes homens e mulheres.<\/p>\n<p>Tudo piorou depois dos atentados de 2001 e a declara\u00e7\u00e3o de \u201cguerra ao terror\u201d, com a ado\u00e7\u00e3o do Ato Patriota, enfraquecendo ainda mais as garantias legais de suspeitos por agirem contra o Estado.<\/p>\n<p>Novas levas de presos, majoritariamente de origem mu\u00e7ulmana, se somaram aos antigos combatentes aprisionados.<\/p>\n<p>Os principais ve\u00edculos de imprensa, normalmente \u00e1vidos por denunciar atropelos humanit\u00e1rios em outras fronteiras, raramente contam ou investigam esta trag\u00e9dia norte-americana.<\/p>\n<p>O Departamento de Justi\u00e7a, insistentemente procurado pela reportagem de\u00a0<strong>Opera Mundi<\/strong>, prometeu dar sua vers\u00e3o dos fatos, mas preferiu o sil\u00eancio e informou, atrav\u00e9s de seu porta-voz, que n\u00e3o havia interesse em tratar do assunto.<\/p>\n<p>Nada a declarar, registre-se, sempre foi uma das respostas preferidas de governantes que desejam esconder a brutalidade que praticam ou acobertam.<\/p>\n<p>http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/reportagens\/42468\/estados+unidos+ocultam+informacao+sobre+presos+politicos.shtml<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Breno Altman | Nova York &#8211; 02\/08\/2016 &#8211; 06h00 O diplomata Andrew Jackson Young foi figura de destaque quando Jimmy Carter governava os \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11883\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[],"class_list":["post-11883","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-35F","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11883","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11883"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11883\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11883"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11883"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11883"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}