{"id":1229,"date":"2011-02-21T15:42:56","date_gmt":"2011-02-21T15:42:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1229"},"modified":"2011-02-21T15:42:56","modified_gmt":"2011-02-21T15:42:56","slug":"revolucao-no-egito-e-ruim-para-israel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1229","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o no Egito \u00e9 ruim para Israel"},"content":{"rendered":"\n<p>(a revolta na Tun\u00edsia e no Egito) exp\u00f5e as fal\u00e1cias e o simulacro de Israel como nunca antes. o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a fal\u00e1cia de que Israel \u00e9 um pa\u00eds est\u00e1vel, ilha civilizada ocidental no mar agitado da barb\u00e1rie e do fanatismo isl\u00e2mico \u00e1rabe. O &#8220;perigo&#8221; para Israel \u00e9 que a cartografia seja a mesma, mas que a geografia mude. O pa\u00eds ainda seria uma ilha, mas de barb\u00e1rie e fanatismo em um mar de Estados democr\u00e1ticos e igualit\u00e1rios rec\u00e9m-formados. O artigo \u00e9 de Ilan Pappe.<\/p>\n<p><strong>Ilan Pappe*<\/strong><\/p>\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es da Tun\u00edsia e do Egito, se realmente obtiverem sucesso, ser\u00e3o ruins, muito ruins para Israel. \u00c1rabes educados \u2013 nem todos vestidos como &#8220;isl\u00e2micos&#8221;, a maioria sem falar um ingl\u00eas perfeito, cujo desejo de democracia n\u00e3o recorre \u00e0 ret\u00f3rica &#8220;antiocidental&#8221; \u2013 s\u00e3o ruins para Israel.<\/p>\n<p>Ex\u00e9rcitos \u00e1rabes que n\u00e3o atirem nos manifestantes s\u00e3o t\u00e3o ruins para Israel como o s\u00e3o muitas outras imagens que movimentam e entusiasmam tantas pessoas ao redor do mundo, inclusive no Ocidente. Essa rea\u00e7\u00e3o mundial tamb\u00e9m \u00e9 ruim, muito ruim para Israel. Faz a ocupa\u00e7\u00e3o israelense na Cisjord\u00e2nia e na Faixa de Gaza, e as pol\u00edticas sionistas de apartheid dentro de Israel, parecerem atos de um t\u00edpico regime &#8220;\u00e1rabe&#8221;.<\/p>\n<p>Por algum tempo n\u00e3o soubemos o que os oficiais de Israel pensavam [sobre a intifada eg\u00edpcia]. Na primeira mensagem a seus pares, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pediu a seus ministros, generais e pol\u00edticos que n\u00e3o comentassem em p\u00fablico os acontecimentos no Egito. Por um breve momento qualquer um de n\u00f3s pensaria que Israel havia passado de bandido do bairro para o que ele sempre foi: um visitante ou um residente permanente [na Palestina].<\/p>\n<p>Parece que Netanyahu ficou particularmente envergonhado com os coment\u00e1rios infelizes sobre a situa\u00e7\u00e3o proferidos publicamente pelo general Aviv Kochavi, o chefe da intelig\u00eancia militar israelense. Especialista em assuntos \u00e1rabes, Kochavi declarou confiante, no Knesset [o Parlamento de Israel], duas semanas antes da queda de Mubarak, que o regime do ditador estava mais s\u00f3lido e resistente do que nunca. Mas Netanyahu n\u00e3o p\u00f4de ficar de boca fechada por tanto tempo. E, quando falou, todos os outros o seguiram. E, quando todos falaram, suas opini\u00f5es fizeram os comentaristas da Fox News [de direita, conhecidos pela virul\u00eancia] parecerem um bando de hippies pacifistas e amantes da liberdade da d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia da narrativa israelense \u00e9 simples: essa \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 iraniana, auxiliada pela Al Jazeera e estupidamente permitida pelo presidente dos EUA, Barack Obama, que \u00e9 um novo Jimmy Carter, e por um mundo estupefato. No comando da interpreta\u00e7\u00e3o israelense est\u00e3o os ex-embaixadores de Israel no Egito. Todas as suas frustra\u00e7\u00f5es por terem sido trancados em um apartamento de um arranha-c\u00e9u no Cairo agora explodem como um vulc\u00e3o em erup\u00e7\u00e3o. Suas invectivas podem ser resumidas nas palavras de um deles, Zvi Mazael, que declarou ao canal de televis\u00e3o israelense One, em 28 de janeiro, que &#8220;isso [a intifada eg\u00edpcia] \u00e9 ruim para os judeus, muito ruim&#8221;.<\/p>\n<p>Em Israel, claro, quando voc\u00ea diz &#8220;ruim para os judeus,&#8221; voc\u00ea quer dizer \u201cpara os israelenses\u201d \u2013 mas tamb\u00e9m significa que tudo que \u00e9 ruim para Israel \u00e9 ruim para os judeus de todo o mundo (apesar das evid\u00eancias em contr\u00e1rio desde a funda\u00e7\u00e3o do Estado).<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 realmente ruim para Israel \u00e9 a compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Independentemente do modo como tudo isso v\u00e1 acabar, [a revolta na Tun\u00edsia e no Egito] exp\u00f5e as fal\u00e1cias e o simulacro de Israel como nunca antes. O Egito est\u00e1 passando por uma intifada pac\u00edfica \u2013 a viol\u00eancia letal vem do lado do regime. O ex\u00e9rcito n\u00e3o atirou contra os manifestantes, e at\u00e9 mesmo antes da partida de Mubarak, com os protestos alcan\u00e7ando a marca de sete dias, o ministro do interior, que liderou seu capangas num choque violento contra os manifestantes, foi demitido e, provavelmente, ser\u00e1 levado \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Sim, isso foi feito para o governo ganhar tempo e tentar convencer os manifestantes a ir para casa. Mas mesmo esta cena, agora esquecida, nunca poderia acontecer em Israel. Israel \u00e9 um lugar onde todos os generais que ordenaram o massacre de manifestantes palestinos e judeus contra a ocupa\u00e7\u00e3o agora concorrem ao mais alto cargo, o de chefe do estado-maior das for\u00e7as armadas.<\/p>\n<p>Um deles \u00e9 Yair Naveh, que deu ordens, em 2008, para matar palestinos suspeitos at\u00e9 mesmo quando eles podiam ser presos de maneira pac\u00edfica. Ele n\u00e3o vai para a cadeia, mas a jovem Anat Kamm, que tornou p\u00fablicas essas ordens, enfrenta agora nove anos de pris\u00e3o por revel\u00e1-las ao di\u00e1rio israelense Haaretz. Nenhum general ou pol\u00edtico israelense passar\u00e1 um \u00fanico dia na pris\u00e3o por requisitar tropas para disparar contra manifestantes desarmados, civis inocentes, mulheres, velhos e crian\u00e7as. A luz que irradia do Egito e da Tun\u00edsia \u00e9 t\u00e3o intensa que tamb\u00e9m ilumina os espa\u00e7os mais escuros da &#8220;\u00fanica democracia do Oriente M\u00e9dio&#8221; [como Israel se autodenomina].<\/p>\n<p>N\u00e3o violentos, democr\u00e1ticos (religiosos ou n\u00e3o), os \u00e1rabes s\u00e3o ruins para Israel. Mas talvez esses \u00e1rabes estivessem ali o tempo todo, n\u00e3o s\u00f3 no Egito como tamb\u00e9m na Palestina. Os comentadores israelenses insistem que a quest\u00e3o mais importante em jogo \u2013 o tratado de paz israelense com o Egito \u2013 \u00e9 um desvio, com pouca relev\u00e2ncia para o impulso poderoso que agita o mundo \u00e1rabe como um todo.<\/p>\n<p>Os tratados de paz com Israel s\u00e3o os sintomas da corrup\u00e7\u00e3o moral, n\u00e3o a doen\u00e7a em si \u2013 e \u00e9 por isso que o presidente s\u00edrio, Bashar Asad, sem d\u00favida um l\u00edder antiisraelense, n\u00e3o est\u00e1 imune a essa onda de mudan\u00e7a. N\u00e3o, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a fal\u00e1cia de que Israel \u00e9 um pa\u00eds est\u00e1vel, ilha civilizada ocidental no mar agitado da barb\u00e1rie e do fanatismo isl\u00e2mico \u00e1rabe. O &#8220;perigo&#8221; para Israel \u00e9 que a cartografia seja a mesma, mas que a geografia mude. O pa\u00eds ainda seria uma ilha, mas de barb\u00e1rie e fanatismo em um mar de Estados democr\u00e1ticos e igualit\u00e1rios rec\u00e9m-formados.<\/p>\n<p>Aos olhos de grande parte da sociedade civil ocidental, a imagem democr\u00e1tica de Israel desapareceu h\u00e1 muito tempo, mas agora pode ter sido ofuscada e embaciada aos olhos de outros, os pol\u00edticos e os que est\u00e3o no poder. Qu\u00e3o importante \u00e9 a velha e positiva imagem de Israel para a manuten\u00e7\u00e3o de sua rela\u00e7\u00e3o especial com os Estados Unidos? S\u00f3 o tempo dir\u00e1.<\/p>\n<p>De um jeito ou de outro, o grito da Pra\u00e7a Tahrir \u00e9 um aviso de que as falsas mitologias da &#8220;\u00fanica democracia do Oriente M\u00e9dio&#8221;, do fundamentalismo crist\u00e3o hardcore (muito mais sinistro e corrupto do que a Fraternidade Mu\u00e7ulmana), do lucro da c\u00ednica corpora\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias militares, do neo-conservadorismo e do lobby brutal n\u00e3o v\u00e3o garantir a sustentabilidade da rela\u00e7\u00e3o especial entre Israel e Estados Unidos para sempre.<\/p>\n<p>E, mesmo que essa rela\u00e7\u00e3o especial se mantenha por algum tempo, ser\u00e1 baseada em fundamentos ainda mais prec\u00e1rios. Os estudos de caso diametralmente opostos dos at\u00e9 agora resistentes poderes regionais antiamericanos do Ir\u00e3 e da S\u00edria, e, em certa medida, da Turquia, por um lado, e a queda derradeira dos tiranos pr\u00f3-EUA, por outro lado, s\u00e3o indicativos: mesmo que se prolongue, o apoio estadunidense pode n\u00e3o ser suficiente, no futuro, para manter um &#8220;Estado judeu&#8221; \u00e9tnico e racista no cora\u00e7\u00e3o de um mundo \u00e1rabe em muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa poderia ser uma boa not\u00edcia para os judeus, mesmo para aqueles que vivem em Israel, a longo prazo. N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil viver cercado por povos que prezam a liberdade, a justi\u00e7a social e espiritualidade, e que navegam \u00e0s vezes com seguran\u00e7a, \u00e0s vezes de maneira prec\u00e1ria, entre a tradi\u00e7\u00e3o e a modernidade, o nacionalismo e o mundano, a globaliza\u00e7\u00e3o capitalista agressiva e a sobreviv\u00eancia di\u00e1ria.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 um horizonte que carrega a esperan\u00e7a de desencadear mudan\u00e7as similares na Palestina. Pode chegar ao fim o mais de um s\u00e9culo de desapropria\u00e7\u00e3o e de coloniza\u00e7\u00e3o sionista, substitu\u00eddo por uma reconcilia\u00e7\u00e3o mais equitativa entre os palestinos \u2013 v\u00edtimas dessas pol\u00edticas criminosas onde quer que estejam \u2013, e a comunidade judaica. Essa reconcilia\u00e7\u00e3o seria constru\u00edda sobre a base do direito de retorno palestino e sobre todos os outros direitos pelos quais o povo do Egito t\u00e3o bravamente lutou nos \u00faltimos 20 dias.<\/p>\n<p>Mas os israelenses n\u00e3o perdem uma oportunidade de perder a paz. Eles uivariam como lobos. Exigiriam, e receberiam, mais recursos do contribuinte estadunidense, em fun\u00e7\u00e3o dos novos &#8220;acontecimentos&#8221;. Interfeririam de modo clandestino e destrutivo para minar qualquer transi\u00e7\u00e3o para a democracia (lembram-se da for\u00e7a e da agressividade que caracterizaram a rea\u00e7\u00e3o israelense \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade palestina?) e elevariam a campanha islamof\u00f3bica a patamares novos e sem precedentes.<\/p>\n<p>Talvez, por\u00e9m, o contribuinte estadunidense n\u00e3o se movesse dessa vez. E talvez os pol\u00edticos europeus seguissem o sentimento geral de seu p\u00fablico e permitissem n\u00e3o apenas que o Egito fosse dramaticamente transformado, mas tamb\u00e9m dessem as boas vindas a uma mudan\u00e7a semelhante em Israel e na Palestina. Em um cen\u00e1rio assim, os judeus de Israel teriam a chance de se tornar parte do Oriente M\u00e9dio real e n\u00e3o membros estrangeiros e agressivos de um Oriente M\u00e9dio inventado pela imagina\u00e7\u00e3o alucinat\u00f3ria sionista.<\/p>\n<p><em>(*) Ilan Pappe \u00e9 professor de hist\u00f3ria e diretor do Centro Europeu para o Estudo da Palestina da Universidade de Exeter, Gr\u00e3-Bretanha. Seu livro mais recente \u00e9 Out of the Frame: The Struggle for Academic Freedom in Israel [Fora do esquema: a luta pela liberdade acad\u00eamica em Israel] (Pluto Press, 2010).<\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Baby Siqueira Abr\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.patrialatina.com.br\/editorias.php?idprog=d04cb95ba2bea9fd2f0daa8945d70f11&amp;cod=7259\" target=\"_blank\">Prensa Latina<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Prensa Latina\n\n\n\n\n\n\n\n\nIndependentemente do modo como tudo isso v\u00e1 acabar,\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1229\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-1229","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-jP","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1229","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1229"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1229\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1229"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1229"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1229"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}