{"id":12018,"date":"2016-09-08T14:42:58","date_gmt":"2016-09-08T17:42:58","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12018"},"modified":"2016-09-27T15:11:34","modified_gmt":"2016-09-27T18:11:34","slug":"o-petismo-como-problema-moral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12018","title":{"rendered":"O \u201cpetismo\u201d como problema moral"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.chicoalves.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/mauro-iasi.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>\u201c<em>a vida \u00e9tico-individual implica necessariamente uma responsabilidade hist\u00f3rico social nas decis\u00f5es, nos comportamentos\u201d <\/em> \u2013 GY\u00d6RGY LUK\u00c1CS<!--more--><\/p>\n<p>Sempre afirmamos e continuamos acreditando que o drama da experi\u00eancia petista n\u00e3o pode se reduzir a uma dimens\u00e3o moral, isto \u00e9, a um mero problema de trai\u00e7\u00e3o ou abandono de valores resultantes do transformismo que se operou. Preferimos centrar nossa aten\u00e7\u00e3o no estudo do comportamento da classe trabalhadora e nas determina\u00e7\u00f5es materiais e hist\u00f3ricas do ser da classe e sua consci\u00eancia. Nesta dire\u00e7\u00e3o o transformismo verificado nas dire\u00e7\u00f5es correspondem a um determinando momento hist\u00f3rico, marcado pelo processo de reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva do capital e de derrota na luta de classes no plano internacional com o desfecho dram\u00e1tico das experi\u00eancias de transi\u00e7\u00e3o socialista operadas no s\u00e9culo XX, em especial a sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 inegavelmente uma dimens\u00e3o moral e \u00e9tica nesta trag\u00e9dia, na medida em que h\u00e1 decis\u00f5es que s\u00e3o tomadas, caminhos que s\u00e3o escolhidos em detrimento de outros, valores abandonados e valores aceitos, pequenas e grandes trai\u00e7\u00f5es. Ainda mais que isso, a inflex\u00e3o pol\u00edtica operada na dire\u00e7\u00e3o da concilia\u00e7\u00e3o de classes e a consequente perda de autonomia dos trabalhadores, acaba por incidir num fen\u00f4meno mais amplo no que diz respeito a moralidade social e sua eticidade. Evidente que o petismo (que \u00e9 respons\u00e1vel direto por muita coisa) n\u00e3o pode ser responsabilizado pelo conservadorismo presente na sociedade e suas manifesta\u00e7\u00f5es mais grotescas com as quais nos deparamos hoje. <a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/04\/15\/de-onde-vem-o-conservadorismo\/\">As ra\u00edzes do conservadorismo s\u00e3o outras<\/a>. No entanto, as manifesta\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias que presenciamos e sua forma, em grande medida, devem ser compreendidas no quadro geral da luta de classes e da crise.<\/p>\n<p>Chama-me a aten\u00e7\u00e3o em determinados romances sobre a segunda guerra mundial, ou filmes que tratam do tema, como determinados comportamentos cotidianos insistem em se manter mesmo no caos provocado pelo conflito. Pessoas que sob escombros de cidades destru\u00eddas, ou na barb\u00e1rie dos guetos ou campos de concentra\u00e7\u00e3o, buscando \u00e1gua, conversando com colegas de infort\u00fanio, apaixonando-se e outras coisas triviais, coisas como fazer uma sopa ou lavar roupas no filme <em>A menina que roubava livros<\/em>, ou um m\u00fasico vestido de soldado que reencontra seu piano no filme <em>O pianista, <\/em>ou ainda um tenor, no filme <em>Stalingrado<\/em>, coberto de poeira e trapos que quase n\u00e3o fala por conta de um ferimento e, de repente, transborda sua alma em uma \u00e1ria.<\/p>\n<p>Tais fragmentos expressam, a meu ver, um mecanismo de defesa. Ou seja, uma a\u00e7\u00e3o que procura relativizar a desumanidade geral em que se inserem os personagens, uma afirma\u00e7\u00e3o, ainda que t\u00eanue, de que seguem sendo humanos mesmo num quadro dram\u00e1tico de desumanidade. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio um quadro t\u00e3o dr\u00e1stico como uma guerra, a brutal explora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora nos d\u00e1 exemplos cotidianos deste fen\u00f4meno. A m\u00e3e que prepara com zelo e carinho a pouca comida, veste com dignidade seus pequenos com as roupas que tem; a festa, a m\u00fasica, a dan\u00e7a que resiste alegre no corpo da cidade cinza, s\u00e9ria e triste; o amor que insiste em nascer em tempos de desamor.<\/p>\n<p>Estes pequenos atos de sanidade em meio ao caos, ainda que essenciais para resistir e seguir vivendo, guardam um risco de grandes propor\u00e7\u00f5es: a naturaliza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie. O dilema que se coloca diante dos indiv\u00edduos \u00e9 o de buscar os meios de seguir vivendo ou a recusa, a n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o, a revolta.<\/p>\n<p>Peguemos um exemplo significativo nestes dias t\u00e3o obscuros em que a <a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/05\/20\/o-usurpador-e-o-caminho-da-usurpacao\/\">presidente eleita foi deposta e um usurpador ocupa seu lugar<\/a>. Jovens nas ruas s\u00e3o reprimidos com requintes de crueldade pela policia militar que j\u00e1 cotidianamente assassina jovens negros nas periferias e favelas na dimens\u00e3o de uma verdadeira guerra civil. Uma menina \u00e9 atingida por um estilha\u00e7o de bomba e perde a vis\u00e3o de um olho. Outra jovem faz pilh\u00e9ria comemorando o ato nas redes sociais e cumprimentando o aparato repressivo por t\u00ea-la \u201ccurado de seu comunismo\u201d. Um outro, este um professor universit\u00e1rio, afirma que caso a jovem ferida seja petista \u201cse trata de uma boa not\u00edcia\u201d, assim como um cr\u00e1pula desqualificado que se apresenta como jornalista emitiu o ju\u00edzo segundo o qual se ela tivesse perdido os \u201cdois olhos, seria ainda melhor para esquerda\u201d.<\/p>\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o do suposto jornalista, que se especializou conscientemente em falar imbecilidades com fins pol\u00edticos claros, n\u00e3o conhe\u00e7o as outras pessoas e n\u00e3o quero antecipar ju\u00edzos. \u00c9 poss\u00edvel que n\u00e3o sejam fac\u00ednoras fascistas. Podem at\u00e9 ser pessoas com um certo grau de normalidade, que voltam de seus trabalhos para suas fam\u00edlias, comem usando talheres, amam seus pares, festejam o natal, cuidam de seus filhos\u2026 Podem ser bons profissionais, competentes no que fazem e, em situa\u00e7\u00f5es normais, n\u00e3o emitiriam qualquer ju\u00edzo desrespeitoso para uma jovem que perdeu sua vis\u00e3o. No entanto, o fizeram, publicamente, parecendo se regozijar com seu ato e esperam reconhecimento de seus pares.<\/p>\n<p>Assim como eles, que tinham a op\u00e7\u00e3o de emitir ou n\u00e3o aquele ju\u00edzo terr\u00edvel, n\u00f3s tamb\u00e9m estamos diante da seguinte disjuntiva: mantermo-nos alheios a isso ou assumir algum tipo de indigna\u00e7\u00e3o. A banaliza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie, por vezes, se esconde sob formas sedutoras. Tratar-se-ia de uma mera quest\u00e3o de opini\u00e3o? Seria tudo uma quest\u00e3o de \u201cnarrativa\u201d, como convencionou ser chamado? N\u00f3s achamos que o usurpador Temer deve dar o fora, e eles acham que a pol\u00edcia deveria furar os olhos de meninas e espancar todo mundo que protesta. N\u00f3s acreditamos que atacar (mais uma vez) a previd\u00eancia, aumentar a idade de aposentadoria, destruir a Universidade P\u00fablica, cortar os recursos da educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade enquanto sangram recursos para os bancos e grandes empresas s\u00e3o crimes contra os direitos dos trabalhadores. E outros acreditam que s\u00e3o medidas sensatas que poder\u00e3o organizar a economia e voltarmos a crescer at\u00e9 ultrapassar os EUA se tornando a maior potencia da terra.<\/p>\n<p>N\u00e3o compartilhamos desta compreens\u00e3o. N\u00e3o se trata da relatividade das opini\u00f5es e do direito de express\u00e1-las. Estamos diante de algo distinto. Ao que parece, a agudiza\u00e7\u00e3o da luta de classes suprime certas travas morais, desperta \u00f3dios irracionais e primitivos. O que parece paradoxal \u00e9 que isso se expressa ap\u00f3s um per\u00edodo em que a principal for\u00e7a de esquerda se esfor\u00e7ou em se apresentar moderada e respons\u00e1vel, empenhada na concilia\u00e7\u00e3o de classes, abdicando de qualquer resqu\u00edcio revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Parece paradoxal, mas n\u00e3o \u00e9. O \u00f3dio de classe \u00e9 o resultado dos limites do pacto. O antagonismo entre as classes, se tomado pelas suas ra\u00edzes, est\u00e1 longe de ser um fen\u00f4meno meramente moral. Ele tem suas bases nas formas de propriedade, nas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o e nas formas de poder que da\u00ed derivam. A ideologia burguesa unifica no \u00e2mbito ideal o que inconcili\u00e1vel no plano material, da\u00ed sua universalidade inevitavelmente abstrata. A contradi\u00e7\u00e3o objetiva, constrangida pela forma pol\u00edtica da concilia\u00e7\u00e3o, sempre explode em um conflito ainda maior.<\/p>\n<p>A crise da democracia de coopta\u00e7\u00e3o, do pacto de classes operado pelos governos petistas, cria o cen\u00e1rio no qual os comportamentos individuais podem encontrar as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para se expressar coletivamente. Uma pessoa isolada, por mais que tenha convic\u00e7\u00f5es conservadoras, n\u00e3o se sentiria a vontade em expressar pensamentos t\u00e3o cru\u00e9is. Uma senhora, paramentada com a camisa da CBF, junto de outros que vociferam improp\u00e9rios, alegrava-se em expressar a opini\u00e3o segunda a qual a presidente Dilma deveria ter sido morta pelos militares quando estes tiveram a chance depois do golpe de 1964.<\/p>\n<p>Ocorre aqui um fen\u00f4meno que se remete \u00e0quilo que Freud estudou em seu trabalho sobre a psicologia de massas. N\u00e3o \u00e9, como acreditava Le Bon, simplesmente um \u201ccont\u00e1gio\u201d, mas algo mais profundo ligado ao processo de constitui\u00e7\u00e3o de identidades projetivas e introjetivas, ou seja, o processo pelo qual cada um numa situa\u00e7\u00e3o de massas projeto seu ideal de ego para o l\u00edder e, desta forma, introjeta as caracter\u00edsticas do l\u00edder formando sua pr\u00f3pria personalidade.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o ocorre apenas no calor das manifesta\u00e7\u00f5es de massa, como o pr\u00f3prio Freud argumentou, mas cotidianamente atrav\u00e9s daquilo que denominou de \u201cgrupos organizados\u201d que produzem as condi\u00e7\u00f5es para orientar a a\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos numa determinada dire\u00e7\u00e3o, fazendo com que eles acreditem ser suas pr\u00f3prias op\u00e7\u00f5es pessoais. Assim, operam como mediadores entre as classes e segmentos de classes e os indiv\u00edduos que a comp\u00f5em, algo que se aproxima da no\u00e7\u00e3o gramsciana de aparatos privados de hegemonia.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 exatamente aqui que incide nossa reflex\u00e3o. N\u00e3o podemos compreender este momento, ou seja, aquele em que o indiv\u00edduo se v\u00ea diante de valores, princ\u00edpios morais e decis\u00f5es a serem tomas, atitudes e comportamentos, como se fosse um processo dual entre o indiv\u00edduo de um lado e as determina\u00e7\u00f5es mais gerais e sociais de outro. Se assim fosse, como argumenta com raz\u00e3o Luk\u00e1cs, \u201ctoda conex\u00e3o entre a exist\u00eancia interior (\u00e9tica) e a exterior (natural, social) do homem parece romper-se\u201d. Por isso, ele como n\u00f3s, acreditamos que a vida \u00e9tico-individual implica necessariamente uma responsabilidade hist\u00f3rico-social.<\/p>\n<p>Visto sob este \u00e2ngulo n\u00e3o se trata de mera postura individual diante do mundo e do universo aleat\u00f3rio de valores que a sustenta. Trata-se da ades\u00e3o, consciente ou n\u00e3o, \u00e0s classes em luta e as perspectivas abertas no devir. Olhando sob o ponto de vista estritamente racional n\u00e3o h\u00e1 sentido em uma senhora querer matar a presidente, uma jovem querer cegar uma menina ou um professor universit\u00e1rio ficar contente com isso. Mas quando olhamos na perspectiva das classes em luta, percebemos a necessidade das classes dominantes de eliminar fisicamente seus opositores, destruir por todos os meios a classe que pode, ao se afirmar, destruir as bases de seu dom\u00ednio.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio \u00e9 a media\u00e7\u00e3o. Afinal, como \u00e9 que os interesses das classes dominantes aparecem t\u00e3o naturalmente como se fosse pr\u00f3prio da consci\u00eancia destes indiv\u00edduos que se orgulham de sua postura reacion\u00e1ria? A media\u00e7\u00e3o que aqui opera \u00e9 a ideologia. As pessoas vivem as rela\u00e7\u00f5es que constituem a sociedade e as interiorizam na forma de valores, o que implica que os valores que constituem a vis\u00e3o de mundo dominante s\u00e3o a express\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais dominantes, portanto, compartilhados entre as classes que s\u00e3o as personifica\u00e7\u00f5es das diversas posi\u00e7\u00f5es presentes nestas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando as classes dominantes operam um valor ideol\u00f3gico, encontram a correspond\u00eancia nos valores que constituem a consci\u00eancia imediata dos membros de uma determinada sociedade. Uma vez que esta sociabilidade \u00e9 cortada por contradi\u00e7\u00f5es, as diferentes posi\u00e7\u00f5es de classe podem levar ao desenvolvimento de processos de consci\u00eancia que se choquem com a ideologia dominante, levando \u00e0 possibilidade de uma consci\u00eancia de classe.<\/p>\n<p>Ocorre que tal processo n\u00e3o \u00e9 linear nem homog\u00eaneo. Ele depende da luta de classes e de seu desenvolvimento, das determinadas configura\u00e7\u00f5es das classes e segmentos de classe, assim como as disposi\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos em cada momento, que encontram certas condi\u00e7\u00f5es que podem formar suas consci\u00eancias no sentido da adequa\u00e7\u00e3o ou da ruptura com o universo ideol\u00f3gico estabelecido. Quando as dire\u00e7\u00f5es da luta de classes optam pelo p\u00e2ntano da concilia\u00e7\u00e3o de classes, elas desarmam os trabalhadores, que perdem sua autonomia e independ\u00eancia e se tornam presa da ideologia.<\/p>\n<p>Os segmentos m\u00e9dios atuam de forma muito particular nesse processo. Por sua natureza de classe de transi\u00e7\u00e3o, que oscila entre a burguesia e o proletariado, as camadas m\u00e9dias desenvolvem a curiosa percep\u00e7\u00e3o de que estando acima dos radicalismos das classes em luta representam a abstra\u00e7\u00e3o da sociedade em seu conjunto. Na luta concreta, entretanto, acabam sempre assumindo ora a posi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em luta, ora a necessidade conservadora das classes dominantes. Um cen\u00e1rio no qual os trabalhadores abdicam de sua radicalidade, aceitando a premissa pequeno-burguesa da \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d ou do \u201cpovo\u201d, ao contrario de atra\u00ed-los, produz exatamente o momento que empurram os segmentos m\u00e9dios para a rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas considera\u00e7\u00f5es implicam em um posicionamento diante da conjuntura pol\u00edtica e as decis\u00f5es a serem tomadas. A luta necess\u00e1ria pelo \u201cFora Temer\u201d, implicar\u00e1, num primeiro momento, na luta pela antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es, a n\u00e3o ser que algu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia queira Rodrigo Maia na presid\u00eancia. No entanto, diante de tudo que foi aqui argumentado, devemos nos preocupar muito com o caminho que nos conduzir\u00e1 neste campo de op\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas. As elei\u00e7\u00f5es, sejam antecipadas para 2017 ou realizadas em 2018 como o previsto, n\u00e3o tem o cond\u00e3o de legitimar o governo que vir\u00e1, seja qual for, e enfrentar as bases do problema que fratura a sociedade e a coloca a beira do confronto.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental buscar recriar as condi\u00e7\u00f5es para recuperar a autonomia de classe dos trabalhadores, condi\u00e7\u00e3o essencial para disputar as consci\u00eancias e a sociedade. A simples demanda pela altera\u00e7\u00e3o do calend\u00e1rio eleitoral, ainda que necess\u00e1ria, n\u00e3o nos leva a isso. \u00c9 necess\u00e1rio uma recusa, uma atitude de avalia\u00e7\u00e3o profunda dos limites da democracia representativa e a forma que constrange os processos eleitorais na forma como est\u00e3o sendo realizados, uma mudan\u00e7a radical nas regras do jogo pol\u00edtico, mas isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel na atual correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as o que leva ao risco de novas elei\u00e7\u00f5es serem o caminho para legitimar o governo usurpador ao contr\u00e1rio de question\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Por isso, acreditamos que lutar pelo Fora Temer e a antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es deve, necessariamente se articular com a Greve Geral contra o ajuste e as medidas que atacam diretamente os direitos dos trabalhadores e amea\u00e7am a nossa exist\u00eancia imediata e futura. Desta maneira estar\u00edamos n\u00e3o apenas criando as condi\u00e7\u00f5es para uma poss\u00edvel reorganiza\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia de classe dos trabalhadores, como diminuir\u00edamos o espa\u00e7o que o conservadorismo logrou impor nos segmentos m\u00e9dios.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es e protestos, por mais importantes que sejam, n\u00e3o t\u00eam a for\u00e7a necess\u00e1ria para impor o \u201cFora Temer\u201d com esta qualidade necess\u00e1ria que a recusa dos trabalhadores em greve geral pode gerar. Ou o pr\u00f3ximo per\u00edodo se abre como uma consolida\u00e7\u00e3o da derrota, ou abrem-se duas possibilidades, uma por concess\u00e3o do Estado e buscando manter o desfecho nos limites da reprodu\u00e7\u00e3o do existente, ou um novo ciclo que se inicia sob a retomada da iniciativa dos trabalhadores redescobrindo sua for\u00e7a. Esta \u00faltima possibilidade implica na greve geral e em sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>O resultado imediato esperado, muito al\u00e9m da eventual vit\u00f3ria barrando uma ou outra medida, \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas que torne poss\u00edvel que os indiv\u00edduos de nossa classe se sintam parte de algo maior e que lhe forne\u00e7a as condi\u00e7\u00f5es para as escolhas \u00e9ticas capazes de enfrentar a barb\u00e1rie e voltar a sonhar com um futuro emancipado, ao mesmo tempo que reduza o espa\u00e7o para que manifesta\u00e7\u00f5es gritantes de desumanidade e arb\u00edtrio possam frutificar e lan\u00e7ar ra\u00edzes abrindo um per\u00edodo de retrocesso com consequ\u00eancias tr\u00e1gicas.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/09\/07\/o-petismo-como-problema-moral\/\">O \u201cpetismo\u201d como problema&nbsp;moral<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Mauro Luis Iasi \u201ca vida \u00e9tico-individual implica necessariamente uma responsabilidade hist\u00f3rico social nas decis\u00f5es, nos comportamentos\u201d \u2013 GY\u00d6RGY LUK\u00c1CS\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12018\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[190],"tags":[],"class_list":["post-12018","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fora-temer"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-37Q","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12018","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12018"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12018\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12018"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12018"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12018"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}