{"id":12508,"date":"2016-10-31T20:44:43","date_gmt":"2016-10-31T23:44:43","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12508"},"modified":"2016-11-26T15:30:05","modified_gmt":"2016-11-26T18:30:05","slug":"eisenstein-e-o-marxismo-em-a-greve-e-outubro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12508","title":{"rendered":"Eisenstein e o marxismo em &#8216;A Greve&#8217; e &#8216;Outubro&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/gz.diarioliberdade.org\/media\/k2\/items\/cache\/xc570441ed914d9220d15be3df1bd2b23_L.jpg.pagespeed.ic.Qf8ZPRHqSN.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>[Cl\u00e1udio Gabriel, de Rio de Janeiro, RJ] O cinema surge, nas feiras de atra\u00e7\u00f5es dos fins do s\u00e9culo XIX, como uma arte extremamente popular entre os trabalhadores.<!--more--><\/p>\n<p>Prolet\u00e1rios gostavam de assistir os filmes enquanto existia um grande preconceito por parte da classe mais rica, perante a esse predom\u00ednio de telespectadores das classes mais populares. \u00c9 sempre importante relatar que um dos primeiros curtas feitos pelos irm\u00e3os Lumi\u00e8re foi <em>\u201cA sa\u00edda dos oper\u00e1rios da f\u00e1brica Lumi\u00e8re\u201d<\/em>, de 1895, s\u00edmbolo do que esse meio de comunica\u00e7\u00e3o, capaz de atingir uma grande massa, conseguia retratar.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s seu surgimento, novas maneiras de pensar a filmagem, maneiras de posicionamento de c\u00e2meras e de pensar como o cinema poderia interagir com a sociedade foram pensadas. Uma delas, o construtivismo russo, ganhou grande destaque na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Extremamente ideol\u00f3gico e buscando popularizar ainda mais a s\u00e9tima arte, este movimento \u00e9 respons\u00e1vel pelas duas obras que d\u00e3o t\u00edtulo a esse trabalho.<\/p>\n<p>Serguei Eisenstein foi um dos grandes g\u00eanios e diretores mais expoentes do cinema sovi\u00e9tico em toda sua hist\u00f3ria, gra\u00e7as \u00e0 sua capacidade de contar tramas relacionadas a trabalhadores comuns, na qual a maioria dos oper\u00e1rios na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica se identificava facilmente. Sempre defendeu a import\u00e2ncia ideol\u00f3gica do Cinema no pa\u00eds para atingir um real comunismo.<\/p>\n<p>Assim, a est\u00e9tica te\u00f3rica marxista \u00e9 realizada de uma maneira muito n\u00edtida na maioria de seus longas. Pois, assim como o mesmo falou, ap\u00f3s uma conversa com James Joyce, escritor de Ulysses: <em>\u201cA decis\u00e3o est\u00e1 tomada: irei filmar o Capital segundo o roteiro de Karl Marx \u2013 esta \u00e9 a \u00fanica forma poss\u00edvel\u201d<\/em>. \u00a0Neste artigo, ser\u00e3o destacados apenas dois dele.<\/p>\n<p>Eisenstein sempre buscou um entendimento te\u00f3rico na s\u00e9tima arte comparado com a teoria criada por Karl Marx, e conseguiu levar esse ideal de uma maneira totalmente diversificada. Talvez o que mais se utilizava em suas obras era a dial\u00e9tica do m\u00e9todo materialista hist\u00f3rico, com o prosseguimento da \u201ctese\u201d, \u201cant\u00edtese\u201d e \u201cs\u00edntese\u201d, utilizada durante o desenvolvimento narrativo, principalmente relacionado aos ideais dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Vindo com uma forte influ\u00eancia do teatro, o diretor tinha em mente uma est\u00e9tica extremamente teatral em todos os seus filmes, sem d\u00favidas um diferencial positivo em sua carreira. Em suas obras, h\u00e1 uma explora\u00e7\u00e3o muito forte dos estere\u00f3tipos, na qual ele exagera de maneiras absurdas em toda sua filmografia. A representa\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios de f\u00e1bricas como gordos e sempre sentados em cadeiras e muito confort\u00e1veis, gera uma ideia de desconforto por n\u00e3o se sentir parte daquela situa\u00e7\u00e3o com o espectador sovi\u00e9tico prolet\u00e1rio. Do outro lado, tem-se um trabalhador comum, com roupas totalmente maltratadas e sujas, al\u00e9m de sempre aparentar uma cara cansada, sempre em grande n\u00famero, o que gerava um senso de comunidade e organiza\u00e7\u00e3o por parte dessa classe explorada, algo tamb\u00e9m que possui rela\u00e7\u00e3o direta com a teoria de Marx.<\/p>\n<p>O pensador alem\u00e3o disse em seu livro mais conhecido \u201cO manifesto do Partido Comunista\u201d uma frase no primeiro cap\u00edtulo que \u00e9 um ponto culminante para entender todos os trabalhos realizados por Eisenstein: <em>\u201cA hist\u00f3ria de toda a sociedade at\u00e9 aqui \u00e9 a hist\u00f3ria de lutas de classes\u201d (Marx, 1997). <\/em>Nesse pequeno trecho, Karl Marx faz uma s\u00edntese do que abordar\u00e1 nesse exemplar dali para frente.\u00a0 Esse mesmo trecho \u00e9 utilizado de maneiras bem diretas pelo cineasta russo, inclusive nos dois filmes relatados nesse artigo.<\/p>\n<p>Por isso tudo, se deve considerar muito o estudo dedicado por Eisenstein ao cinema como mat\u00e9ria art\u00edstica por si s\u00f3, al\u00e9m do pensamento de popularizar e traduzir pensamentos ideol\u00f3gicos na s\u00e9tima arte. Ao longo de sua filmografia, alterna a exposi\u00e7\u00e3o expl\u00edcita ou impl\u00edcita de seus ideais. Nos dois longas analisados a seguir, ele demonstra de maneira bem n\u00edtida todo o seu posicionamento pol\u00edtico e o objetivo da luta sovi\u00e9tica, al\u00e9m do que ela almejava alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p><strong>A Greve<\/strong><br \/>\nA hist\u00f3ria de <em>A Greve <\/em>\u00e9 sobre um grupo de trabalhadores que decide realizar uma greve geral na f\u00e1brica que trabalham, mas o patr\u00e3o ao descobrir decide colocar a pol\u00edcia na porta do local de trabalho e criar inimizades para desvencilhar o acontecimento.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o de Eisenstein aqui se utiliza bastante das met\u00e1foras visuais, principalmente relacionadas aos animais, algo que ele costuma repetir bastante nas suas outras obras cinematogr\u00e1ficas. A imagem mais marcante desse jogo de imagens \u00e9 a cena que fecha o longa. Um comparativo de abate de um porco com a chacina dos trabalhadores que estavam realizando a atividade grevista, algo que cria um final extremamente tenso e deprimente. Ao final, a frase <em>\u201cLembrem-se camaradas!\u201d,<\/em> fato que gera um senso de justi\u00e7a e revolucion\u00e1rio muito forte, um dos objetivos a ser passado para a popula\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Outro fator de compara\u00e7\u00e3o com a obra marxiana, talvez o mais importante aqui, seja da organiza\u00e7\u00e3o da classe prolet\u00e1ria. Quando o alem\u00e3o diz <em>\u201cProlet\u00e1rios de todos os pa\u00edses, uni-vos!\u201d<\/em>, ele gera uma inspira\u00e7\u00e3o direta para a obra do diretor russo. Para al\u00e9m dessa frase, Marx realiza um grande trabalho de relatos sobre a organiza\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria, seja essa em sindicatos, seja como sentimento de classe e outros. Esse ponto \u00e9 essencial para o entendimento da uni\u00e3o desses trabalhadores para buscarem um objetivo em comum, algo que \u00e9 demonstrado de maneira perfeita por Eisenstein.<\/p>\n<p>Por fim, a n\u00e3o utiliza\u00e7\u00e3o de um protagonista individual, mas o foco na massa grevista em si \u00e9 algo diferencial numa an\u00e1lise cinematogr\u00e1fica. O cinema, desde sua cria\u00e7\u00e3o, buscou cada vez mais focar em hist\u00f3rias individuais, sobre tem\u00e1ticas que buscassem se pautar em realidades que todos poderiam evidenciar, mas em <em>A Greve<\/em> essa ideia \u00e9 levada da maneira mais f\u00e1cil de identifica\u00e7\u00e3o, com uma classe de pessoas em busca de seus direitos e sendo brutalmente reprimida. Esse pensamento de tirar o foco em algum personagem espec\u00edfico gera um pensamento que qualquer telespectador poderia estar ali, principalmente contando com um contexto p\u00f3s-revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>O diretor se utiliza da montagem das atra\u00e7\u00f5es, na qual ele diz que <em>\u201ca montagem das atra\u00e7\u00f5es provoca radicalmente a altera\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios de constru\u00e7\u00e3o do produto final com seus artif\u00edcios manipul\u00e1veis utilizando o conceito de materialismo hist\u00f3rico-dial\u00e9tico desenvolvido por Karl Marx e Friedrich Engels\u201d<\/em>, realizando uma proximidade da tela com quem assiste de uma maneira ideol\u00f3gica e num ambiente realista.<\/p>\n<p><strong>Outubro<\/strong>A trama de <em>\u201cOutubro\u201d <\/em>se passa logo ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o russa de fevereiro de 1917, que instalou um governo provis\u00f3rio no pa\u00eds, comandado pelos mencheviques. A hist\u00f3ria se passa com os trabalhadores tomando consci\u00eancia de que suas vidas e a situa\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o pouco mudaram com a continuidade da R\u00fassia na 1\u00aa guerra mundial\u00ad\u00ad. \u00c9 preciso destacar que o longa foi encomendado pelo governo em comemora\u00e7\u00e3o dos 10 anos da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 importante come\u00e7ar analisando que Eisenstein se utiliza novamente de tr\u00eas artif\u00edcios comentados para o filme anterior: a imagem do l\u00edder revolucion\u00e1rio Lenin, a das met\u00e1foras visuais e a de n\u00e3o possuir um protagonista espec\u00edfico, levando a ideia de o principal personagem ser o povo. Esses tr\u00eas fatos s\u00e3o feitos de uma maneira mais leve e sem tanta participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O tempo de Lenin em tela \u00e9 bem pequeno, apenas durante um discurso contra o governo provis\u00f3rio, o chamando de um \u201cgoverno burgu\u00eas\u201d, algo que se repete durante toda a proje\u00e7\u00e3o por diversos personagens, fato que remete a uma ideia marxista da luta de classes.<\/p>\n<p>Sobre a segunda repeti\u00e7\u00e3o, a analogia de imagem que fica mais n\u00edtida em toda a obra \u00e9 a da cena do pav\u00e3o. Nesse determinado segmento, o diretor utiliza uma imagem de um pav\u00e3o, com todas suas penas abertas, para demonstrar os mencheviques, que seriam os \u201ctraidores\u201d do movimento revolucion\u00e1rio, como se demonstrasse que eles estariam todos abertos para o governo popular, mas ao mesmo tempo a ponto de atacar esse, sendo considerado assim um governo traidor.<\/p>\n<p>A terceira \u00e9 feita de uma maneira muito n\u00edtida, com sempre muitos planos abertos para mostrar a imensid\u00e3o dos trabalhadores que lutavam ali.<\/p>\n<p>Nessa pel\u00edcula, o diretor sovi\u00e9tico utiliza a \u201cmontagem dial\u00e9tica\u201d, que busca em todas as cenas demonstrar uma \u201ctese\u201d, para depois ter um contraponto a ela (a \u201cant\u00edtese\u201d) e, por fim, gerar a \u201cs\u00edntese\u201d. Esse tipo de montagem tamb\u00e9m \u00e9 realizado em <em>\u201cA greve\u201d<\/em>, mas de uma maneira um pouco mais superficial. Ele se utiliza dessa t\u00e9cnica, pois acreditava que toda arte necessariamente precisa gerar conflito e buscar um ideal de \u201cvencedor\u201d que sair\u00e1 dos embates demonstrados.<\/p>\n<p><strong>Engajamento<\/strong><\/p>\n<p>O que pode se tirar como conclus\u00e3o das an\u00e1lises dos dois filmes \u00e9 que Eisenstein \u00e9 um diretor totalmente envolvido com sua causa ideol\u00f3gica e contexto hist\u00f3rico-pol\u00edtico que vivia na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Al\u00e9m disso, ele demonstra a necessidade do cinema se tornar uma arte extremamente acess\u00edvel para todas as pessoas, no caso aqui retratado o operariado russo.<\/p>\n<p>O realizador diz em seu texto <em>M\u00e9todo de realiza\u00e7\u00e3o de um filme oper\u00e1rio<\/em>, duas escolhas de est\u00edmulos que merecem ser destacadas. Ambas aparecem nas duas obras analisadas anteriormente e se encaixam de maneira perfeita com a teoria marxiana. As duas s\u00e3o: <em>\u201cpela correta avalia\u00e7\u00e3o de sua inevit\u00e1vel efic\u00e1cia de classe: isto \u00e9, um determinado est\u00edmulo \u00e9 capaz de provocar uma determinada rea\u00e7\u00e3o (efeito) apenas em um p\u00fablico de determinada classe\u201d<\/em> e <em>\u201cacessibilidade de classe desse ou daquele est\u00edmulo\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Essas duas escolhas demonstram com precis\u00e3o o car\u00e1ter classista que Serguei buscava com suas obras, uma ideia objetivada no entendimento de classe que o operariado russo precisava para alcan\u00e7ar o comunismo, algo que o escritor alem\u00e3o Karl Marx buscava alguns anos antes.<\/p>\n<p>https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/artigos-em-destaque\/item\/86750-eisenstein-e-o-marxismo-em-a-greve-e-outubro.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"[Cl\u00e1udio Gabriel, de Rio de Janeiro, RJ] O cinema surge, nas feiras de atra\u00e7\u00f5es dos fins do s\u00e9culo XIX, como uma arte extremamente \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12508\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-12508","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3fK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12508","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12508"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12508\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12508"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12508"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12508"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}