{"id":12225,"date":"2016-09-30T21:11:32","date_gmt":"2016-10-01T00:11:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12225"},"modified":"2016-10-24T12:48:10","modified_gmt":"2016-10-24T15:48:10","slug":"retratos-de-um-genocidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12225","title":{"rendered":"Retratos de um genoc\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/gz.diarioliberdade.org\/media\/k2\/items\/cache\/a07408bea9deab31cb46e4844763b527_L.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>[Andr\u00e9 Antunes] A cada 23 minutos um jovem negro \u00e9 morto no Brasil. Movimentos de v\u00e1rios estados do pa\u00eds se articulam para denunciar o que classificam como um genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra.<!--more--><\/p>\n<p>\u201cEu sou D\u00e9bora, tenho 57 anos. O meu filho, Edson Rog\u00e9rio Silva dos Santos, tinha 29 anos, era negro, gari e deixou um filho de tr\u00eas anos na \u00e9poca, que hoje est\u00e1 com 13. A morte do meu filho foi uma das piores coisas que aconteceu na minha vida, e o que de pior pode acontecer na vida de todas as m\u00e3es. N\u00e3o se mede a dor de ter um filho assassinado\u201d. J\u00e1 faz mais de dez anos que D\u00e9bora Maria da Silva convive com a dor da perda do filho. Foi no dia seguinte ao Dia das M\u00e3es, em maio de 2006, que Edson foi morto a tiros, em circunst\u00e2ncias at\u00e9 hoje n\u00e3o esclarecidas. D\u00e9bora n\u00e3o tem d\u00favidas de que foram policiais que tiraram a vida de seu filho. \u201cUm dia antes eu havia recebido um telefonema de um policial da fam\u00edlia me avisando que ia ter um toque de recolher\u201d, afirma. Toques de recolher decretados por agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica foram comuns entre os dias 12 e 26 de maio de 2006 em todo o estado de S\u00e3o Paulo. Numa repres\u00e1lia a ataques da fac\u00e7\u00e3o criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), nos quais 59 agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica foram mortos, a pol\u00edcia paulista deu o troco. Segundo D\u00e9bora, foi no dia 13, v\u00e9spera do Dia das M\u00e3es, que os ataques come\u00e7aram para valer. Grupos de motoqueiros encapuzados e carros com vidros pretos cruzaram bairros pobres de periferia atirando. \u201cA gente j\u00e1 sabia que quem estava debaixo do capuz era o Estado\u201d, diz. Ao final de duas semanas, 505 civis haviam sido mortos. Entre elas, o filho de D\u00e9bora, morador de Santos, no litoral paulista. \u201cMuitos que n\u00e3o deviam nada para a pol\u00edcia foram para a rua e foram atingidos. A minha filha, que fez o reconhecimento do corpo, viu tantos corpos no IML que n\u00e3o cabiam nem na c\u00e2mara frigor\u00edfica, estavam jogados at\u00e9 no ch\u00e3o\u201d, relata.<\/p>\n<p>Com a morte do filho, D\u00e9bora relata que entrou em depress\u00e3o e acabou numa cama de hospital. \u201cQuando me levantei, foi pelo meu filho. Sa\u00ed atr\u00e1s das m\u00e3es que eu vi na televis\u00e3o, que perderam seus filhos na chacina\u201d. Da\u00ed surgiu o Movimento M\u00e3es de Maio, que at\u00e9 hoje luta por justi\u00e7a para as v\u00edtimas do epis\u00f3dio que ficou conhecido como os Crimes de Maio. \u201cEu toquei o barco dando coragem para essas mulheres para enfrentar o que vinha pela frente. O caminho da justi\u00e7a \u00e9 um caminho longo\u201d, diz D\u00e9bora, que coordena o movimento. Um of\u00edcio assinado por 79 promotores do Minist\u00e9rio P\u00fablico da capital paulista no dia 25 de maio daquele ano que a fez perceber o qu\u00e3o longo esse caminho seria. Nele, os promotores saudaram o Comando Geral da PM pela \u201cefici\u00eancia\u201d no \u201creestabelecimento da ordem\u201d. \u201cTemos um pa\u00eds que mata pobre e negro porque \u00e9 muito prov\u00e1vel n\u00e3o ter justi\u00e7a\u201d, indigna-se.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia bate recordes<\/strong><\/p>\n<p>E nunca se matou tanto no Brasil: segundo dados do Atlas da Viol\u00eancia, lan\u00e7ado pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) em mar\u00e7o deste ano, foram cometidos 59.216 homic\u00eddios em 2014, um recorde na hist\u00f3ria do pa\u00eds. Em n\u00fameros absolutos, n\u00e3o h\u00e1 pa\u00eds no mundo em que se mate mais do que no Brasil. Assim como em levantamentos anteriores, fica clara no relat\u00f3rio a dimens\u00e3o racial dessa viol\u00eancia. De acordo com os dados, as chances de um jovem negro de 21 anos morrer assassinado s\u00e3o 147% maiores do que as de um jovem n\u00e3o negro. Na \u00faltima d\u00e9cada, a taxa de homic\u00eddios entre a popula\u00e7\u00e3o negra aumentou 18,2%, ao mesmo tempo em que houve uma diminui\u00e7\u00e3o de 14,6% na vitimiza\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos n\u00e3o negros. A cada 23 minutos, um jovem negro \u00e9 morto no Brasil. Tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o no Atlas da Viol\u00eancia, que traz dados do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, o alto \u00edndice de mortes causadas especificamente pela pol\u00edcia em 2014, com um aumento de 37% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior: foram 3.022 casos. Na maioria dos estados, n\u00e3o h\u00e1 registros sobre a cor das v\u00edtimas, mas as informa\u00e7\u00f5es existem nos dois estados onde a ocorr\u00eancia foi mais frequente. Em S\u00e3o Paulo, 61% das 965 v\u00edtimas eram negras, e no Rio de Janeiro, das 584 pessoas mortas pela pol\u00edcia em 2014, 77% eram negras. Segundo dados compilados pela Anistia Internacional, 77% dos 30 mil jovens entre 15 e 29 anos assassinados em 2013 no Brasil s\u00e3o negros.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil \u00e9 a democracia da chacina, \u00e9 o pa\u00eds do genoc\u00eddio\u201d, desabafa D\u00e9bora. Conclus\u00e3o semelhante tiveram os relatores de uma Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) no Senado Federal encerrada em junho deste ano depois de sete meses de trabalho e 21 audi\u00eancias p\u00fablicas realizadas, das quais participaram diversos movimentos que abordam a tem\u00e1tica, entre eles o M\u00e3es de Maio. \u201cEm um ambiente onde a omiss\u00e3o do poder p\u00fablico suscita o aparecimento de grupos organizados de traficantes, bem como de mil\u00edcias, os \u00edndices de viol\u00eancia contra a juventude negra atingem o paroxismo. De outro lado, o crescimento da viol\u00eancia policial contra esses jovens tamb\u00e9m \u00e9 uma chocante realidade\u201d, apontou o relat\u00f3rio, que descreveu como \u201cgenoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra\u201d a situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia contra os jovens negros, em reconhecimento a uma bandeira hist\u00f3rica do movimento negro no pa\u00eds. \u201cO que a gente chama de genoc\u00eddio \u00e9 esse processo de elimina\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 direta e indiretamente por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o do Estado, que vem se estendendo por diversas gera\u00e7\u00f5es\u201d, diz Andreia Beatriz Santos, coordenadora da Campanha \u2018Reaja ou ser\u00e1 Morto, Reaja ou Ser\u00e1 Morta\u2019, que desde 2005 faz a den\u00fancia da viol\u00eancia policial contra a popula\u00e7\u00e3o negra na Bahia. \u201cFalar em genoc\u00eddio tem a ver com o reconhecimento de que n\u00f3s vivemos num Estado racista, em que as institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o formadas e t\u00eam sido alimentadas para manter essas pr\u00e1ticas racistas. \u00c9 uma categoria que nos ajuda a pensar tamb\u00e9m nos efeitos dessas mortes sobre as comunidades: as m\u00e3es, familiares que entram em depress\u00e3o, que se suicidam, que come\u00e7am a sofrer de alcoolismo, que ficam sem condi\u00e7\u00f5es de trabalhar. Para n\u00f3s tudo isso faz parte desse processo de genoc\u00eddio\u201d, explica Andreia.<\/p>\n<p><strong>Impunidade para policiais homicidas gera revolta<\/strong><\/p>\n<p>Entre outras recomenda\u00e7\u00f5es feitas pelos senadores no relat\u00f3rio da CPI est\u00e1 a extin\u00e7\u00e3o dos chamados autos de resist\u00eancia, que h\u00e1 anos s\u00e3o denunciados pelos movimentos sociais como instrumentos que permitem mascarar homic\u00eddios decorrentes de execu\u00e7\u00f5es como sendo fruto de confrontos com as v\u00edtimas, que acabam sendo culpabilizadas. Segundo levantamento do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, as pol\u00edcias brasileiras mataram 11.197 pessoas em casos listados como autos de resist\u00eancia entre 2008 e 2013, ou seis mortes por dia. Uma pesquisa do soci\u00f3logo Michel Misse, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por sua vez, apontou que 99,2% dos inqu\u00e9ritos de autos de resist\u00eancia acabam sendo arquivados.<\/p>\n<p>Para revolta de D\u00e9bora Maria da Silva, foi o que aconteceu no caso dos Crimes de Maio. \u201cMais de 500 pessoas foram assassinadas num espa\u00e7o de duas semanas, e todos os inqu\u00e9ritos foram arquivados. \u00c9 um absurdo\u201d, protesta. O movimento do qual ela \u00e9 coordenadora hoje luta pela federaliza\u00e7\u00e3o das investiga\u00e7\u00f5es sobre os crimes ocorridos em 2006. Em maio deste ano, o procurador-geral da Rep\u00fablica, Rodrigo Janot, pediu ao Superior Tribunal de Justi\u00e7a que transfira para a Pol\u00edcia Federal a investiga\u00e7\u00e3o sobre a morte de quatro jovens baleados por homens encapuzados no Parque Bristol, em S\u00e3o Paulo, em 14 de maio de 2006. Alegando que a pol\u00edcia paulista e o Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual cometeram \u201cfalhas e omiss\u00f5es grav\u00edssimas\u201d na investiga\u00e7\u00e3o dos crimes, Janot atendeu a um pedido feito em 2009 por familiares das v\u00edtimas e pela Organiza\u00e7\u00e3o N\u00e3o-governamental Conectas. Segundo D\u00e9bora, o Movimento M\u00e3es de Maio pediu a federaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m dos assassinatos cometidos na Baixada Santista em maio de 2010, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o obteve resposta. \u201cNa Baixada Santista, os corpos dos nossos filhos foram preservados por conta de um decreto da Prefeitura, em resposta \u00e0 press\u00e3o do movimento. Ent\u00e3o podemos provar que eles foram executados sumariamente\u201d, diz D\u00e9bora. Segundo ela, assim como nos casos do Parque Bristol, s\u00e3o flagrantes as falhas na investiga\u00e7\u00e3o dos crimes pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico estadual. \u201cN\u00f3s, como donas de casas, constatamos que havia v\u00e1rios erros ali. Meu filho, por exemplo, foi enterrado com o proj\u00e9til na espinha cervical, que deveria ser uma das principais pe\u00e7as na investiga\u00e7\u00e3o\u201d, acusa. E questiona: \u201cPor que s\u00f3 federalizar alguns casos? A obriga\u00e7\u00e3o era federalizar todos\u201d. Segundo estudo da ONG Justi\u00e7a Global, h\u00e1 ind\u00edcios de envolvimento de policiais fardados ou encapuzados em pelo 122 execu\u00e7\u00f5es ocorridas entre 12 e 26 de maio de 2006. At\u00e9 hoje, apenas um policial militar foi a julgamento acusado de participa\u00e7\u00e3o em grupos de exterm\u00ednio que atuaram no per\u00edodo. O cabo da PM Alexandre Andr\u00e9 Pereira da Silva foi condenado a 36 anos pelo assassinato de Murilo de Moraes Ferreira, Felipe Vasti Santos de Oliveira e Marcelo Heyd Meres em um lava r\u00e1pido no Jardim Brasil, zona norte de S\u00e3o Paulo. O r\u00e9u aguarda o julgamento do recurso em liberdade. \u201cFoi a \u00fanica condena\u00e7\u00e3o que saiu e a gente soube recentemente que ele continua trabalhando, mesmo tendo sido condenado. \u00c9 um absurdo, isso s\u00f3 d\u00e1 carta branca para matar. E est\u00e3o matando cada vez mais\u201d, protesta D\u00e9bora.<\/p>\n<p>Ana Paula de Oliveira sentiu na pele os efeitos da impunidade na perpetua\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. Seu filho Jhonatha, de 19 anos, foi morto no dia 14 de maio de 2014 com um tiro nas costas por um policial da Unidade de Pol\u00edcia Pacificadora (UPP) da favela de Manguinhos, zona norte do Rio de Janeiro. Segundo ela, o policial que matou Jhonatha respondia na justi\u00e7a por tr\u00eas homic\u00eddios cometidos em 2013 na Baixada Fluminense. \u201c\u00c9 revoltante saber que ele continuou solto, com a certeza de que podia continuar matando dentro das favelas. Saber disso me deu mais for\u00e7a ainda para lutar por justi\u00e7a no caso do meu filho\u201d, diz Ana Paula. Ela conta que a mobiliza\u00e7\u00e3o dos moradores articulados atrav\u00e9s do F\u00f3rum Social de Manguinhos foi essencial para evitar que o caso fosse arquivado. Na \u00faltima audi\u00eancia realizada no Tribunal de Justi\u00e7a do Rio de Janeiro, em maio, foi apresentado um exame bal\u00edstico que concluiu que o proj\u00e9til que matou Jhonatha partiu da arma do policial militar Alessandro Marcelino de Souza, que no registro da ocorr\u00eancia alegou que n\u00e3o havia participado da opera\u00e7\u00e3o que resultou na morte de Jhonatha e que n\u00e3o fez nenhum disparo. Ana Paula, no entanto, afirma que a audi\u00eancia a deixou \u201capavorada\u201d. \u201cEu nunca tinha entrado num tribunal, e tinha uma grande ilus\u00e3o de que ali encontraria justi\u00e7a. Mas para n\u00f3s familiares \u00e9 mais tortura, sabe? Porque fica bem n\u00edtido que quem est\u00e1 sendo julgado ali n\u00e3o \u00e9 o r\u00e9u, \u00e9 a v\u00edtima. Tive que responder perguntas do tipo: \u2018o que o Jhonatha fazia da vida? Ele tinha envolvimento com o tr\u00e1fico de drogas? Enquanto isso o r\u00e9u fica l\u00e1 fazendo cara de v\u00edtima. A v\u00edtima \u00e9 o meu filho, que foi assassinado jovem, com uma vida toda pela frente. \u00c9 revoltante ver que a Justi\u00e7a compactua com essas mortes\u201d, desabafa. De 2013 at\u00e9 agora, o F\u00f3rum Social de Manguinhos acusa policiais da UPP de matarem sete jovens na comunidade. \u201cN\u00e3o adianta trocar a cor da roupa da pol\u00edcia, o treinamento \u00e9 o mesmo, a institui\u00e7\u00e3o pol\u00edcia \u00e9 a mesma. As pessoas costumam falar que os policiais s\u00e3o despreparados, mas \u00e9 o contr\u00e1rio: eles s\u00e3o preparados para agir dessa forma dentro das favelas, com viol\u00eancia e viola\u00e7\u00e3o de direitos\u201d, diz Ana Paula.<\/p>\n<p>Andreia Beatriz concorda: \u201cExiste um modelo de forma\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias que \u00e9 de combater as pessoas que possuem determinadas caracter\u00edsticas, e isso n\u00e3o pode ser negligenciado. A gente tem v\u00e1rios instrumentos, sobretudo no estado da Bahia, que t\u00eam dito isso\u201d, afirma Andreia. Ela cita como exemplo uma cartilha da tatuagem, da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado, que associa determinadas marcas no corpo a uma suposta vincula\u00e7\u00e3o com o crime organizado. \u201cAli tem elementos das religi\u00f5es de matriz africana, que dizem respeito \u00e0 identidade da gente. Me lembro tamb\u00e9m h\u00e1 alguns anos de uma ordem da PM em Campinas, ap\u00f3s um assalto em um bairro nobre, que era para ficar atento a homens negros e pardos. Se hoje temos um n\u00famero enorme de jovens negros sendo mortos pela pol\u00edcia \u00e9 porque temos uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica racista que reconhece jovens negros como inimigos do Estado, como potenciais suspeitos, perigosos, pass\u00edveis de serem mortos\u201d, comenta Andreia.<\/p>\n<p>Na Bahia, terceiro entre os estados em que a pol\u00edcia mais mata no Brasil, depois de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, grande parte dessas mortes tamb\u00e9m acaba impune, como mostrou o caso da Chacina do Cabula, em Salvador. Em fevereiro de 2015, uma opera\u00e7\u00e3o no bairro da capital baiana terminou com 12 jovens negros mortos pela pol\u00edcia, num suposto confronto entre guarni\u00e7\u00f5es das Rondas Especiais (Rondesp) da Pol\u00edcia Militar da Bahia com um grupo suspeito de atuar em assaltos a bancos. Durante a opera\u00e7\u00e3o, os nove policiais envolvidos dispararam 143 tiros, dos quais 88 foram encontrados nos corpos das v\u00edtimas. Laudos necrol\u00f3gicos apontaram que a maioria dos tiros foi disparada a curta dist\u00e2ncia e de cima para baixo, ind\u00edcios de que os jovens foram executados. Poucas horas ap\u00f3s a chacina, o governador baiano, Rui Costa, causou revolta com uma declara\u00e7\u00e3o em que comparou a situa\u00e7\u00e3o a uma partida de futebol. \u201c\u00c9 como um artilheiro na frente do gol, que tenta decidir, em poucos segundos, como \u00e9 que ele vai botar a bola dentro do gol. Depois que a jogada termina, se foi um gola\u00e7o, todos os torcedores da arquibancada ir\u00e3o bater palmas\u201d, afirmou. Em junho, uma den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Bahia, que acusou os policiais envolvidos de terem premeditado uma emboscada contra os jovens, foi acolhida pela Justi\u00e7a baiana. Pouco mais de um m\u00eas depois, no dia 24 de julho, a ju\u00edza substituta Marivalda Almeida Moutinho absolveu todos os envolvidos. \u201cEra uma fase de levantamento de provas, de ouvir as testemunhas, de ouvir tudo, e a ju\u00edza deliberadamente encerrou o processo\u201d, protesta Andreia Beatriz. Em parceria com a Justi\u00e7a Global, a Campanha entrou com pedido de federaliza\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o, e em junho deste ano a Procuradoria Geral da Rep\u00fablica acatou o pedido, apontando que houve incongru\u00eancias na investiga\u00e7\u00e3o conduzida pelo judici\u00e1rio estadual. Pesou na decis\u00e3o da PGR a repercuss\u00e3o internacional do caso, que foi objeto de uma representa\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a Global e da Campanha \u2018Reaja ou Ser\u00e1 Morto, Reaja ou Ser\u00e1 Morta\u2019 junto \u00e0 Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos, da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA). Andreia conta que, sobretudo depois dessa interven\u00e7\u00e3o, integrantes do grupo passaram a receber amea\u00e7as. \u201cO que acontece \u00e9 que esses policiais n\u00e3o foram afastados da atua\u00e7\u00e3o naquela localidade, o que \u00e9 muito grave. Muitos pais e m\u00e3es de v\u00edtimas continua-ram vendo esses policiais que participaram dessa chacina. E a gente come\u00e7ou a sofrer uma s\u00e9rie de intimida\u00e7\u00f5es. Por diversas vezes a gente teve que sair de Salvador, alguns familiares das v\u00edtimas tamb\u00e9m foram retirados estrategicamente de Salvador, temporariamente, por conta desse processo de intimida\u00e7\u00e3o\u201d, revela.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o entre movimentos de v\u00e1rios estados e com organiza\u00e7\u00f5es de defesa dos direitos humanos tem sido uma arma no fortalecimento dessa agenda em n\u00edvel nacional. Este ano, no final de julho, v\u00e1rios deles, incluindo a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Viol\u00eancia, o Movimento M\u00e3es de Maio e o F\u00f3rum Social de Manguinhos, se reuniram na capital fluminense para lembrar os 23 anos da Chacina da Candel\u00e1ria, quando oito meninos foram assassinados por um grupo de exterm\u00ednio enquanto dormiam em frente a tradicional igreja no centro do Rio. O epis\u00f3dio se tornou um marco da viol\u00eancia do Estado contra a juventude negra no Brasil. \u201c\u00c9 importante lembrar da Candel\u00e1ria porque acontecem tantas chacinas ainda no Rio de Janeiro que corre o risco de as pessoas se esquecerem. Nossa sociedade continua achando que chacina \u00e9 solu\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9\u201d, afirma Patr\u00edcia Oliveira, irm\u00e3 de Vagner dos Santos, um dos sobreviventes da chacina que hoje vive no exterior. Ativistas do movimento Black Lives Matter, que luta contra a brutalidade policial nos Estados Unidos, estiveram presentes no evento. \u201cEu acho que a vinda do Black Lives Matter \u00e9 importante, porque as autoridades ouvem mais quem vem de fora do que os pr\u00f3prios brasileiros. Quando a gente se junta com eles \u00e9 para globalizar a nossa luta, porque a bala que mata l\u00e1 \u00e9 a mesma que mata aqui, \u00e9 o mesmo dedo indicador do Estado quem aperta o gatilho. Se a gente globalizar a nossa luta a gente avan\u00e7a\u201d, ressalta D\u00e9bora Maria. Ana Paula de Oliveira relata que o F\u00f3rum Social de Manguinhos aproveitou a vinda dos ativistas norteamericanos para promover debates em escolas p\u00fablicas da regi\u00e3o. \u201cA gente acha superimportante fazer esse di\u00e1logo nas escolas, que \u00e9 onde est\u00e3o os jovens que s\u00e3o v\u00edtimas dessa viol\u00eancia, para trocar experi\u00eancias sobre o que \u00e9 ser negro, morador de favela. Para mim foi muito emocionante ir ao Col\u00e9gio Cl\u00f3vis Monteiro, que foi onde eu estudei \u2013 quando sa\u00ed estava gr\u00e1vida do Jhonatha, que tamb\u00e9m estudou ali\u201d, relata.<\/p>\n<p>Segundo D\u00e9bora, os movimentos tamb\u00e9m t\u00eam procurado fortalecer as parcerias com organiza\u00e7\u00f5es como Justi\u00e7a Global e Anistia Internacional, que esse ano articulou uma campanha para denunciar o aumento do n\u00famero de mortos pela pol\u00edcia do Rio de Janeiro no contexto de prepara\u00e7\u00e3o para as Olimp\u00edadas. Segundo \u00c1tila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional, nos tr\u00eas meses anteriores ao evento houve um aumento de 103% no n\u00famero de jovens mortos pela pol\u00edcia na cidade. \u201cNo Rio de Janeiro os dados mostram que a pol\u00edcia tem sido respons\u00e1vel por um a cada cinco homic\u00eddios. Isso s\u00f3 pode ser descrito como um estado de fal\u00eancia da seguran\u00e7a p\u00fablica\u201d, opina \u00c1tila. Para ele, os grandes eventos t\u00eam trazido um recrudescimento de um padr\u00e3o repressivo altamente violento. \u201cQuando o Estado se v\u00ea diante de um grande evento, ele simplesmente aumenta a intensidade da estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a p\u00fablica focada em opera\u00e7\u00f5es altamente militarizadas. A gente viu isso durante a Copa, quando tivemos um aumento de 40% no n\u00famero de pessoas mortas durante opera\u00e7\u00f5es policiais em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior\u201d, enumera \u00c1tila. E completa: \u201cN\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel que a gente continue a admitir que a viol\u00eancia letal seja orientada de maneira t\u00e3o seletiva, sob essa naturaliza\u00e7\u00e3o do racismo, da desigualdade e da viol\u00eancia. \u00c9 preciso romper com a indiferen\u00e7a dessa sociedade que vai dormir e acorda como se n\u00e3o estivesse ocorrendo um massacre ao seu redor\u201d, protesta.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.epsjv.fiocruz.br\/\" target=\"blank\">EPSJV\/Fiocruz<\/a><\/p>\n<p>https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/artigos-em-destaque\/item\/73000-retratos-de-um-genocidio.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"[Andr\u00e9 Antunes] A cada 23 minutos um jovem negro \u00e9 morto no Brasil. 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