{"id":1248,"date":"2011-02-25T23:27:58","date_gmt":"2011-02-25T23:27:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1248"},"modified":"2011-02-25T23:27:58","modified_gmt":"2011-02-25T23:27:58","slug":"istvan-meszaros-e-a-educacao-para-alem-do-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1248","title":{"rendered":"Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros e a educa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do capital"},"content":{"rendered":"\n<p>Um cl\u00e1ssico, um engodo e uma aposta: tal \u00e9 o que se encontra na edi\u00e7\u00e3o brasileira de <em>A educa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do capital<\/em> de Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros, lan\u00e7ado primeiramente em 2005 e depois em 2008, pela Editora Boitempo. O cl\u00e1ssico fica por conta do pr\u00f3prio texto de M\u00e9sz\u00e1ros, uma proposta consistente, coerente e radical a respeito de como os revolucion\u00e1rios do s\u00e9culo XXI podem orientar seus esfor\u00e7os no campo da educa\u00e7\u00e3o, a fim de superar a domina\u00e7\u00e3o exercida pelo capital sobre o s\u00f3cio-metabolismo humano e realizar a &#8220;comunidade humana emancipada&#8221;. O engodo, destaque negativo da publica\u00e7\u00e3o, cabe inteiramente ao prefaciador do livro, Emir Sader, que, desgra\u00e7adamente, tenta desviar a aten\u00e7\u00e3o do leitor para preocupa\u00e7\u00f5es e objetivos diversos dos que est\u00e3o contidos nas formula\u00e7\u00f5es do pensador h\u00fangaro. A aposta, o que resta disso tudo, \u00e9 a de que os trabalhadores saibam ter a postura cr\u00edtica necess\u00e1ria para perceber e superar as mistifica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas que proliferam em nossos dias \u2013 at\u00e9 mesmo em torno das publica\u00e7\u00f5es progressistas &#8211; e tentam lhes perpetuar na condi\u00e7\u00e3o de acomoda\u00e7\u00e3o, entorpecimento e paralisia frente ao seu inimigo visceral.<\/p>\n<p>Desde <em>A teoria da aliena\u00e7\u00e3o em Marx<\/em>, escrito na d\u00e9cada de 1960,at\u00e9 seus textos mais recentes, como <em>O desafio e o fardo do tempo hist\u00f3rico<\/em>, de 2007, o ponto-chave que orienta a reflex\u00e3o filos\u00f3fica de M\u00e9sz\u00e1ros \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o da <em>transcend\u00eancia positiva da auto-aliena\u00e7\u00e3o do trabalho<\/em>. O mesmo se d\u00e1, evidentemente, em <em>A educa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do capital<\/em>, concebido originalmente como uma confer\u00eancia a ser proferida no F\u00f3rum Mundial de Educa\u00e7\u00e3o, na cidade de Porto Alegre, em 2004. Nesse contexto, pode-se dizer que a cr\u00edtica radical da aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 o elemento decisivo para se entender n\u00e3o apenas a proposta, discutida nesse livro, de &#8220;<em>contra-interioriza\u00e7\u00e3o<\/em>&#8221; da realidade hist\u00f3rico-social, que precisa se dar em ambientes formais e informais de aprendizagem, mas da teoria social e pol\u00edtica do fil\u00f3sofo h\u00fangaro em sua totalidade.<\/p>\n<p>Sem compreender isso, qualquer empreendimento que vise elucidar criticamente as proposi\u00e7\u00f5es de M\u00e9sz\u00e1ros sobre as formas \u2013 atuais e vindouras &#8211; de mediar o s\u00f3cio-metabolismo humano fica tremendamente prejudicado. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para um projeto pol\u00edtico-social alternativo porque a supera\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser feita por meio de uma <em>atividade autoconsciente<\/em>. Esta \u00e9, pois, a condi\u00e7\u00e3o para passarmos de uma situa\u00e7\u00e3o onde nos encontramos completamente fragmentados, cindidos, diminu\u00eddos, submissos \u00e0s nossas pr\u00f3prias cria\u00e7\u00f5es materiais e estranhos em rela\u00e7\u00e3o aos nossos semelhantes, para uma outra, na qual poderemos nos desenvolver ao m\u00e1ximo e nos tornarmos <em>ricos no sentido qualitativo da palavra<\/em>: sujeitos que sentem intimamente a car\u00eancia de uma multiplicidade de manifesta\u00e7\u00f5es humanas de vida (Cf. Marx).<\/p>\n<p>Mas quem l\u00ea desavisadamente o pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o brasileira de <em>A educa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do capital <\/em>\u00e9 induzido a crer que as preocupa\u00e7\u00f5es de M\u00e9sz\u00e1ros s\u00e3o as mesmas de Sader, a saber: <em>como fortalecer a esfera p\u00fablica em contraposi\u00e7\u00e3o ao dom\u00ednio do privado<\/em>. Vejamos, nesse sentido, o que afirma o polit\u00f3logo brasileiro: &#8220;Talvez nada exemplifique melhor o universo instaurado pelo neoliberalismo, em que \u2018tudo se vende, tudo se compra\u2019, \u2018tudo tem pre\u00e7o\u2019, do que a mercantiliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o. Uma sociedade que impede a emancipa\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode transformar os espa\u00e7os educacionais em <em>shoppings centers<\/em>, funcionais \u00e0 sua l\u00f3gica do consumo e do lucro. O enfraquecimento da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, paralelo ao crescimento do sistema privado, deu-se ao mesmo tempo em que a socializa\u00e7\u00e3o se deslocou da escola para a m\u00eddia, a publicidade e o consumo&#8221; (Cf. SADER, 2005, 16).<\/p>\n<p>Uma leitura atenta, contudo, vai nos mostrar que os termos de refer\u00eancia de M\u00e9sz\u00e1ros s\u00e3o completamente outros. Em primeiro lugar, porque n\u00e3o \u00e9 o neoliberalismo que mercantiliza tudo \u2013 inclusive a educa\u00e7\u00e3o -, e sim, em nosso contexto, <em>o sistema do capital<\/em>. Em segundo lugar, a quest\u00e3o realmente importante n\u00e3o \u00e9 exatamente o &#8220;enfraquecimento da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica&#8221; em compara\u00e7\u00e3o com o crescimento do ensino privado. Ao colocar as quest\u00f5es desse modo, Sader tenta fazer-nos crer que a preocupa\u00e7\u00e3o de M\u00e9sz\u00e1ros seria com um eventual fortalecimento do setor p\u00fablico em contraposi\u00e7\u00e3o ao setor privado \u2013 seria, portanto, combater precipuamente o &#8220;neoliberalismo&#8221;.<\/p>\n<p>Mas o fil\u00f3sofo h\u00fangaro n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ing\u00eanuo assim e n\u00e3o mistifica dessa maneira o setor &#8220;p\u00fablico&#8221; (o Estado). Antes disso, est\u00e1 muito mais interessado em demonstrar <em>como \u00e9 o<\/em> <em>sistema do capital<\/em> \u2013 e n\u00e3o somente o &#8220;neoliberalismo&#8221; -, com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es, <em>incluindo-se a\u00ed o pr\u00f3prio Estado<\/em>, que faz parte de sua base material e que deve ser superado em concomit\u00e2ncia com esse complexo mais amplo no qual est\u00e1 inserido. A educa\u00e7\u00e3o pode contribuir com esse prop\u00f3sito, desde que n\u00e3o se limite apenas ao \u00e2mbito <em>formal<\/em> de ensino \u2013 note-se, ent\u00e3o, que n\u00e3o se trata de colocar a quest\u00e3o em termos de &#8220;p\u00fablico&#8221; e &#8220;privado&#8221; &#8211; e se volte para a forma\u00e7\u00e3o das media\u00e7\u00f5es materiais n\u00e3o antag\u00f4nicas de regula\u00e7\u00e3o do s\u00f3cio-metabolismo humano. E isso s\u00f3 pode ser feito se a educa\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o for radicalmente <em>cr\u00edtica<\/em>, isto \u00e9, articuladora te\u00f3rico-pr\u00e1tica de <em>nega\u00e7\u00e3o <\/em>e <em>afirma\u00e7\u00e3o <\/em>no sentido da constru\u00e7\u00e3o do socialismo <em>\u2013<\/em> ponto important\u00edssimo que nem sequer \u00e9 tocado no curioso pref\u00e1cio.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o de M\u00e9sz\u00e1ros, portanto, \u00e9 em firmar uma educa\u00e7\u00e3o <em>revolucion\u00e1ria<\/em>, e n\u00e3o meramente &#8220;p\u00fablica&#8221; (ademais, em <em>Para al\u00e9m do capital<\/em>, o fil\u00f3sofo h\u00fangaro deixa bem claro que o objetivo dos socialistas \u00e9 a <em>socializa\u00e7\u00e3o do poder de decis\u00e3o<\/em> sobre todos os \u00e2mbitos da atividade humana, e n\u00e3o a mera <em>estatiza\u00e7\u00e3o<\/em> das coisas \u2013 porque isto n\u00e3o elimina, em definitivo, o problema da aliena\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, \u00e9 um equ\u00edvoco completo afirmar algo parecido com &#8220;a socializa\u00e7\u00e3o se deslocou da escola para a m\u00eddia, a publicidade e o consumo&#8221;. Na verdade, a socializa\u00e7\u00e3o &#8211; isto \u00e9, o aprendizado das rela\u00e7\u00f5es, normas e valores sociais, a <em>internaliza\u00e7\u00e3o<\/em> do mundo humano, a apropria\u00e7\u00e3o ativa das produ\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-culturais &#8211; nunca poderia ter feito esse percurso porque ela \u00e9, na verdade, como a educa\u00e7\u00e3o, &#8220;a pr\u00f3pria vida&#8221;, ou seja, se confunde com a pr\u00f3pria vida, seja na escola ou fora dela. O referido pref\u00e1cio, portanto, <em>desvia<\/em> o foco da nossa aten\u00e7\u00e3o para pontos que <em>n\u00e3o s\u00e3o<\/em> preocupa\u00e7\u00f5es centrais de M\u00e9sz\u00e1ros. Constitui, na verdade, um tragic\u00f4mico registro de um caso de prefaciador que apresentou como se fossem do prefaciado id\u00e9ias que na verdade n\u00e3o lhe pertenciam (acreditamos que <em>mistifica\u00e7\u00e3o<\/em> seja um termo bastante apropriado para designar o sentido desse tipo de opera\u00e7\u00e3o intelectual).<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o para a supera\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o \u00e9, de acordo com M\u00e9sz\u00e1ros, a que se insere conscientemente na <em>luta de classes<\/em>. A\u00ed, ela se desenvolve a partir da ado\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de um <em>ponto de vista<\/em> estruturalmente antag\u00f4nico em rela\u00e7\u00e3o ao sistema do capital. Essa nova pr\u00e1xis compreende tal perspectiva, os interesses que lhe s\u00e3o inerentes, articula-os em torno de uma <em>ideologia<\/em> capaz de proporcionar os devidos &#8220;est\u00edmulos mobilizadores&#8221; para as a\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edticas da &#8220;classe com cadeias radicais&#8221; rumo \u00e0 sua emancipa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma educa\u00e7\u00e3o que est\u00e1, pois, consciente de que s\u00f3 uma <em>revolu\u00e7\u00e3o<\/em> pode libertar os trabalhadores da pris\u00e3o configurada pelos processos alienados e alienantes de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Nesse contexto, todas as <em>mistifica\u00e7\u00f5es <\/em>sobre as rela\u00e7\u00f5es dos homens com os produtos do seu trabalho, onde estes lhes aparecem como auto-constitu\u00eddos e dotados de propriedades humanas, devem ser combatidas. A educa\u00e7\u00e3o socialista \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, uma educa\u00e7\u00e3o <em>desmistificadora <\/em>dos processos atualmente estabelecidos de controle s\u00f3cio-metab\u00f3lico, realizados de acordo com as exig\u00eancias do capital. \u00c9, pois, numa palavra, <em>cr\u00edtica<\/em> radical dos fetiches de um sistema que vive de produzir fetiches \u2013 incluindo-se a\u00ed, evidentemente, o pr\u00f3prio <em>fetiche do Estado<\/em>.<\/p>\n<p>O projeto socialista requer, assim, que nos orientemos a partir de um quadro estrat\u00e9gico adequado, de atua\u00e7\u00e3o nacional e internacional, com vistas a irmos <em>para al\u00e9m do capital,<\/em> e n\u00e3o meramente do <em>capitalismo<\/em> e seu regime jur\u00eddico garantidor da propriedade privada. A <em>educa\u00e7\u00e3o<\/em> <em>para al\u00e9m do capital<\/em> \u00e9 aquela que, concebendo-se como media\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel, se integra conscientemente nesse projeto <em>de transi\u00e7\u00e3o<\/em> que dever\u00e1 fazer vir \u00e0 luz uma sociedade capaz de proporcionar <em>tempo dispon\u00edvel <\/em>para a realiza\u00e7\u00e3o das potencialidades humanas. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, na vis\u00e3o de M\u00e9sz\u00e1ros, <em>parte<\/em> de um projeto pol\u00edtico-social &#8211; media\u00e7\u00e3o coadunada com outras media\u00e7\u00f5es &#8211; que precisa progressivamente <em>negar<\/em> a forma de sociabilidade atualmente cristalizada e <em>afirmar<\/em> uma alternativa vi\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o a ela. \u00c9 esse movimento que constitui, pois, a cr\u00edtica radical, a pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria rumo \u00e0 comunidade humana emancipada, a sociedade regulada pelos produtores livremente associados de que falava Marx.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar tais quest\u00f5es, pois M\u00e9sz\u00e1ros volta a elas freq\u00fcentemente. \u00c9 a <em>cr\u00edtica<\/em> da ordem do capital que deve constituir a <em>forma <\/em>da educa\u00e7\u00e3o transformadora. Isto exige uma ampla e profunda modifica\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas e rela\u00e7\u00f5es materiais \u2013 ou seja, dos <em>sistemas de media\u00e7\u00f5es<\/em> atualmente estabelecidos -, que deve se dar com base no objetivo de transferir o <em>poder de decis\u00e3o <\/em>sobre os processos s\u00f3cio-metab\u00f3licos da humanidade para os produtores associados. Por isso, a reflex\u00e3o sobre educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se realizar meramente tendo-se em vista os ambientes <em>formais<\/em> de ensino, mas sim, sobretudo, as esferas <em>informais<\/em> de apropria\u00e7\u00e3o dos produtos hist\u00f3ricos. Nessas duas &#8220;frentes de batalha&#8221;, ela necessita se estabelecer como pr\u00e1tica que \u00e9, assim como a revolu\u00e7\u00e3o, <em>auto-determinada <\/em>e <em>permanente<\/em>.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo h\u00fangaro frisa constantemente que as formas de apropria\u00e7\u00e3o do mundo que o capital controla n\u00e3o se d\u00e3o somente na escola ou na universidade, mas na vida como um todo. Por causa disso, a educa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria n\u00e3o pode visar apenas os ambientes formais de ensino, mas sim se voltar para todas as outras atividades em que a interioriza\u00e7\u00e3o ocorre, a fim de produzir uma <em>contra-interioriza\u00e7\u00e3o<\/em> (ou <em>contra-consci\u00eancia<\/em>) radical. N\u00e3o mais hier\u00e1rquica, fetichista, perdul\u00e1ria, destrutiva, e sim sustent\u00e1vel, cooperativa, consciente, emancipada, numa palavra, <em>socialista<\/em>. Por tal raz\u00e3o, uma educa\u00e7\u00e3o alternativa s\u00f3 pode ser bem fundamentada se estiver amparada por uma <em>teoria pol\u00edtica<\/em> concretamente produzida para fins espec\u00edficos de confronta\u00e7\u00e3o de um determinado sistema de relacionamento social. Isto deve estar claro para os sujeitos envolvidos com atividades formais de ensino, pois eles necessitam ser capazes de fazer com que a sua institui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica se abra para toda a sociedade, a fim de poder se articular com os movimentos materiais que visam superar a ordem do capital rumo \u00e0 &#8220;nova forma hist\u00f3rica&#8221;.<\/p>\n<p>A teoria de M\u00e9sz\u00e1ros \u00e9, portanto, uma defesa intransigente e sem concess\u00f5es de que as institui\u00e7\u00f5es de ensino e seus participantes \u2013 educadores, educandos, trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o, comunidade escolar \u2013 entrem numa rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com os processos pol\u00edticos e sociais que, em nosso tempo, visam \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do futuro emancipado da humanidade. Isto n\u00e3o significa, contudo, que tal teoria n\u00e3o diga algo digno de poder ser utilizado para orientar a\u00e7\u00f5es <em>dentro<\/em> do \u00e2mbito da escola ou da universidade. Por exemplo: se a atividade organizada pelo sistema fetichista de explora\u00e7\u00e3o de trabalho excedente \u2013 isto \u00e9, <em>o sistema do capital <\/em>&#8211; \u00e9 estruturada <em>hierarquicamente<\/em>, a pr\u00e1tica superadora de tal conjunto de rela\u00e7\u00f5es precisa se ordenar de modo diverso. Isto pode ocorrer tanto no que toca \u00e0 pr\u00f3pria estrutura institucional como no interior da sala de aula: um movimento progressivo de transcend\u00eancia da forma da interioriza\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 de acordo com a l\u00f3gica do capital (<em>hier\u00e1rquica<\/em>), para uma outra, n\u00e3o fetichista, <em>horizontal<\/em>, cooperativa, auto-determinada. \u00c9 esse novo tipo de pr\u00e1tica social que torna poss\u00edvel a generaliza\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico e a forma\u00e7\u00e3o da <em>consci\u00eancia socialista de massa<\/em> de que fala M\u00e9sz\u00e1ros.<\/p>\n<p>Uma forma revolucion\u00e1ria de educa\u00e7\u00e3o \u00e9, pois, segundo o fil\u00f3sofo h\u00fangaro, imprescind\u00edvel para as classes trabalhadoras na sua luta contra o capital. N\u00e3o uma educa\u00e7\u00e3o que, impregnada de ret\u00f3rica mistificadora, contemporize com interesses escusos de partidos que desejam se perpetuar nos postos mais altos do Estado a partir de uma engenharia pol\u00edtica h\u00e1bil na concilia\u00e7\u00e3o entre as classes. N\u00e3o uma educa\u00e7\u00e3o que se d\u00ea meramente no \u00e2mbito &#8220;p\u00fablico&#8221;, mas que seja capaz de criticar os pr\u00f3prios fundamentos da divis\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado. N\u00e3o uma educa\u00e7\u00e3o que <em>fetichize <\/em>o Estado, considerando-o como panac\u00e9ia para todos os problemas, mas que combata suas contradi\u00e7\u00f5es l\u00e1 onde elas se enra\u00edzam. Finalmente: n\u00e3o uma educa\u00e7\u00e3o apenas contra o setor privado, o neoliberalismo, o partido X ou Y, e sim uma educa\u00e7\u00e3o <em>contra o capital<\/em>, suas personifica\u00e7\u00f5es e seus ide\u00f3logos de todos os tipos &#8211; principalmente, os que exercem sua influ\u00eancia delet\u00e9ria no interior da pr\u00f3pria esquerda&#8230;<\/p>\n<p><strong>Ficha<\/strong><\/p>\n<p><strong>T\u00edtulo: A educa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do capital <\/strong><\/p>\n<p><strong>Autor: Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros <\/strong><\/p>\n<p><strong>Editora: Boitempo <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ano: 2008 (2\u00aa edi\u00e7\u00e3o) <\/strong><\/p>\n<p><strong>P\u00e1ginas: 124 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Pre\u00e7o: R$ 25,00 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Sobre o autor:<\/strong> Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros nasceu em Budapeste, em 1930. Em sua juventude, trabalhou em f\u00e1bricas de avi\u00f5es, tratores, t\u00eaxteis, tipografias e at\u00e9 no departamento de manuten\u00e7\u00e3o de uma ferrovia el\u00e9trica. Aos dezoito anos, gra\u00e7as ao fato de haver se formado com notas m\u00e1ximas, ganhou uma bolsa de estudos na Universidade de Budapeste, onde p\u00f4de conhecer o fil\u00f3sofo Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs, de quem foi grande amigo e disc\u00edpulo. Da Hungria, M\u00e9sz\u00e1ros foi para a It\u00e1lia, onde trabalhou na Universidade de Turim. A partir de 1959, seu destino foi a Gr\u00e3-Bretanha, onde lecionou em v\u00e1rios lugares: no Bedford College da Universidade de Londres (1959-1961), na Universidade de Saint Andrews, na Esc\u00f3cia (1961-1966), e na Universidade de Sussex, em Brighton, na Inglaterra (1966-1971). Em 1971, trabalhou na Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico, e em 1972 foi nomeado professor de Filosofia e Ci\u00eancias Sociais da Universidade de York, em Toronto, no Canad\u00e1. Em janeiro de 1977, retornou \u00e0 Universidade de Sussex, onde veio a receber o t\u00edtulo de Professor Em\u00e9rito de Filosofia em 1991. Afastou-se das atividades docentes em 1995 e atualmente vive na cidade de Rochester, pr\u00f3xima a Londres.<\/p>\n<p><strong>*Demetrio Cherobini \u00e9 cientista social (UFSM) e mestre em Educa\u00e7\u00e3o (UFSC). <\/strong><\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/content\/view\/5496\/166\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Correio da Cidadania\n\n\n\n\n\n\n\n\nDemetrio Cherobini*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1248\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[51],"tags":[],"class_list":["post-1248","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c62-debate"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-k8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1248","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1248"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1248\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1248"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1248"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1248"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}