{"id":1192,"date":"2011-02-06T21:12:40","date_gmt":"2011-02-06T21:12:40","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1192"},"modified":"2011-02-06T21:12:40","modified_gmt":"2011-02-06T21:12:40","slug":"egito-a-aposta-no-leopardo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1192","title":{"rendered":"Egito, a aposta no leopardo"},"content":{"rendered":"\n<p>Hillary Clinton declarou \u00e0 imprensa que \u00e9 preciso evitar a todo custo o vazio de poder no Egito, que o objetivo da Casa Branca era uma transi\u00e7\u00e3o ordenada \u00e0 democracia, \u00e0 reforma social, \u00e0 justi\u00e7a econ\u00f4mica, e que Hosni Mubarak era o presidente do Egito e o que importava era o processo, a transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que ocorreu em outra ocasi\u00e3o, o presidente Obama n\u00e3o exigiria a sa\u00edda do l\u00edder que caiu em desgra\u00e7a. Como n\u00e3o poderia ser de outro modo, as declara\u00e7\u00f5es da secret\u00e1ria de Estado refletem a concep\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica que os EUA mant\u00eam desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, cuja gravidade foi acentuada ap\u00f3s o assassinato de Anwar El-Sadat, em 1981, e em seguida pela posse de seu vice-presidente, Hosni Mubarak.<\/p>\n<p>Sadat se converteu em uma pe\u00e7a-chave para os Estados Unidos e Israel \u2013 o Egito passou para a mesma categoria \u2013 ao ser o primeiro chefe de Estado de um pa\u00eds \u00e1rabe a reconhecer o Estado de Israel e firmar um Tratado de Paz entre os dois pa\u00edses, em 26 de mar\u00e7o de 1979. As d\u00favidas e os rancores de Sadat e do primeiro-ministro israelense, Men\u00e1jem Begin, como conseq\u00fc\u00eancia de cinco guerras e que tornavam as negocia\u00e7\u00f5es de paz intermin\u00e1veis, foram rapidamente deixadas de lado quando tanto eles como o presidente Jimmy Carter souberam que um aliado estrat\u00e9gico pr\u00f3-estadunidense na regi\u00e3o, o x\u00e1 do Ir\u00e3, havia sido derrotado por uma revolu\u00e7\u00e3o popular e buscou ref\u00fagio no Egito. Com a queda do x\u00e1, nasceu a rep\u00fablica isl\u00e2mica com a dire\u00e7\u00e3o do aiatol\u00e1 Ruhollah Khomeini, que era para os Estados Unidos e para toda a &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o americana&#8221; o &#8220;Grande Sat\u00e3&#8221;, o inimigo jurado do Isl\u00e3.<\/p>\n<p>Se a violenta derrubada do x\u00e1 sacudia o solo do Oriente M\u00e9dio, n\u00e3o eram melhores as not\u00edcias que vinham do convulsionado quintal centro-americano: em 19 de julho de 1979, a Frente Sandinista entrava em Man\u00e1gua e colocava fim \u00e0 ditadura de Anastasio Somoza, complicando ainda mais o quadro geopol\u00edtico norte-americano.<\/p>\n<p>A partir desse momento, o delicad\u00edssimo equil\u00edbrio do Oriente M\u00e9dio tinha no Egito a sua \u00e2ncora estabilizadora, que a pol\u00edtica exterior norte-americana se encarregou de refor\u00e7ar a qualquer pre\u00e7o, mesmo sabendo que no reinado de Mubarak a corrup\u00e7\u00e3o, o narcotr\u00e1fico e a lavagem de dinheiro cresciam a um ritmo que s\u00f3 era superado pelo processo de pauperiza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o social que afetavam os crescentes setores da popula\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia; e que a feroz repress\u00e3o contra o menor ind\u00edcio de dissid\u00eancia e as torturas eram coisas di\u00e1rias.<\/p>\n<p>Hip\u00f3critas e oportunistas<\/p>\n<p>Por isso, soam insuportavelmente hip\u00f3critas e oportunistas os apelos do presidente Obama e de sua secret\u00e1ria de Estado para que um regime corrupto e repressivo como poucos no mundo \u2013 o qual os EUA mantiveram e financiaram por d\u00e9cadas \u2013 trilhe o caminho das reformas econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Um regime para o qual Washington podia enviar prisioneiros para a tortura, sem precisar enfrentar as irritantes restri\u00e7\u00f5es legais, e no qual a esta\u00e7\u00e3o da CIA no Cairo podia operar sem nenhum obst\u00e1culo sua &#8220;guerra contra o terrorismo&#8221;. Um regime que ainda pode bloquear a internet e a telefonia celular, e que apenas despertou um leve protesto por parte de Washington. A rea\u00e7\u00e3o seria a mesma se Hugo Ch\u00e1vez tivesse cometido tais ultrajes?<\/p>\n<p>&#8220;Mubarakismo&#8221; sem Mubarak<\/p>\n<p>Ao que tudo indica, Mubarak cruzou o ponto em que n\u00e3o haver\u00e1 retorno. O problema que se apresenta para Obama \u00e9 o de construir um &#8220;mubarakismo&#8221; sem Mubarak. Isto \u00e9, garantir uma mudan\u00e7a por um substituto adequado \u00e0 autocracia pr\u00f3-EUA. Como dizia o Leopardo: &#8220;algo precisa mudar para que tudo fique como est\u00e1&#8221;. [1]<\/p>\n<p>Esta foi a f\u00f3rmula que Washington tentou impor meses antes da derrota do somozismo na Nicar\u00e1gua, apelando para um personagem do regime, Francisco Urcuyo, presidente do Congresso Nacional, cuja primeira e praticamente \u00faltima iniciativa como fugaz presidente foi solicitar \u00e0 Frente Sandinista, que estava esmagando a guarda nacional somozista pelos quatro cantos do pa\u00eds, que depusesse as armas. Foi deposto em poucos dias e, na linguagem popular nicarag\u00fcense, o ex-presidente passou a ser lembrado como &#8220;Urcuyo, o ef\u00eamero&#8221;.<\/p>\n<p>A Casa Branca est\u00e1 tentando algo similar: pressionou Mubarak para designar um vice-presidente na esperan\u00e7a de n\u00e3o repetir o fiasco de Urcuyo. A designa\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser mais inapropriada, pois caiu para o chefe dos servi\u00e7os de intelig\u00eancia do ex\u00e9rcito, Omar Suleiman, um homem mais refrat\u00e1rio \u00e0 abertura democr\u00e1tica do que o pr\u00f3prio Mubarak, e cujas credenciais n\u00e3o s\u00e3o precisamente as que almejam as massas que exigem democracia.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria<\/p>\n<p>Quando estas ganham as ruas e atacam numerosos quart\u00e9is da odiada pol\u00edcia e dos n\u00e3o-menos odiados espi\u00f5es, informantes e organismos da intelig\u00eancia estatal, Mubarak designa o chefe destes servi\u00e7os para liderar as reformas democr\u00e1ticas. \u00c9 uma piada de mau gosto e assim foi recebida pelos eg\u00edpcios, que continuaram tomando as ruas convencidos de que o ciclo de Mubarak havia terminado e que precisavam exigir sua ren\u00fancia sem mais tr\u00e2mites.<\/p>\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o do socialismo marxista, diz-se que uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria se constitui quando os de cima n\u00e3o podem dominar como antes e os de baixo j\u00e1 n\u00e3o querem ser dominados como antes. Os de cima n\u00e3o podem porque a pol\u00edtica foi derrotada nas lutas de ruas e os oficiais e soldados do ex\u00e9rcito confraternizam com os manifestantes ao inv\u00e9s de reprimi-los. N\u00e3o seria de se estranhar que alguma outra filtra\u00e7\u00e3o, tipo Wikileaks, desvende as intensas press\u00f5es da Casa Branca para que o anci\u00e3o d\u00e9spota abandone o Egito o quanto antes para evitar uma reedi\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia de Teer\u00e3.<\/p>\n<p>As alternativas que se abrem para os Estados Unidos s\u00e3o poucas e ruins: a) sustentar o regime atual, pagando um custo pol\u00edtico fenomenal, n\u00e3o s\u00f3 no mundo \u00e1rabe, para defender suas posi\u00e7\u00f5es e privil\u00e9gios nessa regi\u00e3o crucial do planeta; b) uma tomada de poder por uma alian\u00e7a c\u00edvico-militar onde os opositores de Mubarak estar\u00e3o destinados a exercer uma gravita\u00e7\u00e3o cada vez maior; ou c) o pior dos pesadelos, se \u00e9 produzido o temido vazio de poder e os islamitas da Irmandade Mu\u00e7ulmana tomam o governo de assalto.<\/p>\n<p>Sob qualquer destas hip\u00f3teses as coisas j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e3o como antes, pois mesmo em uma variante mais moderada a probabilidade de que um novo regime no Egito continue sendo um fiel e incondicional pe\u00e3o de Washington \u00e9 extremamente baixo e, no melhor dos casos, altamente inst\u00e1vel. E se o desenlace \u00e9 o radicalismo islamita, a situa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos e Israel na regi\u00e3o ser\u00e1 extremamente vulner\u00e1vel, levando-se em conta o efeito domin\u00f3 da crise que come\u00e7ou na Tun\u00edsia, seguiu para o Egito e est\u00e1 sendo sentida em outros importantes aliados dos EUA, como Jord\u00e2nia e I\u00eamen, e que pode aprofundar a derrota militar norte-americana no Iraque e precipitar uma d\u00e9b\u00e2cle no Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>Caso estes progn\u00f3sticos sejam cumpridos, o conflito palestino-israelense iria adquirir resson\u00e2ncias in\u00e9ditas, cujos ecos chegariam at\u00e9 os suntuosos pal\u00e1cios dos emirados do Golfo e da pr\u00f3pria Ar\u00e1bia Saudita, mudando dramaticamente e para sempre o tabuleiro da pol\u00edtica e da economia mundiais.<\/p>\n<p>03\/Fevereiro\/2011<\/p>\n<p>[1] O Leopardo, romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa e filme de Luchino Visconti<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Boston.com\n\n\n\n\n\n\n\n\npor Atilio Boron [*]\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1192\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-1192","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-je","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1192","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1192"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1192\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}