{"id":1215,"date":"2011-02-14T19:02:40","date_gmt":"2011-02-14T19:02:40","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1215"},"modified":"2017-08-25T00:54:02","modified_gmt":"2017-08-25T03:54:02","slug":"a-lua-cresce-no-ceu-de-friburgo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1215","title":{"rendered":"A Lua cresce no c\u00e9u de Friburgo"},"content":{"rendered":"\n<p>9 de fevereiro de 2011, lentamente a lua volta a crescer no c\u00e9u de cada um de n\u00f3s. Assim, mais ou menos de forma direcionada, mantemos nossos movimentos cotidianos externos. Cada um de n\u00f3s, repletos de mem\u00f3rias densas, importantes e fecundas, lida como pode, no fundo da alma, na noite profunda de nosso interior com a riqueza do\u00edda e luminosa de estarmos vivendo &#8216;estes dias&#8217; de nossas vidas, nestas serras queridas.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias, algumas pessoas e a m\u00eddia em geral t\u00eam usado, em nome do desejo de criar uma onda positiva, otimista, uma frase que me d\u00f3i: &#8220;Estamos finalmente voltando ao normal&#8221;. Como assim, voltando ao normal? Se o normal \u00e9 como era antes, n\u00e3o posso aceitar que voltemos a ele. O normal de antes era feito de muitos interesses separados; seja por grupos sociais e econ\u00f4micos; seja por grupos de fam\u00edlias; seja por religi\u00f5es ou entre pessoas &#8216;do bem e do mal&#8217;. O normal de antes era civilmente muito solit\u00e1rio, era feito de conselhos municipais esvaziados, envelhecidos antes de florescerem; era feito de institui\u00e7\u00f5es sociais importantes e maduras, atuando ingenuamente em nossa sociedade. O normal de antes tinha muito pouco tempo para solidariedade, para servir ao outro acima de tudo. E que fique claro, quando falo servir ao outro, n\u00e3o estou dizendo servir ao outro que precisa, que \u00e9 pobre. Estou falando em construir uma sociedade de tal forma, que n\u00e3o se produza o ac\u00famulo de bens por uns poucos. O normal de antes n\u00e3o tinha tempo para longas, gostosas, profundas e pregui\u00e7osas conversas ao redor da mesa de refei\u00e7\u00f5es ou na cal\u00e7ada de casa.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, o normal de antes tamb\u00e9m tinha pr\u00e1ticas de grande valor humano e potencial transformador. MAS&#8230;pouco, muito pouco, diante do tamanho da tarefa.<\/p>\n<p>Nestes dias vivemos fora do normal. Ah, com certeza vivemos.<\/p>\n<p>Nestes dias que passamos sem eletricidade, pude reaprender sobre o sil\u00eancio de nenhum motor funcionando, de nenhuma rede virtual ativa, de nenhum aparelho \u00e1udio visual emitindo est\u00edmulos; pude sentar com minha fam\u00edlia, amigos e desconhecidos, na penumbra da luz de raras velas, e suspirar sob o sentimento humilde do tamanho dos meus bra\u00e7os, de minha for\u00e7a real de transforma\u00e7\u00e3o e de ser ajuda. A eletricidade amplia nossa for\u00e7a de atua\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m nos ilude sobre nosso tamanho.<\/p>\n<p>Nestes muitos dias que passamos sem \u00e1gua encanada e pot\u00e1vel, pude reaprender sobre tudo que se lava com dois litros d\u00b4\u00e1gua(medida das muitas garrafas pet que me chegaram). Pude conviver com os meus dejetos(urina e fezes) e os de minha grande fam\u00edlia, guardados dentro de nossos belos vasos sanit\u00e1rios sem \u00e1gua e sentir a fragilidade e insanidade de nossa civiliza\u00e7\u00e3o que sequer sabe lidar com as fezes, a n\u00e3o ser dando descarga e se esquecendo del<a name=\"12e25686a5c5eeab_12e21e2f5c27b973_12e1f515d7a47517_12e1ec83a5d6c884_12e19ec72d4d3d08_12e17c\"><\/a>as. Pela falta d\u00b4\u00e1gua pude aprender os nomes de meus vizinhos, que comigo partilharam a \u00e1gua que tinham.<\/p>\n<p>Nestes dias, no meio da lama fedida, buscando corpos, lavando corpos, enterrando corpos de pessoas amadas, pude aprender sobre o amor. Amor como cuidado; amor como honra ao que vive no outro, seja isto fato presente ou mem\u00f3ria. A crueza inesperada das situa\u00e7\u00f5es que vivemos n\u00e3o poder\u00e1 ser expressa por palavras jamais, est\u00e1 muito al\u00e9m delas. O sentimento do que vivemos est\u00e1 buscando seus caminhos de express\u00e3o. Fiquemos atentos! Agora \u00e9 tempo de contar hist\u00f3rias sobre o amor que descobrimos; amor cru, desnudo, amor enlameado. Contar muitas hist\u00f3rias entre n\u00f3s e para outros que aqui n\u00e3o estiveram. Apesar da eletricidade ter voltado; apesar da \u00e1gua pot\u00e1vel e encanada ter voltado; apesar de todas as redes virtuais terem voltado. Apesar de todos estes instrumentos m\u00e1gicos da civiliza\u00e7\u00e3o estarem reestabelecidos, \u00e9 simplesmente hora de sentar e contarmo-nos hist\u00f3rias, as hist\u00f3rias do amor que descobrimos; debaixo da lama, esta lama fecunda do que poderemos nos tornar.<\/p>\n<p>Nunca mais voltarmos ao normal que era antes \u00e9 o m\u00ednimo de honradez devida aos nossos queridos que se foram. Nunca mais voltarmos ao que era antes \u00e9 o m\u00ednimo de responsabilidade frente a n\u00f3s mesmos e a todas as crian\u00e7as que sobreviveram, sobreviveram para o novo.<\/p>\n<p>Nestes dias em que a lua volta a estar no mesmo lugar de um m\u00eas atr\u00e1s, onde estamos n\u00f3s? O que temos aprendido? Ser\u00e1 poss\u00edvel caminharmos sem ingenuidades frente ao modelo de civiliza\u00e7\u00e3o que temos adotado: ele \u00e9 brilhante, ilus\u00f3rio, desumano, inodoro, definitivamente inodoro. Nosso modelo de civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o suporta o cheiro libertador de lama de enchente.<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o Luiz de Souza Guerra &#8211; Consultor de processos de desenvolvimento, desde 1979 trabalha em institui\u00e7\u00f5es sociais, em especial as que atuam no \u00e2mbito da inf\u00e2ncia e juventude. \u00c9 fundador da Associa\u00e7\u00e3o Crian\u00e7asdo Vale de Luz, onde desenvolveu habilidades de gest\u00e3o organizacional e de apoio ao desenvolvimento de pessoas e de organiza\u00e7\u00f5es sociais. J\u00e1 atuou como professor e diretor de escolas, tendo sido diretor do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o de Nova Friburgo (1985\/1986) e Coordenador Regional (Regi\u00e3o Serrana do Rio de Janeiro) da FIA\/RJ &#8211; Funda\u00e7\u00e3o para Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia, em 2002. Realizou est\u00e1gios na \u00e1rea educacional na Fran\u00e7a e Su\u00ed\u00e7a. \u00c9 graduado em pedagogia, com especializa\u00e7\u00f5es em Pedagogia Waldorf e Pedagogia Social. Tamb\u00e9m \u00e9 m\u00fasico e pratica e acredita na arte como instrumento de trabalho e de desenvolvimento pessoal e social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 3.bp.blogspot.com\n\n\n\n\n\n\n\n\nSebasti\u00e3o Guerra\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1215\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-jB","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1215"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1215\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}