{"id":124,"date":"2009-09-27T23:12:13","date_gmt":"2009-09-27T23:12:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=124"},"modified":"2009-09-27T23:12:13","modified_gmt":"2009-09-27T23:12:13","slug":"a-guerra-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/124","title":{"rendered":"A Guerra no S\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"\n<p>A id\u00e9ia do conflito permanente cria condi\u00e7\u00f5es para o surgimento de um modelo econ\u00f4mico que seria imposs\u00edvel de instalar em condi\u00e7\u00f5es de paz. Ao mesmo tempo, \u00e9 cada vez mais importante a interven\u00e7\u00e3o de <strong>Companhias Militares Privadas (CMPs) <\/strong>em todo o mundo, do Iraque at\u00e9 a Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p><em>\u2212 Que significa a denomina\u00e7\u00e3o de \u201cnovas guerras\u201d que o senhor usa no livro <\/em><em>O Neg\u00f3cio da Guerra? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 No debate acad\u00eamico e \u2212 em parte \u2212 o pol\u00edtico, a express\u00e3o \u201cnovas guerras\u201d foi introduzida para denominar o fato que mais e mais guerras n\u00e3o se d\u00e3o entre pa\u00edses mas no interior dos pa\u00edses ou, pelo menos, entre um ex\u00e9rcito regular e um irregular. A express\u00e3o, por\u00e9m poderia se ampliada porque com as modifica\u00e7\u00f5es de estrat\u00e9gias de sua condu\u00e7\u00e3o, vemos que at\u00e9 os pa\u00edses com ex\u00e9rcitos regulares est\u00e3o transferindo a viol\u00eancia para empresas privadas ou estruturas paramilitares: atores que n\u00e3o s\u00e3o os tradicionais nas guerras \u201ccomuns\u201d.<\/p>\n<p><em>\u2212 Acabaram as guerras entre Estados? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 N\u00e3o \u00e9 que tenham acabado. Pelo contr\u00e1rio, na \u00faltima d\u00e9cada tamb\u00e9m houve um aumento das guerras entre pa\u00edses, mas se apresentaram de outra maneira. Os ataques ao Afeganist\u00e3o ou Iraque foram guerras entre pa\u00edses, mas a porcentagem das guerras irregulares em compara\u00e7\u00e3o com as regulares est\u00e1 aumentando.<\/p>\n<p><em>\u2212 Isso obedece \u00e0 l\u00f3gica neoliberal? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Dizemos que obedece a certas l\u00f3gicas do neoliberalismo no sentido de aumentar lucros. O sentido da guerra mudou. Tradicionalmente era para trocar as elites e o controle das economias, ou introduzir outro modelo de dom\u00ednio econ\u00f4mico ou pol\u00edtico. Agora, em muitos casos <strong>as guerras s\u00e3o permanentes<\/strong>. N\u00e3o se faz a guerra para implementar outro modelo econ\u00f4mico, mas <strong>a guerra mesmo \u00e9 o mecanismo de lucros. <\/strong><\/p>\n<p><em>\u2212 Por exemplo? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Por exemplo, Col\u00f4mbia. Muito dos lucros nesse pa\u00eds s\u00e3o porque \u2212 praticamente \u2212 \u00e9 um pa\u00eds em guerra. Durante os \u00faltimos 20 anos, a passagem da pequena e m\u00e9dia agricultura para a agroind\u00fastria se fez com uma guerra. Se n\u00e3o fosse assim, n\u00e3o teria sido poss\u00edvel expropriar as terras de milh\u00f5es de camponeses e fazer uma reforma agr\u00e1ria ao contr\u00e1rio, na qual os latifundi\u00e1rios e paramilitares se apropriaram de 6 milh\u00f5es de hectares de terra.<\/p>\n<p><em>\u2212 Neste cen\u00e1rio, como fica o lugar do Estado? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Em todo o discurso liberal se diz que o Estado est\u00e1 supostamente perdendo o controle desses atores armados. Fundamentalmente, no caso da Col\u00f4mbia. Creio que os Estados n\u00e3o perdem o controle e, se o perdem, \u00e9 em pequenos pontos. Simplesmente est\u00e3o terceirizando as fun\u00e7\u00f5es repressivas ou de guerra, criando mais confus\u00e3o. Os grupos paramilitares colombianos foram criados pelas dificuldades do Estado em conseguir financiamento internacional nos anos 80, pela responsabilidade do ex\u00e9rcito ou da pol\u00edcia em delitos contra os direitos humanos. Logo se montou o show da suposta desmobiliza\u00e7\u00e3o dos paramilitares, mas j\u00e1 no final dos 90 era de conhecimento p\u00fablico que o paramilitarismo estava coordenado, fomentado e controlado pelo ex\u00e9rcito e as autoridades colombianas.<\/p>\n<p>Em 2000, a Human Right Watch publicou uma an\u00e1lise da Col\u00f4mbia cujo t\u00edtulo era <em>Paramilitarismo, a sexta divis\u00e3o do ex\u00e9rcito colombiano<\/em> (o ex\u00e9rcito colombiano tinha cinco divis\u00f5es). Nesse informe esclarecem que o paramilitarismo \u00e9 parte integral da situa\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito colombiano e que o processo de desarmamento \u00e9 uma farsa. Os supostos paramilitares desmobilizados aparecem em outras zonas da Col\u00f4mbia onde ainda se necessita o paramilitarismo como estrat\u00e9gia ou como supostos grupos rearmados.<\/p>\n<p><em>\u2212 Como e quando nascem as Companhias Militares Privadas (CMPs)? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 As primeiras nascem imediatamente depois da II Guerra Mundial, porque o ex\u00e9rcito dos Estados Unidos tinha grande capacidade de transporte que j\u00e1 n\u00e3o necessita manter e come\u00e7ou a privatizar parte do transporte. Por\u00e9m o verdadeiro boom dessas empresas come\u00e7ou em fins dos anos 80 e foi refor\u00e7ado de forma maci\u00e7a nos 90. Na primeira guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, a rela\u00e7\u00e3o entre os empregados das CMPs e os soldados era de 1 para 100. No Afeganist\u00e3o, de 1 para 50\/40. Agora, no Iraque h\u00e1 180 mil empregados das CMPs, segundo dados do pr\u00f3prio ex\u00e9rcito norte-americano. Quantidade maior do que a dos soldados do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p><em>\u2212 Que atividades exercem estas companhias? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Todas as que algu\u00e9m possa imaginar. O emprego de armas sofisticadas (como avi\u00f5es n\u00e3o tripulados, radares ou m\u00edsseis de navios estadunidenses) na primeira onda de ataques ao Iraque foi realizado por especialistas de empresas privadas. Al\u00e9m disso distribuem a correspond\u00eancia, cozinham ou lavam a roupa dos soldados, montam os acampamentos militares, as pris\u00f5es. No caso da pris\u00e3o de Abu Ghraib houve julgamentos e investiga\u00e7\u00f5es contra menos de 10 soldados dos Estados Unidos, quando deveria haver muitos mais implicados. A verdade \u00e9 que a pris\u00e3o era administrada em todas as suas fun\u00e7\u00f5es por duas empresas privadas: <strong>CACI <\/strong>e <strong>Titan. <\/strong><\/p>\n<p><em>\u2212 Quais s\u00e3o as vantagens de terceirizar esse tipo de tarefas para as CMPs?<\/em><\/p>\n<p>\u2212 Como formalmente s\u00e3o civis, n\u00e3o podem, portanto, ser julgados pela Justi\u00e7a militar. Ao mesmo tempo, em seus contratos lhes \u00e9 assegurado que n\u00e3o podem ser submetidos \u00e0 Justi\u00e7a civil dos pa\u00edses em que eles atuam. Praticamente se criou um campo de impunidade. E a \u00fanica via para fazer algo contra esses crimes \u00e9 iniciar processos nos Estados Unidos contra essas empresas. Quantas v\u00edtimas t\u00eam a possibilidade de fazer isso. Quase ningu\u00e9m.<\/p>\n<p><em>\u2212 Cria-se uma esp\u00e9cie de marco normativo para acionar estas empresas? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Sim. Legaliza-se todo o neg\u00f3cio dos mercen\u00e1rios com esse marco de impunidade. Al\u00e9m disso, terceiriza-se a responsabilidade. Milles Frechette, ex-embaixador dos Estados Unidos na Col\u00f4mbia, disse que \u00e9 muito c\u00f4modo trabalhar com essas empresas porque se morrem, n\u00e3o s\u00e3o soldados dos Estados Unidos e, se fazem algo errado, a responsabilidade tampouco recai sobre os Estados Unidos. No caso da <strong>DinCorp <\/strong>que faz as fumiga\u00e7\u00f5es de supostas culturas de amapola e coca, na Col\u00f4mbia h\u00e1 um processo internacional porque fumigaram parte do Equador. Mas a empresa alega que eles n\u00e3o podem dizer nada porque parte de seu contrato \u00e9 n\u00e3o dar informa\u00e7\u00e3o a terceiros. O contrato vem do Pent\u00e1gono. Ent\u00e3o, se um congressista lhe solicita presta\u00e7\u00e3o de contas, o Pent\u00e1gono apresenta o contrato e diz: eles fazem estas tarefas. Se faz algo mais n\u00e3o podemos control\u00e1-la porque \u00e9 uma empresa privada.<\/p>\n<p><em>\u2212 Estas empresas, geralmente estadunidenses, s\u00e3o contratadas pelo Pent\u00e1gono? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 A maioria. De fato, a maior parte do financiamento vem dos Estados Unidos. Do gasto militar no \u00e2mbito mundial os Estados Unidos executa a metade. H\u00e1 empresas tamb\u00e9m na Europa, empresas russas, na \u00c1sia. Mas as dos Estados Unidos s\u00f3 trabalham sob o consenso do Pent\u00e1gono. Pode ser que treinem o ex\u00e9rcito da Cor\u00e9ia do Sul, mas com o de acordo do Pent\u00e1gono. As empresas russas ou outras de pa\u00edses do Leste, contrata-as quem tem dinheiro.<\/p>\n<p><em>\u2212 Como convive o ex\u00e9rcito norte-americano com as CMPs? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Depende de que setores do ex\u00e9rcito falemos. No campo concreto provavelmente haja conflitos, j\u00e1 que os empregados dessas empresas de seguran\u00e7a costumam ganhar mais do que os soldados. Trabalham em assuntos de maior risco com menos seguran\u00e7a. Por\u00e9m trabalhar juntos funciona muito bem porque as empresas de seguran\u00e7a s\u00e3o fundadas e organizadas por ex-membros do ex\u00e9rcito dos Estados Unidos. Tamb\u00e9m muitos pol\u00edticos s\u00e3o donos ou copart\u00edcipes dessas empresas. H\u00e1 empresas como a <strong>MPRI, <\/strong>fundada por generais dos Estados Unidos da primeira guerra contra o Iraque, que estiveram durante um tempo nas reuni\u00f5es do Pent\u00e1gono. H\u00e1 liga\u00e7\u00f5es pessoais muito estreitas. A <strong>Eagle Aviation Services and Technology (EAST), <\/strong>que prestou servi\u00e7os \u00e0 CIA nos anos 80, \u00e9 a encarregada do transporte de maquinaria no marco do Plano Col\u00f4mbia e do Plano anti-drogas na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p><em>\u2212 Quanto dinheiro movimentam estas empresas? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 \u00c9 um neg\u00f3cio que deve estar movimentando ao redor de 150 a 200 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano no mundo. As pequenas foram compradas pelas maiores, movimentam muito dinheiro, v\u00e1rias t\u00eam cota\u00e7\u00e3o na Bolsa. Tornou-se um mega neg\u00f3cio no qual participam empresas que trabalham em outros campos. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 liga\u00e7\u00f5es entre empresas transnacionais de recursos naturais como petrol\u00edferas e mineradoras.<\/p>\n<p><em>\u2212 Pode nos dar um exemplo? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Na guerra no Congo, antes que Laurent Cabila ganhasse, havia mineradoras transnacionais que pagavam a mercen\u00e1rios ou a empresas militares privadas para acompanhar as diferentes fac\u00e7\u00f5es. Uma vez liberado um territ\u00f3rio mineiro, j\u00e1 havia engenheiros e as CMPs com as mineradoras tinham o controle do territ\u00f3rio e faziam um acordo com a fac\u00e7\u00e3o ganhadora para explorar a jazida.<\/p>\n<p><em>\u2212 Como \u00e9 a contrata\u00e7\u00e3o das CMPs? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 S\u00e3o contratadas para fazer trabalhos. E esse tamb\u00e9m \u00e9 outro assunto para escapar do controle. A lei norte-americana estabelece que todos os contratos que superem 50 milh\u00f5es de d\u00f3lares t\u00eam que ser aprovados pelo Congresso. Normalmente fracionam-se os contratos para que sejam inferiores e o Congresso nem se intera desses contratos ou do que estejam fazendo essas miss\u00f5es. \u00c9 a possibilidade de os Estados Unidos fazer interven\u00e7\u00f5es militares em outros pa\u00edses sem que apare\u00e7am como tais, porque n\u00e3o s\u00e3o seus soldados que atuam. Todos sabemos o impacto p\u00fablico que causa a imagem dos soldados mortos com a bandeira yankee que regressam aos Estados Unidos. Isso n\u00e3o acontece se morre um empregado de uma empresa privada: n\u00e3o causa indigna\u00e7\u00e3o p\u00fablica porque \u00e9 como se morresse um empregado da IBM em Cingapura. Ningu\u00e9m se importa com isso. No Iraque pode-se estimar que haja morrido, no m\u00ednimo, 2 mil empregados das CMPs. Isso ajuda a manter o n\u00famero de baixas num n\u00edvel baixo.<\/p>\n<p><em>\u2212 Contratam empregados na Am\u00e9rica Latina? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 O recrutamento na Am\u00e9rica Latina cresceu muito nos \u00faltimos quatro anos. Antes recrutavam muito nas Filipinas, Nepal, Fiji, Estados Unidos, Inglaterra, Fran\u00e7a. Mais acostumados a trabalhar com certa modalidade. No Nepal, os gurkas t\u00eam uma tradi\u00e7\u00e3o de 150 anos de mercen\u00e1rios e os de Fiji obtiveram muita forma\u00e7\u00e3o em miss\u00f5es da ONU.<\/p>\n<p><em>\u2212 Como essas empresas aparecem nos meios de comunica\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Um caso que passou muito pela imprensa foi em 2004 em Falluja, onde houve imagens fortes de uns supostos civis \u2212 como explicou em princ\u00edpio a imprensa \u2212 que foram cercados pela popula\u00e7\u00e3o iraquiana , assassinados e seus corpos queimados e pendurados em uma ponte. A imprensa disse que esse pessoal acompanhava um comboio. Formalmente eram civis, mas eram empregados da <strong>Blackwater<\/strong>, uma das maiores empresas no campo militar. Estavam protegendo um comboio de soldados norte-americanos, uma tarefa militar. O problema \u00e9 qual informa\u00e7\u00e3o \u00e9 obtida e \u00e9 apresentada pela imprensa. Toda a informa\u00e7\u00e3o que se tem do conflito do Iraque passa pelo departamento de rela\u00e7\u00f5es de imprensa do ex\u00e9rcito dos Estados Unidos. S\u00e3o rep\u00f3rteres de imprensa militares. Eles s\u00f3 relatam a\u00e7\u00f5es nas quais participam os soldados do ex\u00e9rcito norte-americano, por\u00e9m, como h\u00e1 mais empregados das empresas militares do que soldados, n\u00e3o temos nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre muitas a\u00e7\u00f5es. Houve empregados de empresas privadas que repeliram o ataque das for\u00e7as rebeldes iraquianas quando a cidade de Falluja esteve tomada pela resist\u00eancia. As for\u00e7as da empresa Blackwater se infiltraram para fazer atentados e p\u00f4r bombas.<\/p>\n<p><em>\u2212 Os empregados das CMPs s\u00e3o os contratistas que a cadeia CNN menciona, por exemplo? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Sim. S\u00e3o os empregados destas empresas. O ex\u00e9rcito contrata as empresas e a as empresas a estas pessoas. Por\u00e9m n\u00e3o apenas o ex\u00e9rcito. No Iraque todas as embaixadas e empresas contratam CMPs para cust\u00f3dia e seguran\u00e7a. Na Col\u00f4mbia, a colombiana Ecopetrol, que explora campos petrol\u00edferos junto com a OXI dos Estados Unidos, contrata a CMP <strong>AirScan <\/strong>da Fl\u00f3rida para fazer sobrev\u00f4os e obter informa\u00e7\u00e3o de tropas insurgentes que estejam perto dos campos e o oleoduto desde Ca\u00f1o Limon at\u00e9 o porto onde se exporta petr\u00f3leo para os Estados Unidos. Em 1998, a vila de Santo Domingo foi bombardeada por helic\u00f3pteros do ex\u00e9rcito colombiano e causaram quase 20 mortos. Fez-se uma investiga\u00e7\u00e3o, julgaram os pilotos do ex\u00e9rcito colombiano que disseram que bombardearam, mas somente seguindo ordens. A AirScan passou informa\u00e7\u00e3o ao ex\u00e9rcito de que nessa vila havia uma coluna guerrilheira , por isso a bombardearam.<\/p>\n<p><em>\u2212 Ent\u00e3o cuidam dos neg\u00f3cios das empresas e brindam servi\u00e7os ao ex\u00e9rcito. <\/em><\/p>\n<p>\u2212 \u00c9 parte do trabalho. No caso do campo petrol\u00edfero de Cano Limon \u00e9 uma coopera\u00e7\u00e3o bem organizada e partilhada. A empresa de seguran\u00e7a \u00e9 paga pelas empresas e apoiada pelo ex\u00e9rcito colombiano e pelos Estados Unidos com tecnologia. \u00c9 um conjunto de empresas p\u00fablicas e privadas, ex\u00e9rcitos, CMPs e pol\u00edcias que formam uma rede que garante a sa\u00edda do petr\u00f3leo da Col\u00f4mbia para os Estados Unidos.<\/p>\n<p><em>\u2212 Nessa trama, as CMPs t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com os Estados e os ex\u00e9rcitos? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 A operacionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a seguinte: os Estados Unidos faz o Plano Col\u00f4mbia e grande parte do dinheiro nunca chega \u00e0 Col\u00f4mbia, s\u00f3 atravessa a rua do Pent\u00e1gono, j\u00e1 que em frente est\u00e3o as sedes de muitas das empresas militares privadas que v\u00e3o \u201ctrabalhar\u201d na Col\u00f4mbia. <strong>H\u00e1 que destacar que enquanto nas guerras cl\u00e1ssicas os soldados tinham o interesse de terminar a guerra, estas empresas n\u00e3o, porque s\u00f3 ganham se h\u00e1 conflito. Provavelmente n\u00e3o agem com o esp\u00edrito de terminar com esses conflitos porque perderiam seu ganha-p\u00e3o. <\/strong><\/p>\n<p><em>\u2212 H\u00e1 v\u00ednculos comprovados com o narcotr\u00e1fico na Col\u00f4mbia? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Houve casos de v\u00e1rios empregados de empresas que estiveram implicados em casos de narcotr\u00e1fico. \u00c9 muito dif\u00edcil averiguar, mas pode-se supor que haja alguns contatos entre algumas empresas e o narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p><em>\u2212 Dentro das tarefas das CMPs na Col\u00f4mbia, inclui-se agir contra dirigentes sindicais? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Sim. A British Petr\u00f3leo contratou uma empresa que fazia trabalhos de intelig\u00eancia com movimentos sociais e ind\u00edgenas que estavam na zona. Os paramilitares assassinaram l\u00edderes sociais e se sabe que as CMPs passavam informa\u00e7\u00e3o ao ex\u00e9rcito. Os militares dizem que n\u00e3o os mataram, que foram os paramilitares, mas a liga\u00e7\u00e3o fica clara.<\/p>\n<p><em>\u2212 Como atuam estas companhias no M\u00e9xico? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 H\u00e1 alguns mercen\u00e1rios israelenses que apoiaram o treinamento para a forma\u00e7\u00e3o de grupos paramilitares em Chiapas. Mas \u00e9 pouco claro. A constru\u00e7\u00e3o do paramilitarismo no M\u00e9xico \u00e9 diferente do colombiano. Na Col\u00f4mbia organizaram-se tropas irregulares que se apropriaram das terras, casas, etc. No M\u00e9xico criaram-se comunidades paramilitares. Elas s\u00e3o infiltradas, preparadas e se tornam comunidades paramilitares.<\/p>\n<p><em>\u2212 Como se vincula a a\u00e7\u00e3o destas companhias com a viol\u00eancia sexual na Guatemala? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 O caso da Guatemala \u00e9 anterior ao das constru\u00e7\u00f5es paramilitares como as autodefesas civis, pagas para apoiar o ex\u00e9rcito em seu trabalho genocida. A viol\u00eancia sexual se encaixa porque \u00e9 parte integral da guerra desde sempre. Assassinavam os homens e violavam e ficavam com as mulheres. Isso rompe o tecido social de toda a comunidade.<\/p>\n<p><em>&#8211; Estas estruturas paramilitares, com as CMPs e os Estados, formam modos de controle social e paraestatalidades? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 Sim, paraestatalidades porque t\u00eam territ\u00f3rio ou representam o Estado. Salvador Mancuso, ex-chefe paramilitar colombiano \u2013 que foi extraditado em 15 de maio \u00faltimo para ser julgado nos Estados Unidos \u2212 disse em uma entrevista \u00e0 RCN que controlavam congressistas e que, para chegar ao cargo, tinham que concordar com eles, se n\u00e3o, n\u00e3o recebiam votos. A Col\u00f4mbia \u00e9 claramente um narco-Estado paramilitar. N\u00e3o controlam zonas sen\u00e3o as que estejam no Estado. Isso tamb\u00e9m explica as liga\u00e7\u00f5es com as empresas privadas. No norte da Col\u00f4mbia, empresas bananicultoras pagavam uma porcentagem por cacho de bananas aos paramilitares para a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p><em>\u2212 H\u00e1 empregados das CMPs ref\u00e9ns das FARC? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 H\u00e1 tr\u00eas (*), mas \u00e9 um caso complicado. Um avi\u00e3o pequeno, emprestado pelo Pent\u00e1gono a uma empresa, sobrevoava as zonas guerrilheiras para transmitir informa\u00e7\u00e3o sobre as colunas e os chefes guerrilheiros e foi abatida. Supunha-se que os estadunidenses em m\u00e3os das FARC eram da empresa, mas logo se soube que eram da CIA e que se usava a empresa como v\u00e9u.<\/p>\n<p>[(*) Devem ser os tr\u00eas americanos libertados junto com Ingrid Betencourt]<\/p>\n<p><em>\u2212 Existe alguma estrat\u00e9gia dos Estados Unidos para a Am\u00e9rica Latina na qual participem as CMPs em m\u00e9dio ou longo prazo? <\/em><\/p>\n<p>\u2212 H\u00e1 dois elementos, um \u00e9 a grande base de dados de ex-militares formados que participaram de ditaduras e foram adaptados \u00e0s novas formas de atua\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito dos Estados Unidos para trabalhar no Iraque. H\u00e1 milhares de empregados latino-americanos trabalhando para as CMPs: ex-militares da Argentina, Chile, Honduras, El Salvador e pol\u00edcias especiais do Brasil e Peru. <strong>Neskowin <\/strong>tinha sua sede em Montevid\u00e9u e recrutava ex-militares argentinos e uruguaios para a <strong>Blackwater <\/strong> no Iraque. A segunda \u00e9 a amplia\u00e7\u00e3o maci\u00e7a do paramilitarismo em alguns pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Na Venezuela come\u00e7a a haver contatos com grupos da oposi\u00e7\u00e3o. Na Bol\u00edvia tamb\u00e9m com os autonomistas de Santa Cruz. E no Equador, para formar como uma esp\u00e9cie de contra (revolu\u00e7\u00e3o) reserva (stand by) a m\u00e9dio prazo. Na Venezuela pode-se traduzir em uma combina\u00e7\u00e3o entre as estruturas paramilitares e o pessoal contratado que monte algo similar a contra (revolu\u00e7\u00e3o) como foi na Nicar\u00e1gua.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.<\/p>\n<ol>\n<li>Organiza\u00e7\u00e3o Paramilitar = Mil\u00edcia<\/li>\n<li>A Companhia das Letras editou <em>Blackwater, a ascens\u00e3o do ex\u00e9rcito mercen\u00e1rio mais poderoso do mundo, <\/em>de Jeremy Scahill (R$ 41,00), com a hist\u00f3ria da CMP que, em menos de dez anos, tem contratos oficiais de US$ 600 milh\u00f5es s\u00f3 com o governo dos EUA.<\/li>\n<li>A Blackwater comprou da Embraer um Super Tucano, avi\u00e3o para treinamento militar avan\u00e7ado, e que foi entregue em 22 de fevereiro de 2008. Segundo a revista <em>ASAS<\/em> de abril\/maio de 2008, a empresa norte-americana \u00e9 a primeira operadora \u201ccivil\u201d do Super Tucano.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nA Guerra no S\u00e9culo XXI ou A terceiriza\u00e7\u00e3o da guerra\nEntrevista a Dario Azzelini, pesquisador italiano das \u201cnovas guerras\u201d\n\u201cA guerra n\u00e3o \u00e9 mais para instalar outro modelo econ\u00f4mico: ela \u00e9 o modelo\u201d\nNat\u00e1lia Aruguete e Walter Isa\u00eda\nP\u00c1GINA 12\nBuenos Aires, 29\/6\/08\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/124\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-124","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-20","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=124"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}