{"id":12082,"date":"2016-09-15T23:19:01","date_gmt":"2016-09-16T02:19:01","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12082"},"modified":"2016-10-06T15:49:35","modified_gmt":"2016-10-06T18:49:35","slug":"atilio-boron-analisa-os-limites-do-estado-burgues-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12082","title":{"rendered":"At\u00edlio Bor\u00f3n analisa\u00a0os limites do Estado burgu\u00eas na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/gz.diarioliberdade.org\/media\/k2\/items\/cache\/39babeb6d94bddff2b75a2c29cb2ae8c_XL.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><em><strong>Nota dos Editores:<\/strong> por considerar que o t\u00edtulo principal da excelente entrevista de At\u00edlio Bor\u00f3n ao Brasil de Fato &#8220;At\u00edlio Bor\u00f3n analisa semelhan\u00e7as entre o Chile de 1973 e o Brasil de 2016&#8221; n\u00e3o se coaduna com as declara\u00e7\u00f5es do entrevistado, o portal do PCB toma a liberdade de usar aqui um resumo do subt\u00edtulo utilizado pelo jornal.<\/em><!--more--><\/p>\n<hr \/>\n<p>Mar\u00eda Julia Gim\u00e9nez<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 43 anos do golpe de Estado que derrubou ao governo de Salvador Allende no Chile, o pensador latino-americano Atilio Bor\u00f3n conversou com o <b>Brasil de Fato<\/b> para ler, \u00e0 luz do processo chileno, os recentes acontecimentos que violentam a ordem democr\u00e1tica da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Segundo o soci\u00f3logo argentino, as mudan\u00e7as constitucionais empreendidas pelos governos de Hugo Ch\u00e1vez, na Venezuela; Evo Morales, na Bol\u00edvia; e Rafael Correa, no Equador; criaram uma nova ordem institucional que permitiu aos l\u00edderes fazerem as reformas necess\u00e1rias para melhorar a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, a vit\u00f3ria eleitoral de Mauricio Macri na Argentina e o recente <i>impeachment <\/i>da presidenta Dilma Rousseff marcam as fraquezas dos processos desses pa\u00edses, que mantiveram a estrutura do Estado burgu\u00eas. Essas fragilidades foram aproveitadas pelos Estados Unidos na tentativa de recobrar a sua posi\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p><i><b>&#8220;Eu acho que Lula caiu v\u00edtima de sua postura tecnocr\u00e1tica. Ele mandou o povo para suas casas e, quando os lobos foram atacar Dilma, ela abriu a janela e n\u00e3o tinha ningu\u00e9m. Confiou e fez alian\u00e7as com setores do poder que claramente iam tra\u00ed-los. At\u00e9 um cego poderia ver&#8221;<\/b><\/i>, avaliou.<\/p>\n<p>Confira a entrevista completa:<\/p>\n<p><b>Brasil de Fato &#8211; Que ensinamentos deixou o golpe no Chile em setembro de 1973? Como a experi\u00eancia chilena nos ajuda a pensar o processo atual que vivemos na Am\u00e9rica Latina? E como os processos de hoje nos ajudam a repensar a nossa hist\u00f3ria como povo latino-americano?<\/b><\/p>\n<p><b>Atilio Bor\u00f3n &#8211; <\/b>Eu acho que o golpe no Chile foi uma trag\u00e9dia que de algum jeito anunciou o que aconteceu depois em quase todos os demais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Brasil j\u00e1 tinha tido o golpe em 64, a Argentina tamb\u00e9m, em 66. Mas o do Chile, em 73, foi outra coisa. Foi um experimento radical de terapia de <i>choque<\/i> que seria aplicado no resto dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e, tamb\u00e9m, em alguns pa\u00edses do capitalismo avan\u00e7ado.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia chilena foi uma experi\u00eancia muito desigual, em rela\u00e7\u00e3o a outras da regi\u00e3o. O governo de Salvador Allende fez tudo mantendo o marco institucional do Estado burgu\u00eas. Ou seja, n\u00e3o houve reforma da Constitui\u00e7\u00e3o. Simplesmente houve um debate em torno da poss\u00edvel interpreta\u00e7\u00e3o de certas cl\u00e1usulas da Constitui\u00e7\u00e3o que impediam o governo de Allende de avan\u00e7ar em pol\u00edticas de nacionaliza\u00e7\u00e3o, controle de pre\u00e7os e interven\u00e7\u00e3o dos mercados.<\/p>\n<p>Mas [Allende] n\u00e3o fez o que fizeram os venezuelanos, bolivianos e equatorianos. Eles criaram uma nova ordem constitucional, uma nova institucionalidade, introduzindo as reformas necess\u00e1rias para melhorar a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que podemos aprender? Em princ\u00edpio, um Estado burgu\u00eas com uma Constitui\u00e7\u00e3o burguesa, com rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o, com peso de grandes corpora\u00e7\u00f5es e com a presen\u00e7a de grandes empresas multinacionais ou transnacionais, imp\u00f5e limites muito estreitos. E, quando as mudan\u00e7as transcendem, v\u00e3o al\u00e9m dos limites, o processo democr\u00e1tico entra numa zona de risco e rapidamente \u00e9 eliminado pelos agentes da conserva\u00e7\u00e3o social, ou seja, as classes dominantes.<\/p>\n<p>Em contextos econ\u00f4micos muito complexos, inevitavelmente, geram-se esses processos, porque a burguesia provoca sabotagens permanentes, as &#8216;greves da burguesia&#8217;. Eles deixam de investir, come\u00e7am as fugas de capitais e se entorpece o processo produtivo em todos os n\u00edveis, provocando um grande mal estar da popula\u00e7\u00e3o. Eventualmente, prepara-se a base social para uma revolta fascista.<\/p>\n<p>Essa foi a rea\u00e7\u00e3o chilena em 1973. E eu acho que foi aprendida por Ch\u00e1vez e, depois dele, por Evo e por Correa. Porque a primeira coisa que eles fizeram foi ampliar o marco institucional dos processos transformadores na Venezuela, Bol\u00edvia e Equador. Foi muito significativo, muito importante. Introduziram inova\u00e7\u00f5es que potencializaram o protagonismo popular, o referendo revogat\u00f3rio, at\u00e9 o reconhecimento, no caso da Bol\u00edvia, das formas de governo dos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu acho que sim, h\u00e1 certo aprendizado. Mas n\u00e3o em todos os pa\u00edses. Argentina, Brasil e Col\u00f4mbia continuaram transitando pelas vias da institucionalidade democr\u00e1tica pr\u00f3prias do liberalismo. E essa \u00e9 a fonte de muitos problemas.<\/p>\n<p><b>Ent\u00e3o, em termos regionais, podemos dizer que este avan\u00e7o da direita desde o golpe em Honduras at\u00e9 ao recente <\/b><i><b>impeachment<\/b><\/i><b> de Dilma, nos deixa melhor posicionados?<\/b><\/p>\n<p>Olha a experi\u00eancia chilena foi \u00fanica, porque, naquele momento, a Argentina estava regressando ao peronismo, que teve vida muito curta e terminou em um grande cataclisma.<\/p>\n<p>Houve um repique na Bol\u00edvia \u2013 lembre que, no ano de 1971, a Bol\u00edvia inaugura um breve processo de radicaliza\u00e7\u00e3o popular sob o comando de Juan Jos\u00e9 Torres e da Assembleia Popular Boliviana, mas Torres termina deposto rapidamente e \u00e9 assassinado em Buenos Aires. Tamb\u00e9m mataram o general Carlos Prats Gonzalez, no Chile. Ou seja, era um contexto muito diferente do atual.<\/p>\n<p>Os processos atuais se d\u00e3o num momento em que se acentua o processo de decad\u00eancia do imperialismo norte-americano. Na segunda metade da d\u00e9cada de 90, alguns falavam do in\u00edcio de um novo s\u00e9culo americano. E, longe disso, foi o in\u00edcio de uma lenta e persistente decad\u00eancia dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Alguns de n\u00f3s t\u00ednhamos advertido sobre esta decad\u00eancia, mas \u00e9ramos desacreditados por quest\u00f5es ideol\u00f3gicas. Hoje, quando voc\u00ea consulta a literatura especializada dos geoestrategistas, dos pensadores dos imp\u00e9rios, entre os quais os mais importantes s\u00e3o [Henry Alfred] Kissinger e [Zbigniew Kazimierz] Brzezinski, os dois argumentam que os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o a pot\u00eancia que foram no passado.<\/p>\n<p>Os progn\u00f3sticos econ\u00f4micos levam \u00e0 conclus\u00e3o de que, em 2030, a economia norte-americana representar\u00e1 apenas 18% do produto bruto mundial, e a da China, 28%. E esta decad\u00eancia se v\u00ea tamb\u00e9m na crescente impot\u00eancia dos Estados Unidos. Isso se mostra quando um pequeno pais da Am\u00e9rica do Sul, como o Equador, d\u00e1 asilo diplom\u00e1tico ao cara do Wikileaks [Julian Assange] e, al\u00e9m disso, obriga a retirada das tropas inglesas de sua embaixada!<\/p>\n<p>No passado, isso teria provocado a invas\u00e3o dos marines ao Equador, e teriam prendido e assassinado o presidente Rafael Correa, como fizeram em 1982, com<b> <\/b>Maurice Bishop,<b> <\/b>na ilha de Granada.<\/p>\n<p>Logo, o enfraquecimento dos Estados Unidos \u00e9 um dado inocult\u00e1vel. Hoje, eles t\u00eam inimigos t\u00e3o fortes quanto a URSS \u2013 a R\u00fassia por um lado e a China, pelo outro. Ent\u00e3o, o que acontece? Cada vez que os Estados Unidos se encontram em problemas no contexto mundial, eles retrocedem para reafirmar sua domina\u00e7\u00e3o sobre a Am\u00e9rica Latina. Isso aconteceu nos anos 70 e est\u00e1 acontecendo agora.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos querem frear o ciclo dos governos progressistas e avan\u00e7ar na conforma\u00e7\u00e3o de uma nova Am\u00e9rica Latina, totalmente blindada, onde n\u00e3o exista nenhum governo que dispute a sua hegemonia. Enquanto isso, os progn\u00f3sticos do Pent\u00e1gono se preparam para 20 ou 30 anos mais de guerra. Logo, est\u00e1 assegurada a retaguarda.<\/p>\n<p>E, por isso, lan\u00e7ou-se a fomentar a destitui\u00e7\u00e3o destes governos, a criar uma nova direita na Am\u00e9rica Latina. Na Argentina, o fez muito claramente, e, no Brasil, tem fortalecido os v\u00ednculos com o PSDB. Neste processo, Fernando Henrique Cardoso teve um papel fundamental.<\/p>\n<p><b>Qual o significado do Brasil em termos geopol\u00edticos? Por que tivemos um golpe?<\/b><\/p>\n<p>Por v\u00e1rios motivos. Primeiro, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds com maior peso da regi\u00e3o da Am\u00e9rica Latina e Caribe, e isso nos permite dizer que, para onde se inclina o Brasil, inclina-se a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, porque o Brasil sempre foi um aliado estrat\u00e9gico dos Estados Unidos. N\u00e3o se esque\u00e7a que o Brasil foi o escolhido pelos Estados Unidos para desenvolver empresas sider\u00fargicas ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, com cr\u00e9dito aprovado por eles.<\/p>\n<p>E, em terceiro, porque o Brasil \u00e9 um emp\u00f3rio de recursos naturais. Os Estados Unidos t\u00eam muito interesse em controlar a Amaz\u00f4nia e o aqu\u00edfero Guarani e, para isso, precisam ter presen\u00e7a no pa\u00eds. Agora, tamb\u00e9m v\u00e3o ter presen\u00e7a na Argentina e de l\u00e1 pretendem controlar a parte sul do aqu\u00edfero Guarani.<\/p>\n<p>Sem contar o petr\u00f3leo. Sabe quando se mobilizou a 4\u00b0 Tropa dos Estados Unidos, que estava desativada h\u00e1 mais de 50 anos? Duas semanas ap\u00f3s Lula anunciar o descobrimento do pr\u00e9-sal. Voc\u00ea acha que isso \u00e9 casualidade? N\u00e3o! \u00c9 rea\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, claro que o Brasil importa muito.<\/p>\n<p>E, al\u00e9m disso, perseveram as fraquezas do consenso progressista, ou seja, os erros cometidos pelos governos do PT que, por exemplo, n\u00e3o avan\u00e7aram no aprofundamento da reforma agr\u00e1ria num pa\u00eds com uma estrutura agr\u00e1ria absolutamente anacr\u00f4nica. Foram governos que desmobilizaram sua base popular.<\/p>\n<p>Ora, [Nicol\u00e1s] Maduro [presidente da Venezuela] n\u00e3o cai simplesmente porque, quando ele grita, tem um monte de gente na rua. E isso numa situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica muito mais complexa que a do Brasil.<\/p>\n<p>Eu acho que Lula caiu v\u00edtima de sua postura tecnocr\u00e1tica. Ele mandou o povo para suas casas e, quando os lobos foram atacar Dilma, ela abriu a janela e n\u00e3o tinha ningu\u00e9m. Confiou e fez alian\u00e7as com setores do poder que claramente iam tra\u00ed-los. At\u00e9 um cego poderia ver.<\/p>\n<p><i>Edi\u00e7\u00e3o (do Brasil de Fato): Camila Rodrigues da Silva<\/i><\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Bor\u00f3n: &#8220;Argentina, Brasil e Col\u00f4mbia t\u00eam continuado transitando pelas vias da institucionalidade democr\u00e1tica pr\u00f3pria do liberalismo. E essa \u00e9 a fonte de muitos problemas&#8221; \/ Reprodu\u00e7\u00e3o\/IELA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nota dos Editores: por considerar que o t\u00edtulo principal da excelente entrevista de At\u00edlio Bor\u00f3n ao Brasil de Fato &#8220;At\u00edlio Bor\u00f3n analisa semelhan\u00e7as \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12082\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-12082","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-38S","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12082","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12082"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12082\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12082"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12082"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12082"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}