{"id":12413,"date":"2016-10-18T21:07:14","date_gmt":"2016-10-19T00:07:14","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12413"},"modified":"2016-11-26T15:02:14","modified_gmt":"2016-11-26T18:02:14","slug":"aos-medicos-revolucionarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12413","title":{"rendered":"Aos m\u00e9dicos revolucion\u00e1rios!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/qus2Y68WsFLrU-iCVx4m7Z3zTjOOGjjHBWEU2IoKJhDN1kelelTFCe54xc79_cpOxHFYZId0dwaDvj9uOlLNlUKh8vKbiWZSy4G0shxpJdltY9rUIizozbL-4zVdyE4n6n2cKhvnUMZmtHoGRyl-BM3XWP6Vlq00Dp6IrK4RNrLqDNoXn5TnP7RCUwwdYgfii1fVNku50ukS9CDMzXaqcow0tHmGN19aMv7lbTZDGl8KkFl6lkK1l09Roa3nsp2RuwbQjoZ5Yc3_kq520SCNiBHNp97RgO-QsiVZp_1gNKpQ7IaycoMkingzM-72cm8uHBb43QZkrd6RCxlcqHw9lQBx14nAQZNUCqDPeMTyJrNSewhj0pSTEHXNOHJfFqRAlGc9rv2USayMeN6z0l67ZCwaT_Tbc5_O9GxH7-kN3eMcW5Ddhaapj2YEGuB6VFeWvuTDdBL7xyluNx7vN8Oh4KsAWB64FqXbv-px0qIJzTXYmQ8Q-PpJXFrHHYUxJ7YBkCHr0N2tsLKRx2IDHEJriVU7PcHsVMltzSJdkjddzwr2oOLKT9qP1tAhVtT3oFNnRYYp3JQHb8NMgkT1wOXhMfa5r6EaVUqAOy5AGjDIYNtiDY3y=w630-h471-no\" alt=\"imagem\" \/>Wladimir Nunes Pinheiro*<\/p>\n<p>O dia 18 de outubro \u00e9 o dia de S\u00e3o Lucas, um dos quatro evangelistas que escreveram o Novo Testamento. Por exercer a medicina, a categoria m\u00e9dica o tomou como seu padroeiro, comemorando o dia do m\u00e9dico no seu dia. Mas ela n\u00e3o tem muito o que comemorar.<!--more--><\/p>\n<p>Como outros profissionais de sa\u00fade, os m\u00e9dicos vivenciam cotidianamente as ang\u00fastias da fal\u00eancia do sistema de sa\u00fade, com seu subfinanciamento cr\u00f4nico, precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e limita\u00e7\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o na tentativa de prestar cuidados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Assim como todos os outros trabalhadores, tamb\u00e9m est\u00e3o submetidos \u00e0 subtra\u00e7\u00e3o brutal de seus direitos e ir\u00e3o sofrer com a intensifica\u00e7\u00e3o dos ataques \u00e0s pol\u00edticas sociais perpetradas pelo governo Michel Temer, em especial \u00e0quelas relacionadas \u00e0 sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, com a famigerada PEC 241.<\/p>\n<p>Mesmo padecendo dos mesmos problemas de milh\u00f5es de outros trabalhadores, os m\u00e9dicos n\u00e3o se identificam com a classe trabalhadora. Isso n\u00e3o se explica somente pela sua auto caracteriza\u00e7\u00e3o como profissionais liberais, representantes das camadas m\u00e9dias, portadores de sal\u00e1rios diferenciados ou op\u00e7\u00e3o por pertencer \u00e0 classe dominante. \u00c9 poss\u00edvel encontrar ra\u00edzes hist\u00f3ricas para essa situa\u00e7\u00e3o. Desde seus prim\u00f3rdios a profiss\u00e3o sempre foi cercada de um status que a separava das pessoas comuns, com acesso limitado \u00e0 sua pr\u00e1tica e conhecimentos restritos a &#8220;iniciados&#8221;, haja visto suas representa\u00e7\u00f5es em outros tempos: xam\u00e3s, bruxos, m\u00e1gicos e sacerdotes (o uso do masculino \u00e9 proposital, uma vez que somente muito recentemente as mulheres come\u00e7aram a disputar maiores espa\u00e7os na profiss\u00e3o, apesar de que, na maioria das vezes, acabem exercendo especialidades e ocupando postos de trabalho com menores remunera\u00e7\u00f5es). Hip\u00f3crates, considerado o Pai da Medicina (\u00e0quele ao qual \u00e9 atribu\u00eddo o juramento a que todo m\u00e9dico faz ao t\u00e9rmino de sua gradua\u00e7\u00e3o), limitava sua atua\u00e7\u00e3o \u00e0 esfera do trabalho intelectual, estudando as doen\u00e7as, prescrevendo medicamentos, orientando os pacientes e aconselhando h\u00e1bitos saud\u00e1veis; n\u00e3o se punha a realizar procedimentos, considerados trabalho manual, indigno ao cidad\u00e3o grego e reservado aos escravos, numa clara alus\u00e3o ao car\u00e1ter elitista da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>A Idade Moderna trouxe aos m\u00e9dicos uma nova condi\u00e7\u00e3o: todo um edif\u00edcio cient\u00edfico, constitu\u00eddo de conhecimentos, t\u00e9cnicas, materiais e subst\u00e2ncias foram desenvolvidos. Apesar de produzidos \u00e0 partir dos conhecimentos acumulados socialmente, a maioria desses avan\u00e7os acabaram sendo apropriados privadamente, adquirindo um car\u00e1ter importante no processo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista, em especial para as ind\u00fastrias m\u00e9dico-hospitalar-farmac\u00eauticas. O m\u00e9dico passa a ser um indutor do lucro dessas empresas em fun\u00e7\u00e3o das demandas criadas no seu exerc\u00edcio profissional por medicamentos, exames e insumos. Isso, associado ao papel de recomposi\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho com vistas a n\u00e3o interrup\u00e7\u00e3o do processo de extra\u00e7\u00e3o de mais-valia, quando de sua atua\u00e7\u00e3o sobre o corpo doente do trabalhador, conferem a funcionalidade do profissional m\u00e9dico para o sistema capitalista.<\/p>\n<p>At\u00e9 em Marx, no Manifesto do Partido Comunista de 1848, encontramos uma afirma\u00e7\u00e3o sobre o destino reservado \u00e0 medicina dentro do capitalismo; &#8220;A burguesia despiu de sua aur\u00e9ola todas as atividades vener\u00e1veis, at\u00e9 agora consideradas dignas de pudor piedoso. Transformou o m\u00e9dico, o jurista, o sacerdote, o poeta e o homem da ci\u00eancia em trabalhadores assalariados&#8221;. Nem mesmo os processos de explora\u00e7\u00e3o direta feito pelo sistema m\u00e9dico-empresarial ou pelos setores de planos e conv\u00eanios de sa\u00fade conferem, \u00e0 maioria dos m\u00e9dicos, aproxima\u00e7\u00e3o com a percep\u00e7\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima do proletariado do que da burguesia.<\/p>\n<p>Apesar do pensamento conservador ser hegem\u00f4nico dentro da categoria m\u00e9dica, encontram-se milhares de profissionais atuando junto aos Sistema \u00danico de Sa\u00fade que n\u00e3o abriram m\u00e3o de alguns princ\u00edpios caros \u00e0 classe trabalhadora: a solidariedade de classe, a perseveran\u00e7a ante \u00e0s adversidades, a confian\u00e7a nas possibilidades de mudan\u00e7as, a f\u00e9 inabal\u00e1vel no g\u00eanero humanos. \u00c9 isso que n\u00e3o os faz desistir da profiss\u00e3o. \u00c9 isso que os faz dissonante da maioria da categoria. \u00c9 isso que os identifica com a classe trabalhadora. \u00c9 isso que os permite compreender a sa\u00fade como um processo determinado socialmente e que os impulsionam para lutas al\u00e9m do setor sa\u00fade. \u00c9 isso que os faz chamarem-se a si mesmos de companheiros ou camaradas.<\/p>\n<p>E por se tratar exerc\u00edcio da medicina tamb\u00e9m de uma constru\u00e7\u00e3o social, porque n\u00e3o instituir um Dia do M\u00e9dico Revolucion\u00e1rio? Poderia ser o dia 14 de junho, dia do anivers\u00e1rio de nascimento de Ernesto Che Guevara. Lembrado como revolucion\u00e1rio, Che tamb\u00e9m era m\u00e9dico. E representa toda uma perspectiva de sa\u00fade que atende aos mais nobres interesses que a medicina poderia ter, a solidariedade entre os homens.<\/p>\n<p>Che tamb\u00e9m era poeta, e tudo o que se escreveu at\u00e9 aqui foi para chegar a esse seu poema. Um poema feito para uma de suas pacientes. Um poema que traz a hist\u00f3ria da morte (mas tamb\u00e9m da vida) de algu\u00e9m que representa os milh\u00f5es pertencentes \u00e0 classe trabalhadora. Um poema para a dona Maria, atendida na Unidade B\u00e1sica de Sa\u00fade; para o seu Jos\u00e9, atendido no hospital; para o seu Jo\u00e3o, que morreu na fila dos transplantes; e para Ana, a m\u00e3e que cuida com dificuldade de sua filha com microcefalia, provocada pela irresponsabilidade que causou a epidemia do Zika V\u00edrus. Um poema que traduz as adversidades da classe trabalhadora. Um poema que mostra a indigna\u00e7\u00e3o diante das injusti\u00e7as, a inconformidade diante das situa\u00e7\u00f5es condicionadas socialmente, a sensibilidade diante das fatalidades e a esperan\u00e7a diante do futuro. Atributos de todo revolucion\u00e1rio; princ\u00edpios para m\u00e9dicos que seguem seu caminho de liberdade na constru\u00e7\u00e3o do homem novo, do mundo novo. Quem sabe o &#8220;juramento de Hip\u00f3crates&#8221; dos m\u00e9dicos revolucion\u00e1rios?<\/p>\n<blockquote><p>VELHA MARIA<br \/>\n(Che Guevara, Argentina, 1928-1967)<\/p>\n<p>Velha Maria, vais morrer:<br \/>\nQuero falar contigo seriamente.<\/p>\n<p>Tua vida foi um ros\u00e1rio completo de agonias,<br \/>\nn\u00e3o houve homem amado nem sa\u00fade nem dinheiro,<br \/>\napenas a fome para ser compartilhada.<br \/>\nMas quero faler-te da tua esperan\u00e7a,<br \/>\ndas tr\u00eas diversas esperan\u00e7as<br \/>\nque tua filha fabricou sem saber como.<\/p>\n<p>Toma esta m\u00e3o de homem que parece de menino<br \/>\nnas tuas m\u00e3os, polidas pelo sab\u00e3o amarelo.<br \/>\nAbriga teus calos duros e teus n\u00f3s puros dos dedos<br \/>\nna suave vergonha de minhas m\u00e3os de m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Escuta, av\u00f3 prolet\u00e1ria:<br \/>\ncr\u00ea no homem que chega,<br \/>\ncr\u00ea no futuro que nunca ver\u00e1s.<\/p>\n<p>N\u00e3o rezes ao deus inclemente<br \/>\nque toda uma vida desmentiu tua esperan\u00e7a;<br \/>\nn\u00e3o pe\u00e7as clem\u00eancia \u00e0 morte<br \/>\npara ver crescer tuas pardas car\u00edcias;<br \/>\nos c\u00e9us s\u00e3o surdos e o escuro manda em ti.<br \/>\nMas ter\u00e1s uma vermelha vingan\u00e7a sobre tudo,<br \/>\njuro pela exata dimens\u00e3o de meus ideais:<br \/>\ntodos os teus netos viver\u00e3o a aurora.<br \/>\nMorre em paz, velha lutadora.<\/p>\n<p>Vais morrer, velha Maria:<br \/>\ntrinta projetos de mortalha<br \/>\ndir\u00e3o adeus com o olhar<br \/>\nnum destes dias em que te vais.<\/p>\n<p>Vais morrer, velha Maria:<br \/>\nficar\u00e3o mudas as paredes da sala<br \/>\nquando a morte conjugar-te com a asma<br \/>\ne copularem seu amor na tua garganta.<\/p>\n<p>Essas tr\u00eas car\u00edcias construidas de bronze<br \/>\n(a \u00fanica luz que alivia a tua noite),<br \/>\nesses tr\u00eas netos vestidos de fome<br \/>\nchorar\u00e3o os n\u00f3s destes dedos velhos<br \/>\nonde sempre encontravam um sorriso.<br \/>\nE isso ser\u00e1 tudo, velha Maria.<\/p>\n<p>Tua vida foi um ros\u00e1rio de magras agonias,<br \/>\nn\u00e3o houve homem amado, sa\u00fade, alegria<br \/>\napenas a fome para ser compartilhada.<br \/>\nTua vida foi triste, velha Maria.<\/p>\n<p>Quando o an\u00fancio do descanso eterno<br \/>\nsuaviza a dor de tuas pupilas<br \/>\ne quando a tua m\u00e3o de perp\u00e9tua borralheira<br \/>\nabsorve a \u00faltima e ing\u00eanua car\u00edcia,<br \/>\npensas neles\u2026 e choras,<br \/>\npobre velha Maria!<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o o fa\u00e7as!<br \/>\nN\u00e3o rezes ao deus indolente<br \/>\nque toda uma vida desmentiu a tua esperan\u00e7a,<br \/>\nnem pe\u00e7as clem\u00eancia \u00e0 morte,<br \/>\nque tua vida foi horrivelmednte vestida de fome<br \/>\ne acaba vestida de asma.<\/p>\n<p>Mas quero anunciar-te,<br \/>\nna voz baixa e viril das esperan\u00e7as,<br \/>\na mais vermelha e viril das vingan\u00e7as.<br \/>\nQuero jur\u00e1-lo pela exata<br \/>\ndimens\u00e3o de meus ideais.<\/p>\n<p>Toma esta m\u00e3o de homem que parece de menino<br \/>\nnas tuas m\u00e3os, polidas pelo sab\u00e3o amarelo.<br \/>\nAbriga teus calos duros e teus n\u00f3s puros dos dedos<br \/>\nna suave vergonha de minhas m\u00e3os de m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Descansa em paz, velha Maria,<br \/>\ndescansa em paz, velha lutadora:<br \/>\ntodos os teus netos viver\u00e3o a aurora.<br \/>\nEU JURO!<\/p><\/blockquote>\n<p>*Wladimir Nunes Pinheiro, m\u00e9dico, \u00e9 membro do Comit\u00ea Central do PCB e respons\u00e1vel pela fra\u00e7\u00e3o nacional de sa\u00fade do PCB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Wladimir Nunes Pinheiro* O dia 18 de outubro \u00e9 o dia de S\u00e3o Lucas, um dos quatro evangelistas que escreveram o Novo Testamento. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12413\"> 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