{"id":11920,"date":"2016-08-24T01:55:15","date_gmt":"2016-08-24T04:55:15","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11920"},"modified":"2016-09-27T15:26:07","modified_gmt":"2016-09-27T18:26:07","slug":"a-longa-depressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11920","title":{"rendered":"A longa depress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/crise\/imagens\/the_long_depression_capa.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Michael Roberts*<\/p>\n<p>entrevistado por Mark Kilian**<\/p>\n<p><i>MK: Nosso governo diz que a economia se recupera. Ao mesmo tempo, vemos que a Gr\u00e9cia precisa continuamente de &#8220;pacotes de resgate&#8221; e agora h\u00e1 problemas na It\u00e1lia. Qual \u00e9 o estado da economia mundial? <\/i><!--more--><\/p>\n<p>MR: O desenvolvimento da economia mundial desde 1945 n\u00e3o tem sido harmonioso, n\u00e3o vai em linha recta para cima. Tem havido uma s\u00e9rie de booms e recess\u00f5es. Com isso, quero dizer que um decl\u00ednio no rendimento nacional ou no produto nacional de um pa\u00eds durante pelo menos seis meses, antes da recupera\u00e7\u00e3o e retomada do crescimento.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 diferente acerca do per\u00edodo recente \u00e9 que tivemos um afundamento muito grande em 2008-9 ap\u00f3s o crash banc\u00e1rio internacional. A Grande Recess\u00e3o, a qual perdurou durante 18 meses, foi a maior desde a d\u00e9cada de 1930. Em consequ\u00eancia, todas as grandes economias do mundo, incluindo a Holanda, assistiram a um decl\u00ednio dr\u00e1stico do seu rendimento nacional e produto nacional. Toda vez que acontece milh\u00f5es de pessoas terem suas vidas arruinadas, elas perdem seus empregos e possivelmente seus lares porque n\u00e3o podem pagar a renda ou a hipoteca. Para culminar tudo isto, governos aprovaram toda esp\u00e9cie de medidas, de cortes nos servi\u00e7os p\u00fablicos e de bem-estar, os quais tamb\u00e9m prejudicaram a popula\u00e7\u00e3o. Todo esse per\u00edodo de decl\u00ednio \u00e9 uma perda permanente. Se n\u00e3o tivesse havido o afundamento, o produto e o rendimento teriam sido mais elevados, os empregos teriam sido melhores. Isso nunca poder\u00e1 ser recuperado.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a desta vez, em compara\u00e7\u00e3o com outras crises, \u00e9 que a recupera\u00e7\u00e3o da Grande Recess\u00e3o tem sido incrivelmente fraca. \u00c9 a mais fraca recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica desde a d\u00e9cada de 1930. A partir do fim da Grande Recess\u00e3o, ap\u00f3s sete anos, a maior parte das economias dificilmente recuperou para o n\u00edvel em que estavam em 2007. Isso mostra qu\u00e3o lenta tem sido.<\/p>\n<p>Observe-se a It\u00e1lia: <a href=\"http:\/\/www.imf.org\/external\/pubs\/cat\/longres.aspx?sk=44071.0\" target=\"_new\"> o FMI apresentou um relat\u00f3rio que \u00e9 realmente chocante<\/a> . N\u00e3o s\u00f3 a It\u00e1lia tem uma importante crise banc\u00e1ria que em breve poderia vir a provocar o crash da banca a menos que o governo a salve (bails out), como o FMI considerou que o PIB e o produto da It\u00e1lia n\u00e3o retomariam o n\u00edvel de 2007 sen\u00e3o em 2025! S\u00e3o duas d\u00e9cadas perdidas de produto, rendimento, empregos e melhores condi\u00e7\u00f5es para o povo italiano. Isto mostra qu\u00e3o m\u00e1 tem sido a recupera\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>O produto, o emprego e os rendimentos do povo na maior parte das economias e para a maior parte do povo n\u00e3o recuperam o n\u00edvel de 2007. <a href=\"http:\/\/www.mckinsey.com\/global-themes\/employment-and-growth\/poorer-than-their-parents-a-new-perspective-on-income-inequality\" target=\"_new\"> Segundo um novo relat\u00f3rio da McKinsey<\/a> , os consultores em gest\u00e3o, dois ter\u00e7os das fam\u00edlias nas 26 economias da OCDE em 2015 t\u00eam padr\u00f5es de vida mais baixos do que em 2005!<\/p>\n<p>Assim, esta \u00e9 uma recupera\u00e7\u00e3o realmente muito fraca e, na minha opini\u00e3o, h\u00e1 todo o perigo, antes de retornarmos aos n\u00edveis anteriores, se \u00e9 que o faremos, de que a economia mundial deslize para dentro de um outro afundamento dentro de um ano ou dois.<\/p>\n<p><i>MK: No seu novo livro descreve tr\u00eas depress\u00f5es: a dos anos 1873-1897, 1929-39 e a presente. Haver\u00e1 algo que possamos aprender com isto? <\/i><\/p>\n<p>MR: Na minha \u00f3ptica n\u00e3o se trata de uma recess\u00e3o normal, mas sim de uma depress\u00e3o. Esta \u00e9 diferente dos afundamentos <i> (slumps) <\/i> normais. Isso n\u00e3o acontece muito frequentemente. Na hist\u00f3ria do capitalismo moderno, do s\u00e9culo XIX at\u00e9 agora, houve apenas tr\u00eas grandes depress\u00f5es. Numa depress\u00e3o, a recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o fraca que as economias n\u00e3o retornam \u00e0 mesmas taxas de crescimento ou mesmo ao n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o que existia anteriormente, excepto durante um per\u00edodo muito longo.<\/p>\n<p>Houve um grande afundamento em 1873 na Gr\u00e3-Bretanha, Alemanha e EUA, ent\u00e3o as principais economias capitalistas. N\u00e3o houve recupera\u00e7\u00e3o forte depois disso. Houve uma s\u00e9rie de afundamentos os quais perduraram durante os 20 anos seguintes. Aquilo foi uma depress\u00e3o: um baixo n\u00edvel de crescimento e uma s\u00e9rie de afundamentos. Foi preciso realmente um longo tempo antes de uma recupera\u00e7\u00e3o sustentada se tornar poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A segunda depress\u00e3o \u00e9 chamada a Grande Depress\u00e3o. Esta come\u00e7ou com o colapso dos mercados de ac\u00e7\u00f5es nos EUA em 1929, semelhante ao colapso do mercado habitacional nos EUA em 2007. Ap\u00f3s o crash de 1929 os EUA, a maior economia capitalista do mundo, entrou na mais severa depress\u00e3o. Houve desemprego em massa prolongado e n\u00e3o houve recupera\u00e7\u00e3o real durante a d\u00e9cada de 1930. A \u00fanica coisa que acabou com ela foi a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, juntamente com a Gr\u00e3-Bretanha, contra as chamadas pot\u00eancias do Eixo. A produ\u00e7\u00e3o governamental foi aumentada, a qual levou ao crescimento econ\u00f3mico e \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o. Assim, s\u00f3 a guerra provocou a recupera\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1930. Na minha \u00f3ptica, estamos num per\u00edodo semelhante. Ser\u00e3o precisas algumas mudan\u00e7as dr\u00e1sticas a fim de o capitalismo recuperar-se de todo.<\/p>\n<p><i>MK: Sua escolha de palavras sugere que a produ\u00e7\u00e3o conduzida pelo estado pode ser diferente da produ\u00e7\u00e3o capitalista? <\/i><\/p>\n<p>Penso que h\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o a fazer aqui. Economistas keynesianos consideram que a solu\u00e7\u00e3o para estes afundamentos \u00e9 que o governo deveria gastar mais dinheiro no bem-estar social, ou dar dinheiro aos neg\u00f3cios para investirem, ou executarem seus pr\u00f3prios programas de produ\u00e7\u00e3o por si mesmo e portanto por pessoas a trabalhar. Isto promover\u00e1 a economia capitalista e a colocar\u00e1 em andamento outra vez. Esta \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o keynesiana para estas crises.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2016\/01\/25\/donald-trump-and-the-us-economy\/\" target=\"_new\"> Isto foi tentado por curto tempo e sem muito entusiasmo na d\u00e9cada de 1930 por Roosevelt sob o chamado New Deal<\/a> . Mas n\u00e3o foi realmente tentado na actual recupera\u00e7\u00e3o. A maior parte do governo operou cortes nos gastos governamentais. N\u00e3o estou a advogar a solu\u00e7\u00e3o keynesiana. Ela pode ajudar por algum tempo, mas finalmente tamb\u00e9m cortaria a lucratividade do sector dos neg\u00f3cios poderia, sob certas circunst\u00e2ncias, tornar as coisas piores.<\/p>\n<p>Quando falo acerca da produ\u00e7\u00e3o pelo governo quero dizer a tomada de controle pelo governo da maior parte do programa de investimento da economia. Assim as grandes companhias tornar-se-iam parte de uma opera\u00e7\u00e3o conduzida pelo estado, idealmente possu\u00eddas pelo estado. Na Segunda Guerra Mundial, com efeito, foi o que aconteceu. Disseram \u00e0s grandes companhias: &#8220;Voc\u00eas n\u00e3o podem mais produzir carros, agora t\u00eam de construir tanques&#8221;. Era o controle directo do governo para o esfor\u00e7o de guerra. De certo modo, acabou a produ\u00e7\u00e3o capitalista para lucro e foi substitu\u00edda pela produ\u00e7\u00e3o conduzida pelo governo. Os capitalistas ainda ganharam dinheiro e lucros, mas eles estavam completamente controlados e dirigidos pelo estado militar a fim de realizar uma guerra. A analogia aqui \u00e9 que o capitalismo j\u00e1 n\u00e3o opera mais na base dos interesses do sector capitalista, mas naquele tempo isso foi encarado como nos interesses da sociedade.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2016\/03\/17\/from-monetary-policy-to-fiscal-policy-and-the-law-of-unintended-consequences\/\" target=\"_new\"> Mas uma resposta socialista, ao inv\u00e9s de uma keynesiana<\/a> , \u00e9 que precisamos que governos tomem o comando dos principais sectores da economia a fim de produzir para necessidades sociais ao inv\u00e9s de produzirem para lucro. Isso significa controlar o investimento e a propriedade de todos os bancos principais e outras grandes companhias. Isso \u00e9 drasticamente diferente do que os keynesianos prop\u00f5em agora e vai mesmo mais al\u00e9m do que no tempo da guerra.<\/p>\n<p><i>MK: Muitas pessoas v\u00eaem o longo boom ap\u00f3s 1945 como uma situa\u00e7\u00e3o &#8220;normal&#8221;. Mas como explicamos o boom? <\/i><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma parte importante do meu livro; porque h\u00e1 booms e afundamentos. O per\u00edodo de 1945 a meados dos anos 60 foi excepcional; \u00e9 chamado a &#8220;idade de ouro&#8221; do capitalismo. Houve crescimento bastante bom, mais ou menos pleno emprego, muitos pa\u00edses desenvolveram um melhor estado de bem-estar social, educa\u00e7\u00e3o gratuita mesmo ao n\u00edvel de universidade, servi\u00e7os de sa\u00fade gratuito, programas de habita\u00e7\u00e3o social, melhores pens\u00f5es, etc.<\/p>\n<p>Mas foi um per\u00edodo excepcional. Por que? O que conduz ao crescimento sob o capitalismo \u00e9 a capacidade para fazer lucros. A sa\u00fade da economia capitalista depende do que acontece \u00e0 lucratividade do capital, a taxa de lucro sobre todo investimento feito por capitalista. No fim da II Guerra Mundial, em consequ\u00eancia da destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica da Europa, da maior parte da maquinaria, f\u00e1bricas, etc e de uma quantidade maci\u00e7a de trabalho dispon\u00edvel a n\u00edveis baixos, a lucratividade disparou na Europa para os capitalistas quando recome\u00e7aram. E eles obtiveram cr\u00e9dito barato (mesmo gratuito) dos EUA. Nos EUA houve uma desvaloriza\u00e7\u00e3o do capital velho, assim o novo capital veio com nova tecnologia que era extremamente lucrativo e houve uma enorme expans\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. O mesmo se passou com o Jap\u00e3o. Por toda a parte o capitalismo mundial teve um alto n\u00edvel de lucratividade para o investimento.<\/p>\n<p>Mas nos meados dos anos 60 a lucratividade come\u00e7ou a cair, bastante agudamente a partir do princ\u00edpio dos anos 80. Este per\u00edodo \u00e9 chamado a crise da lucratividade. A teoria das crises do capitalismo de Marx \u00e9 que, apesar de a lucratividade ser a for\u00e7a condutora por tr\u00e1s do crescimento, ela n\u00e3o se pode manter em ascens\u00e3o. Quando o capitalismo se expande e acumula capital, h\u00e1 uma tend\u00eancia para a lucratividade cair. Isto \u00e9 uma lei chave da economia pol\u00edtica que Marx detectou. E nesse processo da queda da taxa de lucro o capitalismo entra em perturba\u00e7\u00e3o e as crises desenvolvem-se mais frequentemente.<\/p>\n<p>A &#8220;era dourada&#8221; das d\u00e9cadas de 1950 e 1960 deu lugar a crises. Eu era jovem ent\u00e3o e recordo que aquele tempo foi um per\u00edodo de grandes lutas do movimento trabalhistas pois a lucratividade ca\u00eda e o capitalismo tentava conduzir os trabalhadores para o retrocesso. Os trabalhadores combatiam porque tinham um bocado de ganhos de que n\u00e3o queriam abrir m\u00e3o e os sindicatos eram relativamente fortes. Finalmente os sindicatos foram esmagados nas recess\u00f5es do princ\u00edpio da d\u00e9cada de 1980 e o movimento trabalhista foi agrilhoado e derrotado em muitas batalhas. O capitalismo tentou ent\u00e3o elevar a lucratividade atrav\u00e9s de cortes nos gastos p\u00fablicos, privatiza\u00e7\u00f5es, na explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, removendo todas as protec\u00e7\u00f5es da for\u00e7a de trabalho, com a globaliza\u00e7\u00e3o, etc. Este per\u00edodo neoliberal foi o dos \u00faltimos 20 anos do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Assim, a &#8220;era dourada&#8221; foi um per\u00edodo especial quando a lucratividade era muito alto devido a uma guerra mundial, seguindo-se ent\u00e3o um grande decl\u00ednio na lucratividade e ent\u00e3o pelo fim do s\u00e9culo grandes esfor\u00e7os do capitalismo \u2013 com algum \u00eaxito \u2013 para aumentar as taxas de lucro outra vez.<\/p>\n<p><i>MK: Ent\u00e3o o que est\u00e1 realmente a dizer \u00e9 que a crise dos meados dos anos 60 validaram a teoria da queda da taxa de lucro de Marx e a seguir o neoliberalismo mobilizou algumas das contra-tend\u00eancias, que Marx tamb\u00e9m descreveu, a fim de restaurar as taxas de lucro? <\/i><\/p>\n<p>MR: \u00c9 um bom modo de colocar isso. A lei da lucratividade de Marx diz que quando o capitalismo se expande h\u00e1 uma tend\u00eancia da taxa de lucro para cair. Mas h\u00e1 meios de neutralizar isso, por algum tempo. Sob uma sociedade capitalista o valor decorre s\u00f3 da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, do povo que trabalha sob o controle de propriet\u00e1rios capitalistas de modo a que possam vender as commodities no mercado e possam ganhar um lucro. Eles utilizar\u00e3o mais maquinaria e f\u00e1bricas e nova tecnologia para manter baixo o custo do trabalho, mas ao assim fazer reduzem o montante de lucro por investimento. O lucro, e o valor em geral, de acordo com Marx vem s\u00f3 dos trabalhadores, ele n\u00e3o vem das m\u00e1quinas. As m\u00e1quinas n\u00e3o produzem valor a menos que voc\u00ea as ponha a trabalhar. Isso exige trabalho humano, a menos que voc\u00ea tenha uma sociedade s\u00f3 com robots \u2013 mas isso \u00e9 uma outra estoria.<\/p>\n<p>Assim, h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o entre elevar a produtividade do trabalho atrav\u00e9s de mais investimento em tecnologia e lucratividade sustentada. Isto pode ser ultrapassado por um algum tempo pela explora\u00e7\u00e3o intensificada dos trabalhadores, durante mais horas, fazendo-os trabalhar mais intensamente, introduzindo nova tecnologia, expandindo o com\u00e9rcio, tentando ocupar pa\u00edses mais pobres e utilizar seus recursos \u2013 h\u00e1 v\u00e1rios meios pelos quais a ac\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria se pode verificar. Estes factores de contra-actua\u00e7\u00e3o operaram fortemente durante as d\u00e9cadas de 1980 e 1990, para reverter a taxa de lucro muito baixo a que o capitalismo havia chegado.<\/p>\n<p>A lucratividade recuperou-se, mas de forma alguma pr\u00f3xima do n\u00edvel da &#8220;era dourada&#8221;. Desde o fim da d\u00e9cada de 1990 a lei marxista da lucratividade come\u00e7ou a operar outra vez e, apesar de todas as tentativas dos capitalistas, come\u00e7ou a deslizar para tr\u00e1s nas economias mais importantes. Isso criou as condi\u00e7\u00f5es para as novas crises e afundamentos do s\u00e9culo XXI. Os capitalistas tentaram evitar isso por um enorme boom de cr\u00e9dito, pela injec\u00e7\u00e3o de grande quantidade de cr\u00e9dito, inventando novos meios para especular nos mercados financeiros e manter lucros altos para uma sec\u00e7\u00e3o dos capitalistas. Mas a lucratividade subjacente n\u00e3o se recuperou. Voc\u00ea pode especular nos mercados de ac\u00e7\u00f5es mas n\u00e3o cria nada com isso. Voc\u00ea apenas tenta espremer dinheiro de outros, por assim dizer, e criar uma melhoria aparente.<\/p>\n<p><b> CAPITAL FICT\u00cdCIO <\/b><\/p>\n<p>Veja-se o momento actual. O mercado estado-unidense de ac\u00e7\u00f5es atingiu a maior altura de todos os tempos (em termos nominais). Mas quando olhamos para o estado de crescimento e da produ\u00e7\u00e3o nas economias principais verifica-se que est\u00e3o realmente a desacelerar. Os lucros est\u00e3o a estagnar e ainda assim o mercado de ac\u00e7\u00f5es esta florescente. Isso mostra a divis\u00e3o entre o que Marx chamou &#8220;capital fict\u00edcio&#8221; e o que realmente se passa no processo capitalista. Esta divis\u00e3o atingiu um extremo em 2007, um fosso entre pre\u00e7os no mercado de ac\u00e7\u00f5es, pre\u00e7os habitacionais, especula\u00e7\u00e3o em mercados financeiros e o que estava realmente a acontecer com a lucratividade do capital. Ent\u00e3o veio o crash.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o processo que tento descrever no livro. O livro tenta apresentar alguns indicadores para os leitores examinarem. Alguns economistas centram-se na financiariza\u00e7\u00e3o: o aumento deste sector em rela\u00e7\u00e3o aos sectores produtivos. Um argumento popular \u00e9 que o sector financeiro e o bancos deveriam ser regulados e restringidos. Mas n\u00e3o \u00e9 suficiente, \u00e9 como tentar controlar um tigre numa jaula s\u00f3 com uma folha de papel. N\u00e3o \u00e9 seguro que os bancos se comportem conforme a regula\u00e7\u00e3o. S\u00f3 recentemente, os reguladores financeiros dos EUA investigaram as actividades do HSBC, o grande banco brit\u00e2nico, o qual durante anos lavou dinheiro para cart\u00e9is mexicanos da droga. Eles ganharam milhares de milh\u00f5es de libras com isto. Foi descoberto, mas disseram \u00e0s autoridades para n\u00e3o intervier e n\u00e3o multar o HSBC porque isto poderia deitar abaixo o sistema banc\u00e1rio. Isso mostra que regular os bancos \u00e9 totalmente in\u00fatil. N\u00e3o muda nada, eles continuar\u00e3o no mesmo caminho.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2013\/04\/20\/why-sell-back-the-viable-banks\/\" target=\"_new\"> O \u00fanico meio de tratar disto \u00e9 assumir o comando dos bancos<\/a> , traz\u00ea-los \u00e0 propriedade p\u00fablica atrav\u00e9s do controle pelos trabalhadores da banca e por um controle democr\u00e1tico mais vasto da sociedade como um todo, de modo a que os bancos se tornem um servi\u00e7o: para providenciar empr\u00e9stimos \u00e0s pessoas para o que precisem, para pequenos neg\u00f3cios e conceder empr\u00e9stimos para melhorar o potencial produtivo da economia, n\u00e3o para especular em mercados financeiros e em activos, ou envolver-se em esc\u00e2ndalos em para\u00edsos fiscais e lavagens de dinheiro, como eles t\u00eam estado a fazer nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u2013 e continuar\u00e3o a fazer, mesmo com reguladores por perto.<\/p>\n<p>O outro ponto acerca disto \u00e9 que o crash financeiro n\u00e3o foi apenas uma crise banc\u00e1ria. Uma crise financeira n\u00e3o est\u00e1 isolada do que acontece no sector produtivo da economia: a manufactura, a tecnologia, que realmente fazem coisas que circulam, sobre as quais ent\u00e3o os bancos especulam. Bancos n\u00e3o fazem dinheiro excepto entre si pr\u00f3prios, o valor deve vir de algum lado. O crash banc\u00e1rio foi realmente um sintoma do facto que os sectores produtivos da economia capitalista j\u00e1 n\u00e3o eram bastante lucrativos para suportar este castelo de cartas. Aqueles que argumentam que foi apenas uma crise financeira e que a solu\u00e7\u00e3o jaz no controle do sector financeiro ignoram a verdadeira natureza da crise e, assim, n\u00e3o podem realmente resolv\u00ea-la.<\/p>\n<p><i>MK: Pode afirmar que o sector financeiro aumenta a instabilidade do sistema? <\/i><\/p>\n<p>Claramente, pois esta torna-se cada vez mais grave. Como a lucratividade caiu nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970 e permaneceu relativamente baixa nos sectores produtivos durante o per\u00edodo neoliberal, um dos factores para contrari\u00e1-la foi comutar investimento para dentro do sector financeiro, bancos e outras institui\u00e7\u00f5es, para fazer lucros a expensas do investimento no sector produtivo. O investimento produtivo como percentagem do produto declinou na maior parte das economias nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990. Isto \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o da fraqueza da economia capitalista no fim do s\u00e9culo XX, a necessidade de desviar para a finan\u00e7a e alhures. Assim, \u00e9 uma parte importante do processo da crise. Mas ao mesmo tempo \u00e9 um sintoma da incapacidade de fazer subir a lucratividade.<\/p>\n<p><i>MK: A Grande Recess\u00e3o de 2007-2009 n\u00e3o foi prevista pelos economistas? <\/i><\/p>\n<p>O livro tem uma sec\u00e7\u00e3o que seria divertida se n\u00e3o fosse tr\u00e1gica. A profiss\u00e3o econ\u00f3mica, as institui\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e outros &#8220;peritos&#8221; n\u00e3o viram a aproxima\u00e7\u00e3o da Grande Recess\u00e3o, muito pelo contr\u00e1rio. Banqueiros centrais e governos estavam convencidos de que tudo estava bem e que se houvesse algum problema este poderia ser resolvido facilmente.<\/p>\n<p>Quando o crash chegou, eles foram incapazes de explicar o que havia acontecido. Permaneciam em nega\u00e7\u00e3o e pensavam que acabaria rapidamente, o que n\u00e3o aconteceu. Eles eram incapazes de explicar porque aquilo acontecia e mesmo agora n\u00e3o podem realmente saber para obter a retomada. As institui\u00e7\u00f5es, bancos centrais e governos ainda est\u00e3o a lutar para conseguir que a recupera\u00e7\u00e3o suba acima do n\u00edvel fraco em que est\u00e1, porque n\u00e3o entendem o que aconteceu e o que fazer acerca disso.<\/p>\n<p>Houve uma ou duas pessoas que reconheceram os perigos no princ\u00edpio dos anos 2000. Elas viram a enorme bolha habitacional nos EUA e que aquilo n\u00e3o podia perdurar: alguns viram um enorme aumento em cr\u00e9ditos privados, um sector financeiro que tamb\u00e9m consideraram como perigoso. Assim, um ou dois economistas radicais, no exterior do consenso, reconheceram os perigos reais. E um ou dois marxistas levantaram a ideia de que, apesar do enorme boom nos pre\u00e7os habitacionais e no cr\u00e9dito, por baixo a situa\u00e7\u00e3o da lucratividade estava a piorar e havia contradi\u00e7\u00f5es que produziriam um crash.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2016\/04\/04\/capitalism-and-anwar-shaikh\/\" target=\"_new\"> Um deles foi Anwar Shaikh<\/a> <a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/longa_depressao_02ago16.html#nr\">[1]<\/a> . Ele previu um grande crash e como consequ\u00eancia uma depress\u00e3o. Eu fiz uma previs\u00e3o semelhante em 2005-6. Argumentei que havia uma conjun\u00e7\u00e3o de ciclos concomitantes: decl\u00ednio dos lucros, um pico do mercado habitacional e um ciclo depressivo geral baptizado com o nome do economista russo Kondratieff. Todos estes ciclos estavam a juntar-se num per\u00edodo de baixa depressiva. Isso sugeriu-me que poderia haver um afundamento bastante grave, pensei em 2009-10. Foi um pouco tarde porque ele veio mais cedo. Assim, um punhado de pessoas viram a aproxima\u00e7\u00e3o da crise, 99 por cento dos economistas n\u00e3o.<\/p>\n<p>MK: Comparou a posi\u00e7\u00e3o dos EUA hoje com a da Gr\u00e3-Bretanha durante a \u00faltima crise dos anos 1930: detendo a hegemonia e simultaneamente sendo economicamente minada. Como \u00e9 que isso acontece no per\u00edodo que est\u00e1 para vir? A China, por exemplo, poderia assumir esse papel?<\/p>\n<p>Os EUA, a maior economia, teve uma recupera\u00e7\u00e3o ligeiramente melhor do que a Europa ou o Jap\u00e3o, os quais se tem esfor\u00e7ado, e de muitas das economias emergentes como o Brasil, a R\u00fassia, a \u00c1frica do Sul. Eles est\u00e3o em recess\u00e3o e n\u00e3o se recuperaram de todo. Os EUA est\u00e3o a sair-se ligeiramente melhor, mas ainda a crescer s\u00f3 a cerca de 2 por cento ao ano desde 2009. Costumava ser de na m\u00e9dia de 3,5 por cento no per\u00edodo a partir de 1945 e por vezes mais r\u00e1pido na era dourada.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma recupera\u00e7\u00e3o muito fraca e parece estar a esgotar-se. Enquanto a depress\u00e3o continua, rivais que se saem melhor ficam em posi\u00e7\u00e3o de desafiar a hegemonia que os EUA tiveram economicamente. Seja como for, a economia estado-unidense declinou relativamente ao longo dos \u00faltimos 30 anos. Ela ja n\u00e3o tem a mesma fatia da produ\u00e7\u00e3o manufactureira do mundo, em compara\u00e7\u00e3o com a Alemanha ou o Jap\u00e3o e, naturalmente, a China, qual tem sido a economia de crescimento mais r\u00e1pido durante os \u00faltimos 20 anos e que agora se tornou uma grande pot\u00eancia econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>Mesmo em outros lados do espectro econ\u00f3mico \u2013 servi\u00e7os, tecnologia \u2013 os EUA conseguiram rivais. Os EUA ainda s\u00e3o superiores porque tem um sector financeiro maci\u00e7o, o qual controla e fornece capital por todo o mundo. Isso d\u00e1-lhe, juntamente com a Gr\u00e3-Bretanha \u2013 outro grande centro do capital financeiro \u2013 controle, apesar da sua posi\u00e7\u00e3o produtiva mais fraca, atrav\u00e9s da expans\u00e3o no dom\u00ednio do cr\u00e9dito. E \u00e9 o poder militar muito maior, maior do que todos os outros poderes militares tomados em conjunto, que lhe d\u00e1 uma forte posi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pode utilizar a analogia do Imp\u00e9rio Romano, o qual tamb\u00e9m come\u00e7ou um decl\u00ednio relativo em compara\u00e7\u00e3o com os dos seus rivais fora do imp\u00e9rio, mas continuou a ter hegemonia durante centenas de anos porque havia um ex\u00e9rcito romano e enormes recursos financeiros. A Am\u00e9rica est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o semelhante, mas est\u00e1 a conseguir rivais.<\/p>\n<p>O capitalismo enfrentar\u00e1 alguns desafios chave ao longo dos pr\u00f3ximos 20 anos. O primeiro \u00e9 a <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2013\/09\/28\/climate-change-and-capitalism\/\" target=\"_new\"> altera\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e o aquecimento global<\/a> , o qual \u00e9 um problema s\u00e9rio acerca do qual o capitalismo nada faz. Isto realmente amea\u00e7a o futuro da ra\u00e7a humana e do planeta, a menos que algo se fa\u00e7a. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/longa_depressao_02ago16.html#nr\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2016\/08\/02\/the-long-depression-an-interview\/\" target=\"_new\"> enormes desigualdades de riqueza e rendimento no mundo<\/a> , as quais criam enormes tens\u00f5es sociais. Ao longo dos \u00faltimos 25 anos, a desigualdades de rendimento e riqueza provavelmente atingiram um n\u00edvel nunca visto em 150 anos.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2015\/08\/08\/the-great-productivity-slowdown\/\" target=\"_new\"> a desacelera\u00e7\u00e3o na produtividade<\/a> : o fracasso do capitalismo em expandir as for\u00e7as produtivas para proporcionar o que o povo precisa. A tecnologia n\u00e3o se expandiu ao n\u00edvel do que \u00e9 poss\u00edvel e o crescimento da produtividade \u00e9 muito fraco.<\/p>\n<p>Todos estes factores amea\u00e7am o futuro do capitalismo de atender as necessidades dos povos e de manter a capacidade dos EUA em manter a sua posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f3nica. Assim, as rivalidades entre as grandes pot\u00eancias capitalistas aumentar\u00e3o e tamb\u00e9m entre os EUA e a China, porque a China \u00e9 uma importante amea\u00e7a no com\u00e9rcio e na produ\u00e7\u00e3o, bem como no futuro provavelmente tamb\u00e9m na finan\u00e7a e na tecnologia. Estas s\u00e3o as contradi\u00e7\u00f5es crescentes que existem no capitalismo, amea\u00e7ando mesmo a exist\u00eancia do planeta.<\/p>\n<p><b> A EUROZONA <\/b><\/p>\n<p><i>MK: Dedicou um cap\u00edtulo separado \u00e0 eurozona. Isto \u00e9 particularmente relevante desde o Brexit. Durante os \u00faltimos 15 anos vimos um agravamento da contradi\u00e7\u00e3o entre o Norte e o Sul, em particular a Alemanha por um lado e a Gr\u00e9cia, Espanha e Irlanda por outro. Como extrapolaria isso? <\/i><\/p>\n<p>O projecto da Uni\u00e3o Europeia foi um plano dos principais estrategas do capital europeu depois de 1945. Eles n\u00e3o queriam outra guerra, n\u00e3o mais divis\u00f5es da Europa. Eles quiseram desenvolver a base capitalista dentro da Europa, como uma for\u00e7a unidade que pudesse rivalizar numa escala mundial com os EUA <a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/longa_depressao_02ago16.html#nr\">[2]<\/a> e a \u00c1sia, particularmente o Jap\u00e3o naquele tempo. Eles queriam acabar com pequenas guerras entre pa\u00edses que se tornassem guerras mundiais e uni\u00e3o para utilizar os recursos do trabalho e do capital por toda a Europa e desenvolver um vasto capital europeu para rivalizar o resto do mundo. Esse era o plano.<\/p>\n<p>Primeiro introduziram a uni\u00e3o aduaneira, deitando abaixo as tarifas entre as tr\u00eas ou quatro maiores economias, incluindo a Holanda. Mais tarde desenvolveram o Mercado Comum (CEE), de modo que o com\u00e9rcio foi expandido a todas as outras \u00e1reas, n\u00e3o s\u00f3 com tarifas mas regula\u00e7\u00f5es comuns, taxas e condi\u00e7\u00f5es para o com\u00e9rcio dentro da Europa. E ent\u00e3o a pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia, a qual significou que institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas foram estabelecidas para integrar a Europa numa for\u00e7a \u00fanica.<\/p>\n<p>O maior passo avante foi introduzir uma divisa \u00fanica pelo menos para aquelas partes nucleares da UE preparadas e capazes de aderir. Os alem\u00e3es concordaram em que o poderoso D-Mark fosse integrado numa divisa euro, com a Fran\u00e7a, It\u00e1lia e outras economias, incluindo a Holanda. Isto era considerado um passo necess\u00e1rio para integrar a Europa como uma for\u00e7a no mundo.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 muito dif\u00edcil desenvolver uma divisa sob o capitalismo, uma uni\u00e3o, quando o capitalismo, ao expandir suas for\u00e7as produtivas, tamb\u00e9m as conduz \u00e0 separa\u00e7\u00e3o. Assim as economias mais fracas numa uni\u00e3o capitalista realmente ficam mais fracas relativamente \u00e0s mais fortes. \u00c9 assim que o capitalismo funciona. Ele n\u00e3o ajuda realmente o fraco a tornar-se forte. Assim as economias mais fracas dentro daquele bloco, especialmente no bloco euro, ficaram em estado relativo ainda pior do que antes ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o do euro. Elas retrocederam relativamente enquanto o principal ganhador do euro foi o n\u00facleo, a Alemanha em particular.<\/p>\n<p>A Grande Recess\u00e3o revelou estas fissuras na eurozona. <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2015\/07\/19\/the-euro-train-going-off-the-rails\/\" target=\"_new\"> O projecto euro foi como um comboio que \u00e9 descarrilado pela crise econ\u00f3mica<\/a> . \u00c9 muito dif\u00edcil colocar o comboio outra vez sobre os carris porque muitos dos pa\u00edses mais fracos declinaram e os pa\u00edses mais fortes n\u00e3o estavam preparados para salv\u00e1-los.<\/p>\n<p>O projecto s\u00f3 funcionaria se houvesse uma uni\u00e3o or\u00e7amental plena, uma uni\u00e3o federal completa, como nos EUA. Mas recordem que os EUA alcan\u00e7aram isso s\u00f3 ap\u00f3s uma terr\u00edvel guerra civil que esmagou a oposi\u00e7\u00e3o dos escravocratas do Sul. A ideia de uma uni\u00e3o or\u00e7amental plena onde todos pagam os mesmos impostos, onde h\u00e1 um governo, uma divisa aplicada a todos: isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel na Europa neste momento, particularmente ap\u00f3s a Grande Recess\u00e3o. De facto, o caso \u00e9 o oposto: o risco \u00e9 de que o projecto do euro e o projecto da UE poderiam romper-se, particularmente se houver outro afundamento no futuro.<\/p>\n<p>O Brexit \u00e9 um exemplo desta tens\u00e3o. <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2016\/02\/24\/british-imperialism-the-city-of-london-and-brexit\/\" target=\"_new\"> Os estrategas capitalistas brit\u00e2nicos nunca foram entusiastas quanto \u00e0 ideia da integra\u00e7\u00e3o europeia<\/a> . Ainda tinha ilus\u00f5es de que a Gr\u00e3-Bretanha era bastante poderosa para avan\u00e7ar por si pr\u00f3pria, ou que podia ser um parceiro j\u00fanior do capitalismo americano e assim n\u00e3o tinha necessidade de ser integrada na Europa para progredir. A classe dominante brit\u00e2nica estava dividida entre aqueles que pensavam que a Europa era a resposta e aqueles que pensavam era melhor estar s\u00f3 ou com os EUA.<\/p>\n<p>Essa divis\u00e3o chegou ao m\u00e1ximo com a Grande Recess\u00e3o, quando a Europa tinha uma enorme crise da d\u00edvida em euros, a Gr\u00e9cia, a Espanha e a It\u00e1lia caiam em depress\u00e3o profunda e a lideran\u00e7a franco-germ\u00e2nica fracassou em proporcionar apoio a estes pa\u00edses no \u00e2mbito do projecto da UE. Assim, alguns capitalistas brit\u00e2nicos disseram: &#8220;Bem, a Europa n\u00e3o \u00e9 realmente o lugar onde possamos obter um lucro; estamos melhor situa\u00e7\u00e3o sozinhos&#8221;. Esta divis\u00e3o pol\u00edtica veio \u00e0 tona com o referendo. De muitas maneiras, isto ser\u00e1 um desastre completo para o capitalismo brit\u00e2nico; com os seus estrategas sem saberem qual o caminho por onde est\u00e3o a ir.<\/p>\n<p><i>MK: Sugere no livro que nenhuma depress\u00e3o \u00e9 permanente. Ent\u00e3o h\u00e1 uma sa\u00edda para o capitalismo? <\/i><\/p>\n<p>Alguns marxistas dizem que estamos numa estagna\u00e7\u00e3o ou depress\u00e3o permanente. N\u00e3o concordo. No passado, o capitalismo mostrou que pode encontrar uma sa\u00edda, se puder restaurar as condi\u00e7\u00f5es para uma taxa de lucro mais alta, como fez ap\u00f3s a II Guerra Mundial e no fim da depress\u00e3o do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Como faz\u00ea-lo? O \u00fanico meio \u00e9 restaurar a lucratividade. Isso significa destruir o valor do velho capital que n\u00e3o \u00e9 mais produtivo. Significa ficar &#8220;magro&#8221;, extirpar velhas plantas m\u00e1s do seu jardim e permitir que cres\u00e7am novas. Naturalmente, isto ser\u00e1 a expensas dos empregos e do sustento de toda a gente, porque estamos a falar acerca de seres humanos a perderem seus empregos em consequ\u00eancia do encerramento de f\u00e1bricas e neg\u00f3cios, fus\u00f5es, liquida\u00e7\u00e3o de activos, desloca\u00e7\u00e3o de trabalhadores e redu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel geral de produ\u00e7\u00e3o para alcan\u00e7ar lucratividade mais alta. Um afundamento, talvez uma s\u00e9rie de afundamentos, pode fazer isso. At\u00e9 ent\u00e3o continuaremos com esta depress\u00e3o. O sistema precisa livrar-se de um bocado de d\u00edvida, estra\u00e7alhar um bocado de bancos, encerrar um bocado de ind\u00fastrias e companhias velhas. Isso \u00e9 horr\u00edvel, mas \u00e9 o que o capitalismo faz para ressuscitar a si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o capitalismo poderia obter um novo sopro de vida e utilizar todas as novas tecnologias de que toda a gente est\u00e1 a falar \u2013 robots, automa\u00e7\u00e3o, a Internet das coisas; toda estas esp\u00e9cies de tecnologias que podem ser expandidas \u2013 e explorar tamb\u00e9m novas \u00e1reas do mundo nas quais ainda h\u00e1 grandes quantidades de trabalho barato que podem ser utilizadas em conjunto com esta tecnologia.<\/p>\n<p>Talvez as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f3micas para um tal novo sopro de vida para o capitalismo possam acontecer, digamos, na pr\u00f3xima d\u00e9cada em consequ\u00eancia de novos afundamentos, mas s\u00f3 se os trabalhadores nos pa\u00edses que sofrer\u00e3o com isto forem incapazes de mudar a situa\u00e7\u00e3o por algum meio e os capitalistas e seus estrategas e representantes pol\u00edticos permanecerem no poder.<\/p>\n<p>Mas mesmo que isto aconte\u00e7a, o capitalismo n\u00e3o est\u00e1 em vias de resolver os seus problemas indefinidamente. De facto, est\u00e1 a ficar cada vez mais dif\u00edcil para eles terem um novo sopro de vida e expans\u00e3o, com aquecimento global <a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/longa_depressao_02ago16.html#nr\">[1]<\/a> , baixa produtividade, desigualdade crescente e com cada vez menos \u00e1reas do mundo a explorar que j\u00e1 n\u00e3o estejam proletarizadas, urbanizadas e fa\u00e7am parte do sistema capitalista global. H\u00e1 menos espa\u00e7o para o capitalismo expandir-se. Est\u00e1 a ficar pr\u00f3ximo da sua data de validade em termos hist\u00f3ricos. Mas mesmo assim poderia haver outro per\u00edodo de expans\u00e3o nos pr\u00f3ximos 20 anos.<\/p>\n<p><b>NR<\/b><\/p>\n<p>[1] Ver <a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/schaikh_sumario_livro.html\" target=\"_new\">Capitalismo: competi\u00e7\u00e3o, conflito, crise<\/a> , Anwar Shaikh<\/p>\n<p>[2] O autor \u00e9 economista, n\u00e3o climatologista. Ele deixou-se convencer pela campanha maci\u00e7a dos aquecimentistas, promovida pela UE, pelo capital financeiro e pelo IPCC da ONU. Teria sido melhor dizer que o capitalismo inventa falsos problemas a fim de ocultar os verdadeiros.<\/p>\n<p>[3] A cria\u00e7\u00e3o da CEE (actual UE) foi estimulada pelo governo dos EUA \u2013 ainda que muitos tenham apregoado a inten\u00e7\u00e3o de &#8220;rivalizar&#8221; com os EUA.<\/p>\n<p>*Economista, autor de <a href=\"http:\/\/www.bookdepository.com\/The-Long-Depression-Michael-Roberts\/9781608464685?ref=grid-view\" target=\"_new\"> <i>The Long Depression<\/i><\/a><\/p>\n<p>**Da publica\u00e7\u00e3o holandesa <a href=\"http:\/\/socialisme.nu\/blog\/\" target=\"_new\"> <i>de Socialist<\/i><\/a><\/p>\n<p>A vers\u00e3o em ingl\u00eas encontra-se em <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2016\/08\/02\/the-long-depression-an-interview\/\" target=\"_new\"> thenextrecession.wordpress.com\/&#8230;<\/a><\/p>\n<p><b>Esta entrevista encontra-se em http:\/\/resistir.info\/crise\/longa_depressao_02ago16.html<br \/>\n<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Michael Roberts* entrevistado por Mark Kilian** MK: Nosso governo diz que a economia se recupera. 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