{"id":12519,"date":"2016-10-31T21:20:04","date_gmt":"2016-11-01T00:20:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12519"},"modified":"2016-11-26T15:31:05","modified_gmt":"2016-11-26T18:31:05","slug":"oitenta-anos-a-enterrar-lenine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12519","title":{"rendered":"Oitenta anos a enterrar Lenine"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/marxismo.org.br\/sites\/default\/files\/pictures\/articles\/lenin_0.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Francisco Martins Rodrigues<\/p>\n<p>O leninismo \u00e9 um mundo, como tem sido bem demonstrado ao longo das interven\u00e7\u00f5es neste col\u00f3quio (*). Gostaria de falar aqui hoje da pol\u00edtica leninista na fase de prepara\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o, trazendo o testemunho da minha experi\u00eancia pessoal enquanto militante comunista portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Ainda eu estava no PCP, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o mais de 40 anos, e j\u00e1 me confundia a diferen\u00e7a <!--more-->enorme <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagemp\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png?w=747&#038;ssl=1\" \/>entre o \u201cleninismo\u201d que n\u00f3s pratic\u00e1vamos e os textos do pr\u00f3prio Lenine. A interven\u00e7\u00e3o do PC em Portugal parecia bastante avan\u00e7ada a n\u00f3s, comunistas daquele tempo: unir o povo, com os oper\u00e1rios na primeira linha, para derrubar a ditadura fascista e ganhar uma democracia avan\u00e7ada. Mas ent\u00e3o descobri que Lenine, na luta contra o czarismo, punha as coisas em termos completamente diferentes. N\u00f3s proclam\u00e1vamos aos antifascistas: \u201cO que nos separa nada \u00e9, comparado com o que nos une\u201d \u2013 Lenine acentuava a necessidade de \u201cparalisar a instabilidade, a ambiguidade e a perf\u00eddia da burguesia democr\u00e1tica\u201d (1). N\u00f3s diz\u00edamos \u00e0 classe oper\u00e1ria que ela devia estar na vanguarda, como a mais esfor\u00e7ada e combativa \u2013 Lenine dizia: \u201cDevemos ajudar o proletariado a elevar-se do papel passivo de motor ao papel activo de guia, a passar de defensor subalterno de uma liberdade truncada a defensor totalmente independente de uma liberdade completa, em proveito da classe oper\u00e1ria\u201d (2). N\u00f3s ali\u00e1vamo-nos \u00e0 pequena burguesia urbana, mais activa e politizada \u2013 Lenine dizia que os camponeses, alheados da pol\u00edtica, incultos e famintos, \u00e9 que eram o verdadeiro aliado do proletariado, porque ao exigir a terra criavam condi\u00e7\u00f5es para subverter a ordem institu\u00edda. N\u00f3s resum\u00edamos toda a nossa estrat\u00e9gia e a nossa t\u00e1ctica ao derrube do fascismo \u2013 Lenine dizia que \u201cn\u00e3o se pode falar dos objectivos pol\u00edticos imediatos enquanto n\u00e3o se esclarecerem as quest\u00f5es essenciais das tarefas do proletariado na nossa revolu\u00e7\u00e3o (\u2026), enquanto n\u00e3o se vir como se agrupam as classes e os partidos\u2026\u201d (3).<\/p>\n<p>Numa palavra: n\u00f3s procur\u00e1vamos p\u00f4r de lado tudo o que dificultasse a unidade imediata \u2013 Lenine procurava p\u00f4r de lado tudo o que, na luta imediata, impedisse o papel dirigente do proletariado.<\/p>\n<p>Que respondiam os dirigentes do PCP \u00e0s nossas perplexidades? Que Lenine tivera certamente raz\u00e3o, fora o mais genial dos revolucion\u00e1rios, etc., mas que isto j\u00e1 n\u00e3o podia ser assim porque as novas condi\u00e7\u00f5es exigiam dos comunistas uma capacidade muito maior de assumir como suas as reivindica\u00e7\u00f5es de todo o povo, unir todas as camadas n\u00e3o-monopolistas, unir a na\u00e7\u00e3o contra o fascismo e o imperialismo estrangeiro, construir amplas frentes de luta pela paz\u2026<\/p>\n<p>S\u00f3 que esta justifica\u00e7\u00e3o era coxa: onde mais do que na R\u00fassia de 1905 era necess\u00e1rio ganhar todas as camadas da popula\u00e7\u00e3o para o derrube da autocracia, para o fim da servid\u00e3o, para fazer transforma\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas? E, no entanto, Lenine cuidara sempre em delimitar correntes no campo dos que lutavam pela liberdade, sem medo de afastar poss\u00edveis aliados; achava mesmo \u201cindecente\u201d o \u201cmedo de isolar o proletariado do povo pequeno-burgu\u00eas\u201d (4). Com essa orienta\u00e7\u00e3o permitiu que, no ano de 17, o proletariado russo se agigantasse e partisse ao assalto do poder. O que mudara, afinal, para tornar inaplic\u00e1vel o modo leninista de fazer pol\u00edtica?<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a n\u00e3o podia ser explicada pela mudan\u00e7a das condi\u00e7\u00f5es. Fora a estrat\u00e9gia que mudara. Pouco a pouco, imperceptivelmente, o leninismo fora-se tornando imprest\u00e1vel para os partidos comunistas (e falo aqui sobretudo da Europa, que nos diz mais directamente respeito). \u00c0 medida que se foram extinguindo as r\u00e9plicas daquele tremendo abalo revolucion\u00e1rio que sacudira a R\u00fassia com a revolu\u00e7\u00e3o dos sovietes, os comunistas, por muito que admirassem os bolcheviques, n\u00e3o vendo como pr\u00f3xima a instaura\u00e7\u00e3o da ditadura do proletariado, acossados por um clima social desfavor\u00e1vel, receosos do isolamento, consideraram inaplic\u00e1vel a demarca\u00e7\u00e3o leninista entre as posi\u00e7\u00f5es do proletariado e as da burguesia democr\u00e1tica.<br \/>\nAssim, enquanto se proclamava sem descanso a validade universal do leninismo, este foi sendo soterrado sob uma sucess\u00e3o de revis\u00f5es, em camadas sobrepostas.<\/p>\n<p>A primeira foi a chamada pol\u00edtica das frentes populares, adoptada no 7.\u00ba Congresso da Internacional Comunista, em meados dos anos 30, com o argumento de que \u201cno tempo de Lenine n\u00e3o existia o terrorismo fascista\u201d. N\u00e3o que as frentes antifascistas, em si, tivessem algo de mal. O mal era dirigirem-se os esfor\u00e7os de alian\u00e7a para a burguesia e n\u00e3o para os pobres da cidade e do campo, pensar que o pre\u00e7o a pagar pela frente era bajular os social-democratas, calar os objectivos pr\u00f3prios dos comunistas, adoptar uma linguagem progressista nebulosa, conceber a luta contra o fascismo como a fus\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es de classe contradit\u00f3rias numa corrente democr\u00e1tica comum.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, em plena guerra mundial, novo passo: a Internacional Comunista foi dissolvida \u201cporque os partidos j\u00e1 estavam temperados e maduros\u201d \u2013 na realidade porque as pot\u00eancias ocidentais exigiam o fim da Internacional para abrir a segunda frente contra Hitler. A dissolu\u00e7\u00e3o da IC \u2013 ali\u00e1s, j\u00e1 agonizante por ter sido rebaixada a instrumento da pol\u00edtica externa da URSS \u2013 levantou os \u00faltimos obst\u00e1culos \u00e0 dispers\u00e3o oportunista que empurrava cada partido a moldar-se \u00e0s condi\u00e7\u00f5es impostas pela burguesia do seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a guerra, veio a teoria das revolu\u00e7\u00f5es \u201cdemocr\u00e1tico-populares\u201d, meias revolu\u00e7\u00f5es de um tipo novo, que n\u00e3o instauravam nem a ditadura do proletariado sobre a burguesia, nem a ditadura da burguesia sobre o proletariado \u2013 \u201cporque agora, com o poderio da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel uma ampla alian\u00e7a das classes antimonopolistas\u201d. Para al\u00e9m dos abortos de capitalismo burocr\u00e1tico a que deu lugar na Europa de Leste, esta teoria serviu para afundar mais ainda os partidos europeus na pr\u00e1tica da colabora\u00e7\u00e3o de classes.<\/p>\n<p>Por fim, no 20\u00ba Congresso do PCUS, em 1956, invocou-se mais uma vez a nova situa\u00e7\u00e3o internacional como argumento para a revis\u00e3o kruchovista: \u201cLenine estava certo na sua \u00e9poca, mas no seu tempo n\u00e3o havia armas at\u00f3micas\u201d. E portanto os comunistas deviam abdicar de objectivos revolucion\u00e1rios a bem da coexist\u00eancia pac\u00edfica, ganhar a alian\u00e7a com os social-democratas \u00e0 custa do compromisso de uma mir\u00edfica \u201cpassagem pac\u00edfica ao socialismo\u201d, meter no limbo o conceito maldito da \u201cditadura do proletariado\u201d que matava \u00e0 nascen\u00e7a qualquer veleidade de alian\u00e7a porque a burguesia democr\u00e1tica n\u00e3o o tolerava (e com boas raz\u00f5es!).<\/p>\n<p>Se olharmos na sua sequ\u00eancia esta s\u00e9rie de \u201cactualiza\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 e h\u00e1 nela uma linha de continuidade que passa dos stalinistas para os anti-stalinistas \u2013, vemos que se tratou de uma revis\u00e3o estrat\u00e9gica. Lenine cuidava permanentemente de libertar os interesses a longo prazo do proletariado da ganga \u201cdemocr\u00e1tica\u201d geral em que sempre se encontram soterrados, justamente porque apontava para o alvo da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. O \u201cleninismo\u201d reciclado que lhe sucedeu precisava de dissolver os objectivos prolet\u00e1rios na pol\u00edtica democr\u00e1tica \u201cde todo o povo\u201d justamente porque adoptara como meta a introdu\u00e7\u00e3o gradual de reformas democratizantes no regime burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Nada parecia, por\u00e9m, mais distante do oportunismo do que a intransig\u00eancia exibida pelos PC europeus dos anos 50. Perseguidos e caluniados pelas suas burguesias, eles defendiam a p\u00e9 firme a \u201cp\u00e1tria do socialismo\u201d, lutavam contra o imperialismo, mantinham acesa a luta contra a social-democracia, defendiam a independ\u00eancia e unidade do partido. De tal modo que a sua luta parecia at\u00e9 por vezes assumir um radicalismo maior que nos tempos de Lenine.<\/p>\n<p>Com uma diferen\u00e7a de fundo, contudo. O empenhamento de Lenine em distinguir e separar os interesses do proletariado dos das classes interm\u00e9dias fora abandonado para dar lugar \u00e0 luta do \u201ccampo da paz e da democracia\u201d contra o grande capital e o imperialismo \u2013 capaz de englobar num movimento conjunto a pequena burguesia e o proletariado. O combate ao imperialismo, para se tornar aceit\u00e1vel a todos, passou de anticapitalista e revolucion\u00e1rio a democr\u00e1tico-humanista-pacifista. A cr\u00edtica aos partidos social-democratas transformou-se na den\u00fancia dos manejos das suas cliques \u2013 s\u00f3 negando base social \u00e0 social-democracia se podia manter de p\u00e9 o mito da unidade de interesses entre proletariado e pequena burguesia. A disputa da hegemonia prolet\u00e1ria no movimento democr\u00e1tico foi substitu\u00edda pela proclama\u00e7\u00e3o do \u201cpapel dirigente do partido\u201d \u2013 e com esta transfer\u00eancia trocou-se a luta pol\u00edtica em campo aberto pelo manobrismo sem princ\u00edpios. A luta interna nos partidos degenerou na ca\u00e7a aos \u201crenegados, sabotadores e provocadores\u201d, acabando por instituir um unanimismo gerador de podrid\u00e3o \u2013 porque reconhecer que a pequena burguesia tentava ganhar o partido por dentro poria em causa a \u201cunidade popular\u201d.<\/p>\n<p>A ideologia \u201cunit\u00e1ria\u201d esterilizou o movimento comunista. Quanto mais ced\u00eancias os partidos faziam na sua linha pol\u00edtica \u00e0 press\u00e3o burguesa democr\u00e1tica, na ambi\u00e7\u00e3o de ganhar espa\u00e7o na \u201cgrande massa da popula\u00e7\u00e3o\u201d, mais o proletariado era reduzido \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e se apagava na cena pol\u00edtica, mais os partidos trocavam a pol\u00e9mica viva pela solene enuncia\u00e7\u00e3o de dogmas, mais autorizados se consideravam, como indiscutida \u201cvanguarda\u201d, a todas as manobras. Na esperan\u00e7a obtusa de virem a ser reconhecidos como os melhores defensores dos interesses de toda a na\u00e7\u00e3o, os partidos comunistas sacrificaram a identidade pol\u00edtica do proletariado. Repetiram, com outra linguagem e noutras condi\u00e7\u00f5es, a deriva oportunista que Lenine apontara aos antigos social-democratas: \u201cRen\u00fancia \u00e0s posi\u00e7\u00f5es de classe e \u00e0 luta de classes por receio de n\u00e3o influenciar \u2018a grande massa da popula\u00e7\u00e3o\u2019 (leia-se: a pequena burguesia)\u201d (5).<\/p>\n<p>E como na luta de classes n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7os vazios, esta magn\u00e2nima abdica\u00e7\u00e3o dos interesses pr\u00f3prios e exclusivos do proletariado redundou na ocupa\u00e7\u00e3o dos partidos pela ideologia e pelos objectivos pol\u00edticos da pequena burguesia. Os partidos comunistas foram tomados pelas frac\u00e7\u00f5es radicais da nova pequena burguesia assalariada, em crescimento acelerado por toda a Europa, interessada em regatear espa\u00e7o junto da burguesia dominante usando como suas armas a luta do proletariado (devidamente depurada de objectivos revolucion\u00e1rios) e o apoio ao regime da URSS, o temido rival do imperialismo. Assim o proletariado se tornou o servente do movimento democr\u00e1tico burgu\u00eas, sob o emblema da foice e do martelo.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 agora o momento de fazer o historial das posi\u00e7\u00f5es reformistas, eleitoralistas, chauvinistas assumidas pelos partidos comunistas europeus, mesmo no mais aceso da sua resist\u00eancia \u00e0 \u201cGuerra fria\u201d. Os tons radicais e a terminologia \u201cmarxista\u201d com que se ocultavam, juntos com a imagem \u201csocialista\u201d da URSS, permitiram que se arrastasse por dec\u00e9nios o seu apodrecimento. Foi s\u00f3 quando, a partir dos anos 60, a classe governante \u201csovi\u00e9tica\u201d iniciou os primeiros passos para negociar com o imperialismo a sua reconvers\u00e3o ao capitalismo privado, que os aparelhos dos partidos europeus, j\u00e1 corrompidos at\u00e9 \u00e0 medula, consideraram esgotada a op\u00e7\u00e3o \u201cleninista\u201d e se puseram tamb\u00e9m \u00e0 procura de uma via de capitula\u00e7\u00e3o. Seguiu-se logicamente a renega\u00e7\u00e3o aberta do leninismo e o dar a m\u00e3o \u00e0 palmat\u00f3ria da social-democracia: Lenine tinha sido \u201cmaximalista\u201d, porque queria levar tudo longe de mais; \u201cjacobino\u201d, porque estava obcecado pela conquista do poder; \u201credutor\u201d e \u201csect\u00e1rio\u201d, porque afastava os aliados; \u201cfraccionista\u201d, porque criava cont\u00ednuas guerras dentro do partido\u2026<\/p>\n<p>Assim o leninismo se transformou em antileninismo, \u00e0 sombra dos vivas a Lenine.<\/p>\n<p>E na pequena corrente que hoje aqui e al\u00e9m retoma a bandeira do leninismo? Eu creio que a defesa que fazemos da politica leninista ainda \u00e9 d\u00fabia, reticente e muitas vezes mais formal do que real. Criou-se um certo consenso de que as ideias pol\u00edticas de Lenine teriam envelhecido irremediavelmente perante as transforma\u00e7\u00f5es sociais profundas do \u00faltimo s\u00e9culo. A demarca\u00e7\u00e3o de interesses entre proletariado e pequena burguesia em que o leninismo apostou, hoje j\u00e1 n\u00e3o seria operativa nas nossas sociedades avan\u00e7adas, em que se dilu\u00edram as antigas fronteiras entre prolet\u00e1rios miser\u00e1veis e propriet\u00e1rios opulentos, e a esmagadora massa da popula\u00e7\u00e3o assalariada defronta o \u201cpunhado de monopolistas sem p\u00e1tria\u201d. H\u00e1 uma opini\u00e3o generalizada, embora nem sempre claramente articulada, de que a linguagem de classe rigorosa pode ser muito \u00fatil para estudos de marxismo mas na pol\u00edtica pr\u00e1tica n\u00e3o funciona, conduz ao doutrinarismo, ao obreirismo, ao isolamento.<\/p>\n<p>Esquece-se por\u00e9m que as transforma\u00e7\u00f5es sociais profund\u00edssimas que as metr\u00f3poles capitalistas v\u00eam atravessando n\u00e3o atenuam mas agudizam o seu antagonismo essencial, entre produtores e apropriadores de mais-valia, ao fazerem proliferar as camadas assalariadas auxiliares da extrac\u00e7\u00e3o de mais-valia ou puramente parasit\u00e1rias. A imagem \u201cpopular\u201d e facilmente aceite de um antagonismo universal entre os magnates capitalistas e \u201cos mais de 90 por cento da popula\u00e7\u00e3o reduzidos ao trabalho assalariado\u201d esquece a complexa e vast\u00edssima rede de camadas interm\u00e9dias que beneficiam, em maior ou menor medida, de suplementos da mais\u2013valia, distribu\u00eddos pela classe dominante para garantir a efic\u00e1cia e estabilidade do seu sistema de explora\u00e7\u00e3o. Lenine, j\u00e1 no seu tempo, dava-se ao trabalho de desfibrar, no espa\u00e7o entre o proletariado e a burguesia, as posi\u00e7\u00f5es de semiprolet\u00e1rios, pequeno-burgueses, semi-pequeno-burgueses, aristocracia oper\u00e1ria, burocracia oper\u00e1ria, etc. \u00c9 esse imenso trabalho de demarca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica que falta realizar nas condi\u00e7\u00f5es actuais, para que volte a emergir a identidade do proletariado.<\/p>\n<p>Querer formular uma estrat\u00e9gia e uma t\u00e1ctica de luta do proletariado pelo fim do capitalismo sem tomar em conta aquilo que distingue o proletariado de todas as outras classes e camadas, pode proporcionar todos os \u00eaxitos e vantagens pol\u00edticas que se queiram \u2013 mas conduz de certeza ao desastre quando chegar o momento em que os diferentes interesses das classes saem da relativa indefini\u00e7\u00e3o ou adormecimento dos per\u00edodos de paz social e se revelam brutalmente \u00e0 luz o dia \u2013, quando se entra em crise revolucion\u00e1ria. A\u00ed, torna-se antag\u00f3nica a postura dos que precisam de abolir o sistema capitalista e dos que simplesmente querem regatear melhores posi\u00e7\u00f5es dentro do sistema e \u00e0 custa dos de baixo. Vimo-lo claramente, n\u00f3s, comunistas portugueses, durante a crise revolucion\u00e1ria de 1974-75.<\/p>\n<p>A ideologia democr\u00e1tica pode proporcionar \u2013 e proporciona de facto \u2013 popularidade, \u00eaxitos eleitorais, vantagens, mas, quando chega a hora da verdade, revela a sua natureza antiprolet\u00e1ria. A\u00ed, o proletariado que ao longo dos anos anteriores de escaramu\u00e7as n\u00e3o ganhou t\u00eampera pol\u00edtica e ideol\u00f3gica e se habituou a servir de auxiliar da burguesia ser\u00e1 incapaz de fazer prevalecer os seus interesses. Foi o que tamb\u00e9m constat\u00e1mos dolorosamente em Portugal no Outono de 75.<\/p>\n<p>Aprendamos com Lenine que a conquista de alian\u00e7as de classe n\u00e3o \u00e9 a troca dos objectivos do proletariado por imagin\u00e1rias metas n\u00e3o-revolucion\u00e1rias, capazes de seduzir a pequena burguesia; nem \u00e9 a troca da voz independente e exigente do proletariado pelos discursos unit\u00e1rio-diplom\u00e1ticos que agradam a todos e nada esclarecem \u2013 \u00e9 armar o proletariado com a capacidade de arrastar atr\u00e1s de si as camadas vacilantes.<br \/>\nAprendamos com Lenine que criticar os sectores burgueses que ficam cont\u00edguos ao proletariado n\u00e3o prejudica a luta contra o inimigo principal, refor\u00e7a-a. De facto, como se pode dar real poder ofensivo \u00e0 luta das massas contra a actual onda de pilhagem e terror lan\u00e7ada pela burguesia, com debilidades pequeno-burguesas como a \u201cjusta retribui\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d, a \u201caltermundializa\u00e7\u00e3o\u201d, o \u201cEstado de direito democr\u00e1tico\u201d, o \u201crespeito pelos direitos humanos\u201d, a \u201cEuropa social\u201d, a \u201cluta por um mundo melhor\u201d, se n\u00e3o mostrarmos diariamente ao proletariado o sinal de classe pequeno-burgu\u00eas das propostas conciliadoras, reformistas, pacifistas, alienantes que diariamente lhe s\u00e3o apresentadas? Sem a hegemonia da pol\u00edtica prolet\u00e1ria dentro dele, esses movimentos, por muito positivos que sejam os seus impulsos espont\u00e2neos, degeneram continuamente em sonhos patetas de humanizar e domesticar o capitalismo.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem estude o leninismo em busca de f\u00f3rmulas que nos d\u00eaem a receita m\u00e1gica para o \u00eaxito. Tais f\u00f3rmulas n\u00e3o existem. O mundo muda continuamente e decorar f\u00f3rmulas \u00e9 o caminho mais certo para nos perdermos. Uma s\u00f3 linha de rumo extraio do leninismo: distinguir continuamente os interesses pol\u00edticos do proletariado dos da pequena burguesia; ver tudo pelos olhos da \u00fanica classe que est\u00e1 interessada na liquida\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao fim do capitalismo, na expropria\u00e7\u00e3o da burguesia. Desde que tenhamos essa linha sempre presente encontramos as respostas pol\u00edticas de cada dia. Pelo menos foi isto que eu aprendi do leninismo.<\/p>\n<p>(*) Este artigo foi apresentado, em forma abreviada, nas VIII Jornadas Independentistas Galegas, dedicadas ao \u201c80.\u00ba anivers\u00e1rio de Lenine\u201d, no dia 6 de Maio, em Compostela. Ver not\u00edcia noutro lugar desta revista.<\/p>\n<p>(1) Lenine, Duas t\u00e1cticas da social-democracia na revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, ed. Estampa, Lisboa, 1975, p. 10.<\/p>\n<p>(2) Lenine, Oeuvres, ed. du Progr\u00e8s, Moscovo, 1977. Tomo 12, p. 505.<\/p>\n<p>(3) Id., p. 126.<\/p>\n<p>(4) \u201cA prop\u00f3sito da revolu\u00e7\u00e3o nacional\u201d, Maio de 1907. Oeuvres, tomo 12, p. 409.<\/p>\n<p>(5) \u201cA situa\u00e7\u00e3o e as tarefas da Internacional Socialista\u201d, Novembro de 1914. Oeuvres, 1973, tomo 21, pp. 29-30.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/franciscomartinsrodrigues.wordpress.com\/2016\/01\/30\/oitenta-anos-a-enterrar-lenine\/\">Oitenta anos a enterrar&nbsp;Lenine<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Francisco Martins Rodrigues O leninismo \u00e9 um mundo, como tem sido bem demonstrado ao longo das interven\u00e7\u00f5es neste col\u00f3quio (*). 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