{"id":11956,"date":"2016-08-30T11:05:19","date_gmt":"2016-08-30T14:05:19","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=11956"},"modified":"2016-09-27T15:13:21","modified_gmt":"2016-09-27T18:13:21","slug":"fascismo-americano-as-raizes-de-uma-nacao-sob-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11956","title":{"rendered":"Fascismo americano, as ra\u00edzes de uma na\u00e7\u00e3o sob deus"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/nazam_01.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Ant\u00f3nio Santos<\/p>\n<p>Realizadas as Conven\u00e7\u00f5es dos Partidos Republicano e Democrata, somente restam na corrida para a Casa Branca dois candidatos importantes: Hillary Clinton e Donald Trump, qual deles o mais reacion\u00e1rio e perigoso para a humanidade.<!--more--><\/p>\n<p>Neste artigo, publicado em Setembro do ano passado na Revista Vermelho, Ant\u00f3nio Santos comenta a influencia que o pensamento fascista do III Reich teve na forma\u00e7\u00e3o da ideologia predominante nos Estados Unidos. N\u00e3o perdeu atualidade.<\/p>\n<p>Ao avesso do tradicional ramerr\u00e3o eleitoral da direita portuguesa que, de quatro em quatro anos, prega um discurso tacticamente moderado nos mais empedernidos candidatos conservadores, a antecipa\u00e7\u00e3o do escrut\u00ednio presidencial estado-unidense d\u00e1 azo a uma invulgar competi\u00e7\u00e3o de reaccionarismo entre os dirigentes do Partido Republicano.<\/p>\n<p>Ao passo que para o PS, PSD ou mesmo CDS-PP, um acesso de frontalidade equivaleria a cometer harakiri pol\u00edtico, nos EUA, os homens que se perfilam para a nomea\u00e7\u00e3o republicana assumem as mais virulentas declara\u00e7\u00f5es de guerra ao progresso como um trunfo medi\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>Arca de No\u00e9 da Direita Americana<\/strong><\/p>\n<p>O senador do Texas, Ted Cruz, inaugurou a campanha \u00e0s prim\u00e1rias republicanas com um desafio aos outros candidatos: \u00abTodos v\u00e3o dizer que \u201cEu sou o homem mais conservador que alguma vez viveu\u201d, mas falar \u00e9 f\u00e1cil. Digam-me antes o que defenderam e pelo que lutaram\u00bb, rematou.<br \/>\nEstava lan\u00e7ado o mote para uma bizarra corrida de pureza ideol\u00f3gica em que o p\u00f3dio pertence aos titulares das melhores credenciais religiosas, aos curr\u00edculos estaduais que abonarem a favor da destrui\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es sociais do Estado e aos paladinos do racismo, homofobia e da xenofobia: uma verdadeira arca de No\u00e9.<\/p>\n<p>Entre os 15 principais candidatos \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o, cinco, John Kasich, Ben Carson, Rick Perry, Rick Santorum e Mike Huckabee, garantem ter sido escolhidos por deus; J\u00e1 Jeb Bush (irm\u00e3o de George W.) prometeu \u00abp\u00f4r um ponto final\u00bb no Medicare, o \u00fanico programa de sa\u00fade p\u00fablica que disponibiliza servi\u00e7os m\u00ednimos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais carenciada; por seu turno, Ted Cruz n\u00e3o tem pejo em denunciar uma \u00abguerra contra a masculinidade\u00bb e promete proibir o aborto, mesmo nos caso de viola\u00e7\u00e3o ou perigo de vida para as mulheres; N\u00e3o ficando atr\u00e1s, Scott Walker, que promete encerrar o Departamento de Educa\u00e7\u00e3o (equivalente ao minist\u00e9rio), perguntava-se, em jeito de campanha: \u00abSe fui capaz de acabar com cem mil sindicalistas no Wisconsin, o que \u00e9 que acham que sou capaz de fazer a n\u00edvel internacional?\u00bb.<\/p>\n<p>Malgrado o sestro, asinino e bo\u00e7al, de que se fazem acompanhar estas declara\u00e7\u00f5es, o reaccionarismo republicano n\u00e3o \u00e9, de todo, uma reac\u00e7\u00e3o psicossom\u00e1tica, mas sim o bilhete de entrada na li\u00e7a pol\u00edtica. Prova disto \u00e9 Donald Trump, a quem as sondagens elevaram ao primeiro lugar entre os republicanos depois de ter dito que os \u00abmexicanos s\u00e3o violadores e criminosos\u00bb, para prometer expulsar todos os imigrantes ilegais.<\/p>\n<p><strong>O fantasma de Jo\u00e3o Calvino<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, o reaccionarismo norte-americano insere-se numa longa tradi\u00e7\u00e3o de \u00abpol\u00edtica de pretexto\u00bb, em que o capitalismo cria um quadro cultural e psicol\u00f3gico favor\u00e1vel ao seu desenvolvimento, uma ideologia nacionalista que reclama obedi\u00eancia e amea\u00e7a com uma grada\u00e7\u00e3o moral manique\u00edsta e implac\u00e1vel. Neste processo, que n\u00e3o \u00e9 cont\u00ednuo, os antagonismos econ\u00f3micos s\u00e3o acompanhados, na vida social, pela desconex\u00e3o entre o futuro e o progresso e entre a realidade e a moralidade.<\/p>\n<p>Os ardentes fundamentalistas religiosos que, ao longo do s\u00e9culo XVII, colonizaram o que viria a ser os Estados Unidos produziram, para consumo interno, uma narrativa moral que pretendia unificar a sociedade e justificar o status quo. De acordo com o calvinismo, a mais influente das seitas protestantes entre os \u00abperegrinos\u00bb originais, o destino dos homens est\u00e1, \u00e0 partida, tra\u00e7ado por deus. Deste modo os homens e as mulheres j\u00e1 est\u00e3o condenados, \u00e0 nascen\u00e7a, ao para\u00edso ou ao inferno, pelo que nenhuma ac\u00e7\u00e3o pode alterar o rumo pr\u00e9-destinado, nem mesmo a explora\u00e7\u00e3o, o genoc\u00eddio ou a crueldade: come\u00e7a a nascer o pretexto para \u00abuma na\u00e7\u00e3o escolhida por deus\u00bb. Esta rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica entre a moralidade e a economia foi o alvo certeiro da obra de Max Weber, A \u00c9tica Protestante e o Esp\u00edrito do Capitalismo, mas, ao contr\u00e1rio do que \u00e9 insinuado pelo autor, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o foi a \u00e9tica que pariu o capitalismo, como a forragem espiritual do capitalismo foi, historicamente, um pretexto.<\/p>\n<p><strong>O mercado de Wall Street<\/strong><\/p>\n<p>A infra-estrutura econ\u00f3mica do capitalismo norte-americano, assente sob o trabalho for\u00e7ado de quatro milh\u00f5es de escravos africanos, gerou, ao longo do s\u00e9c. XIX, contradi\u00e7\u00f5es que acabariam por conduzir \u00e0 guerra civil de 1861-1865. Longe de ser uma batalha \u00e9tica pela liberta\u00e7\u00e3o dos escravos, nas origens do conflito estiveram discrep\u00e2ncias econ\u00f3micas entre a ind\u00fastria do Norte e o modo de produ\u00e7\u00e3o esclavagista no Sul.<\/p>\n<p>Sangrenta para os trabalhadores, a guerra civil criou importantes fracturas entre as classes dominantes que se mant\u00eam at\u00e9 aos nossos dias. N\u00e3o \u00e9 curiosidade hist\u00f3rica que Wall Sreet, centro nevr\u00e1lgico da banca, tenha come\u00e7ado por ser um mercado de escravos. Com efeito, durante a guerra, a alta finan\u00e7a do Norte nunca deixou de apoiar a Confedera\u00e7\u00e3o, mas soube lucrar com o seu ocaso. JP Morgan Chase ou Lehman Brother foram, de resto, os principais investidores das planta\u00e7\u00f5es de escravos mas adaptaram-se com ligeireza \u00e0 nova \u00abliberdade\u00bb. N\u00e3o p\u00f4r todos os ovos no mesmo cesto \u00e9, como ser verificar\u00e1 mais tarde, o ad\u00e1gio eterno da fac\u00e7\u00e3o mais radical do capital estado-unidense.<\/p>\n<p><strong>A inspira\u00e7\u00e3o de Hitler<\/strong><\/p>\n<p>Para suturar as profundas feridas da guerra civil e controlar a mar\u00e9 de progressos sociais e lutas de classe que floresceram espontaneamente durante a era da Reconstru\u00e7\u00e3o, a aristocracia do Sul e os capitalistas do Norte pactuaram um conceito de na\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tico e moralista. A partir da \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9c. XIX, \u00abser americano\u00bb come\u00e7a a implicar a ades\u00e3o a uma ideologia nacionalista, a subscri\u00e7\u00e3o de uma moral crist\u00e3 e capitalista, o reconhecimento da natureza divina da na\u00e7\u00e3o, bem como a obedi\u00eancia cega \u00e0s leis e aos s\u00edmbolos nacionais. A nova narrativa moral sobre o nacionalismo foi o pretexto ideal para uma escalada de persegui\u00e7\u00e3o dos sindicatos que se formavam sob a influ\u00eancia do socialismo e que desembocou, em 1886, na revolta de Haymarket, cuja violenta repress\u00e3o daria mais tarde origem ao 1.\u00ba de Maio, Dia Internacional do Trabalhador.<\/p>\n<p>Surge assim, em 1892, a obriga\u00e7\u00e3o de repetir diariamente o juramento de bandeira em todas as escolas p\u00fablicas. Originalmente, as crian\u00e7as faziam a sauda\u00e7\u00e3o romana enquanto repetiam: \u00abJuro obedi\u00eancia \u00e0 bandeira dos EUA e \u00e0 rep\u00fablica que ela representa, uma na\u00e7\u00e3o, sob deus, indivis\u00edvel, com liberdade e justi\u00e7a para todos\u00bb. Depois, gritavam em un\u00edssono: \u00abUm pa\u00eds! Uma L\u00edngua! Uma Bandeira!\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m durante esta \u00e9poca que, nos EUA, nascem os primeiros programas de eugenia do mundo, destinados a exterminar os indiv\u00edduos \u00abgeneticamente inferiores\u00bb. Em resposta \u00e0s ideias marxistas que chegavam da Europa, magnatas como Andrew Carnegie e John Rockefeller investiram milh\u00f5es na promo\u00e7\u00e3o do pretexto de que a pobreza e o crime eram o corol\u00e1rio de \u00abgenes inferiores\u00bb. Em 1907 os Estados de Washington, Connecticut, Calif\u00f3rnia, Virg\u00ednia, Nevada, Iowa, Nova Jersey, Nova Iorque e Indiana operavam programas para a esteriliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de pobres, nativos americanos, doentes mentais e presidi\u00e1rios. Foi nos EUA que a Alemanha nazi bebeu a inspira\u00e7\u00e3o para o seu pr\u00f3prio programa eugenia e, desde o primeiro Congresso Internacional de Eugenia, em 1911, cientistas alem\u00e3es tornaram-se alunos ass\u00edduos dos centros americanos de esteriliza\u00e7\u00e3o em massa.<\/p>\n<p><strong>A primeira amea\u00e7a vermelha<\/strong><\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique de 1917, porventura o acontecimento mais relevante da Hist\u00f3ria humana, \u00e9 interpretado pela burguesia norte-americana como uma amea\u00e7a indirecta ao ethos nacionalista do p\u00f3s-guerra civil e ao pr\u00f3prio poderio da sua classe. A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro mostrara que os trabalhadores podiam viver melhor gerindo, eles mesmos, a sociedade, sem necessidade de exploradores, racismo, deuses ou discrimina\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma tentativa frustrada de sufocar, via invas\u00e3o militar, a jovem revolu\u00e7\u00e3o, o capital estado-unidense lan\u00e7ou uma campanha dom\u00e9stica de histeria anti-comunista para evitar que a fagulha de Petrogrado incendiasse as plan\u00edcies americanas. Entre 1917 e 1920, milhares de sindicalistas, comunistas e anarquistas da International Workers of the World foram assassinados, deportados ou, simplesmente, desapareceram.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m para os afro-americanos, a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro foi uma janela de esperan\u00e7a. A escravatura fora substitu\u00edda por um novo sistema de opress\u00e3o racista, mais adequado \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e atrav\u00e9s do encarceramento massivo, da discrimina\u00e7\u00e3o salarial e da segrega\u00e7\u00e3o, os antigos escravos continuavam a ser brutalmente oprimidos. No entanto, como fez notar o presidente Woodrow Wilson, \u00abnegros americanos a regressar do estrangeiro seria o melhor meio para conduzir o bolchevismo para a Am\u00e9rica\u00bb.<\/p>\n<p>Para responder \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es de classe oper\u00e1ria que os negros formavam por todo o pa\u00eds, o capital respondeu com tr\u00eas instrumentos. Por um lado, foram levados a cabo dezenas de massacres que culminaram com o Ver\u00e3o Vermelho de 1919, que registou matan\u00e7as de negros em 34 cidades. Por outro, acelerou-se o processo de gesta\u00e7\u00e3o de um nacionalismo cada vez mais intolerante, moralista, dogm\u00e1tico e agressivo, que se imp\u00f4s na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social e atrav\u00e9s da propaganda. Finalmente, foi criada uma poderosa organiza\u00e7\u00e3o fascista de massas, o Ku Klux Klan.<\/p>\n<p>O KKK, que em 1924 atingiu quatro milh\u00f5es e meio de membros, representava a materializa\u00e7\u00e3o do pretexto nacionalista. Sem surpresas, s\u00f3 uma organiza\u00e7\u00e3o fascista, altamente violenta e ao servi\u00e7o das classes dominantes do Sul, poderia garantir a obedi\u00eancia a uma moralidade cada vez menos \u00e9tica.<br \/>\nA viol\u00eancia exercida pelo KKK e quejandos sobre negros, sindicalistas e comunistas permitiu ao patronato manter baixos n\u00edveis salariais e reduzir para metade, em apenas cinco anos, ao longo dos anos 20, a percentagem de trabalhadores sindicalizados nos EUA.<\/p>\n<p><strong>A cultura do fascismo<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos 30, apesar de um significativo passo atr\u00e1s na economia com o New Deal de Franklin Roosevelt, o reaccionarismo norte-americano continua a ganhar express\u00e3o com o chamado \u00abamericanismo\u00bb, a primeira tentativa de organizar a ideologia moral do nacionalismo americano.<\/p>\n<p>O americanismo, promovido por homens como Henry Ford, defendia a preserva\u00e7\u00e3o da cultura e valores americanos de influ\u00eancias estrangeiras e procurava equiparar o comunismo com o juda\u00edsmo. Ford, que se dedicava \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de literatura anti-semita desde os anos 20, \u00e9 um exemplo claro da aproxima\u00e7\u00e3o cultural da ideologia nacional americana ao fascismo.<\/p>\n<p>Nos anos 30, receoso de sindicatos nas suas f\u00e1bricas, Ford come\u00e7ou a conceder aos trabalhadores a possibilidade de trabalhar cinco dias por semana e oito horas por dia, desde que vivessem vidas \u00abde acordo com a moral nacional\u00bb e com a religi\u00e3o.<\/p>\n<p>O famoso Departamento de Sociologia de Ford levava a cabo buscas domicili\u00e1rias na casa dos oper\u00e1rios para garantir que viviam \u00abvidas regradas\u00bb de acordo com a moral do patr\u00e3o. A Liga de Protec\u00e7\u00e3o Americana, que chegou aos 250 mil membros nos anos 30, garantia a vigil\u00e2ncia e dela\u00e7\u00e3o dos costumes dos trabalhadores, expondo n\u00e3o s\u00f3 os \u00abimorais\u00bb como os \u00abtraidores\u00bb e, claro, os \u00abcomunistas\u00bb.<br \/>\n<strong><br \/>\nNazis e americanos, uma hist\u00f3ria de amor<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo dos anos 30, as pontes econ\u00f3micas e culturais entre a Alemanha Nazi e os Estados Unidos da Am\u00e9rica n\u00e3o pararam de se desenvolver, ao ritmo dos neg\u00f3cios de empresas como a General Motors, a IBM ou a Coca-Cola. Na verdade, o fascismo tornou-se extremamente popular na Am\u00e9rica da d\u00e9cada de 30: em 1934, o Departamento de Estado classificava a vit\u00f3ria do Partido Fascista, por 99,8%, no \u00abreferendo\u00bb de 1934 como uma \u00abdemonstra\u00e7\u00e3o da popularidade incontest\u00e1vel do fascismo\u00bb e, em 1937, elogiava o mesmo regime por ter \u00absubstitu\u00eddo o caos pela ordem, a anarquia pela disciplina e a bancarrota pela solv\u00eancia\u00bb.<\/p>\n<p>O embaixador dos EUA na Alemanha Nazi, William Dodd, escrevia, em 1937, que \u00abuma clique de industriais dos EUA est\u00e1 determinada em substituir a nossa democracia por um Estado fascista. No meu posto em Berlim pude verificar como algumas das fam\u00edlias que mandam no nosso pa\u00eds s\u00e3o pr\u00f3ximas do regime nazi. [\u2026] Certos industriais americanos tiveram muito a ver com a chegada dos regimes fascistas ao poder na Alemanha e em It\u00e1lia. Ajudaram o fascismo a chegar ao poder e agora est\u00e3o a ajud\u00e1-lo a manter-se l\u00e1\u00bb.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias de que Dodd falava eram, nem mais nem menos que os Hearst, os Kennedy, os Lindbergh, os Rockefeller, os DuPont e os Bush. Entre as empresas, distinguem-se nomes como a Coca-Cola, a General Electric e a Exxon, entre muitas outras. Como prova o crescimento em quase 50% dos investimentos norte-americanos na Alemanha at\u00e9 ao come\u00e7o II Guerra Mundial, ao contr\u00e1rio do desinvestimento verificado no resto da Europa, o capital estado-unidense repetiu a receita da guerra civil: financiar os amigos sem se comprometer politicamente. Mesmo durante a guerra, as rela\u00e7\u00f5es comerciais e financeiras mantiveram-se clandestinamente, em alguns casos com requintes de malvadez, como \u00e9 o caso da IBM de Thomas Watson, pessoalmente galardoado por Hitler por ter produzido e emprestado \u00e0 Alemanha m\u00e1quinas, feitas \u00e0 medida, para contar e seriar as v\u00edtimas do holocausto. O patr\u00e3o da IBM que expressou \u00aba mais alta estima por Hitler, o seu pa\u00eds e o seu povo\u00bb, esperava que as m\u00e1quinas fossem devolvidas \u00abquando os alem\u00e3es acabassem\u00bb.<br \/>\n<strong><br \/>\nA casa de Hitler nas montanhas<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, para a constru\u00e7\u00e3o do reaccionarismo americano, o fundamental foi a ac\u00e7\u00e3o da Hearst Publications, o maior grupo de imprensa do mundo. Se, hoje em dia, o grupo Hearst det\u00e9m 300 revistas, 50 jornais e 31 canais de televis\u00e3o, nos anos 30 era ainda mais poderoso, controlando dois ter\u00e7os de todo o mercado editorial dos EUA. O seu dono, William Hearst, um reconhecido nazi, n\u00e3o foi s\u00f3 o fundador do conceito de imprensa sensacionalista, como foi tamb\u00e9m o inventor de alguns dos mitos anti-comunistas mais antigos.<\/p>\n<p>Em 1937 a Revista Fortune, propriedade de Hearst, escrevia: \u00abO bom jornalista deve reconhecer no fascismo as boas virtudes da ra\u00e7a. Entre elas, a disciplina, o dever, a coragem, a gl\u00f3ria, o sacrif\u00edcio\u00bb.<\/p>\n<p>J\u00e1 na Reader\u2019s Digest, tamb\u00e9m de Hearst, lia-se: \u00abA forma como Hitler conquistou os cora\u00e7\u00f5es dos alem\u00e3es \u00e9 t\u00e3o completa que mesmo que os camisas castanhas desaparecessem continuaria a ser o homem mais poderoso da Alemanha: Hitler \u00e9 reconhecido por toda a intelligentsia pol\u00edtica como um homem extraordin\u00e1rio, um profeta. [\u2026] N\u00e3o encontrei um \u00fanico alem\u00e3o que sonhasse com a possibilidade de uma guerra. A verdade \u00e9 que a mente dos nazis est\u00e1 concentrada em problemas internos e n\u00e3o vai querer ser incomodada com assuntos estrangeiros durante muito tempo\u00bb.<\/p>\n<p>Entretanto, em 1938, a Better Holmes and Gardens, do mesmo dono, dava ao prelo: \u00abHitler \u00e9 um homem de bom gosto e a sua casa na montanha mostra como \u00e9 simp\u00e1tico, humilde e acess\u00edvel\u00bb.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria provou que o III Reich financiava directamente a m\u00e1quina de propaganda de Hearst, mas nem todas mentiras nazis morreram com Hitler. Uma delas, criada pelo Minist\u00e9rio Alem\u00e3o da Propaganda em 1934 vive at\u00e9 aos nossos dias: o \u00abholodomor\u00bb, a ideia que os bolcheviques empurraram deliberadamente a Ucr\u00e2nia para a fome. Foram os tabl\u00f3ides de Hearst, a pedido dos nazis e com fontes nazis que criaram esse mito.<\/p>\n<p><strong>A segunda amea\u00e7a vermelha<\/strong><\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de guerra aos nazis foi um processo complexo e extremamente contradit\u00f3rio. Tal e qual como na guerra civil, a entrada dos EUA na II Guerra Mundial resultou da pugna pelo poder pol\u00edtico entre diferentes sectores do grande capital monopolista. Como sintetizou o Secret\u00e1rio de Guerra, Henry Stimson, \u00abse vais entrar numa guerra ou preparar-te para uma guerra num pa\u00eds capitalista, tens de deixar que as empresas fa\u00e7am dinheiro com a guerra ou n\u00e3o vai funcionar\u00bb. Nesta esteira, \u00e9 sintom\u00e1tico que todas as empresas atr\u00e1s referidas tenham sido indemnizadas pelos EUA por todos os estragos provocados \u00e0s suas propriedades na Alemanha, incluindo em bases militares nazis. Merece ainda destaque a contrata\u00e7\u00e3o, em massa, de cientistas e oficiais nazis pelos EUA, ap\u00f3s a guerra para liderar miss\u00f5es cient\u00edficas ou como \u00abca\u00e7adores de comunistas\u00bb dispersos pelo mundo.<\/p>\n<p><strong>Anti-comunismo sem comunistas<\/strong><\/p>\n<p>Terminada a Guerra, come\u00e7a a maior ca\u00e7a \u00e0s bruxas de todos os tempos nos EUA: a segunda amea\u00e7a vermelha. Entre 1947 e 1957, o chamado Macartismo, em refer\u00eancia ao senador Joseph McCarthy, embutiu na cultura da direita americana os \u00faltimos elementos anti-comunistas, ultra-conservadores, racistas e radicalmente nacionalistas.<\/p>\n<p>O violento anti-comunismo dos anos 50 \u00e9 singular porque dispensa a exist\u00eancia de uma verdadeira amea\u00e7a comunista, ideologia que, nessa d\u00e9cada, representava, nos EUA, uma minoria com pouca influ\u00eancia pol\u00edtica. Sobressai, mais uma vez, a ideologia americanista como um pretexto para alavancar objectivos econ\u00f3micos de classe.<\/p>\n<p>Da mesma forma que, na d\u00e9cada de 50, bastava aos afro-americanos o fantasma do comunismo para precipitar os direitos civis, tamb\u00e9m aos capitalistas bastava esse espectro para desencadear a repress\u00e3o. Com efeito, a segunda vaga anti-comunista, n\u00e3o teve como principal alvo dirigentes comunistas, sindicalistas, oper\u00e1rios e camponeses, mas principalmente os agentes culturais, os intelectuais, os estudantes e os artistas.<\/p>\n<p><strong>Am\u00e9rica Anti-intelectual<\/strong><\/p>\n<p>O McCartismo marcou de forma indel\u00e9vel o significado de \u00abser americano\u00bb porque intrela\u00e7ou de forma inexpugn\u00e1vel as ideias de comunismo, trai\u00e7\u00e3o e intelectualidade. Se, at\u00e9 1920, o comunista era um imigrante europeu, barbudo e selvagem, agora, nos anos 50, o comunista era representado na propaganda como um professor culto e sofisticado que, atrav\u00e9s de perigosos argumentos, consegue lavar o c\u00e9rebro de americanos leais \u00e0 na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O resultado da pol\u00edtica de persegui\u00e7\u00e3o de acad\u00e9micos, escritores e intelectuais que, mesmo sem serem comunistas, questionavam e ousavam pensar instituiu uma alergia geracional \u00e0 cultura que se mant\u00e9m nos nossos dias, a par de um anti-intelectualismo que perdura na pol\u00edtica como atestado de patriotismo.<\/p>\n<p><strong>Actividades anti-americanas<\/strong><\/p>\n<p>O Comit\u00e9 das Actividades Anti-Americanas, HUAC nas siglas em ingl\u00eas, cuja vida de terror se prolongou entre os anos 30 e os anos 70, foi a pedra-de-toque na instala\u00e7\u00e3o de um ambiente de permanente ansiedade anti-comunista: a acusa\u00e7\u00e3o de 324 trabalhadores do espect\u00e1culo, adicionados \u00e0 infame Lista Negra, e a condena\u00e7\u00e3o de dez profissionais do cinema foram o suficiente para obrigar Hollywood inteira a entrar numa competi\u00e7\u00e3o indigna para mostrar quem era mais anti-comunista, mais conservador, mais nacionalista, ou, numa palavra, mais americano.<\/p>\n<p>Durante os anos cinquenta, o nacionalismo americano tornou-se tamb\u00e9m sin\u00f3nimo de militarismo, sexismo, homofobia e apoio incondicional ao conceito de \u00abtropas\u00bb.<\/p>\n<p><strong>O sonho americano<\/strong><\/p>\n<p>O actual reaccionarismo da direita estado-unidense \u00e9 o produto cultural de dois s\u00e9culos de desenvolvimento de capitalismo. Ao contr\u00e1rio da maioria dos Estados capitalistas desenvolvidos, os EUA nunca abandonaram uma no\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00e3o que incorpora elementos fascistas. Na verdade, ao longo destes 200 anos, a defini\u00e7\u00e3o da ideologia americana, ou americanista, foi crescendo, at\u00e9 se transformar, hoje em dia, numa fina pel\u00edcula super-estrutural muito semelhante ao fascismo, que filtra a percep\u00e7\u00e3o da realidade vivida por milh\u00f5es de estado-unidenses.<\/p>\n<p>Mais do que mero ersatz da histeria anti-comunista dos anos cinquenta, o nacionalismo estado-unidense mant\u00e9m-se como um instrumento de luta de classes ao servi\u00e7o do grande capital e um elemento unificador nacional que se estende da extrema-direita do Partido Republicano ao centro do Partido Democrata.<\/p>\n<p>Na actualidade, a ideologia americanista \u00e9 um pretexto para justificar o belicismo, a tortura, a espionagem e a repress\u00e3o policial. Por outro lado, permite manter a opress\u00e3o econ\u00f3mica e social dos afro-americanos, fechar alternativas pol\u00edticas ao capitalismo bic\u00e9falo e, ao mesmo tempo, convencer os trabalhadores de que no \u00absonho americano\u00bb, ao contr\u00e1rio de todos os outros pa\u00edses, \u00e9 poss\u00edvel enriquecer trabalhando arduamente. Nesta perspectiva individualista, os trabalhadores que n\u00e3o enriquecem devem-se culpar unicamente a si pr\u00f3prios, aos seus genes, \u00e0 sua intelig\u00eancia, \u00e0 sua falta de f\u00e9, ou \u00e0 sua for\u00e7a de vontade, mas nunca ao seu patr\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Publicado na Revista Vermelho em Setembro de 2015<\/em><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/fascismo-americano-as-raizes-de-uma\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ant\u00f3nio Santos Realizadas as Conven\u00e7\u00f5es dos Partidos Republicano e Democrata, somente restam na corrida para a Casa Branca dois candidatos importantes: Hillary Clinton \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11956\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[],"class_list":["post-11956","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-36Q","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11956","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11956"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11956\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11956"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11956"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}