{"id":12517,"date":"2016-10-31T21:02:29","date_gmt":"2016-11-01T00:02:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12517"},"modified":"2016-11-26T15:30:59","modified_gmt":"2016-11-26T18:30:59","slug":"colombia-medo-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12517","title":{"rendered":"Col\u00f4mbia: Medo da paz"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep02.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2016\/09\/25\/colombia\/1474769976_468515_1475119349_noticia_fotograma.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><strong><b>Por Javier Calder\u00f3n Castillo<\/b><\/strong> \/ CELAG \/ Resumen Latinoamericano, outubro de 2016 \u2013<\/p>\n<p>A Col\u00f4mbia acaba de passar uma semana de infarto. O resultado adverso do plebiscito pela paz colocou a nu os pormenores das tens\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es da maltratada\/restringida democracia e do espinhoso caminho que espera a constru\u00e7\u00e3o da paz. Existe muito ru\u00eddo e diversas arestas <!--more-->para a an\u00e1lise, no entanto, a tarefa urgente \u00e9 compreender os interesses em disputa dos setores de poder que est\u00e3o por tr\u00e1s da interpela\u00e7\u00e3o dos Acordos de Paz \u2013 tudo o que n\u00e3o se disse abertamente na campanha. Trata-se, nada mais nada menos, que abordar os temas das terras, da impunidade e do poder.<\/p>\n<p><strong><b>As terras<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Em letras mi\u00fadas, a mais importante das proclama\u00e7\u00f5es da extrema-direita liderada por \u00c1lvaro Uribe para opor-se ao Acordo de Paz, est\u00e1 o tema dos sete \u2013 ou mais \u2013 milh\u00f5es de hectares de terras arrebatadas pelos paramilitares ao campesinato [1]. Querem que o acordo permita um ponto final sobre o despojo violento ocorrido durante os \u00faltimos 25 anos. \u00c9 o problema das terras que est\u00e1 na base da pr\u00f3pria guerra, gerada na acumula\u00e7\u00e3o por espolia\u00e7\u00e3o e na transforma\u00e7\u00e3o de atividade com voca\u00e7\u00e3o alimentar em produ\u00e7\u00e3o em monocultivo de coca, de palma africana e de cana de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>No acordo assinado em Cartagena, se estabelece que os sete milh\u00f5es de hectares ser\u00e3o devolvidos a seus donos ou seus leg\u00edtimos possuidores, hoje deslocados for\u00e7adamente nas cidades. E que a restitui\u00e7\u00e3o ser\u00e1 seguida de uma serie de compromissos de acompanhamento t\u00e9cnico, educativo, de cr\u00e9dito e de melhoria para o campesinato em sua participa\u00e7\u00e3o sobre a cadeia produtiva alimentar [2]. Por isso, nas proclama\u00e7\u00f5es apresentadas pelo uribismo ap\u00f3s o plebiscito, pretendem repetir a fracassada hist\u00f3ria das duas tentativas mais serias de reformas agr\u00e1rias no pa\u00eds \u2013 1936 e 1968 \u2013, que terminaram sendo aproveitadas pelos latifundi\u00e1rios atrav\u00e9s do despojo violento dos t\u00edtulos outorgados aos camponeses sem terra.<\/p>\n<p>No mesmo sentido, a extrema-direita parece estar muito preocupada com a virada na pol\u00edtica antidrogas exposta nos acordos de paz, onde se prop\u00f5e uma mudan\u00e7a substancial sobre a a\u00e7\u00e3o punitiva e repressiva utilizada contra o campesinato para erradicar os cultivos de uso il\u00edcito. Da\u00ed adiante, a a\u00e7\u00e3o privilegiada ser\u00e1 a substitui\u00e7\u00e3o manual e acordada desses cultivos no marco do programa da Reforma Rural Integral, impulsionando a economia campesina e coletiva nas zonas de desenvolvimento agro-alimentar e nas zonas de reserva campesina. Projetos alternativos que tirar\u00e3o a m\u00e3o de obra da economia do tr\u00e1fico de drogas, seu elo mais fr\u00e1gil, pior pago e mais penalizado. Os camponeses ter\u00e3o op\u00e7\u00f5es e aos patr\u00f5es isso assusta.<\/p>\n<p>Um assunto que conhecem muito bem as organiza\u00e7\u00f5es campesinas, ind\u00edgenas e afrodescendentes, pois contra eles chove glifosato e persegui\u00e7\u00e3o. Caso se consiga superar o baque gerado pelo Plebiscito, a implanta\u00e7\u00e3o da Reforma Rural Integral e a mudan\u00e7a da pol\u00edtica antidrogas ser\u00e3o dois duros desafios que requerer\u00e3o a mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade colombiana e o respaldo real e no terreno da comunidade internacional, posto que os inimigos da restitui\u00e7\u00e3o de terras n\u00e3o s\u00f3 est\u00e3o armados de votos.<\/p>\n<p><strong><b>Impunidade<\/b><\/strong><\/p>\n<p>O Acordo de Paz assinado e em vig\u00eancia tem em conta as v\u00edtimas, todas as v\u00edtimas. A pretens\u00e3o da extrema-direita, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 gerar uma lei de ponto final similar \u00e0 espanhola p\u00f3s-franquista, que deixe sepultada a verdade a que tem direito centenas de milhares de fam\u00edlias v\u00edtimas dos assassinatos seletivos de sindicalistas, de jovens, de ativistas de esquerda, de lutadores sociais, de massacres, dos \u201cfalsos positivos\u201d. Inclusive, pretende deixar enterrados os desaparecidos contados aos milhares e que est\u00e3o regados em fossas comuns em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A extrema-direita pede nas proclama\u00e7\u00f5es apresentadas ao presidente Santos que haja uma revis\u00e3o dos casos dos pol\u00edticos presos pela parapol\u00edtica e pelo processo 8000[3], deixando para tr\u00e1s o Tribunal da Verdade acordado como mecanismo de gerar justi\u00e7a. Meses atr\u00e1s, por meio do assessor da mesa de di\u00e1logos, Alvaro Leyva, Uribe pediu que se exclu\u00edsse do tribunal da verdade a exigibilidade de que os militares, paramilitares e financiadores da guerra dessem os nomes de seus chefes ou dos autores intelectuais dos massacres, falsos positivos e outros delitos [4]. Isto demonstra o temor da extrema-direita de que a verdade gere uma segunda onda de parapol\u00edtica que chegar\u00e1 ainda mais perto do c\u00edrculo \u00edntimo do uribismo. As mostras desesperadas para impedir a verdade do ex-presidente Uribe assim o indicam.<\/p>\n<p>A impunidade que busca Uribe e outros setores menos vis\u00edveis com muito poder, cada vez se faz mais dif\u00edcil, sobretudo pela entrada em vig\u00eancia do Tratado de Roma na jurisdi\u00e7\u00e3o colombiana desde 2009, que impede qualquer lei de ponto final para as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e as infra\u00e7\u00f5es ao Direito Internacional Humanit\u00e1rio, n\u00e3o s\u00f3 de militares ou guerrilheiros, mas de todas as pessoas da cadeia de comando civis ou militares que tenham responsabilidades. Toda uma dor de cabe\u00e7a para aqueles que pretendem depois do plebiscito chantagear o governo e a sociedade em troca de impunidade. No Tribunal da Verdade, se poder\u00e3o ouvir as confiss\u00f5es dos perpetradores de delitos graves sobre a responsabilidade da cadeia de comando, os instigadores e financiadores da estrat\u00e9gia de despojo e paramilitarismo. Verdade que dever\u00e1 ser conhecida pela Corte Penal Internacional, que somente ter\u00e1 jurisdi\u00e7\u00e3o sobre aqueles que n\u00e3o se assentem na justi\u00e7a transicional restaurativa do tribunal. Ser\u00e1 esta a raz\u00e3o das a\u00e7\u00f5es angustiantes e raivosas de Uribe?<\/p>\n<p><strong><b>Poder<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Este \u00faltimo ponto soa um lugar comum, por\u00e9m n\u00e3o o \u00e9 para o processo pol\u00edtico que est\u00e1 vivendo a Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Como todo o mundo se inteirou, o diagn\u00f3stico da democracia colombiana \u00e9 cr\u00edtico. Pepe Mujica a diagnosticaria de esquizofrenia e a maioria dos analistas internacionais deram conta do d\u00e9ficit e da restri\u00e7\u00e3o em que vive a sociedade colombiana. O que argumenta com mais for\u00e7a a necessidade de um acordo que abra a democracia, que gere novas regras e inclua as maiorias que est\u00e3o por fora do contrato social.<\/p>\n<p>Contr\u00e1rio a este racioc\u00ednio, a extrema-direita deseja que a democracia continue enferma, esperando que tudo se mantenha igual. Com o ex\u00edguo 18% que vota por suas atrasadas, por\u00e9m eficazes consignas, pensam que lhes \u00e9 suficiente para governar \u00e0 an\u00eamica sociedade presa entre o cansa\u00e7o da guerra e o asfixiante neoliberalismo. A ultra-direita n\u00e3o quer desenvolvimento territorial, nem participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de competidores que ponham o debate em torno da justi\u00e7a social, porque nos munic\u00edpios tem a alian\u00e7a perfeita entre latif\u00fandio, ignor\u00e2ncia pol\u00edtica e viol\u00eancia. Por isso, temo que n\u00e3o importa se ficam satisfeitos ou n\u00e3o com os poss\u00edveis adendos ao Acordo de Paz assinado em Cartagena. Seu objetivo \u00e9 o poder, e o \u00fanico discurso que t\u00eam para articular suas for\u00e7as \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 paz que gere democracia.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o discurso do governo e do campo popular dever\u00e1 ser mais audaz, passar \u00e0 iniciativa abrindo os cen\u00e1rios de participa\u00e7\u00e3o inclu\u00eddos nos Acordos, realizar um salto adiante na procura em ganhar hegemonia em torno da paz muito da m\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es sociais e grupos de cidad\u00e3os que est\u00e3o mobilizados para consegui-las. S\u00e3o estes setores os que, com as marchas, as assembleias, os discursos renovados e com a voz juvenil, est\u00e3o dando as lufadas de ar fresco que necessita a mudan\u00e7a pol\u00edtica no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A disputa dos alentadores do velho pa\u00eds, \u00e9 por sobreviver com seus anacr\u00f4nicos m\u00e9todos violentos, s\u00e3o como uma locomotiva velha que n\u00e3o quer parar, destruindo tudo em seu caminho. V\u00eam desde sempre pedindo silencio, conseguindo impunidade com leis de ponto final e impondo c\u00e1rcere para seus contraditores. A equa\u00e7\u00e3o de Viol\u00eancia+Terras+Impunidade = Poder os manteve. Por isso, a paz, a verdade e as vozes alternativas lhes aterrorizam. Sem d\u00favida, t\u00eam medo da paz.<\/p>\n<p>ADENDO: Sa\u00fado a boa nova do in\u00edcio dos di\u00e1logos do Governo com o ELN, certo de que ser\u00e1 tema para continuar pensando o imbr\u00f3glio colombiano.<\/p>\n<p>[1]<a href=\"http:\/\/www.semana.com\/nacion\/articulo\/propuestas-de-alvaro-uribe-para-renegociar-el-acuerdo-final-con-las-farc\/498453\"><u> http:\/\/www.semana.com\/nacion\/articulo\/propuestas-de-alvaro-uribe-para-renegociar-el-acuerdo-final-con-las-farc\/498453<\/u><\/a><\/p>\n<p>[2]<a href=\"https:\/\/www.mesadeconversaciones.com.co\/sites\/default\/files\/acuerdo-final-1473286288.pdf\"><u> https:\/\/www.mesadeconversaciones.com.co\/sites\/default\/files\/acuerdo-final-1473286288.pdf<\/u><\/a> Ver p\u00e1ginas de la 10 a la 12.<\/p>\n<p>[3] Assim se chamou o processo de destitui\u00e7\u00e3o contra o ex-presidente Ernesto Samper entre 1994 e 1998, que deixou v\u00e1rios pol\u00edticos presos pelo ingresso de dinheiro il\u00edcito na campanha eleitoral.<\/p>\n<p>[4]<a href=\"http:\/\/www.semana.com\/confidenciales\/articulo\/intento-frustrado-de-alvaro-leyva\/485006\"><u> http:\/\/www.semana.com\/confidenciales\/articulo\/intento-frustrado-de-alvaro-leyva\/485006<\/u><\/a><\/p>\n<p>Fonte original: <a href=\"http:\/\/www.celag.org\/miedo-a-la-paz\/\">http:\/\/www.celag.org\/miedo-a-la-paz\/ <\/a><\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2016\/10\/16\/colombia-miedo-a-la-paz\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Javier Calder\u00f3n Castillo \/ CELAG \/ Resumen Latinoamericano, outubro de 2016 \u2013 A Col\u00f4mbia acaba de passar uma semana de infarto. 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