{"id":12189,"date":"2016-09-25T19:54:08","date_gmt":"2016-09-25T22:54:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12189"},"modified":"2016-10-18T13:25:43","modified_gmt":"2016-10-18T16:25:43","slug":"na-india-a-maior-greve-geral-do-mundo-180-milhoes-cruzaram-os-bracos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12189","title":{"rendered":"Na \u00cdndia, a maior greve geral do mundo: 180 milh\u00f5es cruzaram os bra\u00e7os"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn-images-1.medium.com\/max\/1200\/1%2Aef9hC2Kn8UHz2h7HdGBu-Q.jpeg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>No dia 2 de setembro, not\u00edcias se espalhavam na \u00c1sia sobre a maior greve geral que j\u00e1 havia ocorrido no continente. Dias depois, os n\u00fameros: 180 milh\u00f5es de trabalhadores paralisaram seus trabalhos e cruzaram os bra\u00e7os na \u00cdndia. Trata-se da maior paralisa\u00e7\u00e3o da classe no mundo.<!--more--><\/p>\n<p>Por Vijay Prashad*<\/p>\n<p>Desde que a \u00cdndia adotou sua nova pol\u00edtica econ\u00f4mica em 1991, o pa\u00eds viveu uma onda de greves. Neste m\u00eas de setembro, chegou a 17\u00aa greve geral desde l\u00e1. O diferencial \u00e9 o n\u00famero: 180 milh\u00f5es cruzaram os bra\u00e7os desta vez, fechando as f\u00e1bricas, o transporte p\u00fablico, universidades, e ocupando as ruas.<\/p>\n<p>Os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds\u200a\u2014\u200aque n\u00e3o s\u00e3o favor\u00e1veis \u00e0 greve\u200a\u2014\u200ainformaram que o n\u00famero de grevistas superou 150 milh\u00f5es de trabalhadores. Por\u00e9m, segundo os sindicatos, o n\u00famero chega a 180 milh\u00f5es de pessoas que abandonaram o trabalho. Trata-se da maior greve geral j\u00e1 registrada na hist\u00f3ria do mundo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, essa mobiliza\u00e7\u00e3o quase n\u00e3o teve eco nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Poucos artigos de primeira p\u00e1gina, ainda menos fotos de trabalhadores se manifestando\u200a\u2014\u200aseja nas f\u00e1bricas ou nos bancos, planta\u00e7\u00f5es de ch\u00e1 ou esta\u00e7\u00f5es de trem. A sensibilidade dos jornalistas raramente consegue passar por cima do muro de cinismo, constru\u00eddo pelos propriet\u00e1rios da imprensa. Para eles, a luta dos trabalhadores s\u00e3o um inconveniente para o dia-a-dia.<\/p>\n<p>Uma das principais empresas de consultoria de neg\u00f3cios internacionais informou que 680 milh\u00f5es de indianos vivem na pobreza. Estas pessoas\u200a\u2014\u200ametade da popula\u00e7\u00e3o da \u00cdndia\u200a\u2014\u200as\u00e3o privadas dos fundamentos da vida, como alimentos, energia, habita\u00e7\u00e3o, \u00e1gua pot\u00e1vel, saneamento, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a social. A maioria dos trabalhadores e camponeses indianos est\u00e3o entre os pobres. Cerca de 90% dos trabalhadores da \u00cdndia est\u00e3o no setor informal, onde a prote\u00e7\u00e3o no local de trabalho \u00e9 m\u00ednima e o direito a formar sindicatos praticamente inexistente.<\/p>\n<p>Estes trabalhadores existem nas condi\u00e7\u00f5es atuais justamente pela necessidade ideol\u00f3gica e econ\u00f4mica do governo do pa\u00eds. Em 2002, a Comiss\u00e3o Nacional do Trabalho concluiu que \u201ca principal fonte de trabalho futuro para todos os indianos seria o setor informal, que j\u00e1 produz mais da metade do Produto Interno Bruto\u201d. O futuro da m\u00e3o de obra indiana \u00e9, ent\u00e3o, o setor informal com poucos direitos reconhecidos ocasionalmente para evitar viola\u00e7\u00f5es grotescas da dignidade humana. A melhora das condi\u00e7\u00f5es dos trabalhadores da \u00cdndia simplesmente n\u00e3o faz parte da agenda de prioridades atuais do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O primeiro-ministro Narendra Modi, n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o sobre a paralisa\u00e7\u00e3o. O seu objetivo \u00e9 aumentar a taxa de crescimento da \u00cdndia, que\u200a\u2014\u200aa julgar pelo exemplo de quando era primeiro-ministro do Estado de Gurajat\u200a\u2014\u200ase pode conseguir mediante o canibalismo dos direitos dos trabalhadores e das condi\u00e7\u00f5es de vida dos pobres. A venda de bens do Estado, as concess\u00f5es enormemente lucrativas para as empresas privadas, e a abertura da economia da \u00cdndia ao investimento direto estrangeiro s\u00e3o os mecanismos escolhidos para aumentar a taxa de crescimento. Nenhuma destas estrat\u00e9gias, como at\u00e9 o Fundo Monet\u00e1rio Internacional reconhece, contribuir\u00e1 para a igualdade social. Esta estrat\u00e9gia de crescimento provoca uma maior desigualdade, menos poder para os trabalhadores e mais priva\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Apenas 4% da for\u00e7a laboral da \u00cdndia est\u00e1 sindicalizada. Se estes sindicatos apenas lutassem para defender os seus d\u00e9beis direitos, o seu poder diminuiria ainda mais. O poder sindical sofreu muito desde que a economia da \u00cdndia se liberalizou em 1991, com as senten\u00e7as do Supremo Tribunal contra a democracia sindical e com a cadeia de produ\u00e7\u00e3o mundial lan\u00e7ando os trabalhadores indianos contra os trabalhadores de outros pa\u00edses. O grande m\u00e9rito dos sindicatos indianos \u00e9 que t\u00eam feito suas\u200a\u2014\u200aem diferentes alturas\u200a\u2014\u200aas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida dos trabalhadores e dos camponeses no setor informal. O que resta de poder sindical s\u00f3 poder\u00e1 aumentar fazendo o que j\u00e1 est\u00e3o fazendo. Isto \u00e9, virar-se para a imensa massa de trabalhadores e camponeses informais e atra\u00ed-los para a cultura dos sindicatos e da luta de classes.<\/p>\n<p>Na \u00cdndia, a primeira greve ocorreu em abril e maio de 1862, quando os trabalhadores ferrovi\u00e1rios da esta\u00e7\u00e3o de comboio de Howrah pararam para reivindicar o direito a uma jornada de 8 horas. Os inconvenientes que a greve possa ter para a classe m\u00e9dia t\u00eam que ser ponderados com os \u2018inconvenientes\u2019 quotidianos que os trabalhadores sofrem como consequ\u00eancia da maior parte da sua produtividade ser apropriada pelos capitalistas. Aqueles trabalhadores, em 1862 n\u00e3o queriam turnos intermin\u00e1veis de dez horas porque os deixava sem tempo para terem vida pr\u00f3pria. A sua greve permitiu-lhes dizer: n\u00e3o vamos trabalhar mais de oito horas. Os que criticam as greves v\u00e3o argumentar, certamente, que h\u00e1 outras maneiras de conseguir que a sua voz seja escutada. Mas os trabalhadores n\u00e3o t\u00eam nenhuma outra, porque n\u00e3o t\u00eam nem o poder pol\u00edtico para fazer lobby, nem o poder econ\u00f4mico para controlar os meios de comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o lhes resta mais do que o sil\u00eancio, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o dessa festa da classe trabalhadora que \u00e9 a greve.<\/p>\n<p>O que a greve expressa \u00e9 que os trabalhadores da \u00cdndia continuam a ser um sujeito ativo da luta de classes. N\u00e3o se renderam \u00e0 \u2018realidade\u2019. Em 1991, quando o governo decidiu abrir a economia aos turbulentos interesses do capital global, os trabalhadores rebeleram-se. Em agosto de 1992, os trabalhadores t\u00eaxteis de Bombaim sa\u00edram \u00e0 rua, porque a nova ordem queria deix\u00e1-los na mis\u00e9ria. O seu gesto simb\u00f3lico \u00e9 a realidade atual.<\/p>\n<p>*Vijay Prashad \u00e9 professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais no Trinity College em Hartgord, Connecticut, EUA; publicado originalmente no site Alternet<\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aIt0kK9WZsk?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n<p>&lt;https:\/\/medium.com\/democratize-m%C3%ADdia\/na-%C3%ADndia-a-maior-greve-geral-do-mundo-180-milh%C3%B5es-cruzaram-os-bra%C3%A7os-53c12db71951#.lkcfvhy9m&gt;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No dia 2 de setembro, not\u00edcias se espalhavam na \u00c1sia sobre a maior greve geral que j\u00e1 havia ocorrido no continente. 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