{"id":12262,"date":"2016-10-04T17:12:51","date_gmt":"2016-10-04T20:12:51","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12262"},"modified":"2016-11-04T16:06:32","modified_gmt":"2016-11-04T19:06:32","slug":"eleicoes-2016-uma-grande-derrota-dois-casos-significativos-e-algumas-hipoteses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12262","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es 2016: Uma grande derrota, dois casos significativos e algumas hip\u00f3teses"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/s-MTyr2x5dFmudsITKSeLcytIa2njZ9pp4331yE7QVR4RG4rUNaszgFldEwSApO3v8_8OUmi8Y32mBxfzIlwWJ1c7cY8qAfgEAJKdILEwa7-8XrTyxEycHJQ7kACCJS5P9OcnNTnnnjgv4ZGMkL-zLAoq2kTZCFDH8c4YCbll8tSWdDckCTs455fACmhjgGQT57WD7HyNKGgKgKuE-8MAEIQ9Lov_EAxUYeffoRlnrYUgXHk-LDrwVLFYQ5wQsLvemlTUyjHZwkU_OPFta4qT7yPAKfMe1nf46Li2Ks1zaD9N2qDK2mpBish_pBqO1wJ5OXs7qB8ZS86z6orMwdL5sfXsCoMotngR_Nb2Iu7Gr6-HpD2iNA5Atyq6IzFWOVO-SiRaltSmlH-5fT3o1Fae_dmwDX2zme7osooO3MBNabErPgRMAVVys2eM5oqHXP7_ck2QTp3diyUsLqy7hzpfBK6awrm-9gxsv6WdGGsDjegeKuaW6i1bVqhxkA2M7QBjfXCNV1gdrhK7VdwSZVURHt9Rj-TkDjiHAuxOBVRpxyGxdoJGuoQ23LqIOASfdq3XflvWuWw29hLYf_hDxx3TDC57GPUmVyEKy4Zg6PW8MuZGgky=w558-h646-no\" alt=\"imagem\" \/><strong>O voto que se desloca do petismo, vai em grande parte para a desilus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Mauro Luis Iasi*<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhuma d\u00favida que o resultado das elei\u00e7\u00f5es municipais apontam para uma grande derrota das for\u00e7as progressistas e de esquerda, portanto, uma vit\u00f3ria para as posi\u00e7\u00f5es conservadoras. <!--more-->No entanto, o que podemos extrair pela an\u00e1lise, ainda preliminar, dos resultados deve ir al\u00e9m desta constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando olhamos de perto dois casos significativos, o de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro, ao lado de alguns indicativos nacionais, podemos arriscar algumas hip\u00f3teses para entender o tempo presente e as perspectivas que se abrem.<\/p>\n<p><strong>A derrota vista mais de perto<\/strong><\/p>\n<p>Os dados parecem demonstrar que o PT \u00e9 o maior derrotado nestas elei\u00e7\u00f5es, sem d\u00favida pela intensa campanha de ataques jur\u00eddicos, midi\u00e1ticos e pol\u00edticos que culminaram no afastamento da presidente e continuaram depois disso. N\u00e3o apenas caiu em n\u00famero de cidades na qual elegeu prefeitos, caindo de 630 em 2012 para 265 em 2016 (uma queda de 59,4%), mas perdeu em locais significativos, como \u00e9 o caso da capital paulista e na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo (Guarulhos, ABCD, Santos, etc.), teve desempenho abaixo do esperado no nordeste, foi derrotado em Porto Alegre e no interior ga\u00facho. Elegeu no primeiro turno apenas em uma capital (Rio Branco, no Acre) e foi para o segundo turno no Recife. Se considerarmos seu principal escudeiro, o PCdoB, apenas agregamos o segundo turno em Aracaj\u00fa e, no conjunto, o crescimento de 51 para 80 cidades que governar\u00e1, sabe-se l\u00e1 com que alian\u00e7as e com qual personagem.<\/p>\n<p>Com estes resultados, num quadro geral que parece n\u00e3o ser\u00e1 alterado significativamente com as disputas ainda em aberto no segundo turno, o PT ca\u00ed do terceiro para o d\u00e9cimo lugar quanto ao n\u00famero de prefeituras. Considerando o n\u00famero de votos recebidos pelo PT constatamos uma queda de 60%, passando de 17,2 milh\u00f5es para 6,8 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas, quem ganhou? \u00c9 bom lembrar que o PT j\u00e1 em 2012 estava apenas em terceiro lugar em n\u00famero de cidades governadas. O PMDB que era o primeiro neste quesito, manteve a posi\u00e7\u00e3o, no entanto, com um crescimento relativamente pequeno, passando de 1015 para 1027 cidades, amargando derrotas importantes em capitais como S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A m\u00eddia monopolista isola este crit\u00e9rio para transformar o PSDB no grande vencedor. Ainda que tenha crescido de 686 para 791 (crescimento de 15,3%), vencido em capitais importantes e estar disputando o segundo turno no maior n\u00famero de cidades, permanece em segundo lugar atr\u00e1s do PMDB, posi\u00e7\u00e3o em que j\u00e1 estava em 2012.<\/p>\n<p>O que marcou este primeiro turno foi a pulveriza\u00e7\u00e3o, tanto \u00e0 esquerda como \u00e0 direita \u2013 por motivos opostos. Se na esquerda ela marca a defensiva da derrota, \u00e0 direita a fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado da confian\u00e7a que permite disputar entre si os despojos da derrota do petismo. Estas elei\u00e7\u00f5es t\u00eam grande import\u00e2ncia no posicionamento das for\u00e7as pol\u00edticas para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais. A pulveriza\u00e7\u00e3o de siglas neste multipartidarismo carente de conte\u00fado divide o botim entre coisas como o PSD de Kassab, PRB do Bispo Crivella e uma mir\u00edade de legendas como PSC, PHS, PTN e outras, preparando o mercado pol\u00edtico dos apoios aos projetos e ambi\u00e7\u00f5es visando as elei\u00e7\u00f5es nacionais que vir\u00e3o.<\/p>\n<p>Disso resulta uma primeira constata\u00e7\u00e3o: considerando as duas principais legendas golpistas (PMDB e PSDB), podemos considerar que seu crescimento foi menor que a queda do PT. Em n\u00fameros absolutos, os dois levaram 117 prefeituras a mais do que em 2012 e o PT perdeu 374. Ainda que tenham migrado na maior parte para for\u00e7as comprometidas com a interrup\u00e7\u00e3o do mandato da presidente eleita, podemos afirmar que a aventura oportunista rendeu menos do que esperavam as grandes legendas do conservadorismo. O desempenho p\u00edfio da REDE de Marina Silva e a queda do PSB comprovam nossa hip\u00f3tese. Os bal\u00f5es de ensaio n\u00e3o decolaram. A tradicional express\u00e3o da direita n\u00e3o d\u00e1 conta da tarefa, mas \u00e9 ela que ocupa o espa\u00e7o. Esta n\u00e3o \u00e9 uma boa not\u00edcia para a direita.<\/p>\n<p>Um dos efeitos deste fato \u00e9 o crescimento da extrema direita. No Rio, a candidatura do filhote do Bolsonaro teve vota\u00e7\u00e3o expressiva e elegeu com folga o outro filho para a c\u00e2mara municipal. Ainda n\u00e3o \u00e9, entretanto, uma alternativa nacional para os prop\u00f3sitos das classes dominantes brasileiras.<\/p>\n<p>Mas para onde foi o descontentamento produzido t\u00e3o paciente e profissionalmente? Os \u00edndices de absten\u00e7\u00f5es, votos brancos e nulos podem ser uma pista interessante. A soma dos votos brancos, nulos e absten\u00e7\u00f5es ganhou as elei\u00e7\u00f5es em nove capitais e a oscila\u00e7\u00e3o que eleva para 17,58% o percentual de absten\u00e7\u00f5es (em 2012 havia sido algo entorno de 12%), mascara que em algumas cidades este n\u00famero ultrapassou a marca dos 30%.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, as absten\u00e7\u00f5es somaram 21,84%, os nulos 11,35% e os brancos 5,29%, ultrapassando em n\u00fameros absolutos os votos recebidos por Jo\u00e3o Doria. Este foi vitorioso com algo pr\u00f3ximo de um ter\u00e7o dos votos considerando o universo total e n\u00e3o apenas os v\u00e1lidos, o que lhe garantiu a vit\u00f3ria no primeiro turno com o percentual de 53%.<\/p>\n<p>No Rio, as absten\u00e7\u00f5es chegaram \u00e0 marca de 24,28% dos votos, os brancos foram 5,5% e os nulos 12,76%. Caso consideremos o universo dos eleitores da cidade do Rio de Janeiro, isto significa que, em conjunto, o volume de votos n\u00e3o dados aos candidatos chega \u00e0 marca de 1.877.000, o que representa 38,32% em rela\u00e7\u00e3o aos 4.898.045 eleitores da cidade. Desta forma, em n\u00fameros absolutos, os votos brancos, nulos e absten\u00e7\u00f5es somados representam um volume maior que os votos de Crivella e Freixo juntos (1.377.625 votos, contra 1.877.000).<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos afirmar com seguran\u00e7a o conte\u00fado destes \u201cn\u00e3o votos\u201d, que v\u00e3o desde a impossibilidade de estar na cidade em que ocorre o pleito, o erro na hora da digita\u00e7\u00e3o, at\u00e9 o protesto. Mas, podemos apresentar como nossa segunda constata\u00e7\u00e3o que o principal efeito das manobras golpistas foi o crescimento do desencanto com as formas da democracia representativa no Brasil. Dito em outras palavras, o voto que se desloca do petismo, vai em grande parte para a desilus\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro como dois casos exemplares<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo com as considera\u00e7\u00f5es feitas, a vit\u00f3ria do PSDB em primeiro turno na capital paulista \u00e9 um fato politicamente devastador para o PT. O fato de Haddad ter ficado em segundo lugar, ameniza mas n\u00e3o evita a profundidade da derrota. S\u00e3o Paulo j\u00e1 conheceu esta altern\u00e2ncia antes, entre governantes ligados diretamente ao PSDB e ao PT, isso n\u00e3o seria de se estranhar nestas condi\u00e7\u00f5es. O que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o volume da derrota (a diferen\u00e7a entre o candidato tucano e o petista foi de mais de 2,1 milh\u00f5es de votos), considerando quem \u00e9 Jo\u00e3o Doria e o que foi a administra\u00e7\u00e3o petista, isso \u00e9 surpreendente.<\/p>\n<p>Dois mitos se dissolvem em poeira nas elei\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Paulo. De um lado a cren\u00e7a que os \u201cfeitos\u201d administrativos pesam muito na hora da defini\u00e7\u00e3o do voto, como se a \u201cobra\u201d de um prefeito falasse mais do que ele pr\u00f3prio em uma disputa eleitoral (no Rio, tamb\u00e9m, Eduardo Paes sofreu desta s\u00edndrome). Haddad fez uma boa administra\u00e7\u00e3o, ainda que como tudo que marcou o ciclo petista tenha sido desastrosa do ponto de vista pol\u00edtico, mas isso pesou pouco. O candidato de proveta fabricado nos laborat\u00f3rios Alckmin (ou seria ACME dos famosos personagens <em>Looney Tunes<\/em>), que gosta de dizer que come\u00e7ou do zero e trabalhou muito para chegar onde chegou, pode com tom farsesco fazer com que uma pilheria ganhasse das realiza\u00e7\u00f5es em pol\u00edticas p\u00fablicas e na gest\u00e3o \u201cmoderna\u201d da cidade.<\/p>\n<p>Alguns podem agora culpar a falta de divulga\u00e7\u00e3o ou a qualidade da comunica\u00e7\u00e3o realizada pela prefeitura (tenho certeza que o custo monet\u00e1rio foi bem alto pelos servi\u00e7os prestados) ou a conhecida injusti\u00e7a com a qual o povo trata aqueles que o amam. Ainda que tenha seu peso, n\u00e3o creio que seja a\u00ed que encontraremos a raiz da quest\u00e3o. N\u00e3o basta realiza\u00e7\u00f5es de uma gest\u00e3o, ou sua correta divulga\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o houver for\u00e7as sociais que a defendam. A pergunta \u00e9, ent\u00e3o, o que corroeu as bases sociais de sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do governo petista em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A falta de autocr\u00edtica do petismo governista \u00e9 um assombro. Diante de uma gest\u00e3o, dir\u00edamos n\u00f3s, decente, como explicar que as pr\u00f3prias bases sociais tenham preferido o Richie Rich (Riquinho)?<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que segmentos sociais e indiv\u00edduos \u201ccompraram\u201d a imagem de um \u201cempres\u00e1rio de sucesso\u201d, um \u201cgestor privado da coisa p\u00fablica\u201d, um \u201cn\u00e3o pol\u00edtico\u201d, enquanto os supostamente beneficiados pela gest\u00e3o decente, n\u00e3o se dispuseram a defende-la, fora, evidentemente, do circulo da \u201cmilit\u00e2ncia\u201d que o fez por dever de of\u00edcio ou v\u00ednculo empregat\u00edcio. A nosso ver, isso est\u00e1 diretamente relacionado ao esvaziamento pol\u00edtico da gest\u00e3o. A gest\u00e3o \u00e9 do Haddad, as conquistas s\u00e3o de sua personalidade ou m\u00e9rito do modo petista de governar. Lutas sociais e lutadores s\u00e3o eclipsados, quando n\u00e3o combatidos por atrapalhar a genialidade dos operadores pol\u00edticos. Reduzida a uma quest\u00e3o de personalidade e capacidade pol\u00edtica ou de gest\u00e3o da cidade, a popula\u00e7\u00e3o expropriada de sua dimens\u00e3o pol\u00edtica, responde despolitizadamente.<\/p>\n<p>Isso remete ao segundo mito que agora desmorona: a cren\u00e7a do petismo que no momento decisivo as bases sociais correm em seu apoio e a esquerda, na falta de outra alternativa para fazer frente \u00e0 direita, salva o petismo de suas derrotas. Os dois fatos se interligam. Nem as \u201cbases sociais\u201d compareceram, nem a esquerda se moveu nesta dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o falo apenas da decis\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es que poderiam estar certas ou erradas de acordo com o ju\u00edzo que se fa\u00e7a, mas do movimento objetivo daqueles que n\u00e3o votaram em Haddad. E o motivo dos dois movimentos \u00e9 o mesmo.<\/p>\n<p>O petismo no governo, da mesma forma que nacionalmente, optou por uma governabilidade pelo alto e muitas vezes contra sua base social e sua identidade de esquerda. Paciente e cotidianamente destruiu as bases identit\u00e1rias com que agora precisava contar. Haddad empenhava-se em conseguir acordos com os empres\u00e1rios do transporte, afirmando a necessidade de aumentar as tarifas, no momento em que a juventude explodia as ruas naquilo que levaria a junho de 2013. Abra\u00e7ou Alckmin e recorreu ao governo federal contra as mobiliza\u00e7\u00f5es, enfiando a cabe\u00e7a na areia e torcendo para que tudo passasse r\u00e1pido. Muito daquilo que agora se apresenta como \u201cgest\u00e3o moderna da cidade\u201d, ocorreu como tentativa tardia e, talvez, insuficiente, em dar uma resposta ao que explodiu em 2013. \u00c9 louv\u00e1vel que pelo menos tenha tentado, coisa que o governo federal n\u00e3o fez.<\/p>\n<p>Empenhado em cobrar que todos \u201cnaturalmente\u201d o apoiassem para derrotar a direita em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o se apercebeu que o PT n\u00e3o \u00e9 mais o ponto em que a esquerda e amplos segmentos dos movimentos sociais v\u00eaem como forma de derrotar a direita, mas como uma for\u00e7a que se aliou a esta direita para impor uma s\u00e9rie de derrotas profundas aos trabalhadores. O fato do PT estar aliado em quase dois mil munic\u00edpios aos \u201cgolpistas\u201d que diz combater, n\u00e3o ajuda muito. Haddad n\u00e3o procurou a esquerda porque arrogantemente acreditava que ela viria como sempre, mas empenhou-se em atrair para sua governabilidade o PMDB e seus sat\u00e9lites, o Chalita e outras figuras de natureza e car\u00e1ter deplor\u00e1veis. Como sempre. Mas, desta vez\u2026 n\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p><strong>O caso do Rio de Janeiro<\/strong><\/p>\n<p>Neste ponto o Rio de Janeiro \u00e9 um contra-exemplo que nos ajuda a compreender este complexo cen\u00e1rio. Enquanto em S\u00e3o Paulo se conclamava a uni\u00e3o de todos em torno de Haddad, no Rio dividia-se a esquerda lan\u00e7ando a candidatura do PCdoB que quase consegue levar ao pesadelo de um segundo turno entre Crivella e Pedro Paulo. Este n\u00e3o \u00e9 um aspecto menor, revela esta arrog\u00e2ncia que descrev\u00edamos. Jandira Feghali tentou desesperadamente construir o discurso daqueles que estando contra o governo Temer deveriam unir for\u00e7as para derrotar o PMDB no Rio, como se tivessem um DNA ou o registro fundi\u00e1rio registrado em cart\u00f3rio de \u201cvitimas do golpe\u201d, de forma que todos estariam obrigados a cerrar fileiras com ela, porque ela poderia derrotar o PMDB no Rio.<\/p>\n<p>O mito que desmorona no Rio \u00e9 outro, mas tem parentesco como os dois que apontamos em S\u00e3o Paulo. Cai a cren\u00e7a de que a \u00fanica maneira de enfrentar a direita \u00e9 uma alian\u00e7a ampla na qual os setores populares t\u00eam que se submeter a alian\u00e7as com segmentos da pol\u00edtica conservadora, inclusive com segmentos da pr\u00f3pria direita.<\/p>\n<p>O que as elei\u00e7\u00f5es municipais parecem demonstrar \u00e9 que o PT e seus aliados receberam um voto de desconfian\u00e7a al\u00e9m das elei\u00e7\u00f5es em si, mas como protagonistas da luta contra o governo Temer e o PMDB. No caso do Rio isso se explica facilmente. Ainda que considerarmos o movimento de \u201cvoto \u00fatil\u201d que desidrata a candidatura do PCdoB e seus aliados petistas em benef\u00edcio de Freixo, somente isso n\u00e3o pode explicar a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o ocorreu o contr\u00e1rio, isto \u00e9, porque desta vez o voto \u00fatil n\u00e3o beneficiou os ex-governistas.<\/p>\n<p>A nosso ver, a resposta \u00e9 relativamente simples. Se por um lado o golpismo de certa forma incensou o PT e seus aliados, por outro lado \u00e9 transparente que at\u00e9 pouqu\u00edssimo tempo estas for\u00e7as pol\u00edticas estavam aliadas na rapinagem que se presenciou no governo do Estado e na cidade do Rio de Janeiro. O PT e o PCdoB, mesmo diante do terremoto de 2013, demoraram a largar o osso das administra\u00e7\u00f5es estadual e municipal. O apoio \u00e0 Cabral, Pez\u00e3o e Paes cobraram um alto pre\u00e7o e destru\u00edram qualquer possibilidade da candidata do PCdoB apresentar-se como alternativa de fato \u00e0quilo que ela participava at\u00e9 ontem.<\/p>\n<p>Aquilo que se consolidou como caminho de resist\u00eancia ao PMDB e contra a extrema direita que mostra sua for\u00e7a, foi uma frente de esquerda, restrita nos termos daqueles que insistem em usar este qualitativo porque gastaram o termo para fazer frentes exatamente com o PMDB e outras siglas conservadoras. No Rio vai ao segundo turno uma frente formada pelo PSOL e PCB e apoiada por muitas outras organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e movimentos sociais, com pouco tempo de televis\u00e3o, poucos recursos, sem apoio de m\u00e1quinas, sem alian\u00e7as esp\u00farias, mas que logrou mobilizar uma milit\u00e2ncia e uma energia social que o petismo desprezou, ou no m\u00ednimo relativizou, como recurso de governabilidade. Nos parece significativo.<\/p>\n<p>O ensinamento que pode se tirar disso \u00e9 mais importante para o futuro do que para explicar o passado. O petismo parece imune \u00e0 autocr\u00edtica, com exce\u00e7\u00e3o de seus segmentos mais l\u00facidos e infelizmente minorit\u00e1rios. O segundo turno no Rio pode levar-nos a compreender que aquilo que pode no m\u00e9dio e longo prazo ser constru\u00eddo como alternativa real de poder n\u00e3o passa pela repeti\u00e7\u00e3o dos erros da experi\u00eancia que agora se encerra, mas pela redescoberta da independ\u00eancia de classe e capacidade de enraizamento social que possa resistir agora para depois fazer frente \u00e0 ofensiva reacion\u00e1ria que se implantou em nosso pa\u00eds. A ilus\u00e3o de recompor as alian\u00e7as que tornaram poss\u00edvel o ciclo passado, por conta de qualquer deslocamento do bloco conservador, n\u00e3o passa disso: uma ilus\u00e3o, e uma ilus\u00e3o perigosa.<\/p>\n<p>Isso significa que a ida ao segundo turno, a possibilidade dif\u00edcil de vit\u00f3ria contra o fundamentalismo obscurantista, n\u00e3o pode levar a uma amplia\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as e acordos pol\u00edticos que venham a diluir a identidade de esquerda de nossa alternativa. Este caminho sedutor \u00e9 o caminho do p\u00e2ntano. O volume dos votos nulos e das absten\u00e7\u00f5es \u00e9 um recado que precisa ser compreendido. Os limites da democracia representativa, que j\u00e1 se mostravam evidente em 2013, apontam rapidamente para sua fal\u00eancia. Se n\u00e3o soubermos dirigir este descontentamento em uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, pode ser o caldo de cultura necess\u00e1rio para alternativas reacion\u00e1rias.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia no Rio, neste sentido, \u00e9 mais simb\u00f3lica do que efetiva. Mesmo um resultado favor\u00e1vel no Rio, assim como a possibilidade de alguma vit\u00f3ria em Bel\u00e9m ou Recife, n\u00e3o ser\u00e3o capazes de reverter a derrota no quadro geral para as for\u00e7as conservadoras. Mas n\u00e3o devemos menosprezar resist\u00eancias simb\u00f3licas, elas podem ser o ponto entorno do qual se articulam esfor\u00e7os e lutas que podem, mais adiante, reverter a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as hoje t\u00e3o desfavor\u00e1vel.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>*Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/10\/04\/eleicoes-2016-uma-grande-derrota-dois-casos-significativos-e-algumas-hipoteses\/\" target=\"_blank\">http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/10\/04\/eleicoes-2016-uma-grande<wbr \/>-derrota-dois-casos-significativos-e-algumas-hipoteses\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O voto que se desloca do petismo, vai em grande parte para a desilus\u00e3o Mauro Luis Iasi* N\u00e3o h\u00e1 nenhuma d\u00favida que o \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12262\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-12262","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3bM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12262","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12262"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12262\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}